Em decorrência dos objetivos da pesquisa e do problema apresentado, os mesmos foram desenvolvidos articulando dois níveis de análise: o organizacional e o individual. A saúde organizacional foi aferida no primeiro nível. A nossa população constituiu-se de três organizações hospitalares e três organizações educacionais de Natal (RN). O setor público, por sua vez, foi aqui escolhido por uma questão de acessibilidade ao mesmo e pela limitação de recursos que nos impede de planejar um estudo com maior amplitude.
Como trabalhamos com a população de escolas e hospitais, é importante caracterizar cada contexto que será pesquisado. Assim, lembramos que o sistema educacional no Brasil vive uma contradição: de acordo com as diretrizes legais que norteiam a educação, presentes na Constituição Brasileira e na Nova Lei de Diretrizes e Bases (Nova LDB), é assegurada a todos a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, bem como o oferecimento dos padrões mínimos de qualidade de
ensino, enquanto que ao nos voltarmos ao cotidiano, vemos um distanciamento entre a prática e o suporte legal. Segundo Silva (2002), a situação se torna mais crítica quando levamos em consideração as diferenças regionais, tendo o Nordeste como uma das regiões mais sofridas, tanto em relação à falta de estrutura mínima das escolas, quanto ao baixo número de crianças matriculadas e também a falta de capacitação dos docentes. Isso faz com que se agrave cada vez mais a distância entre o padrão mínimo de qualidade de ensino e a realidade das instituições escolares.
Problema semelhante pode ser observado no sistema de saúde. Enquanto os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), garantem acesso e qualidade nos serviços de saúde à toda população, o que se observa na prática são profissionais trabalhando com recursos mínimos e uma população que, muitas vezes, não tem nem sequer as condições mínimas de atendimento. Além disto, observamos diariamente que os hospitais públicos são, na maioria das vezes, hiper-lotados, falta a infraestrutura mínima para funcionamento e os profissionais que neles atuam são em pequena quantidade, não atendendo à demanda.
Desta forma, é fácil observar que estamos trabalhando com organizações cujo ramo de atividade é diferente, porém, em ambos os ramos, as organizações vivem realidades que se assemelham pela precariedade, porque passam por muitas dificuldades e têm muitas limitações. As manifestações de precariedade se diferenciam entre elas em decorrência da natureza dos dois setores, por exemplo, nas escolas encontramos escassez tanto em relação ao número de professores, quanto ao pessoal de apoio, principalmente de limpeza; nos hospitais essa escassez se reflete, principalmente, em relação à equipe técnica. É possível observar também as diferenças em relação aos recursos materiais, enquanto nas escolas o material de suprimento (por exemplo: papel, lápis e giz) está aquém das necessidades, nos hospitais os recursos também não atendem
ao que o usuário necessita, se refletindo na compra de medicamentos, que não atendem a demanda, até a falta de recursos para compra de novos equipamentos ou manutenção dos mesmos e pouca melhoria da estrutura física.
Para a aferição da incidência da síndrome de burnout, o ponto de partida é o nível de análise individual, em decorrência do procedimento de coleta de dados adotado, porém, extrapola a este em direção a um nível ocupacional, à medida que avaliando a incidência, adota-se uma perspectiva epidemiológica. Mas, sendo o ponto de partida individual, a população do estudo passou a ser constituída por funcionários técnicos (professores nas escolas e profissionais de saúde nos hospitais) de escolas públicas secundárias e hospitais públicos de Natal (RN). Trabalhou-se com amostras acidentais, embora tenha sido planejada a proporção de profissionais, visando reproduzir as características da população. Nas escolas as amostras foram planejadas com professores. Nos hospitais, com médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, nutricionistas, psicólogos, odontólogos e assistentes sociais porque, segundo a Secretaria de Saúde do Município de Natal, são as profissões de saúde que contam com um maior número de indivíduos atuando no Sistema Único de Saúde (SUS), embora essas informações se prendam ao sistema básico de saúde. Não se encontrou em Natal um órgão que centralize informações gerais sistemáticas sobre os profissionais de saúde que atuam nos hospitais.
As organizações educacionais investigadas foram escolas públicas de ensino médio em Natal (RN). Estas escolas foram escolhidas em função de maior acessibilidade física, mas também levou-se em consideração para constituição da amostra, o fato das escolas serem referência no estado. Esta referência estadual se dá em virtude de serem escolas que existem há muito tempo na cidade e também por serem as maiores escolas públicas de ensino médio em quantidade de alunos. Apesar de serem
escolas situadas em bairros distintos, situadas na Zona Leste e Sul da cidade, as mesmas apresentam características bastante similares tanto em relação à estrutura física, quanto em relação ao funcionamento. Para os hospitais foi utilizado o mesmo critério: serem referência na cidade. Os três hospitais atendem pacientes de todo o estado. No entanto, foi escolhido entre estes, os hospitais de maior acessibilidade para a coleta dos dados. Desta forma, a amostra foi caracterizada por um hospital militar, um hospital-escola e um hospital especializado, que também, como as escolas, apresentaram bastante semelhanças em relação ao funcionamento e dificuldades (principalmente financeiras) embora atendam a públicos distintos. Estas semelhanças possibilitaram uma homogeneidade na amostra que facilitou um maior controle das variáveis envolvidas na pesquisa e um exame comparativo tanto entre os dois tipos de organizações (escolas versus hospitais), quanto entre as organizações.
Dos questionários aplicados nos dois tipos de organizações, obtivemos 168 questionários válidos para investigação da incidência da síndrome de burnout, sendo que 83 nos hospitais e 85 nas escolas. A amostra foi composta, na sua maioria por pessoas do sexo feminino (57,8%).
Nas escolas o percentual em relação ao sexo, mostrou-se equilibrado, nos hospitais podemos observar uma predominância de entrevistados do sexo feminino, de acordo com a Tabela 1.
Tabela 1. Distribuição dos participantes da amostra por sexo Organização Sexo Escolas Hospitais Total Masculino 42 28 70 50,0% 34,1% 42,2% Feminino 42 54 96 50,0% 65,9% 57,8% Total 84 82 166 100,0% 100,0% 100,0%
Metade da amostra está entre 19 e 36 anos, sendo que as maiores médias encontram-se nas escolas, variando entre 39,3 e 42,8 anos. A média em relação ao tempo de trabalho também é maior nas escolas (M=16,17), no entanto a média de tempo de trabalho na instituição pesquisada é maior nos hospitais (M=10,05), ou seja, os profissionais das escolas começaram a trabalhar mais cedo do que os profissionais dos hospitais, mas trocam mais de organização.
Observamos também que 47% das pessoas investigadas concluíram ensino superior, sendo estes médicos, enfermeiros, assistente social, nutricionista, odontólogos, psicólogos e professores. Com relação ao estado civil, 58,7% dos profissionais investigados são casados, 29,3% solteiros, enquanto os outros 12% estão entre os viúvos, separados e divorciados. Sobre o número de filhos, enquanto nas escolas 51 sujeitos têm filhos, nos hospitais esse número chega a 79 sujeitos, havendo uma diferença significativa entre os dois tipos de organização (qui-quadrado= 29,140, p<0,01). Nos hospitais, 31,6% da amostra não tem filhos. A forma de residência vem reafirmar os dados anteriores, contando com 43,0% da amostra mora com cônjuge e filhos, não tendo diferenças significativas entre as escolas e os hospitais. A renda
familiar das pessoas pesquisadas nas escolas está mais concentrada entre 6 a 10 salários mínimos (44,7%), enquanto nos hospitais a renda encontra-se melhor distribuída entre as faixas salariais, no entanto, ainda podemos observar uma maior concentração entre 1 a 5 salários mínimos (35,8%).
Com relação à religião da amostra, a maioria das pessoas investigadas, tanto nas escolas quanto nos hospitais são católicas (71,4%).
Portanto, pelo que foi descrito da amostra, devemos observar que na análise sobre os escores nos fatores da síndrome de burnout e/ou sua incidência nos participantes da amostra, devemos ter em conta a variação de idade e de sexo por organizações e/ou tipo de organizações (escolas e hospitais), pois há interações entre as mesmas.