• Sonuç bulunamadı

Türkiye’de Kadına Yönelik ġiddeti Önlemeye Yönelik Yasal Düzenlemeler

KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR

2.6. Türkiye’de Kadına Yönelik ġiddeti Önlemeye Yönelik Yasal Düzenlemeler

A figura do crime, em Grande sertão: veredas e A menina morta, acena para a presença de uma dimensão trágica nesses dois romances. Esse significado se baseia na manifestação do crime como uma maneira de rememorar as guerras e assassinatos constituidores e formadores da lei, do direito e do Estado36. As duas obras evidenciam a

presença de um conceito de tragédia analisado por Derrida: “Só há tragédia, só há essência do trágico desde que haja essa originaridade, mais precisamente, essa anterioridade pré-originária e propriamente espectral do crime” (DERRIDA, 1994, p. 38). Assim, a encenação das estruturas de poder no Brasil, presente nos dois livros, remete às heranças criminosas que construíram seus sistemas jurídicos vigentes. A característica espectral dessas heranças implica um retorno que assombra e amaldiçoa o poder no sentido de desestabilizar as bases legais do Estado.

Sobre a relação entre o delito, o direito e a tragédia, é importante considerar a leitura que Jacques Derrida faz da personagem Hamlet de Shakespeare, entrelaçando esses três elementos com a herança. Primeiro, Derrida pensa na figura do trágico como um legado demoníaco da origem assassina do direito, visto que esse erro fundador impõe ao sujeito o destino inelutável de repará-lo e vingá-lo com vistas à correção do mundo e da história. Essa tensão evidencia a característica trágica contida na trajetória de Hamlet, cujo destino, assim, está duplamente amaldiçoado: de um lado, ele pragueja contra o fato de nascer em virtude do direito, de ter que consertar seus erros, de colocá-lo no rumo correto; por outro, reprova,

36Para Michel Foucault, as tragédias gregas e as de Shakespeare, Racine e Corneille são rituais de memorização dos problemas do direito público, sobretudo das formas de violências que legitimaram a ascensão do soberano ao trono (FOUCAULT, 2010, p. 147).

diante desse fado inevitável, a própria ordem jurídica de tê-lo incluído numa geração que veio depois do crime, de tê-lo feito herdeiro dessa originária violência:

O golpe fatal, o erro trágico que teria sido feito em seu nascimento, a hipótese de uma perversão intolerável na ordem de seu destino, consiste em tê-lo feito ser, ele, Hamlet, e nascer, para o direito, em vista do direito, chamando-o assim a endireitar o mundo, a colocá-lo no reto caminho, a pôr o direito, a fazer justiça e a corrigir a tortuosidade da história.(...). Hamlet amaldiçoa o destino que o teria destinado a ser o homem do direito, justamente como se amaldiçoasse o direito mesmo que teria feito dele um reparador de erros, aquele que não pode vir, como o direito, senão após o crime (DERRIDA, 1994, p. 38).

No que se refere à análise de Grande sertão: veredas e A menina morta, a questão importante é pensar no modo como essa dimensão trágica se insere na economia formal dos dois textos e, além disso, o que tal dimensão revela sobre o exercício da violência e do poder no Brasil. Um primeiro ponto de reflexão deve considerar que as duas obras estabelecem uma tensão com as leituras de Derrida (1994) e Foucault (2010) a respeito da tragédia, não no sentido de se opor ou simplesmente deslocar seus conceitos, mas, sobretudo, na capacidade que essas vozes narrativas possuem de encenar aspectos do trágico não percebidos por ambos os filósofos.

No caso do romance de Cornélio Penna, a personagem Carlota, filha mais velha da família proprietária do Grotão, caracteriza-se por uma trajetória destinada a cumprir os objetivos do poder soberano. Seu pai, o Comendador, convoca a personagem a retornar da Corte, onde reside e estuda, para a fazenda. Dona Virgínia é quem recebe a tarefa de buscar Carlota e trazê-la de volta para viver junto aos pais. No momento em que é designada para essa missão, a senhora vocaliza a posição e o propósito do poder – papel este que realiza em toda a narrativa: “com que gosto vou buscar a nossa priminha! Virá alegrar aqui o Grotão, que está feito casa assombrada...” (PENNA, 1970, p. 105). A sua fala demonstra o fundo político da tarefa: buscar Carlota, trazê-la de volta à casa dos pais, significa combater o desajuste do Grotão, retirá-lo da situação de declínio em que se encontra em virtude da morte da Menina37,

irmã mais nova de Carlota. O uso do termo “assombrada” evidencia a situação fantasmática que assola a fazenda, a sua ruína, de modo que a luz do reino38 encontra-se ofuscada pelo

37É importante observar que, no primeiro capítulo, a análise propõe a leitura da morte da Menina e de Diadorim como a manifestação da emergência, da irrupção, da communitas, conforme a reflexão de Roberto Esposito a respeito desse conceito.

38A noção de reino é desenvolvida por Giorgio Agamben (2011), no livro O reino e a glória, em que analisa a cisão entre soberania e governo fundamentada, respectivamente, na teologia de um Deus

aparecimento intermitente e sombrio de vozes espectrais que compõem uma comunidade oculta no contexto da fazenda.

A chegada de Carlota carrega a injunção do poder tanto de restaurar a legitimidade do soberano, no caso o pai, como de garantir o governo da casa, o controle sobre os sujeitos a fim de manter a coesão do corpo social. A força performativa39 dessa tarefa é tão

violenta que determina a entrada em cena da personagem no próprio corpo textual da narrativa como uma espécie de novo começo do romance, visto que a voz narrativa passa a acompanhar os passos da filha. O narrador enuncia que a chegada de Carlota na fazenda, assim como a violência interpretativa do discurso do direito (DERRIDA, 2007, p. 24), representa a força de união e de reunificação dos membros do corpo político: “Chegara como o sopro novo e poderoso da vida naquela casa, para suspender a rápida agonia da fazenda. Cada qual sentia no íntimo, ter o Grotão se fendido de alto a baixo, na iminência de ruir, e algum mal corroía suas entranhas...” (PENNA, 1970, p. 225). O narrador, nesse trecho, utiliza um vocabulário biológico para se referir ao Grotão: “uma grande mola parecia ter-se quebrado na fazenda e todo aquele organismo (...) perdera o seu ritmo e hesitava afrouxada no seu agitar constante” (PENNA, 1970, p. 225). O sentido metafórico do trecho exibe o significado da maldição imposta a Carlota pelo seu pai: o seu caráter imunitário, conforme conceito elaborado por Roberto Esposito (2010), que visa proteger a vida da máquina social contra a iminente heterogeneidade (a emergência da communitas desencadeada pelo munus, ou seja, o dom e o vazio suscitado pela morte da Menina), combatendo, com isso, a temporalidade decadente. A entrada em cena de Carlota é também um novo fundamento do poder, ou uma estratégia de restabelecer a sua legitimidade.

Esse processo de subjetivação ocorre no momento em que Carlota é identificada, ou se identifica, com o patriarca e a Menina morta. A personagem, na volta à fazenda, alimenta a expectativa de ver o seu pai, o que, no momento de sua chegada, é frustrado pela ausência dele em sua recepção. Mesmo assim, no primeiro diálogo dos dois, Carlota demonstra grande admiração pelo corpo do patriarca, observando suas formas e sua beleza. A

transcendente e na teologia econômica (oîkonomia), concebida como dimensão doméstica e imanente das vidas divina e humana. “do primeiro paradigma derivam a filosofia política e a teoria moderna da soberania; do segundo, a biopolítica moderna até o atual triunfo da economia e do governo sobre qualquer outro aspecto da vida social” (AGAMBEN, 2011, p. 13).

39Derrida (2007) pensa na função do elemento performativo da linguagem como uma força interpretativa cuja violência funda o direito, impõe a lei. Agamben (2011), numa linha de reflexão próxima à de Derrida, analisa o papel do performativo no estatuto do juramento no sentido de analisá-lo como um elemento da língua importante para o ritual do juramento, pois seu ato verbal realiza o significado.

imagem fálica de grandeza e força varonil (DERRIDA, 2008, p. 284) – “viu então com ansiosa surpresa que ele era ainda o mesmo homem belo e ágil sempre visto em seus sonhos” (PENNA, 1970, p. 231) – associa-se à força mística de sua autoridade em determinar os rumos da vida da filha, anunciando seu casamento: “A jovem baixou a cabeça e fez-se rubra. Era como se dentro dela se erguesse o cântico da vida e da força, como se as portas de seu destino se abrissem de repente, e mostrassem haver agora nova razão para existir e justificar- se perante todas as dores.” (PENNA, 1970, p. 233).

O anúncio do casamento adquire força legal pelo fato de que a sua simples enunciação estabelece uma nova direção na vida de Carlota. A aceitação resignada da ordem de seu pai, sem esboçar nenhum questionamento ou crítica – posição que mudará no decorrer da história –, evidencia o “fundamento místico da autoridade” (DERRIDA, 2007, p. 25), cuja violência interpretativa (DERRIDA, 2007, p. 24) realiza e efetiva a lei como um ato de fé, dispensando qualquer justificativa sobre a sua legalidade, legitimidade ou justiça. A autoridade do patriarca, desse modo, representa a ordem jurídica dentro do Grotão, de maneira que a força legal e verídica de sua fala, calcada apenas na sua potência fálica, na posição de soberano inalcançável a qualquer morador da fazenda, captura a autonomia de Carlota, amarrando o destino desta à vontade do patriarca.

Por outro lado, é importante observar que a ambiguidade do trágico se apresenta na trajetória da personagem pelo fato de que o seu destino está determinado pelo poder, especificamente em consertar o mesmo, e, ao mesmo tempo, em decorrência dessa situação imposta, que ela perceba a ferida, o assassinato inscrito no corpo da lei. O momento fundamental de encenação pública do mundo social do Grotão ocorre na hora das refeições, porque é o momento em que as funções e posições de cada um ficam mais visíveis. A visibilidade das máscaras de todos, durante o primeiro almoço dentro da casa, é percebida por Carlota não apenas pelo que mostram, mas principalmente por aquilo que escondem: segredos, angústias e sofrimentos. Essa perspectiva inicial é metaforizada na seguinte passagem: “em seus olhos havia silencioso delírio” (PENNA, 1970, p. 229). Há um estranhamento e um deslocamento inicial em seu olhar, cuja loucura percebe aquilo que a racionalidade da lei quer esconder:

Tudo imaginado por ela sozinha, no recreio do colégio ou no grande dormitório, quando despertava durante a noite, desaparecera, e quanto mais se aproximava da fazenda, mais sentia abrirem-se diante de seus pés obscuros precipícios, tristes armadilhas, ausências inexplicáveis e tinha medo de procurar esclarecê-los (PENNA, 1970, p. 229).

O receio, a apreensão e a insegurança inicial da personagem demonstram essa relação de deslocamento diante do contexto do Grotão. Além do casamento, a duplicidade com sua irmã se torna um instrumento para suprimir o ímpeto que visa esclarecer esses segredos e encaixá-la dentro da ordem da fazenda. O duplo aparece em momentos em que alguns personagens confundem as imagens de uma irmã com a outra. Essa mistura entre ambas é feita pelas pessoas que conviveram com a Menina morta, tal como as mucamas, Celestina e Manuel Procópio, entre outros; são lembranças de momentos passados com a Menina que emergem no presente e se projetam sobre Carlota, cuja imagem é associada também ao quadro da irmã mais nova exposto numa das salas da casa. Além das leituras críticas sobre o significado da Menina morta, é importante observar que a duplicidade impõe a Carlota uma herança baseada nessa memória familiar e na presente situação de decadência do Grotão. É um legado que propõe, num primeiro momento, a injunção de repetir a figura da sua irmã, de ocupar o mesmo espaço dentro da casa, de torná-la uma figura do mesmo. Essa é a expectativa que todos alimentam como um meio de restabelecer a grandeza do reino, recolocando-o num trilho histórico linear.

O duplo da Menina e o casamento forçado configuram a presença da maldição na vida da personagem, pois condicionam o seu destino ao restabelecimento do poder. Libânia sabe, por exemplo, que o matrimônio será com algum barão, o que tornará Carlota baronesa, e, assim, começa a juntar flores para proteger sua sinhazinha da nocividade da imposição desse laço afetivo: “– Eu digo, Nhanhã, que não vou esquecer de ajuntar um raminho de arruda e outro de manjericão, para livrar Sinhazinha Carlota do mau... – Que mau, Libânia? – O mau, senhora Dona Celestina, ele é só um” (PENNA, 1970, p. 219). Nesse diálogo, o mau, relacionado com a união matrimonial, alude à maldição que faz de Cartola o instrumento imunitário da lei em suturar as feridas abertas pela morte de sua irmã no reino do Grotão. Desse modo, há um sacramento do poder pelo qual o corpo da lei é encarnado no corpo da personagem, na medida em que ela preenche a cisão do reino e recalca o fantasma sacrificando a sua própria vida.

Sob esse ponto de vista, dois aspectos ganham destaque: primeiro, o matrimônio forçado é um pacto, um negócio, conforme as palavras da personagem Manuel Procópio: “– Bem, vamos dormir, pois o negócio está feito.”(PENNA, 1970,p.293). Tal acordo reduz a vida de Carlota a pura vida biológica no sentido de matá-la metaforicamente em um casamento cujo objetivo reside em repetir a vida conjugal dos seus pais (que está destruída pelo conflito aberto entre ambos) para dar continuidade e desenvolvimento à vida na fazenda. Na verdade, a preocupação do patriarca é não apenas impedir a desagregação social da

propriedade, mas também estabelecer uma aliança política capaz de restaurar o poder de seu grupo no âmbito do Estado nacional. Por isso aparecem, em algumas passagens, referências às crises econômicas e políticas da época40. Desse modo, o matrimônio é um vestígio da

narrativa romanesca que ilumina alegoricamente um aspecto do enredo da história do Brasil: a emergência da communitas no Grotão indica o risco do desmoronamento da estrutura de poder do império no final do século XIX, visto que a ruptura do sistema social da fazenda cafeicultora (a crise da soberania do Comendador) aponta para a abertura de um espaço do comum em âmbito nacional. Portanto, a união entre as famílias pelo laço afetivo, em virtude da crise que vivem, é o ponto de uma interseção alegórica entre o aparecimento da comunidade no Grotão e também na sociedade brasileira no final do século XIX.

Os espectros que rondam a fazenda espelham os espectros que começam a aparecer com a crise do sistema monocultor e escravocrata do Império, principalmente pelo fato de que o aumento das revoltas dos cativos alimenta o temor crescente de uma guerra civil ou uma rebelião generalizada como acontecera, respectivamente, nos Estados Unidos e no Haiti (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 300). Para recalcar o perigo de uma guerra de escravizados contra o contrato político estabelecido após a independência, é importante reconstruir as bases familiares dessa estrutura de poder. No caso do Brasil, conforme leitura de Sérgio Buarque de Holanda (1976, p. 49-50), a vida familiar, calcada sobre o modelo do direito romano, serve como paradigma para a construção da esfera pública41, de maneira que

não há uma clivagem, um corte, com o âmbito doméstico, mas uma fronteira porosa entre ambos. Nesse espelhamento entre o romance e o enredo histórico da época, o narrador corneliano, ao focalizar o cotidiano privado, expõe o perfil biopolítico da organização patriarcal da família (e também do Estado nacional) capaz de definir o destino social e biológico do vivente42, mostrando que o trágico na trajetória de Carlota possui um significado

fortemente calcado nessa estrutura de poder.

40Luiz Costa Lima, ao propor a ficção de Cornélio Penna como uma escavação do tempo histórico brasileiro, identifica no conjunto dos quatro romances um sentido histórico direcionado ao passado, de tal maneira que A menina morta encena o final do império brasileiro. O crítico, a partir de algumas informações narrativas, coloca o tempo da ação romanesca entre os anos de 1867 e 1871 (LIMA, 2005, p. 102).

41“Na monarquia eram ainda os fazendeiros escravocratas e eram filhos de fazendeiros, educados nas profissões liberais, quem monopolizava a política, elegendo-se ou fazendo eleger seus candidatos, dominando os parlamentos, os ministérios, em geral todas as posições de mando, e fundando a estabilidade das instituições nesse incontestado domínio” (HOLANDA, 1976, p. 41).

42Conforme o filósofo argentino Fabián Ludueña (2012), o direito romano apresenta um artefato jurídico (o autor conceitua de antropotécnica) denominado de ius exponendi, que faculta ao pai a possibilidade de criar o filho recém-nascido, ou de matá-lo. Esse instituto possui um efeito zoopolítico baseado na produção do destino bio-social do sujeito e, ao mesmo tempo, no descarte

O pacto matrimonial ritualiza um sacramento do poder pelo qual se busca recuperar a eficácia da lei. Para restabelecer a sua capacidade de sanção legal, isto é, a força verídica de sua palavra, a ordem jurídica evoca a maldição como um dispositivo de sacralização da vida, fazendo desta o domínio de aplicação da lei. A chegada de Carlota é acompanhada, assim, pela maldição – momento de ruptura da força performática do direito – que captura a vida da personagem por meio de uma primeira exclusão (a prerrogativa do pai de decidir sobre o destino dela) capaz de incluí-la na ordem, normatizando sua relação afetiva e política com o casamento. Esse é o “mau” (sic), mencionado acima, na fala de Libânia, que articula a autoridade do pai com a lei, fazendo de sua filha o âmbito de referência da norma. A força coercitiva da maldição é metaforizada no momento em que Carlota se sente uma prisioneira: “nesse instante começou a ouvir seu coração, que parecia um prisioneiro a andar com suas grilhetas, os pés nus no chão, e caminhando antes dela” (PENNA, 1970, p. 248). Esse sentimento ocorre após o Senhor falar do decreto que sacramentará o título de baronesa para sua filha. O decreto revela a força performativa da palavra do soberano, pois é capaz de religá-la com a verdade, abafando, com isso, as vozes espectrais que surgem tanto no Grotão como alegoricamente na sociedade brasileira no final do Império.

O segundo aspecto se relaciona com a figura do duplo e demonstra o elemento teológico-político subjacente à característica imunitária da lei. Embora as lembranças em torno da morte da Menina sejam o dom que conecta os moradores com suas próprias expropriações, que os coloca no domínio do comum43, principalmente porque desperta

recordações das feridas formadoras do Grotão, o poder opera teologicamente quando captura essas memórias para transformá-las na figura religiosa do katechon. Essa personagem bíblica, apresentada na passagem da segunda epístola de Paulo aos Tessalonicenses, embora haja diversas interpretações sobre seu significado44, possui a função de deter e restringir os

elementos de uma possível anomia:

àqueles cuja deformação fisiológica, corporal ou cultural coloca em perigo o patrimônio biológico da família. Assim, a zoopolítica comporta o duplo foco de ação da biopolítica, pensada por Michel Foucault: a produção da vida e a exposição à morte. Essa reflexão de Ludueña é fundamental dada a centralidade da família patriarcal na construção das instituições políticas, sociais e culturais do Brasil. Por outro lado, o risco do pensamento do filósofo argentino, para a análise proposta aqui, é a crítica às reflexões de Giorgio Agamben sobre a exclusão da zoé para a produção da bíos (de uma vida qualificada). Procura-se considerar a crítica de Ludueña, bem como suas reflexões sobre a zoopolítica, sem invalidar o pensamento de Agamben, cujos conceitos são relevantes para a leitura de Grande sertão: veredas e A menina morta.

43Esse aspecto é analisado no segundo capítulo.

44Para o desenvolvimento da análise do trabalho, toma-se como base a leitura de Roberto Esposito (2011, p. 62-63) a respeito do katechon. Na tradução ecumênica da Bíblia Sagrada das editoras Paulinas e Loyola, dirigida por Gabriel C. Galache, os versículos se apresentam como se segue,

Ele bloqueia o anomos, o princípio da desordem, da rebelião, da separação da contenção da lei. Mas, sobretudo – porque se encaixa perfeitamente no paradigma imunitário da religião – é a maneira como ela ocorre, pela qual o mal é contido: o katechon restringe o mal ao contê-lo, ao mantê-lo, ao retê-lo em si mesmo. Ele confronta o mal, mas de dentro, ao hospedá-lo e saudá-lo, ao ponto de vincular sua própria necessidade à presença do mal. Ele limita o mal, o adia, mas não o erradica: porque se ele o fizesse, também se eliminaria (ESPOSITO, 2011, p. 63).

O papel do katechon se manifesta fortemente na cena em que a Menina, durante a entrega da colheita, furtava algumas chapinhas e as entregava disfarçadamente aos escravizados no momento em que eles iam receber a sua recompensa. Todos sabiam, no