A leitura do Plano Diretor (PD) de Belo Horizonte foi feita em conjunto com os Planos Diretores dos outros municípios da Região Metropolitana, como foi explicado anteriormente, com o objetivo de identificar as diretrizes referentes aos espaços públicos e suas variações de acordo com as características singulares de cada município. É importante notar de antemão que os Planos Diretores da RMBH foram formulados depois da aprovação do Estatuto da Cidade (Lei Federal n°10.257) em 2001. De um modo geral, incorporam princípios como a função social da propriedade e o desenvolvimento sustentável, ainda que se trate de uma adesão quase sempre mais formal do que efetiva.
Os 34 municípios da RMBH apresentam características muito diferentes quanto a dimensões territoriais, número de habitantes, densidade demográfica, infraestrutura urbana, economia, capacidade administrativa etc. Para citar apenas alguns exemplos dessa diversidade: há 10 municípios com área menor do que 100km2, enquanto o maior município, Jaboticatubas, abrange uma área de 1.114 km2; há 15 municípios com menos de 20 mil habitantes, enquanto os três mais populosos (Belo Horizonte, Contagem e Betim) somam 3,5 milhões de pessoas; há dez municípios com densidade demográfica inferior a 50 hab/km2, enquanto os mais densamente povoados atingem cerca de 7.300 hab/km2 (Belo Horizonte), 3.120 hab/km2 (Contagem) e 2.140 hab/km2 (Ribeirão das Neves); a incidência de pobreza em Ribeirão das Neves é de 23,2 %, contra 5,4% em Belo Horizonte.13 Ainda assim, as diretrizes dos Planos Diretores são, de um modo geral, pouco
incisivas e pouco relacionadas às especificidades locais.
No que diz respeito aos espaços públicos, eles são tratados predominantemente como áreas livres pontuais para atividades de lazer, isto é, como parques e praças concernentes à escala do município ou, no melhor dos casos, à escala do bairro. Promover, criar, implantar, revitalizar, conservar, recuperar, manter e distribuir tais equipamentos pontuais são diretrizes recorrentes, mas elas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
13 Informações sobre os municípios. Site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em:
comparecem no contexto de políticas relacionadas a cultura, esporte e lazer, patrimônio histórico, meio ambiente e revitalização urbana. Em contrapartida, o espaço público na escala microlocal ou a melhoria da qualidade do entorno imediato da moradia não são abordados. Ainda que a Habitação de Interesse Social (HIS) seja um tema central, a ênfase, nesse contexto, é dada à produção das edificações e da infraestrutura urbana básica (água, luz, esgoto e pavimentação). Faltam direcionamentos que se refiram à produção e ao uso público de espaços livres resultantes da implantação das edificações, que poderiam considerar, por exemplo, as questões apontadas por Alexander, ou, para citar um segundo exemplo, a aplicação de instrumentos urbanísticos que facilitem o uso coletivo de lotes vagos em áreas consolidadas nas quais inexistem espaços livres para além de ruas, calçadas e pequenas porções residuais.
Os Planos Diretores de alguns municípios, como Betim, Contagem e São José da Lapa, definem diretrizes específicas para a melhoria do espaço cotidiano de bairros, incluindo, por exemplo, o desenvolvimento de políticas para a implantação de hortas comunitárias e espaços para eventos14. A
produção de hortas comunitárias é incentivada com certa frequência (São José da Lapa, Capim Branco, Igarapé, Itaguara, Mateus Leme, Belo Horizonte15 e Nova Lima), mas na maior parte dos
casos não são regulamentados os instrumentos que poderiam disponibilizar espaços para tal uso.16
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14 BETIM. Lei nº 4.574/2007. Dispõe sobre a revisão do Plano Diretor do Município de Betim; CONTAGEM. Lei
complementar nº 033/2006. Institui o Plano Diretor do Município de Contagem e dá outras providências; SÃO JOSÉ DA
LAPA. Lei nº 575/2006. Institui o Plano Diretor do Município de São José da Lapa e dá outras providências.
15 No Plano Diretor de Belo Horizonte, como parte da Política de Abastecimento Familiar, é apontada a diretriz: “a
promoção da implantação de hortas comunitárias, principalmente em regiões nas quais possam representar suplementação da renda familiar” (BELO HORIZONTE, 2000, p.26). BELO HORIZONTE. Lei nº 7.165/1996 (com alterações introduzidas pela Lei 8.137 de 21 de dezembro de 2000). Institui o Plano Diretor do Município de Belo
Horizonte. Belo Horizonte:
16 CAPIM BRANCO. Lei nº 1.078/ 2006. Dispõe sobre o Plano Diretor participativo do Município de Capim Branco;
IGARAPÉ. Lei complementar nº 03/2007. Institui o Plano Diretor do Município de Igarapé; ITAGUARA. Lei complementar
nº 22/2007. Dispõe sobre o Plano Diretor do Município de Itaguara; MATEUS LEME. Lei complementar nº 25/2006.
Institui o Plano Diretor participativo do Municipio de Mateus Leme; NOVA LIMA. Lei nº 2007/ 2007. Dispõe sobre Plano Diretor de Nova Lima, o sistema e o processo de planejamento e gestão do desenvolvimento urbano do Município e dá outras providências.
Já o Plano Diretor de Igarapé cita o Direito de Superfície (que permite ao proprietário conceder o direito de uso de seu terreno) para viabilizar a “instalação de hortas comunitárias e estruturas de apoio a iniciativas coletivas da população para projetos que visem a melhoria da qualidade de vida das famílias e a geração de renda” (IGARAPÉ, 2007, p.35).
A agricultura urbana propriamente dita, que envolve uma produção muito mais diversa do que a de uma horta comunitária, poderia comparecer nas diretrizes dos Planos de forma mais incisiva, também relacionada aos instrumentos que viabilizem sua implementação. Apesar de alguns instrumentos do Estatuto da Cidade, como o Direito de Preempção (que confere ao poder público a preferência para a aquisição de um imóvel) e as Operações Urbanas Consorciadas17 (intervenções
pontuais realizadas sob a coordenação do poder público envolvendo a iniciativa privada e moradores, por meio do pagamento de contrapartidas que lhes são interessantes), serem apontados para a criação de espaços públicos, mas muitas vezes não são regulamentados na prática.18
A gestão compartilhada – entre setor público e privado – das áreas públicas é citada no Plano Diretor de Sabará quando se trata da necessidade de instalação de equipamentos de lazer voltados para as comunidades. Aponta-se que devem ser estimuladas a conscientização ambiental e a responsabilidade dos habitantes quanto à proteção dos espaços públicos. No caso de Jaboticatubas, considera-se a “intervenção organizada das comunidades locais sobre a organização e manutenção dos espaços públicos” (JABOTICATUBAS, 2006, p.10919). Nesses planos parece haver uma
aproximação maior da escala microlocal, contribuindo para que as reivindicações da população que habita áreas desconectadas das centralidades sejam atendidas de algum modo e gerem seus próprios centros.
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17 É o caso, por exemplo, de Caeté, Capim Branco, Jaboticatubas, Rio Manso, Sabará, Santa Luzia e Mateus Leme. 18 Estatuto da Cidade, disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LEIS_2001/L10257.htm> Acesso: ago
2010.!
19 JABOTICATUBAS. Lei nº 1.905/2006. Dispõe sobre a Política de Desenvolvimento e de Expansão Urbana do
Município de Jaboticatubas, institui o Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável e dá outras providências.
Apesar desses aspectos positivos, de um modo geral os espaços públicos são tratados nos Planos Diretores como um item dentre outros serviços públicos, sem que sejam discriminados os instrumentos e as orientações que viabilizem de fato a implantação e melhoria das áreas livres na escala microlocal. O uso de espaços residuais e lotes vagos não é abordado e é ainda mais rara a menção à atuação da população sobre a decisão e produção desses espaços. Quando ela é citada, parece ser apenas componente simbólico de um processo que não é iniciado pela população, mas pelo executivo municipal.20