BÖLÜM 2: DONDURULMUù GIDALAR ve DÜNYADA DONDURULMUù
2.6. Türkiye'de Dondurulmuú Gıda Sektörü
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Não se pretende aqui absolutizar essa somatória de 18 aldeias Guarani existentes em São Paulo ao longo desses dois séculos. Entende-se que há uma limitação nessa quantificação decorrente da metodologia utilizada nos estudos, os quais se basearam principalmente em relatos dos atuais moradores das aldeias. Ademais, salienta-se que os Guarani se acautelam em falar sobre acontecimentos tristes ou que trazem saudades, porque esses sentimentos podem enfraquecê-los, adoecê-los e levá-los até mesmo à morte37.
Assim, ressalta-se que nem todas as aldeias sofreram processo de expropriação e conflito: oito delas eram antigos lugares de uso e foram desocupadas em decorrência do modo de viver Guarani, caracterizado pela autonomia do grupo, o que Brighenti (2010) denomina “fatores de ordem interna”, os quais, de alguma forma, remetem ao sentido de sua mobilidade (ver seção 5). Há lugares que foram ocupados pela abundância de algumas espécies da natureza, como as usadas na alimentação (a exemplo do palmito, da caça e do pescado) e/ou na produção de artesanato. A desocupação de tais lugares esteve relacionada, por exemplo, à mobilidade Guarani ou à morte de algum morador, quando se deixa a área temporariamente devido ao sentimento de tristeza – é o caso da morte de Ramon, em decorrência de um raio, que levou sua família a deixar de habitar o local.
A aldeia Pai Matias (PAI, 2015), próximo à estação ferroviária homônima, é onde o Sr. Miguel – hoje morador do Tekoa Pyau – e sua família moraram por seis ou sete anos. Ela é lembrada por ele como o lugar de nascimento de sua filha, Patrícia, e pela grande quantidade de caça, pesca, e coleta de material para artesanato e, principalmente, do palmito. Conta o Sr. Miguel que saíram para acompanhar a caminhada liderada pelo sogro, o xamã Liberato Esquivero, e por sua esposa Maximiniana Almeida Tataxῖ, e foram morar em uma aldeia no litoral de Santa Catarina.
Mas voltemos aos conteúdos da expropriação das terras dos Guarani em São Paulo e às histórias dos conflitos nas dez aldeias restantes, os quais não se resumem a ações bélicas. Eles se configuram por uma violência cotidiana e intrínseca a esse processo, que tem como conteúdo primordial a negação do direito territorial Guarani e, consequentemente, a negação do próprio indígena.
Essa violência cotidiana, expressa principalmente na interdição dos acessos às terras e na intimidação dos indígenas, em alguns casos resultou na saída dos Guarani de suas terras para se evitar o confronto de fato – o que se pode observar em seis casos. Dentre estes, os
37 Segundo Pierri (2013, p. 223) “Morre-se de tristeza, entre os Guarani, porque o nhe’ĕ (espírito) da pessoa pode
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indígenas retornaram a duas aldeias, os tekoa Yyrexakã e Itakupe, retomando suas terras, que atualmente se encontram ocupadas. As aldeias desconstituídas foram: o Tekoa Karumbey e o lugar ocupado pela família Ventura, ambos dentro dos limites atuais da TI Tenondé Porã; o lugar ocupado pela família de Samuel dos Santos, cindido da atual TI Jaraguá, no noroeste do município de São Paulo, pela rodovia dos Bandeirantes; e o Tekoa M’boi Mirim, localizado na zona Sul do município.
O Tekoa Karumbey (rio das tartarugas) era um lugar de uso, principalmente, da parentela do indígena Zé Grande, para caça e coleta de material para artesanato e de palmito para alimentação, situado entre as aldeias Barragem e Rio Branco. Houve, na década de 196038, a proibição do acesso dos indígenas ao lugar pelo antigo caminho da “usina”. Casemiro e Timóteo contaram um episódio de violência que fez com que não fossem mais ao local: em meados da década de 1980, voltavam para a aldeia carregando aproximadamente meia dúzia de palmitos quando “foram violentamente surpreendidos pelos policiais, que tomaram seus facões e os palmitos.” (PIMENTEL; PIERRI; BELLENZANI, 2012, p. 185)
A aldeia onde morava a família Ventura era denominada pelos indígenas como Ventura Oioka39, situada no caminho entre a aldeia Krukutu e TI Aguapeú (município paulista de Mongaguá). Trata-se de um lugar usado para coleta, caça e pesca desde a década de 1970, e que depois da intimidação e da repressão dos policiais foi desabitado. Essa é uma violência marcada principalmente pela queima das casas dos Guarani, ou seja, uma ação de “limpeza do terreno”, que os obrigou a sair do local, conforme conta o cunhado de Ventura, seu Pedro Vicente:
Seu Pedro Vicente situa a ocupação de Ventura no local desde 1974 aproximadamente, quando se mudou para a Barragem e diz que parou de frequentar a região apenas em 1997. Recorda-se que sofriam muita repressão da polícia florestal que, na época, estava sempre andando, fazendo as rondas, andando nas trilhas. Conta que a polícia queimou cerca de 4 vezes o acampamento construído pelo Ventura. Nessa época, deixaram de utilizar o local devido à repressão. Entretanto, mesmo atualmente o local é utilizado por outras famílias residentes na aldeia Krukutu. (PIMENTEL; PIERRI; BELLENZANI, 2012, p. 191)
38 As datas expressas nas histórias das aldeias não determinam de forma alguma a origem da presença Guarani
na região, referem-se apenas à localidade, que pode ser denominada diferentemente de acordo com a parentela e a época em que a ocuparam.
39 Os ikoa são lugares de uso intermitente, mas que podem ser ocupados como locais de moradia por períodos de
seis meses até um ano, e nesse ínterim realizam-se atividades como coleta (para artesanato ou alimentação) caça e plantio, por exemplo. (PIMENTEL; PIERRI; BELLENZANI, 2012)
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Além dessas aldeias houve a expropriação de outra, próximo à atual TI Jaraguá40, na década de 1950, onde morava a família de André Samuel dos Santos, primo de Joaquim, fundador da aldeia Tekoa Ytu. Anteriormente, André Samuel dos Santos aparece em documentação do SPI, na qual é taxado de “índio rebelde” em decorrência de diversos conflitos com a instituição pela divergência quanto ao regime de trabalho imposto aos indígenas. Foi expulso do Posto Indígena Itanhaém (Bananal), e mudou-se para o Jaraguá. (PIMENTEL et al., 2013)
Guaíra, o filho de André, conta sobre essa área em que moravam:
A terra lá era de muitos donos, tinham uns três ou quatro donos, todo mundo queria ser dono, só sei que era uma área de problema e um dos rapazes que dizia que era dono levou a gente pra lá. Aí só depois que a gente foi pra lá é que foi saber que tinha esses problemas.
[...] Moramos numa área lá que era de duas pessoas, só sei que era de um japonês e só sei que ficamos no Jaraguá um tempo lá. [...] depois que teve um problema de nome da área, aí viemos embora pra Aldeia do Bananal. [...] Nós vivíamos do artesanato, papai ia na cidade pra vender. Porque não podia plantar porque a terra não era nossa e não estava definido se a gente ia poder ficar lá ou não. Então não fizemos questão também. Por isso que voltamos pra nossa aldeia de novo, a gente ia ficar numa área que não tinha condição de plantar, não tinha jeito. (PIMENTEL et al., 2013, p. 111)
Após alguns anos, sob a pressão dos não indígenas, o grupo saiu da área e retornou à aldeia Bananal. Outra ocupação Guarani no mesmo local ocorreu em 2003, pela família de Carlito de Castro, que liderou um grupo com outras quatro famílias, e lá construíram suas casas de madeira. Eles foram incentivados e convidados por um vizinho, dono do bar, conhecido por Gersé, o qual garantiu que o dono do terreno morava na Lapa e iria doá-lo para os indígenas. No entanto, concomitantemente com os indígenas, alguns sem-terra mudaram-se para o local, resultando novamente em processo de reintegração de posse e retirada dos sem- terra juntamente com os indígenas (PIMENTEL et al., 2013), promovendo-se, assim, a “limpeza do terreno”. É válido ressaltar que esse terreno tem como pretenso proprietário Pereira Leite, o mesmo sujeito que moveu uma ação de reintegração de posse contra os indígenas do Tekoa Pyau, contestou os estudos da Funai por não considerar aquela área como terra tradicional indígena e mantém o processo judicial até os dias atuais.
40 Atualmente nessa área há um plantio de eucalipto. Trata-se de um local que foi cindido do Tekoa Pyau pela
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Os indígenas da aldeia M’boi Mirim41 também foram expulsos de suas terras. A
história dessa aldeia remete ao final da década de 1960, quando Gumercindo (irmão do cacique da aldeia Barragem na época, Eduardo Martins da Silva) e sua família mudaram-se do Tekoa Kalipety. A mudança deu-se por incentivo e convite do padre José Seskewicius, então responsável pelo Instituto Agnello Rossi, e de propriedade da Arquidiocese de São Paulo. Nas palavras do Sr. Calixto, “o padre falou que a terra era dos índios mesmo”, porém não entregou nenhum documento.
Em 1974, a Folha de S. Paulo entrevistou Fernando Branco e Silva e sua família, que haviam se mudado há quatro anos da aldeia Itariri, litoral de São Paulo, para a aldeia de M’boi Mirim, documentando assim a presença Guarani no local, que datava de pelo menos dez anos (A SORTE, 1974).
O relatório de 1981, elaborado por Rubens de Almeida para o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) a pedido do bispo Dom Fernando Penteado, relatou a situação dos Guarani da aldeia de Mboi Mirim:
Ao chegarem, afirma Gumercindo, não havia nada no local, nem pessoas, nem clube de tiro, nada. Uma das primeiras providências que tomaram ao se instalarem foi o plantio de várias árvores de Pindó (uma espécie de coqueiro) que atualmente estão altos e localizados defronte à casa de Gumercindo. [...]
Afora essa agricultura incipiente, desenvolvem trabalhos para brancos da região chegando a pegar empreitadas em trabalhos não especializados. Alguns deles conhecem ofício de marceneiro chegando a trabalhar em firmas na cidade. Eventualmente trabalham para o próprio Instituto. [...]
O comércio de artesanato constitui, portanto, na base da econômica dos Guarani de M’boi Mirim. [...] Sem dúvida a possibilidade de posse ou usufruto seguro da terra que habitam é a maior aspiração dos Guarani de M’boi Mirim. É condição necessária para que possam continuar vivendo da forma como fazem.42
No entanto, a mesma Igreja que os convidou para o local também os expulsou, conforme relata Anísio, filho de Gumercindo:
“Primeiro, Igreja traz índio pra viver aqui, isso faz 15 anos. Agora Igreja quer expulsar índio, dizendo que a terra não é dele. Estamos bravos e isto ainda vai acabar em flechada”, adverte o jovem Guarani.
41 A história dessa aldeia apresentou-se como interdito pelos indígenas. Há indícios de que seja pelas mortes
acidentais de indígenas tanto durante a ocupação como depois de sua expulsão. Assim, ela se fará por meio de pesquisa bibliográfica, já que a única entrevista obtida foi do Sr. Calixto, em 12 de fevereiro de 2014, então morador do Tekoa Reta, no município de Barra do Sul, no litoral de Santa Catarina. O Sr. Calixto morou na aldeia M’boi Mirim por dez anos e saiu para plantar eucalipto junto com o sogro, Sr. Gumercindo, onde atualmente fica a aldeia Tekoa Kalipety. Por isso ele não presenciou a expulsão dos indígenas, mas lembrou do Anísio, que permaneceu no Tekoa M’boi Mirim.
Camila Salles de Faria - 45 [...] O indígena lembra que enquanto o padre José cuidou do Instituto Rural, a pequena comunidade Guarani recebeu apoio da Igreja e pôde viver com dignidade. Depois da saída do padre, porém, os índios foram abandonados e atualmente são pressionados a saírem da área pelo padre Vitor Ribeiro. (GARCIA, 1983)
Assim, com a mudança de coordenação, o padre Vitor passou discordar das ações de seu antecessor:
Ele faz questão de afirmar que as famílias que ocuparam os dois alqueires da Mitra Arquidiocesana são “invasoras” e não contam com o apoio da Igreja em sua ação. “Eles romperam a cerca existente no local sem conversar com ninguém da Igreja” – reclama o padre Vitor – e essa falta de diálogo antes do ato ressalta o caráter de invasão.
O padre disse que até agora ainda não houve nenhuma grande consequência da invasão porque ele não chamou a Polícia. “Eles se aproveitaram dessa atitude pacifista e de diálogo por parte da Arquidiocese” – diz ele –, “mas a Igreja usará os direitos que a lei lhe faculta para solucionar o caso.”
[...] Reafirmando que os ocupantes estão agindo “à revelia da Igreja”, o padre disse que é bom que a população tenha muito claro que a Igreja “não está vendendo, doando ou loteando suas terras”. (GARCIA, 1983)
Dessa forma, o padre reafirmou o direito à propriedade privada, neste caso da Igreja, e anunciou a expropriação daqueles que faziam uso da mesma. Ele propôs ainda “uma troca por outra área, que seria fornecida através dos poderes públicos”, o que se revelou como um discurso estratégico para a saída dos indígenas. Ressalta-se que a gleba da Mitra tinha 13 alqueires, 2 dos quais eram ocupados tanto por indígenas (convidados) como por não indígenas (13 famílias pertencentes ao movimento de Luta por Moradia). A gleba era chamada de Jardim Vera Cruz ou Jardim do Instituto Rural, tendo sido doada em 1915 por “uma jovem da aristocracia paulista”, e na época estava cercada de casas de alto padrão e com significativo preço no mercado. (GARCIA, 1983) Portanto, há indícios de que o padre aproveitou-se da ocupação das famílias sem-teto, posterior à dos indígenas, para promover a “limpeza” de suas terras, e com isso efetivar a expropriação dos indígenas, como já havia semeado no final da década de 1970:
Quanto à posição do padre Vitor, que defende o retorno dos Guarani para aldeias onde viveriam em maior número, Henrique disse que esta decisão deve partir deles, sem ser imposta ou mesmo aconselhada.
Ele admite que a proposta do padre Vitor possa ser bem intencionada, mas deve ser provada com atos concretos. “O padre Vitor, desde que chegou ao instituto, mantém-se distante dos índios; não lhes deu trabalho, como era feito anteriormente, não se mostrou amigo, e além disso colocou outras famílias no local, limitando, de certa maneira, a liberdade dos guarani, na área. Estes fatos agravaram-se quando padre Vitor passou a defender a tese de que índio deve viver em aldeias.” (ANTROPÓLOGO, 1979)
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Assim, no final da década de 1970, o padre Vitor já havia proposto a expulsão dos indígenas de suas terras, onde muitos, como Anísio, cresceram, criaram-se e formaram o tekoa M’boi Mirim. O discurso da expulsão veio mascarado pela defesa do “retorno às aldeias”, ou seja, em prol dos Guarani, e permeado pela idealização do que seria uma “aldeia”. Porém o administrador responsável do Instituto Henrique Pereira Junior nos anos de 1977/1978 discordava da remoção forçada dos indígenas. Decisão que seria tomada após a produção do documento do mencionado antropólogo Rubens Almeida. Mesmo esse parecer sendo favorável à permanência dos indígenas em suas terras, as tentativas de expulsão dos indígenas continuaram, conforme consta no documento da Sudelpa de 22 de maio de 1985, transcrito a seguir:
Em várias ocasiões, pessoas e instituições propuseram a transferência dos índios desta aldeia para outras aldeias do litoral sob diversos argumentos, entre os quais a grande proximidade da população da periferia, pequena dimensão da área, escassez de recursos naturais e para evitar eventuais disputas e atritos com invasores.
[...] Os Guarani recusaram, sistematicamente, todas as propostas de mudança devido a laços fortes com a região, incompreensíveis para nós, que seguem princípios filosóficos Guarani. Além disso, estabeleceram um cotidiano dependente das condições locais (meios de locomoção, situação estratégica da área próxima a feiras e mercados), o comércio de artesanato que é feito na região e na cidade e um contacto freqüente com as demais aldeias da capital.43
Os Guarani resistiam e recusavam veementemente a transferência para outra aldeia. Porém, em 1986, a expulsão concretizou-se, tendo como pretexto “uma briga entre o filho do cacique e um morador branco da região” e uma possível represália por parte dos não indígenas. “Padre Vitor que com surpreendente prontidão promoveu a mudança dos Guarani para a aldeia do Jaraguá, levando inclusive as telhas da casa onde moravam”. (LADEIRA; AZANHA, 1988, p. 36) Embora o padre almejasse uma mudança definitiva dos indígenas, isso não ocorreu.
Discretamente, os Guarani da Barragem, principalmente os rapazes, fizeram várias expedições a Mboi-Mirim para averiguarem a situação. Em dezembro de 1987, a trilha de acesso à casa, quase imperceptível, estava coberta pela capoeira. No local da casa, com as paredes derrubadas, somente se encontrava o piso. O poço de água aberto sem proteção. Entretanto, grande quantidade de ervas medicinais, de pé de bananas e outras plantas cultivadas pelos Guarani estavam intactos. Os Guarani se organizam para voltar. (LADEIRA; AZANHA, 1988, p. 36)
43 Arquivo do CTI.
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Assim, os Guarani retornaram ao Tekoa M’boi Mirim, mas novamente foram levados pelo padre para outra aldeia, mais distante, no litoral, a aldeia do Silveira, no município paulista de São Sebastião. Assim, a aldeia do M’boi Mirim não foi demarcada, como as demais do estado de São Paulo, na década de 1980, mesmo com a vontade dos indígenas de nela permanecerem:
A aldeia de Mboi-Mirim não foi demarcada no conjunto das demais aldeias de São Paulo que sobreviveram. O motivo dessa exclusão ocorreu em 1985, quando a Cúria Metropolitana de São Paulo solicitou a interrupção dos trabalhos nesta área alegando que o terreno reivindicado pelos Guarani (cerca de 16 ha) estava inserido no Instituto Rural Cardeal Agnello Rossi de sua propriedade. Durante vinte anos, os Guarani ocuparam-na e preservaram-na. [...]
A demarcação de Mboi-Mirim ficou dependendo, desde 1985, de um entendimento entre o governo estadual e a Cúria Metropolitana que solicitou um parecer do CIMI, Conselho Indigenista Missionário, entidade ligada a CNBB. (LADEIRA; AZANHA, 1988, p. 35)
O padre Vitor promoveu assim a chamada “limpeza”, e consolidou o processo de expropriação das terras dos indígenas em favorecimento da propriedade privada capitalista da Igreja. Porém as lembranças boas e o sentimento de retorno a essa terra permanecem pelos indígenas, como se observou na conversa realizada em 2014 com Sr. Calixto em Santa Catarina.
Figura 1 – Foto Tekoa M’boi Mirim em 1979.
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Figura 2 – Foto Tekoa M’boi Mirim em 1984.
Fonte: LADEIRA, I. Arquivo CTI.
Figura 3 – Foto Tekoa M’boi Mirim em 1984. Fonte: LADEIRA, I. Arquivo CTI.
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Houve ainda a expropriação de terras indígenas com a desconstituição de aldeias, cujas terras posteriormente os Guarani retomaram, e hoje estão ocupadas. É o caso do Tekoa Yyrexakã, localizado na atual TI Tenondé Porã e próximo à centralidade de Marsilac, e do Tekoa Itakupe, situado na atual TI Jaraguá.
A história da ocupação Guarani da antiga aldeia Yyrexakã (rio brilhante) data da década de 1940, quando era chefiada por Marcelino (já falecido), importante líder espiritual e reconhecido pelas demais aldeias de São Paulo. O tekoa era lembrado pelos antigos Guarani como um local de abundância de pesca, devido a sua localização às margens do rio Capivari, acrescido à grande quantidade de caça, à coleta de palmito e de material para artesanato. Conforme destacou o Sr. Cassemiro,
Lá para os lados do Capivari é um lugar muito bonito e tem muitas coisas que podemos usar. Lá tem muitos rios e nascentes bonitas. Lá é um lugar onde nossos antepassados já viviam. Naquele tempo eles faziam muito artesanato, e pegavam material tudo de lá, para arco e flecha, para cesto, todas essas coisas. Antes da construção do trilho já tinha muitos parentes vivendo nessa região.44
Além disso, a aldeia estava situada em um importante trajeto de ligação entre as aldeias de São Paulo e do litoral, principalmente a aldeia do Rio Branco, no município de Itanhaém. Com a proibição, na década de 1960, de utilizarem o “caminho para a Usina”, os indígenas o substituíram pelo caminho via estação Engenheiro Ferraz, passando então pela aldeia Barragem. (PIMENTEL; PIERRI; BELLENZANI, 2012, p. 113)
Foi na década de 1970 que a expropriação consolidou-se, quando a Companhia Metropolitana de Água de São Paulo (Comasp), fundida depois com outras empresas para a constituição da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp)45, adquiriu a fazenda Capivari, com 278,6 ha (ver seção 3), e instalou uma guarita com interdição e controle de acesso. No entanto, o Sr. Cassemiro adverte que nessa época a empresa ainda permitia que os Guarani usassem a área, mas não como moradia.
Esse uso não foi mais possível a partir dos anos 1980, quando Jaime Cará “conseguiu” a escritura dessas terras no cartório de Itanhaém e loteou a área, conforme contou o não