1.2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
1.2.3. Tarımsal Biyoteknoloj
1.2.3.4. Dünyadaki Durum
A origem dos saberes que buscaram confluências entre os fenômenos de saúde e doença relativos a aspectos que extrapolam o plano estritamente orgânico encontra-se na vertente denominada Higiene Social (AYRES, 2005). Esse saber, a partir da noção de miasma, em sua acepção moderna, e depois, com noções de constituição epidêmica e meio externo, constituiu a matriz epistemológica a partir da qual, por sucessivos processos de formalização, veio
a se constituir a Epidemiologia (AYRES, 2009).
Segundo Ayres (2008), desde o final do século XIX até meados do século XX, houve uma evidente transformação do escopo e da natureza do objeto e dos métodos de investigação, tal como entendidos pela comunidade de pesquisadores. Tal transformação caracterizou-se pelo abandono das primeiras conformações da Epidemiologia, em direção a um perfil pragmático e processual mais característico da epidemiologia do risco, constituindo o que se pode chamar de um paradigma predominante, desde o final da década de 1970 (ALMEIDA FILHO, 1997; AYRES, 2009).
Passou-se,então, da busca de apreensão de totalidades conformadoras de condições desfavoráveis à saúde (constituições epidêmicas), à busca da caracterização dos meios de transmissão ou formas de exposição relativas aos
agressores à saúde, e desta, à busca de “associações probabilísticas” entre
possíveis agentes e condições desfavoráveis à saúde e a ocorrência dos agravos. Essa mudança de foco atingiu seu auge em torno de 1930, por sucessivos processos de abstração e de matematização (AYRES, 2009).
Conforme Ayres (2011), essa busca exaustiva da epidemiologia para identificar determinantes externos do adoecimento, integrando-os nas totalidades sintéticas designadas como meio externo, passou a delimitar relações causais analíticas e abstratas, na forma de associações de caráter probabilístico. Traduzido no conceito de risco epidemiológico, este construto torna-se elemento central para as práticas de saúde atuais. Ainda segundo Ayres (2009, p. 15):
Essas associações expressas na forma do risco epidemiológico nas diversas feições conformadas pelos diferentes métodos de investigação
são a base da Epidemiologia contemporânea. Ao formalizar o conceito de risco, a Epidemiologia alcançou sua maturidade científica, perfilando-se entre os principais saberes instrutores das tecnologias de atenção à saúde, seja na prevenção e promoção da saúde, seja no tratamento e recuperação de agravos já instalados.
Com o desenvolvimento da Epidemiologia houve um importante ganho para a saúde pública, pelo seu amadurecimento como ciência. A Epidemiologia conquistou, simultaneamente, rigor científico, capacidade especulativa e potencial para o diálogo interdisciplinar.
Assim, o risco constitui-se como objeto para epidemiologia, sendo cada vez menos conteúdo e mais raciocínio, como uma forma de estabelecer nexos causais. A epidemiologia achara finalmente, uma forma necessária e própria de argumentar demonstrativamente, podendo perfilar-se junto aos discursos de natureza científica (AYRES, 2002).
O conceito de risco epidemiológico, desenvolvido a partir dos anos de 1950 do século XX, conformou-se como um instrumento de quantificação das possibilidades de adoecimento de indivíduos ou populações, a partir da
identificação de “associações entre eventos ou condições patológicas e outros
eventos e condições não patológicas, causalmente relacionáveis” (MEYER, et
al., 2006, p. 1339). As conquistas decorrentes da aplicação deste conceito às
práticas de saúde pública associam-se à sua operacionalidade,à ampliação da capacidade preditiva e de controle de determinados fatores de risco, com redução da probabilidade de ocorrência destes agravos (MEYER, et al., 2006).
A epidemiologia do risco restringiu-se à construção e verificação de associações probabilísticas entre eventos empíricos de interesse no campo da saúde, sem promover nenhuma discussão teórica relevante acerca desta ciência. O risco epidemiológico ao longo de seu processo de constituição histórica adquiriu duas características epistemológicas que o colocam em posição paradoxal, conforme aponta Ayres (2002): 1) seu caráter especulativo, substantivamente instrumental o deixa em condições de expandir de forma ilimitada a investigação acerca de associações entre eventos de interesse prático para a saúde; 2) a rarefação teórica, relacionada ao apoio estratégico das inferências epidemiológicas na positividade biomédica, tornou-o refém da doença ou de eventos relacionados.
O risco, como um conceito central, adquire seus critérios próprios e autônomos para construir e validar enunciados, com aceitação científica entre os saberes do campo da saúde. Na Epidemiologia do Risco, a linguagem do risco alcança sua formalização discursiva tornando-se uma grandeza matemática. O risco não adjetiva, apenas, uma condição insalubre, ele próprio é a expressão matemática da inferência epidemiológica. Risco passa a expressar, então, a racionalidade aplicada que é a Epidemiologia e, simultaneamente, a identidade discursiva da comunidade de epidemiologistas e os correspondentes alcances e limites de seus horizontes normativos (AYRES, 2011).
Mas se a interpretação das variáveis não considera a variabilidade e a dinâmica de seus significados sociais, e se o risco passa de uma categoria analítica abstrata para uma prática de intervenção, sem as mediações necessárias para que ganhe significados reais, sua contribuição para orientar as práticas preventivas acaba sendo insuficiente ou prejudicial, já que reduz os fenômenos a componentes que podem ser isoladamente mensuráveis. Ao considerar ainda que estudos de associação decompõem o todo em partes, associadas entre si por relações de causa-efeito e, assim, lidam com uma positividade condicional inerente a um discurso que abstraia variabilidade, a complexidade e a dinâmica dos significados e das práticas sociais em que tais possibilidades de adoecimento são vividas e experienciadas (MEYER, et al., 2006), emergem limitações desta disciplina até então hegemônica.
Considerando que, historicamente, a constituição da ciência epidemiológica é apontada por Ayres (1997) como instituída e instituinte no processo de emancipação e hegemonia da dimensão tecnológica da razão, descortina-se, então, o fato de estarmos diante de um paradigma dominante e a necessidade de buscar novas respostas para sua superação.
Se as análises de risco têm dificuldade de sustentar seu rigor frente à plurivocidade e contingencialidade das categorias relacionadas à especulação causal sobre o efeito saúde, possivelmente esse tipo de investigação precisará abandonar esse modelo heurístico (Ayres, 2002), ou transcendê-lo com diálogo entre outras disciplinas e outros saberes não científicos.
A primeira resposta à limitação apontada foi a construção do conceito de
Vulnerabilidade. Parafraseando Ayres (2002, p. 35): “o que foge ao discurso do
risco não é aquilo que lhe escapou, mas aquilo que de alguma forma não lhe diz respeito, não esteve entre as exigências que o conformaram enquanto conceito”.