I. 2. 7. Metin Çalışması
1.6. Türkiye'de Yabancı Dil Öğretimi Sorunu
Até aqui, referimos à atividade de sujeitos presumindo se tratar unicamente de pessoas. Contudo, no exemplo anterior tomado para uma breve análise, há que se considerar como o acesso e a aparição desse enunciado são facultados por motores de busca automatizados, configurando um tipo de agência não exclusivamente humana. No caso da interface em análise, é possível perceber a presença de um mecanismo de busca no segmento superior. No exemplo referido na Figura 5, os termos de busca “marcelinho lendo carta temer” foram utilizados para que a página de vídeo fosse visualizada. Outros termos, como “carta temer” exibem este vídeo entre os primeiros resultados, num universo de cerca de 11.900 resultados38.
Por que tais apontamentos são relevantes? Entre outras coisas, pelo fato de que esses mecanismos de busca, catalogação e metrificação são capazes de atribuir relevo a certos enunciados em detrimento de outros. Ou seja, na disputa pelo direito
de dizer a que alude Foucault, esses mecanismos desempenham um papel – no caso
em questão, estabelecendo critérios para que alguns enunciados atinjam o status de resultados mais prováveis para a busca de um dado interagente. Certamente a atribuição de relevância a certos enunciados tem como elemento fundamental o acúmulo de buscas realizadas por pessoas, além de outros requisitos definidos pelos proprietários dos sites web onde tais buscas ocorrem.
Aqui, reafirma-se a vocação da interface para desempenhar o papel de metaforma (JOHNSON, [1997] 2001), ou seja, uma espécie de filtro capaz de organizar grandes quantidades de informação. A interface, no exemplo em tela, assume duas dimensões complementares: a) de espaço organizador de outras práticas discursivas e b) de ponto de confluência de um sem-número de atores cujos rastros se inscrevem na interface. O que nos autoriza a dizer que a interface se caracteriza como uma instância de controle discursivo, circunscrevendo a presença de certos atores (no caso do YouTube) e também os tipos de rastros que esses atores poderão deixar.
Nesse sentido, o uso do léxico aponta para uma coincidência entre os termos que designam o enunciado em questão e aqueles que permitem mapeá-lo no sistema de buscas do site YouTube. Os formuladores de estratégias de produção de conteúdos para redes sociais da internet designam por SEO (Search Engine Optimization, ou Mecanismo de Otimização de Buscas) um conjunto de regras, aplicáveis à escrita de textos e de códigos de páginas web destinado a potencializar a performance de uma dada página em motores de busca. Em outras palavras, unidades de discurso como o vídeo Marcelinho lendo a carta do Temer estão sujeitas a esse tipo de enquadramento.
Ainda que não tenha endereçado suas reflexões para práticas discursivas oportunizadas pelo advento dos computadores e outros dispositivos digitais, Foucault ([1969] 2010) nos legou uma considerável contribuição ao fixar o enunciado como uma função que depende: a) da existência de uma instância de diferenciação da qual emanam as condições de seu aparecimento como frase, proposição ou outra unidade de valor gramatical ou lógico; b) de uma relação sui generis com um sujeito, isto é, a existência de um ou mais indivíduos que reúne(m) as condições para ocupar o papel de sujeito de um enunciado; c) da existência de um domínio ou campo associado, que permite atribuir ao enunciado um contexto e um horizonte de expectativas39; d) de uma existência material.
Dessas condições, uma nos parece especialmente digna de comentário. A primeira é aquela que situa o sujeito como “lugar determinado e vazio” (FOUCAULT, [1969] 2010, p. 105) a ser preenchido de forma variável, conforme as condições de produção de um dado enunciado, bem como de seu campo (ou campos) de
39 Aqui Foucault se aproxima de Bakhtin ao assinalar a importância dos enunciados preexistentes para a depreensão desse campo associado.
pertencimento. Essa proposição se apresenta como importante pois fixa o sujeito como um espaço a ser preenchido não necessariamente por um único indivíduo, como ocorre quando identificamos o indivíduo real que articulou ou escreveu uma frase. Trata-se de determinar qual a posição que deve ocupar todo e qualquer indivíduo para se qualificar como sujeito de um dado enunciado.
Essa consideração do sujeito como uma função difusa, mutável (podendo permanecer a mesma em uma série de enunciados ou se modificar em cada um deles) e potencialmente coletiva nos parece suficientemente operacional para abrigar as novas funções-sujeito que emergem em discursos da web semântica, a exemplo do que ocorre nas interfaces sensíveis ao acúmulo de rastros deixados por seus usuários. E que função-sujeito seria essa, no caso em questão? Podemos encontrar algumas pistas em Johnson ([1997] 2001), como a ideia de que as interfaces gráficas computadorizadas paulatinamente se aproximam de “um indivíduo, com um temperamento, uma aparência física, uma aptidão para aprender” (p. 129). Como o próprio autor observa, porém, nem sempre as interfaces se apresentam como uma entidade personificada ou antropomorfizada. Caixas de diálogo, navegadores ou mesmo documentos de texto traduzem a finalidade primordial da interface de servir como uma espécie de agente delegado a serviço de um usuário.
Figura 8: página inicial do YouTube no aplicativo para o smartphone Iphone
A Figura 8 apresenta a tela inicial do aplicativo YouTube para dispositivos móveis. Trata-se de um aplicativo instalado num smartphone Iphone, cujo uso está condicionado ao login de um usuário registrado. Nesta tela, é possível perceber como a interface do aplicativo organiza a experiência do usuário num sem-fim de vídeos disponíveis para acesso. A atividade de busca surge como elemento saliente neste momento inicial, sinalizada por meio de um ícone de lupa na faixa superior da página. No entanto, do ponto de vista da quantidade de espaço ocupado na página, são mais evidentes os itens que assinalam a existência de uma delegação para que a interface organize, rearranje e faça inferências a partir das experiências prévias de um usuário. A interface, como se percebe, não é uma entidade neutra, tampouco invisível ou insensível às práticas daqueles que dela usufruem. De posse de grandes quantidades de dados de um sem-número de usuários, ela permite que os usuários se presentifiquem numa experiência de uso personalizada, metrificada e vigiada, o que autoriza pressupor a existência de um sujeito (ou função-sujeito) que corresponde a uma esfera institucionalizada, corporativa, a quem interessa manter dados dos usuários e manipulá-los de forma a maximizar a quantidade de tempo e de recursos dispendidos por esses usuários na plataforma.
Essa delegação, como chama atenção Johnson ([1997] 2001), se caracteriza por ser oblíqua e dotada de certa burocracia. Ou seja, não é facultado ao usuário o direito de fazer tudo o que deseja. De fato, a interface web à qual fazemos referência funciona como um modo de interpretar, de dar a conhecer ou de ocultar dados armazenados nos servidores de um dado endereço. Desse modo, funciona a um tempo como instância de controle, aos moldes aludidos por Foucault, e também coloca em funcionamento um princípio dialógico de funcionamento da linguagem, tal como Bakhtin preconiza, seja por meio de referências mais explícitas, seja por estabelecer vincular contingentes numerosos de enunciados por meio de elos mais sutis – afirmando uma predisposição associativa de sujeitos que, numa cosmovisão intersubjetiva, parecem vocacionados a comunicar em rede.