O núcleo central da proposta de estratificação da linguagem defendida por Hjelmslev gravita em torno da noção de que a língua consiste, de forma específica, de duas distinções fundamentais entre as substâncias de conteúdo e expressão. Portanto, o campo da linguagem é delimitado pelos pólos lingüístico e não lingüístico.
Nessa perspectiva, a tese de Hjelmslev é que a estratificação do sistema semiótico é caracterizada por quatro strata, submetidos dois a dois, em pares que funcionam de maneira coordenada, ou seja, há uma relação entre a substância do conteúdo e a forma do conteúdo; a forma de expressão e a substância de expressão, de modo que se respeite o funcionamento das diferenças e analogias.
A aproximação à doutrina glossemática6 situa quatro traços particulares de strata que conduzem a estratificação do sistema semiótico à
6 A teoria glossemática foi inaugurada pelo lingüista Louis Hjelmslev e diz respeito a uma teoria de linguagem que trabalha com a noção de “álgebra da língua”, ou seja, opera sobre as menores unidades lingüísticas no estudo semiótico. Para melhores detalhamentos acessar a obra do autor “Principies de Grammaire Générale.”
análise sobre a forma lingüística e a forma conteúdo, balizada no sistema que comporta as dimensões mínimas da língua de forma e substância.
No estudo semiótico, usa-se o jogo de símbolos analíticos fundamentais para sustentar o sistema de valor que opera na tese de Hjelmslev, ou seja, esse uso ocorre pela disposição arbitrária do signo para designar um stratum ou classe de strata, e complementa da seguinte maneira: ”os símbolos e suas combinações são úteis mesmo nos casos em que já se dispõe de um termo consagrado, visto que aos termos consagrados não falta ambigüidade” (Op. Cit., p.162).
Para examinar as diferenças entre as classes de strata, Hjelmslev apóia-se na idéia saussureana dos dois planos: significante (expressão) e significado (conteúdo) e paradigmático (substância) e sintagmático (forma).
O princípio de análise dos strata se aplica a qualquer classe de hierarquia, uma vez que o princípio de simplicidade exige que a análise incida sobre as distinções que a ausência de conformidade denuncia.
Dessa maneira, o autor indica que a análise inicialmente deve ser realizada pela primeira distinção ou encruzilhada: “a distinção entre o conteúdo e expressão é superior à distinção entre forma e substância” (Op. Cit., p. 163), o que nos aponta para a segunda distinção subordinada à primeira. A multiplicação das duas distinções permite estabelecer três classes de strata, em que “as classes são concebidas do ponto de vista sintagmático ou do ponto de vista paradigmático, portanto como cadeias ou como paradigmas” (Op.Cit.,
p. 164), as análises podem ser realizadas via correlações e/ou pelas relações entre strata:
“uma vez que a forma é, no interior de cada plano, selecionada pela substância, é possível em parte (...) concentrar a relação entre dois planos (...) de modo a considerar essas relações contraídas pela forma de conteúdo (...) e a forma da expressão (...) fazendo-se abstração nos dois planos da substância” (Op.Cit., p. 165).
Nesse sentido, Hjelmslev faz alusão à determinação do ponto de vista sintagmático sobre o paradigmático, uma vez que “a interdependência constituída pela função semiótica é de ordem nitidamente sintagmática” (Op.Cit., p. 165), no que diz respeito às formas de conteúdo e de expressão, mas que na oposição em relação à forma e a substância não há uma subordinação entre as dimensões sintagmática e paradigmática.
Para tanto, as noções de forma e substância adotadas por Hjelmslev são da ordem semiótica, em outras palavras, “a substância significa substância semiótica” (Op.Cit., p. 168), pelo fato de que “uma única e mesma forma de expressão pode ser manifestada por substâncias diversas: fônica, gráfica, sinais por bandeiras, etc.” (Op.Cit., p. 167). Dessa maneira, o caráter arbitrário que opera a função semiótica sob a forma desencadeia a idéia de que a regra para cada plano deve ser considerada à parte, ou seja, “uma única e mesma forma pode revestir substâncias diversas, mas não inversamente” (Op.Cit., p. 169). Por essa via, uma substância comporta diversos níveis, por exemplo a substância fônica carrega uma descrição fisiológica e física, embora em graus
variados elas se confundam e se supram num movimento de interpenetração hierárquico.
Em suma, as substâncias e os níveis de relações operam de maneira diversa, mas “nem as substâncias nem os níveis constituem strata diferentes” (Op.Cit., p. 173) e sim um conjunto da categoria composto das diversas substâncias de uma forma em um stratum.
Desse modo, o primeiro nível da substância fônica deve ser considerado em relação a um vasto repertório de categorias que se refletem num subsistema cujos pólos opositivos são: sonoro e surdo, nasal ou oral, arredondado e não arredondado, lateral não lateral; e que o nível acústico opera pelo mesmo princípio, uma vez que “este princípio vale para toda substância e para todo o nível, e que sempre se está na presença de categorias mutuamente solidárias” (Op.Cit., p. 176). Além do princípio de solidariedade das categorias pode também haver estruturas diferentes quanto aos seus princípios e a denominação enquanto nível permite que cada strata opere de acordo com a multiplicidade dos elementos que o constituem, uma vez que a análise depende do uso, da arbitrariedade e das variantes da língua.
Portanto, para Hjelmslev um strata opera por três pares: o primeiro diz respeito à substância de conteúdo e à forma de conteúdo; o segundo sobre forma de conteúdo e forma de expressão e o terceiro par é o da forma de expressão e substância de expressão. As leis que operam podem ser das relações analógicas, interestráticas e no interior de um mesmo stratum.