1. GENEL BİLGİLER
1.7. Türkiye’de Denizcilik Eğitimi
O primeiro ponto que deve ser considerado quando identificamos um modelo de família característico da década de 50 e estabelecemos esse modelo como um objeto de estudo, é que essa constatação se limita a criar os cenários no qual foi inseria a televisão. A compreensão do cenário histórico, em um sistema mais macro, e do cenário familiar, delimitando o foco em um sistema mais micro, serve para esclarecer algumas dúvidas que poderiam vir a surgir ao longo deste trabalho.
Conhecer esse universo anterior a introdução da televisão é essencial para entender o porquê de seus desdobramentos na sociedade e, especificamente, na esfera familiar. Exatamente por esse caráter ilustrativo deste primeiro capítulo é que o apontamento das funções do pai e da mãe será realizado de forma mais superficial. O presente trabalho não presente entrar no mérito antropológico da questão, pois estaria fadado a percorrer um percurso que não responderia ao objetivo do trabalho de avaliar o processo de introdução da televisão na esfera familiar paulistana nos anos 50.
O ponto de partida para essa avaliação do papel do pai e da mãe é o estudo das principais atividades realizadas por eles e a representação simbólica que esses comportamentos trazem consigo ao universo da família. O pai, por exemplo, tem a responsabilidade de atuar em diversas frentes relativas à ordem da família, tal como ser o provedor do sustento e a figura de identificação para com os filhos. Desta forma, começamos a análise do papel do pai considerando que o chefe de família exerce duas
funções distintas, mas que se complementam para a criação da dinâmica que dará o tom dos relacionamentos entre os familiares.
Até pode parecer um pouco redundante, e talvez o seja, porém é importante frisar que na maior parte dos casos dentro do modelo patriarcal, o pai é o principal meio pelo qual a família obtém seu sustento. Os gastos com a compra do imóvel, o aluguel, os meios de transporte, a alimentação, a escolaridade, e uma infinidade de contas que vencem todo mês, estão sob o olhar atento do pai de família. É ele quem cuida das finanças e que se coloca no centro das atividades relacionadas ao dinheiro.
Não é à toa que sua posição lhe confere um certo grau de poder, pois o fato de mexer com o fluxo de dinheiro da casa passa a interferir diretamente no tipo de relacionamento que estabelece com os demais. A boa administração das finanças parece lhe garantir o poder do estabelecimento das regras que regem a casa, os acontecimentos organizados por ordem de importância, os horários, os pontos de encontro distribuídos entre os diferentes cômodos da casa, etc. De forma mais acentuada, o modelo patriarcal exposto representa o perfil de uma grande maioria das famílias da década de 50 que estão inseridas nas camadas de classe média e alta, mas também havia famílias inseridas nos extratos mais pobres da população que acabavam fugindo desse modelo quando a mulher também tinha que trabalhar para colaborar, ou até mesmo arcar, com os gastos familiares.
Não há como negar que a mudança do cenário relativo ao período de participação da mulher no mercado de trabalho, iniciado em meados do século XX, acompanhando a onda de revoluções na forma de produção de bens de consumo, põe em cheque o lugar da mulher na sociedade (MORIN, 2003, p. 156). Essa espécie de “crise feminina” interferiu, de certo modo, na forma de estruturação do modelo de família patriarcal, só que o homem buscou acompanhar esse processo de mudanças a fim de se manter no centro do núcleo familiar e continuar atuando como chefe de família.
Isto é, apesar de toda mudança ocorrida na passagem do século XIX para o século XX constatamos que esse modelo de organização do núcleo familiar se perpetuou. A maior parte dos casais dos anos 50 se encaixa no perfil de que o pai e a mãe são peças centrais que dão origem à família, aos filhos e seus descendentes. A prole herda as
características dos ascendentes e, por herança cultural, tende a manter esse modelo de família coordenado pelo chefe de família.
Na verdade, esse é o primeiro ponto relativo ao papel do homem no núcleo familiar, partindo de uma visão econômica que recai diretamente sobre o tipo de vínculos estabelecido com os entes da família. O pai como provedor do sustento, trabalhador e chefe de família é a figura com maior influência de decisão sobre o complexo jogo de relações sociais. De um lado está o interesse do pai na manutenção de uma ordem social que lhe assegure mais poder e que não ameace sua própria existência, do outro, está a descendência que quer atuar nesse meio social, mesmo sabendo que faz parte de um universo familiar previamente instituído.
O interesse do filho em querer atuar nesse meio social não é um jogo de forças entre quem tem mais poder na esfera familiar, pois não se trata de um julgamento sobre o funcionamento das famílias e a forma como o pai exerce seu papel de maneira a estabelecer a ordem dentro dessa organização. A principal questão a ser considerada é que o pai ocupa o posto mais alto da hierarquia estabelecida no modelo patriarcal, ele é o chefe da família e o símbolo de uma figura que por sua influência pode ser imitado.
A imitação, o faz-de-conta, a brincadeira organizada pelas crianças para imitar os adultos é exatamente essa capacidade que os filhos têm em se colocar no papel do chefe de família. As crianças que se vestem com as roupas dos pais, sendo que esse fenômeno também é observado nas crianças de sexo feminino e a imitação de suas mães, porque se divertem ao imaginar como seria poder realizar as mesmas atividades que seus pais exercem. Na verdade, essa brincadeira de imitação é uma criação de valores que regem o universo dessa esfera familiar e é por causa dessa re-montagem da hierarquia do modelo patriarcal que essa função de representação da ordem é conferida ao pai.
“(...) a brincadeira tem uma função significativa no processo de desenvolvimento infantil. Ela também é responsável por criar ‘uma zona de desenvolvimento proximal’, justamente porque, através da imitação realizada na brincadeira, a criança internaliza regras de conduta, valores, modos de agir e pensar se deu grupo social, que passam a orientar o seu próprio comportamento e desenvolvimento cognitivo”. (REGO, 1999, p. 113)
Talvez nesse ponto seja importante considerar que a imitação é uma característica observada em crianças tanto dos núcleos familiares regidos pelo casal hierarquizado do modelo patriarcal quanto das famílias monoparentais, por exemplo. É correto salientar que a brincadeira de imitar pode ser observada nas crianças de famílias dos perfis mais variados, uma vez que o faz-de-conta da imaginação é livre para a criação. “No homem, a representação de um mundo pode existir à revelia de qualquer percepção” (CYRULNIK, 1995, p. 110).
O que acontece especificamente no caso do modelo da família patriarcal é que o papel dos pais, mais notadamente do pai, está definido em uma hierarquia que lhe confere certo grau de poder. Na hora do “ritual de cópia12”, a criança se apropria desse modelo que está mais próximo á sua realidade e acaba por repeti-lo em suas brincadeiras.
O pai é, portanto, a figura central que dá sustento a toda organização da família. Nele estão expressos os esforços de manutenção dos laços familiares, a busca pela dinâmica entre o casal genitor e a insistente idéia de manutenção da linhagem da família pelos filhos. O mais curioso é que a esfera familiar está em constante processo de transição: o filho que cresce dentro desse ambiente se torna adulto e institui sua própria família, com mulher e filhos. Se a família constituída estiver numa esfera pautada nos moldes patriarcais, ele passa a ser o chefe de família.
“Mesmo depois que o indivíduo desenvolvido deixou seus genitores e estabeleceu uma nova família, a sua relação com eles se mantém viva. Em todas as sociedades primitivas, sem exceção, a comunidade local – clã ou vilarejo – é organizada por meio de uma gradual extensão das ligações familiares. A natureza social das sociedades secretas, das unidades totêmicas e dos grupos tribais se apóia invariavelmente em concessões de obséquios, associadas à localidade por meio do princípio de autoridade e de hierarquia; mas, apesar de tudo isso, está ainda nitidamente vinculada à relação familiar originária”. (MALINOWSKY, 1981, p. 137)
12 Como apresenta Teresa Cristina Rego em seu livro Vygotsky – uma perspectiva histórico-cultural da
educação, “ritual de cópia” é a terminologia empregada por Vigotski para fazer referência ao processo de aprendizagem que amplia o repertório das crianças, diferentemente da proposta de imitação mecânica e literal dos modelos fornecidos pelos adultos.
De uma forma geral, o filho que se torna homem e lança vôos para a criação de sua própria família também pode ter filhos, que por sua vez, tende a perpetuar a ordem da família anteriormente estabelecida. O filho que se torna pai procura manter a ordem da família pela questão da autoridade e da hierarquia, além do poder de decisões que lhe é conferido com o passar do tempo e o número de responsabilidades que assume para o sustento da família. É necessário ressaltar que essa idéia de perpetuação de organização familiar se refere à manutenção da estrutura característica do modelo patriarcal e que se observa, de modo determinante, no período estudado neste trabalho. Um olhar atual, do início do século XXI, acerca dessas considerações da busca pela perpetuação do modelo patriarcal resultaria inviável.
Desse modo, observamos que o parentesco é fundamental para a idéia de perpetuação da família. O pai é a figura representante do parentesco, que assegura o lugar do filho no mundo por uma seqüência de vinculação do núcleo familiar pai – mãe – filhos. Ser filho de determinado pai é o que garante o vínculo vital de pertencimento a um determinado grupo social, suas ligações familiares e a forma como vai estabelecer e manter outros vínculos com pessoas de camadas periféricas. “É preciso, pois, pertencer. Não pertencer a ninguém é não se tornar ninguém”. (CYRULNIK, 1995, p. 75)
Seu papel de representação da manutenção da vida em uma determinada ordem social, pela manutenção do número de integrantes que carregam os mesmos genes, também pode ser visto como o de um guardião. Ele guarda, cuida e protege a família. Exerce seu poder de decisão visando à manutenção dessa estrutura que o chama para que seja um chefe de família, a fim de que continue existindo um determinado grupo social sob seu simbolismo de ocupação do cargo mais alto do núcleo familiar. Essa é a grande complexidade que gira em torno da questão do chefe de família, a necessidade de se manter no topo da pirâmide do modelo familiar, ao passo em que o modelo só existe a partir da figura paterna.
A figura do pai é fundamental do modelo patriarcal, contudo o papel exercido pela mãe também merece destaque. É dela a responsabilidade do nascimento, na medida em que possibilita trazer uma nova vida ao mundo através da geração, e do desenvolvimento ao alimentar os filhos que a acompanham por todas as etapas de seu
desenvolvimento. Mais do que isso, a mãe está no centro das atividades que auxiliam no desenvolvimento do bebê para o estabelecimento de condições de vida sadia.
Os primeiros meses de vida da criança são, em grande parte, responsáveis por muitas das implicações pessoais que apresentamos depois de adultos. A forma como a mãe se vincula com o bebê e possibilita a vinculação dele com outras pessoas da família dá sustento aos relacionamentos que o situarão no mundo. É sabido que pelo nascimento já se estabelecem uma série de conexões de pertencimento ao grupo. O universo no qual é inserida a criança depende da maneira como a mãe coloca o filho dentro dessa colcha de retalhos sociais.
“Esse amor da mãe e das outras pessoas, que desde a infância forma o homem de fora ao longo de toda a sua vida, dá consistência ao seu corpo interior. É verdade que não lhe proporciona uma imagem intuitivamente evidente do seu valor externo mas lhe faculta um valor potencial desse corpo, valor que só pode ser realizado por outra pessoa”. (BAKHTIN, 2003, p. 47)
Considerar que a família está além de um microssistema relacionado com um macrossistema social, sendo uma estrutura que contém em si a esfera da cultura e a esfera da natureza (CANEVACCI, 1981, p. 29), leva-nos a pensar que a mãe é a figura que leva a cultura e a natureza à criança. Não há outra forma de relação tão verdadeira e forte como o contato entre mãe e filho, pois a mãe é a principal ligação entre o recém-nascido e o mundo exterior. Mais do que esse contato, a mãe é o principal vínculo estabelecido com o mundo e pelo qual a criança expressa suas necessidades para a sobrevivência.
Se antes falávamos do papel do pai partindo de uma visão social hierarquizada dentro do padrão familiar patriarcal, nesse momento devemos deixar um pouco a estrutura fixa dos modelos familiares. Esse distanciamento momentâneo se deve ao fato de que a conexão existente entre mãe e filho não se refere a um tipo de perfil social familiar, não é uma questão de categorização. A criação dos vínculos existentes entre a mãe e o filho é objeto de estudos da filogênese e da ontogênese humana.
Sendo assim, essa relação é o que de mais intrigante podemos encontrar na comunicação da esfera familiar, uma vez que o recém-nascido, que não domina as
estruturas da comunicação verbal, consegue se comunicar com a mãe. Evidentemente a forma de comunicação se dá por um viés diferenciado se observarmos que o bebê não domina a fala e que ainda assim consegue expressar sua necessidade de sobrevivência por meio do choro. Nesse caso, o choro do recém-nascido é comunicação.
Partir do princípio de que o choro é comunicação abre caminhos para a consideração de que há outras possibilidades de comunicação. Isto é, implica na utilização de artefatos que dependam menos do domínio de um código lingüístico como as palavras e o processo de fala. A criança utiliza o processo de linguagem não-verbal, provavelmente característico de “um período pré-linguístico do pensamento e um período pré-intelectual da fala” (VIGOTSKI, 2003, p. 149).
Além do choro, a amamentação é um bom exemplo da capacidade de comunicação entre mãe e filho. Como foi apresentado até aqui, cotidianamente as palavras e os gestos apresentados no momento do encontro se tornam referências de comunicação primeira entre aqueles que já possuem todo o arsenal para o desempenho de tal função semântica visando ao entendimento. Só que, no caso do recém-nascido, não há a bagagem necessária para que seu aparato pessoal, portanto o corpo, esteja em condições de comunicar o que pretende de um modo direto e fácil de ser compreendido.
Melhor dizendo, o recém-nascido tem condições de comunicar o que está sentido ao utilizar um aparato que não são as palavras. Seu corpo como um todo é uma forma de comunicação que dá o alerta para a mãe de que está precisando de carinho, aconchego ou leite, ainda que inconscientemente. A consciência da mãe, de que todo o corpo do bebê comunica, transforma o levar o bebê ao seio para a alimentação num ato de amor e de pura comunicação. A amamentação é o momento ápice em que mãe e filho se põem em contato, se unificam e compartilham um momento único de vinculação. Talvez, seja a forma mais explícita de representar o vínculo quando se define como “o capturar e o deixar-se ser capturado13”.
A mãe se deixa ser capturada pelo bebê, pelo corpo que pede calor, pelos dedos que se mexem numa dança incessante, pela boca que lhe agarra o seio. O
recebimento de alimento passa a ser uma representação da comunicação em sua forma mais pura de vínculo dentro da família. Essa construção da mãe de um lado, e do bebê de outro, que compartilham uma mesma realidade no momento da amamentação é um exemplo de como a comunicação pode atingir um âmbito mais amplo daquilo que conhecemos como comunicação verbal, propriamente dita.
Um último aspecto que deve ser levado em conta nessa questão da amamentação foi o desenvolvimento dos centros urbanos nas últimas décadas. A conseqüente variação de hábitos fez com que, entre outras coisas, a mãe tivesse que trabalhar para colaborar com a sustentação da casa no mesmo período em que o recém- nascido ainda precisa ser amamentado. O conflito entre a mãe, que tem de trabalhar, e o filho, que tem de ser amamentado, gera uma série de questões que ainda não foram avaliadas. Ainda não se sabe quais foram e serão as conseqüências das transformações ocorridas a partir da segunda metade do século XX, tanto para a comunicação como para a transformação das famílias de modelo patriarcal, características dos anos 50, e que hoje estão se organizando em torno de outros pilares estruturais.
“A consciência extraordinária da ligação entre o início da comunicação semântica e os processos de pensamento, de um lado, e as primeiras relações mãe-criança, de outro, deve ser uma advertência para que se reflita. Bem podemos nos interrogar sobre até que ponto a alimentação dos bebês com leite artificial e mamadeira pode ter influenciado o desenvolvimento da mente ocidental nos últimos cinqüenta a oitenta anos. É relativamente fácil demonstrar tal influência no desenvolvimento individual. Mas a questão mais importante é como isso pode ter influenciado mudanças no homem ocidental, nos seus modos de comunicação, e se influenciou, e como, suas relações com o ambiente, seus símbolos verbais e não-verbais e, talvez, também seus processos de pensamento”. (SPITZ, 1998, p. 81)
A partir dessa análise sobre os diferentes papéis do pai e da mãe no núcleo originário é que podemos dar continuidade ao trabalho. Notamos a importância de cada um deles, principalmente do pai no caso da família patriarcal dos anos 50, para então compreendermos a forma como se estabelece a relação dos familiares. Essas noções
básicas a respeito das figuras fundamentais para a família dão suporte para que sigamos rumo à compreensão da comunicação no âmbito da família nos anos 50, partindo de uma visão que contemple a criação dos vínculos comunicativos.