MARSHALL PLANI’NIN TÜRKİYE’DE KABUL EDİLİŞİ
2.1 Türkiye’yi Marshall Planı’nı Kabul Etmeye İten Sebepler :
Que o ser do sujeito é fendido, Freud só fez redizê-lo de todas as formas, depois de descobrir que o inconsciente só se traduz em nós de linguagem, que tem, pois, um ser de sujeito.
Jacques Lacan
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Manoel de Barros
O conceito de Inconsciente elaborado por Freud, apontado como fundamental na teoria psicanalítica, e a concepção de subjetividade, introduzida a partir deste conceito, fazem da psicanálise referencial teórico utilizado para o desenvolvimento deste estudo.
Nos séculos XVII e XVIII, a subjetividade era definida a partir da filosofia cartesiana como a consciência dominada pela razão. Segundo Descartes, pensador do século XVII, a existência do sujeito se justificava através do pensamento. A máxima cartesiana “penso, logo existo” dava ao pensamento a figura central da subjetividade dominante na época. O pensamento de Descartes não afirmou a singularidade do sujeito e sim a universalidade da consciência, segundo Garcia- Roza (1988).
A introdução do conceito de inconsciente por Freud, no final do século XIX e início do século XX, subverteu a concepção dominante, provocando uma ruptura com a teoria cartesiana. A subjetividade passou, então, a ser concebida como palco de um conflito (CIRINO, 2001).
Segundo Brant (2007, p. 223),
A partir da psicanálise, a subjetividade deixa de ser entendida como um todo unitário, identificado com a consciência e sob o domínio da razão, para figurar como uma realidade dividida em dois grandes sistemas: o inconsciente e o consciente e dominada por uma luta interna em relação à qual a razão é apenas um efeito de superfície. Assim, a psicanálise opera um descentramento da consciência como lugar privilegiado do conhecimento e da verdade. A subjetividade, identificada com a
consciência, segundo a concepção de Descartes, devia se fazer clara e distinta para que a razão fizesse seu aparecimento. Nesta pretensa transparência, nada do particular era permitido, pois seria visto como perturbação da ordem. Tal perturbação modificava o pensamento tornando- o inadequado à realidade objetiva que pretendia representar. A partir da psicanálise que sustenta a importância da relação do homem com o seu desejo, o cogito não é mais o lugar da verdade, mas o lugar de seu desconhecimento.
Ao construir a teoria psicanalítica Freud modificou substancialmente o pensamento vigente a partir da filosofia moderna, cujas idéias ignoravam o sujeito do inconsciente. O indivíduo, na concepção psicanalítica, era um ser singular. Ao deslocar o sujeito do lugar do conhecimento e da verdade, segundo o pensamento cartesiano, a psicanálise passou a se interessar não pelo sujeito da razão, mas pela verdade do sujeito, pelo sujeito do desejo recusado pelo racionalismo. O sujeito para a psicanálise torna-se um sujeito dividido entre consciente/inconsciente. Aquele que fala nem sempre o faz regido pela razão, mas por um inconsciente que se apresenta nos tropeços da linguagem dos quais o pensamento racional não se dá conta. A subjetividade apresenta-se assim, para a psicanálise, dividida em Consciente e Inconsciente. O efeito desta divisão provoca a duplicidade de sujeitos na mesma pessoa, duplicidade esta constatada na fenda entre o dizer e o ser, entre o “eu falo” e o “eu sou”, formulada por Lacan na frase: “Penso onde não sou, portanto sou onde
não me penso.” (GARCIA-ROZA, 1988).
Garcia-Roza (1988) considera que a busca pela singularidade do sujeito fez da psicanálise uma das práticas mais eficazes da escuta do discurso individual. Exatamente por esta especificidade da escuta, que visa o singular, muito se questiona acerca do uso da psicanálise em pesquisas, como se não fosse possível, através dela, uma produção de conhecimento universal.
Segundo Bernard Nominé,
Quer se dirija a uma criança ou a uma pessoa grande, a psicanálise acolhe a fala de um sujeito, ou seja, de alguém que não se encaixa em nenhum quadro de saber universal. É por isso também que a aplicação do saber psicanalítico, em uma política da saúde mental, tem poucas chances de ser eficaz. No entanto, face aos problemas da sociedade, os psicanalistas estão condenados ao silêncio? (BERNARD NOMINÉ in CIRINO, 2001, p. 14, grifo do autor).
Em resposta à questão formulada por Bernard Nominé, acreditamos que não, que a psicanálise pode trazer respostas importantes no que tange ao sujeito
acometido por algum problema ou doença, seja ela manifesta no real de seu corpo ou em seu corpo imaginário, seja algo advindo das questões sociais ou das manifestações orgânicas, seja aquilo que pode incidir sobre o sujeito, deslocando-o de uma posição de bem estar para um estar mal, sem palavras que expliquem a angústia. Torna-se importante nos determos um pouco nesta discussão, uma vez que o presente estudo buscou escutar o sujeito-mãe em seu discurso acerca de um mal estar subjetivo,provocado pelo diagnóstico de uma doença, sem desconsiderar, entretanto, a influência das questões históricas e sociais presentes universalmente no que diz respeito à Aids.
A Aids, como doença, provoca alterações nas funções biológicas do corpo que o conhecimento médico hoje pode controlar ou reverter. A Aids, como significante, vai representar alguma coisa para cada sujeito a partir de uma construção fantasmática própria realizada por ele em torno deste significante. Esta construção resulta da incidência do significante no inconsciente, provocando efeitos. A busca da compreensão sobre a construção fantasmática do sujeito em torno do significante aids possibilita o uso da psicanálise neste estudo. Acreditamos que o conhecimento produzido a partir da singularidade das pacientes estudadas poderá trazer outro tratamento às questões psíquicas presentes neste contexto, em âmbito universal. Vimos isso acontecer a partir dos estudos de Freud (1893-1895) sobre histeria, que transformou o conhecimento da época acerca das manifestações que naquela ocasião a caracterizavam. Como consequência, seu tratamento também foi transformado. Estes estudos foram, além disso, responsáveis pelo início da elaboração da obra freudiana.
Brant (2001), em seu artigo “O indivíduo, o sujeito e a epidemiologia”, traz importantes idéias para esta reflexão ao salientar:
[...] a necessidade de inclusão do construto teórico do sujeito de desejo no âmbito da epidemiologia atual, o que deve operar nesta uma transformação radical em seu modelo metodológico e ampliação de seu objetivo para além de instrumento estatístico coadjuvante da saúde pública e da prática clínica (BRANT, 2001, p. 221).
Ele aborda o lugar do indivíduo na epidemiologia como uma unidade estatística buscando discutir a importância de sua existência como ser de cultura, refletindo sobre as contribuições das ciências sociais, até chegar ao lugar do sujeito e a epidemiologia dentro de uma perspectiva psicanalítica, considerada por ele
como fundamental. Segundo o autor, para responder aos problemas formulados no âmbito da subjetividade, o reconhecimento de estudos qualitativos torna-se totalmente necessário, sem os quais não se pode ter a compreensão dos processos que regem o universo do sujeito:
Ao assumir a categoria de sujeito como uma variável significativa em seu objeto de atenção, a epidemiologia deve reconhecer que a saúde ou a doença constituem diferentes pontos de vista; que a fisiologia e a patologia são uma única coisa; que não há fato patológico e que doente e não-doente não existem apenas como entidades biológicas e sociais. A partir do sujeito, a doença perde sua exclusiva racionalidade etiológica biologicista, adquirida no século XIX com o “nascimento da clínica”, para constituir-se também como metáfora. “A doença como metáfora” exige que a epidemiologia faça falar o “doente” para que se possa fazer surgir o sujeito, pois nesta perspectiva a doença oculta o sujeito como sujeito de desejo. Uma vez escutado o sujeito, a epidemiologia poderá se dar conta de que a doença pode ser saúde e vice-versa e que ambas, saúde e doença, visam a garantir certa ordem ao sujeito, um bem muitas vezes precário, momentâneo, mas o único possível em determinados momentos da existência (BRANT, 2001, p. 229).
O autor conclui que a epidemiologia atual, ao levar em conta os modos de produção da subjetividade, estará se preparando para lidar com o sujeito em suas novas formas de trabalhar, adoecer e morrer e que, para tal, novas abordagens no campo da saúde tornam-se necessárias, dentre estas, a psicanálise.
Pinto (2008) discute questões relacionadas à clínica e pesquisa em psicanálise e sua política frente aos impasses trazidos pelo discurso da ciência, que busca objetivar e reduzir o sujeito a objeto de um saber estabelecido. A psicanálise vai buscar apoio na ciência introduzindo o sujeito no discurso científico, procurando contribuir para novas configurações dos saberes estabelecidos. Segundo o autor,
A política de pesquisa em psicanálise deve estar sempre coerente com seus princípios éticos. A constatação de que a psicanálise não deve procurar o abrigo da ciência para sobreviver em uma época de exclusão do sujeito não significa que ela deve se isolar do campo científico ou se manter em uma posição histérica de denúncia dessa exclusão na mestria dos discursos, seja o da ciência, seja o universitário. Ao contrário, a psicanálise deve participar conjuntamente de esforços de pesquisa, contribuindo para mostrar de que maneira o alinhamento do sujeito com a causa de seu desejo pode redefinir o peso dos fatores em jogo no seu sofrimento (PINTO, 2008, p. 77).
Levando-se em conta as questões aqui problematizadas, resta-nos dizer que, ao elegermos a psicanálise como teoria norteadora deste estudo, não negamos os impasses presentes entre seu discurso e o da ciência, tão bem elucidados por Pinto
(2008), mas buscamos ir além destes ao procurar dar voz ao sujeito através de uma metodologia qualitativa que o acolha, assim como à sua singularidade. Importante assinalar que não estamos tratando aqui de uma pesquisa psicanalítica propriamente dita dentro dos parâmetros que um tratamento analítico exige e sim uma extensão da teoria aplicada à metodologia clínico-qualitativa, conforme propôs Turato (2003). Acreditamos ser possível a inclusão da escuta do sujeito nas pesquisas no campo da saúde como possibilidade de investigação científica, uma vez que na sua ausência muitas perguntas ficariam sem resposta, mesmo no campo científico, como aponta Martins (2001, p. 155):
Muitas vezes a medicina tradicional se restringe ao discurso do mestre, do saber constituído e do poder, onde o outro da consulta sempre é um paciente que nada sabe e nada pode. O saber científico, dentro do seu discurso mutável, é absolutamente necessário para o estudo do corpo- problema, mas é insuficiente para atender às demandas daquele corpo, construído por meio de uma história rica de imagens, símbolos e mistérios. O equívoco do discurso do saber se torna mais evidente ao identificar-se na pessoa sintomas ou doenças, que se valem do corpo apenas como um meio de expressão perante o mundo.
Após essa breve reflexão, discorreremos sobre a formulação apresentada pela psicanálise sobre a criança e sobre aspectos da relação materno-infantil, tendo como referência os textos de Freud, Spitz, Winnicott, Lacan e de outros estudiosos do tema.