• Sonuç bulunamadı

1.2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

1.2.3. Tarımsal Biyoteknoloj

1.2.3.5. Türkiye’de Tarımsal Biyoteknoloji ve Transgenik Ürünlerin Durumu

Como uma possibilidade de superar as limitações da epidemiologia e fazê-la dialogar com outras ciências e outros saberes não científicos, emerge, no cenário das práticas de saúde, o quadro da vulnerabilidade. A referência da vulnerabilidade surge não como uma produção acadêmica, mas como desfecho de um intenso debate social, resultante da marcante experiência que foi a eclosão da pandemia de aids (AYRES et al., 1999).

O termo vulnerabilidade é oriundo da área dos Direitos Humanos, e referia-se a grupos ou indivíduos fragilizados, jurídica ou politicamente, na promoção, proteção ou garantia de seus direitos de cidadão. A expressão entra no campo da saúde a partir da publicação, nos EUA, da obra Aids in the world, de Mann et al. (1992), sendo amplamente utilizada a partir de então. Tal ‘neoconceito’, para o cenário da saúde pública veio suprir a necessidade de uma nova terminologia, quando as várias outras utilizadas haviam se esgotado em suas limitações.

Logo que se deu a descoberta do HIV/aids utilizava-se da terminologia

fator de risco para identificar grupos sociais nos quais ocorreram os primeiros

casos da doença (prostitutas, homens que fazem sexo com homens, hemofílicos, usuários de drogas injetáveis). Em seguida a terminologia foi substituída por grupos de risco, que se tornaram o foco das estratégias de prevenção e contribuíram para a discriminação e o preconceito contra esses grupos. Diante disso e de movimentos sociais antidiscriminação, a terminologia para designar pessoas do até então grupo de risco para HIV/aids foi substituída por comportamento de risco. Tal termo, que se propunha a identificar características individuais que aumentavam a suscetibilidade dos sujeitos, embora menos rotuladora, centrava a responsabilidade na proteção individual,

sem contemplar os aspectos sociais envolvidos na prevenção (BARBOSA, 2011).

Em meio à pandemia de aids, o termo foi novamente repensado, uma vez que os comportamentos não podem ser entendidos como meros resultantes da vontade aliada à informação, mas passam ainda por filtros de natureza política, cultural que se encontram desigualmente distribuídos entre os segmentos sociais, faixas etárias e gêneros (AYRES et al., 1999).

Pioneiros do estudo que deu origem ao uso do conceito de vulnerabilidade ao campo da saúde, Jonathan Mann e colaboradores iniciaram, na década de 1990, a análise de informações e subsídios não restritos ao manejo estatístico de dados clínicos e epidemiológicos, expandindo, a partir de então, o arsenal de saberes necessários à pandemia do HIV/aids no campo das ciências humanas, econômicas e políticas, adotando o termo vulnerabilidade. O conceito de vulnerabilidade passa a expressar o reconhecimento dos diferentes graus e natureza da suscetibilidade dos indivíduos e coletividades à aids, formado pelo conjunto integrado dos aspectos sociais, programáticos e individuais, que colocam os sujeitos em relação com o problema e com os recursos para seu enfrentamento (AYRES et al., 1999).

Conforme relata Parker (1996, p. 5) apud Ayres (1999, p. 51):

Talvez a mais importante transformação isolada em nossa maneira de pensar sobre HIV/Aids no início dos anos 90 tenha sido o esforço da (...) passagem da noção de risco individual a uma nova compreensão de vulnerabilidade social, passagem crucial não só para nova compreensão da epidemia, mas para qualquer estratégia para conter seu avanço.

A ampliação desse conceito responde à necessidade de extrapolar a abordagem comportamentalista das estratégias individuais de redução de risco, constituindo-se em um importante referencial na elaboração de conhecimento na área, que inicialmente se deu sobre a pandemia de HIV e aids, mas que pode e deve ser transposta para as Doenças Crônicas Não Transmissíveis.

Vulnerabilidade refere-se à suscetibilidade de indivíduos e de populações a agravos à saúde. Em torno do termo, aglutina-se, hoje, ampla e diversificada gama de proposições, não havendo ainda uma identidade objetiva

com especificidade e clareza esperadas para um conceito (AYRES et al., 1999).

Conforme Meyer et al. (2006, p.16):

De modo sumário, os estudos de vulnerabilidade buscam compreender como indivíduos e grupos de indivíduos se expõem a dado agravo à saúde a partir de totalidades conformadas por sínteses pragmaticamente construídas com base em três dimensões analíticas: aspectos individualizáveis (biológicos, comportamentais, afetivos), que implicam exposição e suscetibilidade ao agravo em questão; características próprias a contextos e relações socialmente configurados, que sobre determinam aqueles aspectos e, particularizado a partir destes últimos, o modo e o sentido em que as tecnologias já operantes nestes contextos (políticas, programas, serviços e ações) interferem sobre a situação - chamadas respectivamente de dimensão individual, social e programática.

A vulnerabilidade é considerada, assim, o inverso do empowerment.

Empowerment pode ser definido como um processo de reconhecimento,

criação e utilização de recursos e de instrumentos pelos indivíduos, grupos e comunidades, em si mesmos e no meio envolvente, que se traduz num

acréscimo de poder – psicológico, sociocultural, político e econômico – que

permite a estes sujeitos aumentar a eficácia do exercício da sua cidadania (PINTO, 1998, p. 247). As diferentes situações de vulnerabilidade dos sujeitos (individuais e/ou coletivos) podem ser particularizadas pelo (re) conhecimento

de três componentes interligados – o individual, o social e o programático ou

institucional, que para Meyer et al.(2006) remetem às seguintes questões de ordem prática: Vulnerabilidade de quem? Vulnerabilidade a quê? Vulnerabilidade em que circunstâncias ou condições?

Os componentes individuais da vulnerabilidade são aspectos cognitivos, e de ordem comportamental (como acesso a informações corretas, compreensão e assimilação, interesse, adoção de práticas saudáveis e protetoras). Portanto, no plano individual considera-se que a vulnerabilidade a algum agravo está relacionada, basicamente, aos comportamentos adoecedores ou oportunizadores do adoecimento. Tais componentes dependem diretamente da disponibilidade e acesso à informação e capacidade para elaborá-la, tanto quanto interesse e engajamento nesse propósito. Comportamentos associados à maior vulnerabilidade não devem ser entendidos e abordados como uma decorrência imediata da ação voluntária das pessoas, pois estão relacionados tanto com condições objetivas do

ambiente, quanto com as condições subjetivas em que os comportamentos ocorrem, bem como com o grau de consciência sobre tais comportamentos e a disposição e efetivo poder para modificá-los (MEYER et al., 2006; AYRES; 2008; BARBOSA, 2011).

A vulnerabilidade social é caracterizada pelo acesso de pessoas e grupos à informação (escolaridade, comunicação, disponibilidade de recursos materiais), aos serviços de saúde e a outros equipamentos sociais; pelo nível de liberdade de expressão, representação e decisão que usufruem, pelos indicadores de saúde, educação e renda; pelo índice de desenvolvimento humano e pelo índice de pobreza e miséria, que, compreendem o capital social dos sujeitos, grupos ou coletividades. Consideram-se, ainda, as estruturas de governo, o repertório de crenças, valores e atitudes, as relações de raça, etnia, gênero e geração (AYRES et al., 1999; BARBOSA, 2011).

A vulnerabilidade programática ou institucional caracteriza-se pela existência de serviços sociais e de saúde de fácil acesso, com alta qualidade, democraticamente delineados, periodicamente retroalimentados e avaliados, além da adoção de mecanismos não discriminatórios e pelo investimento em ações e programas de educação/informação preventivos. Esse componente da vulnerabilidade contempla tanto ações nas três esferas de governo, como ações não governamentais. Essa vertente da vulnerabilidade é entendida como uma conexão entre os planos individual e social, constituindo-se em um caminho concreto para a construção do empowerment, por ser aglutinador de informações, recursos e suportes (AYRES et al., 1999; MEYER et al., 2006; BARBOSA, 2011).

Dessa forma a vulnerabilidade não é um indicador que visa distinguir a probabilidade de um indivíduo/grupo se expor à determinada infecção ou doença, mas fornecer elementos que subsidiem avaliações acerca das

possibilidades de um indivíduo ou grupo populacional se

infectarem/adoecerem, dado o conjunto formado pelas características individuais e sociais de seu cotidiano (AYRES et al., 1999).

Foi elaborado inicialmente um sistema de indicadores programáticos e sociais que, combinados, poderiam sugerir um diagnóstico de vulnerabilidade para as diversas nações do mundo. No entanto, em 1996, abandona-se a

referência a scores ou análises quantitativas, sendo evidenciado o sentido qualitativo dos diversos planos de avaliação da vulnerabilidade. Não existe, pois, uma metodologia de análise, o que, para Ayres et al.(1999), não sinaliza uma fragilidade, mas sim o caráter jovial do conceito.

Assim, o conceito de vulnerabilidade, atualmente já incorporado ao

repertório teórico-metodológico em saúde, pode ser resumido como “o

movimento de considerar a chance de exposição das pessoas ao adoecimento como resultante de um conjunto de aspectos não apenas individuais, mas

também coletivos [e] contextuais” (Ayres, 2003, p. 123) que estão implicados

com a maior suscetibilidade ao adoecimento e, bem como com a maior ou menor disponibilidade de recursos de proteção (MEYER et al., 2006).

Verifica-se então que a vulnerabilidade supera o marco do conceito de risco, tradicionalmente empregado no âmbito da Epidemiologia Clássica, transcendendo sua dimensão individualizante e probabilística (MUÑOZ SÁNCHEZ; BERTOLOZZI, 2007).

O caráter jovial e ainda em processo de construção do conceito de vulnerabilidade, ao apontar o conjunto de aspectos que suplantam os componentes objetivos e individuais, traz consigo a percepção de que a construção de totalidades compreensivas é sempre feita a partir de uma dada perspectiva, limitada e em constante transformação (GADAMER, 1999). Conforme Ayres (2009), por mais abrangente que seja um estudo de vulnerabilidade, ele jamais poderá ter a pretensão de dar a palavra final sobre o assunto.

Benzer Belgeler