• Sonuç bulunamadı

Türkiye’nin Veterinerlik Sektöründe Mevzuat Uyumla t rmas ndan

BÖLÜM II: TÜRK YE’DE TARIM

2.4. AB Sürecinde Yürütülen Projeler

2.4.2. Türkiye’nin Veterinerlik Sektöründe Mevzuat Uyumla t rmas ndan

Os Calon falam genericamente do “jeito cigano”, do “estilo cigano” para se referir à maneira como se vestem com “roupa fantasiada”, “com coisas que brasileiro não usa”. Falam de uma vida “mais solta”, “sem muita organização”, “bagunçada”, “alegre”, “mais divertida”, oposta ao “tudo certinho” atribuído ao gadje. Essa

autovisão da “vida cigana” está ligada a um modo de vida compartilhado, produzido pelas relações entre as pessoas. A “vida cigana” é, nessas ocasiões, vista “de fora”, quer dizer, descrita em sua forma, em sua maneira de se mostrar, em sua maneira de “aparecer”.

Não se deve, entretanto, julgar a “aparência” como algo superficial. “Aparência” não é concebida entre os Calon como a contrapartida de uma “essência real”. Entre os Calon, as aparências “não enganam”. Dois verbos orbitam em torno da noção de “aparência” calon: é preciso que a calonidade “apareça”, e também é preciso

“parecer cigano”. Uma conversa de 30 minutos com uma senhora calin enquanto ela

limpava sua barraca, gravada por Luciana Sampaio em HDV, é um exemplo notável de

como os Calon conceituam “aparência”. Neli explica as dificuldades da vida na barraca:

Quem mora em barraca, nada aparece não, Luciana. Mas o que que se vai fazer? A sina foi essa. A gente tem que cumprir o destino que marcou! [...] A gente capricha, faz e faz, e não aparece. Do jeito que a gente capricha, as coisas eram pra ser melhores. A gente é um esforço muito judiado, mas não adianta nada. Ainda mais nessa época de São João, acaba de piorar, né? É mais ventoso, tempo mais de vento, mais sujo; agora, tempo de Natal não tem vento, não tem nada, as coisas param mais limpas. Agora é o dia inteiro de correria, mas não adianta, é tudo jogado fora. Mas tem que cumprir o destino que Deus marca.

A fala revela a necessidade de trabalhar continuamente para produzir uma “aparência” calon. Limpar, caprichar, fazer e refazer na barraca é o “destino que Deus marca”, a “sina”, um imperativo transcendente que se deve seguir permanentemente. Limpeza e vergonha estão associadas e devem “aparecer” não apenas nas coisas, mas sobretudo no próprio processo de limpar continuamente. De outro lado, a calonidade se mostra nas coisas quando se formula que é preciso “parecer” Calon, como condição crucial para ser Calon. Uma menina me explicava por que as calins não usam sapato

feminino fechado: “A gente não gosta, não parece cigana”. E quando me veem usando saia e com o cabelo preso, dizem: “Essa aí parece cigana” ou “você tem jeito de cigana”. Essa “aparência” não é dada, mas produzida por meio de ações.

Mostrando fotos do passeio a Curitiba, a velha Tata, que me adotou entre os Calon de Itapecerica, comentava de sua comadre e o marido: “Olha esses daqui! Andam assim direto e reto”, chamando a atenção para o fato de o casal manter sua aparência limpa e arrumada cotidianamente, e não apenas para ocasiões especiais. Há um claro acento na dimensão aparente do “ser cigano”, que no entanto, sabemos, encobre uma dimensão moral invisível ao gadje, ligada à produção da vergonha. A aparência expressa a vergonha.

A correlação entre aparência e vergonha pode ser especialmente notada na

conceitualização calon da imagem. A foto e o vídeo são entendidos como fixação e exposição pública da aparência e, como esta carrega vergonha, há um cuidado para produzir calonidade diante da câmera. De modo geral, os Calon se negam a ser fotografados “sujos”, pedem tempo para tomar banho e se arrumar, e então passam a insistir repetidamente para serem retratados, em especial com roupas de festa. As meninas assumem uma pose recorrente, seja em fotos individuais ou em duplas: abrem a saia com as duas mãos, deixam o cabelo longo deitado de um lado, inclinam levemente a cabeça e olham sorridentes para a câmera. Essa configuraria a imagem típica de uma “menina moça”, solteira. As mulheres casadas nunca se deixam fotografar assim, e em geral adotam uma feição mais séria, sobretudo se não têm familiaridade com o fotógrafo.

A fotografia foi sempre um mediador das relações em campo, criando uma

expectativa de novo encontro para entregar as fotos aos retratados. Eles as recebem fotos com euforia, apropriando-se delas, comentando as imagens de outros, rindo de elementos inusitados. Ao ver fotos de outras turmas, esquadrinham os detalhes das barracas, dos vestidos das calins, do corpo e dos cabelos, emitindo juízos positivos ou negativos. O “poder” da imagem é particularmente saliente nas proibições e

prescrições a que está sujeita. Fotos de “menina moça” não podem circular. Dizem que “alguém pode guardar” sem que se perceba, e depois ela pode ser usada para um feitiço – há inúmeras acusações nesse sentido. Em várias ocasiões, ouvi solicitações de mães que reforçavam: “Essa aqui [foto da filha] você não mostra pra ninguém não”. A regra é simples: as fotos só podem circular “entre parentes”, eu arriscaria,

entre consanguíneos.1 Além das regras de circulação, rasgam-se fotos de ex-cônjuges, e queimam-se fotos de pessoas que faleceram – estas não podem existir mais. O que há nas fotos? Está claro que elas não são pensadas como simples “representação” de algo “real”. A imagem ela mesma tem uma dimensão “real” não representacional, que age sobre o mundo. Há algo da pessoa que é apreendida e age na imagem. Assim, de um lado, preocupam-se com que ela corresponda a um ideal de vergonha. Por outro, a foto-objeto está em continuidade com a pessoa, eis o motivo de que possa servir como elemento de feitiço, ou deva ser eliminada quando há ruptura de laço social (ex- cônjuge ou morto). A “aparência” não é da ordem da representação, em oposição a uma essência; a aparência calon é agência.

Os Calon vão diferenciar uma aparência desse tipo de uma aparência “enganadora”. Masinho conta de uma reunião no Ministério da Cultura em que havia um cigano xuxo, um cigano “de mentira”, segundo ele, que “só veste roupa”. A diferença crucial entre essas duas aparências é que “só o uso da roupa” implica uma relação de

aparência versus essência, enquanto a aparência calon é concebida como performance da vergonha. Nesta concorrem outros elementos – muitos dos quais passam

despercebidos ao gadje que “se veste de cigano” –, de ordem cosmológica, como modos de se comportar e de falar, que fazem com que a aparência calon se torne agente de vergonha.

O jeito cigano, ou o que outras etnografias descrevem como o romanes, o “modo de

ser cigano” (Stewart 1992, 1997; Engebrigtsen 2007)2 não se define por uma lista de

atributos. Embora haja traços comuns identificáveis em diferentes etnografias, não podemos falar de denominadores culturais comuns, que permitiriam reduzir a diversidade a uma essência cigana. O que temos são formas de ser cigano que se conectam e se assemelham em sua lógica comum de “fazer-se” em oposição ao gadje. Michael Stewart descreve o romanes (“Gypsy way”) entre os Rom na Hungria, como

1 O significado de “entre parentes” será abordado no cap. 6. Embora haja uma percepção de que “são todos parentes”, em determinadas situações, há distinções claras: “são parentes, mas nem tanto”.

2 Por exemplo, Stewart escreve sobre os Rom da Hungria: “Ser cigano se resume à palavra romanes, o jeito ou costume cigano. Se perguntamos por que os ciganos comem no chão, eles dirão “é o romanes” (1992: 6). Engebrigtsen, sobre os Roma da Transilvânia: “Os Roma dizem preferir comer do mesmo prato pois é romanes – o jeito rom” (2007: 45).

um modo de viver e se construir como pessoas orientado para o presente. Analisando a infância rom, afirma que “é possível viver em um presente continuamente

desdobrado no qual a vida é um processo de ‘tornar-se’” (Stewart 1999: 41). Interessa-me particularmente seu conceito de “processo de tornar-se” [process of becoming], que acentua o caráter parcial, incompleto, potencialmente extensível, de um “modo de ser” que jamais se deixa capturar numa totalidade. É a dimensão de incompletude que quero chamar a atenção quando afirmo que os Calon não “são”, mas “se fazem” continuamente.

Michael Stewart (1997) e Paloma Gay y Blasco (1999) já argumentaram em suas pesquisas a favor de uma noção de pessoa rom ou gitana ligada ao grupo. Gay y Blasco apresenta o conceito de pessoa gitana em termos de sua autoimagem como um grupo.

O conceito gitano de pessoa – que reside no seio da autovisão dos Gitanos como um grupo – consiste em dois entendimentos-chave. Em primeiro lugar, os Gitanos de Jarana acentuam laços com os demais como constitutivos do que uma pessoa é. Identidades são interdependentes e cada pessoa é pensada como carregando o valor “dos Gitanos” como um todo: há uma ligação metonímica entre cada gitano e “os Gitanos”. Em segundo lugar, as pessoas gitanas são sempre genderizadas (1999: 49) O mundo gitano se expressa por meio das pessoas, homens e mulheres, que realizam a performance da “gitaneidad”. Sendo assim, não se trata de uma “essência gitana” que é transmitida hereditariamente, mas antes da ação de pessoas no presente, numa rede interdependente de socialidade. Stewart, por sua vez, fala de “irmandade”

[brotherhood] entre os Rom da Hungria, como a forma pela qual as relações sociais são concebidas. “Para ser um cigano, não basta nascer cigano; é preciso reafirmação contínua do compromisso com seus irmãos companheiros” (1992: 12). Mais do que o sentimento de pertencimento a um “povo” ou a uma família, a ordem social rom como um todo se baseia no “sentimento de ser irmão” [brotherly sentiment] (1997: 51). Stewart descreve ainda a socialização das crianças rom como uma absorção gradual das relações que constituem o romanes, o “Gypsy way”, propondo a imagem de

crianças como “órfãos” (1999),3 não literalmente, mas no sentido de uma educação

3 O autor reconhece no texto de 1999 que a descrição da ordem social rom como baseada no sentimento de brotherhood teria sido demasiado influenciada por seu próprio gênero e pelas

que não é restrita à unidade doméstica, mas sim coletiva, estendida a outros parentes. As pessoas ciganas, e aqui estendo a asserção para os Calon, são definidas pelas relações e pelas ações nas quais estão envolvidas. O fazer-se Calon é portanto um processo compartilhado, coletivo. A rede de pessoas é o motor da calonidade. A maneira “mais solta”, “alegre”, “divertida” que define a vida Calon só pode existir numa intensa convivência familiar.

Benzer Belgeler