Como se viu na seção 2.1, Goldberg (1995) desenvolve o conceito de relações de herança e motivação a partir do estudo de Caso 3 de Lakoff (1987), em que o autor analisa as construções de there (there-Constructions). Nesse estudo, o autor analisa as duas construções centrais de there, as construções dêiticas e as construções existenciais, e propõe que as construções dêiticas motivaram as construções existenciais. Esse estudo será apresentado nesta seção.
Em primeiro lugar, vejamos exemplos dessas duas construções71:
(122) Dêitica: There’s Harry with his red hat on. (123) Existencial: There was a man shot last night.
Segundo o autor, há várias diferenças entre essas construções. Na frase (122), o dêitico there é usado para escolher uma localização em relação ao falante, porém, na frase (123), não se verifica uma localização, mas a existência de um evento, i. e., o fato de um homem ter sido baleado na noite anterior. Ademais, normalmente, o dêitico there é usado junto com o gesto de apontar, o que não ocorre nas construções existenciais, e apresenta uma ênfase, enquanto o existencial there não possui ênfase e sua vogal pode estar reduzida.
Há também algumas diferenças sintáticas entre essas construções. Conforme Lakoff (1987), nas existenciais, there é sujeito (ele pode ser usado em uma tag-
question, por exemplo) e não pode ser substituído por here. Destaque-se também que as
construções dêiticas não podem ser negadas ou usadas de modo encaixado em uma sentença. No entanto, Lakoff e outros autores (FILLMORE, 1968, THORNE,1973, KUNO, 1971 e LYONS, 1968 apud LAKOFF, 1987) defendem que não é acidente o fato de there ocorrer nas duas construções. O autor destaca que a explicação mais comum é dizer que as construções existenciais são uma extensão das construções dêiticas, visto que as coisas que existem devem estar localizadas em algum lugar. Contudo, afirma que é uma explicação muito superficial e, para mostrar a relação entre essas duas construções, Lakoff analisa as subconstruções dêiticas there, defende que essas construções foram motivadas pelas construções dêiticas there centrais, e mostra como formam um continuum com as construções existenciais there.
Lakoff mostra que, dentro da categoria de construções dêiticas there, há várias subconstruções, que seriam variações da construção central. O autor trabalha com a
teoria de protótipos e defende que “as construções dêiticas formam uma categoria
natural com as construções dêiticas centrais como protótipos. Em grande parte, as
71
construções dêiticas não prototípicas são baseadas nas construções dêiticas centrais”
(LAKOFF, 1987, p. 556)72.
A seguir, apresentam-se a construção central e as subconstruções dêiticas there:
Construção central:
(124) There’s Harry with the red jacket on.
Subconstruções:
(125) Perceptual: There goes the bell now!
(126) Discursiva: There’s a nice point to bring up in class. (127) Existencial: There’s goes our last hope.
(128) Atividade inicial: There goes Harry, meditating again. (129) Entrega: Here’s your pizza, pipping hot!
(130) Modelo: Now there was a real ballplayer!
(131) Exasperação: There goes Harry again, making a fool of himself. (132) Foco narrative: There I was in the middle of the jungle… (133) Novo empreendimento: Here I go, off to Africa.
(134) Apresentação: There on that hill will be built by the alumni of this university a ping-pong facility second to none.
A construção dêitica central é uma sentença que possui um dêitico locativo adverbial; um SN que é uma entidade visível, que não pode ser uma proposição, evento ou estado; um verbo de moção e um advérbio locativo. Essa construção é uma cláusula simples e expressa o ICM73 de apontar. Quanto às subconstruções, Lakoff (1987, p. 508) propõe que cada uma delas herdará da construção central todos os parâmetros de forma e significado, exceto aqueles que explicitamente contradizem os parâmetros listados para as subconstruções.
Assim, a construção dêitica perceptual difere da construção dêitica central, porque esta designa uma localização física no espaço e aquela se refere a uma
72 “(…) the deictic constructions forma a natural category with the central deictic as prototype. For the
most part, the nonprototypical deictic constructions are based on the central deictic” (LAKOFF, 1987, p.
556).
73
Segundo Lakoff (1987, p. 68), nós organizamos nosso conhecimento por meio de estruturas chamadas
de modelos cognitivos idealizados (ICM’s), e essas estruturas e seus efeitos prototípicos são subprodutos
dessa organização. Esse modelo, de acordo com o autor, se parece com o conceito de frame desenvolvido por Fillmore (1982).
localização perceptual, mais do que física. Por exemplo, em (125), o falante quer dizer que o sino tocará novamente. Pode-se ver, nessa construção, uma metáfora, pois there se refere a uma localização em um espaço perceptual não visual. Já as dêiticas discursivas são usadas para se referir a alguma coisa no discurso. A dêitica existencial mostra que alguma coisa existe na presença do falante e, conforme Lakoff (1987, p. 518-519), essa construção é mapeada como uma metáfora, visto que “existir é estar localizado. Além disso, nós sabemos que algo existe se está em nossa presença; caso
contrário, não podemos ter certeza” (LAKOFF, 1987, p. 518)74
. No caso da dêitica de atividade inicial, não se observa ação ou moção, apenas a marcação do começo de uma atividade. Por exemplo, em (128), o falante mostra que Harry vai começar a meditar. Em relação à dêitica de entrega, observa-se que ela é usada somente em uma situação de entrega de um produto. Ressalte-se que o advérbio dêitico there não apresenta ênfase e a vogal desse advérbio pode estar alongada. Já a dêitica modelo ocorre quando o falante destaca uma entidade que serviria como um modelo para as demais. Em (130), por exemplo, aponta-se um jogador que seria considerado o modelo de sua categoria. Nesses casos, de acordo com o autor, haveria uma entonação específica e ocorreria um mapeamento metonímico. A construção dêitica de exasperação é usada para sinalizar a raiva do falante com o comportamento de alguém. No exemplo (131), alguém demonstra impaciência com alguma atitude de Harry. Segundo Lakoff, parece que a metáfora de uma atividade de moção ocorre nesses casos, porque there designa o início de uma atividade. Além disso, a exasperação deve ser indicada por um suspiro, uma contração na garganta, uma leve nasalização ou até um contorno de entonação. Em relação às construções dêiticas de foco narrativo, Lakoff afirma que os falantes podem usar essa construção para focar um participante da narrativa ou para focarem a si próprios. Pode-se ver, por exemplo, que, em (132), o falante coloca o foco sobre si mesmo. A construção dêitica de um novo empreendimento apresenta uma entonação crescente com uma queda no final e é usada para marcar o entusiasmo do começo de um novo empreendimento. Para Lakoff, essa construção apresenta uma interseção com a dêitica de atividade inicial. Por fim, a construção dêitica de apresentação, de acordo com o autor, apresentaria uma diferença sintática em relação à construção dêitica central, porque aquelas, em vez de utilizarem um verbo, utilizam um verbo ou uma expressão verbal composta ou um verbo principal e um auxiliar. Em (134), utilizou-se,
74“To be is to be located. Moreover, we know that something exists if is in our presence; otherwise, we3
por exemplo, will be built. Além disso, a dêitica de apresentação tem dois usos. Pode ser usada para indicar uma descoberta, introduzindo ou reintroduzindo um referente no discurso e também pode ser usada para indicar algo que o falante considera extremamente significativo, como no exemplo (134), em que se pretende chamar a atenção para a nova construção.
Como vimos no início dessa seção, as construções dêiticas centrais there diferem-se bastante das construções existenciais there. Entretanto, observando-se as subconstruções dêiticas there, é possível perceber que algumas delas estão mais próximas das construções existenciais. Por exemplo, vimos que as construções dêiticas perceptuais e as discursivas não se referem a uma localização no espaço, mas a uma localização abstrata na percepção e no discurso, respectivamente. Vimos também que as construções dêiticas existenciais, para caracterizar a existência, referem-se a uma localização no espaço conceptual. Além disso, quando o advérbio there das construções dêiticas de entrega não tem ênfase, é praticamente idêntico ao there das construções
existenciais. Portanto, “há um continuum entre as dêiticas espaciais there e a existencial
there” (LAKOFF, 1987, p. 541). Para Lakoff, esse continuum mostra a organização da
gramática inglesa. O autor defende que a categoria das construções existenciais está paralela à categoria das construções dêiticas ou, em outras palavras, as construções existenciais se baseiam nas construções dêiticas.
Nesse estudo, o autor apresentou as subconstruções existenciais there, que estão representadas a seguir75:
Construção central:
(135) There’s a masked man outside.
Subconstruções:
(136) Estranha: There’s a man been shot. (137) Ontológica: There IS a Santa Claus. (138) Infinitiva: There’s food to eat.
(139) Apresentação: There walked into the room a tall blond man with one black shoe.
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Lakoff (1987) mostra que a subconstrução estranha difere da construção existencial central, porque o auxiliar na sentença não é o verbo to be, mas o verbo to
have. A construção ontológica é utilizada quando existe uma discussão sobre a
existência de uma entidade e, normalmente, o verbo tem mais ênfase. Por exemplo, em (137), o falante defende a existência do Papai Noel e a forma verbal “is” está em caixa alta para marcar a ênfase. Já a construção infinitiva apresenta uma oração reduzida de infinitivo, cujo sujeito não é preenchido e é correferente ao SN anterior. Na construção (138), por exemplo, a oração de infinitivo apresenta uma lacuna, pois se pode pensar em
algo como “to eat ____”. Como se pode ver, o SN que completa essa lacuna é “food”.
Por fim, a construção existencial de apresentação traz a entidade designada pelo SN para dentro da narrativa. Isso significa, tomando como exemplo a sentença (116), que o falante traz para dentro do espaço mental do ouvinte, que também é o espaço mental da
narrativa, a entidade (nesse caso, um “homem alto, loiro e com sapato preto”).
De acordo com Lakoff (1987), se assumirmos que as línguas são estruturadas para maximizar a motivação, então, devemos esperar que categorias estruturadas radialmente sejam prevalecentes, uma vez que elas ajudam o sistema a maximizar a motivação. Assim, a motivação deve ser pensada como um sistema de redundâncias, em que todas as estruturas do sistema conceptual e da gramática devem ser consideradas juntas.
Lakoff assume que as construções são usadas como um todo, como entidades
gestalts, o que significa dizer que as construções não são uma soma de suas partes.
Dessa forma, “quanto mais as propriedades da construção são motivadas, mais
funcionam como um gestalt”76 (LAKOFF, 1987, p. 538). O autor ressalta que bons
gestalts são, cognitivamente, mais simples, mais fáceis de aprender, de lembrar e de
usar. Lakoff destaca também que “se A é um bom gestalt, e B é uma variação mínima
de A, então B é quase tão bom gestalt quanto A” (LAKOFF, 1987, p. 538)77. Assim, a razão de nosso sistema cognitivo ser organizado em bons gestalts e variações mínimas deve-se ao fato de que isso maximiza nossa eficiência cognitiva, haja vista que bons
gestalts e suas variações mínimas são fáceis de aprender, lembrar e usar.
Para relacionar suas análises, Lakoff (1987) se vale destes quatro modelos cognitivos:
76 “The more a construction’s properties are motivated, the better it functions as a gestalt” (LAKOFF,
1987, p. 538).
77 “If A is a good gestalt, and B is a minimal variation of A, then B is almost as good a gestalt as A”
- Modelos proposicionais: que são aqueles que especificam os elementos, suas propriedades e as relações entre eles. Por exemplo, apresentaram-se as construções e subconstruções dêiticas e existenciais there, suas propriedades e como elas estão relacionadas.
- Modelos de imagem-esquemáticos: que são aqueles que mostram as imagens esquemáticas. Por exemplo, nosso esquema sobre os lápis incluem que eles são objetos longos e finos.
- Modelos metafóricos: em que um modelo de imagem-esquemático ou proposicional de um domínio são mapeados para uma estrutura correspondente em outro domínio. Por exemplo, as construções dêiticas perceptuais mapeiam a localização física no espaço de there das construções dêiticas como uma localização em um espaço perceptual.
- Modelos metonímicos: nos quais um elemento de um modelo faz referência a outro. Por exemplo, em um modelo que representa parte-todo, deve-se permitir que a parte represente o todo. Assim, nas subconstruções dêiticas de modelo, como mostrado no exemplo (130), aponta-se um jogador que seria considerado o modelo de sua categoria.
Outro autor que teoriza sobre as relações entre as construções e sobre o papel da motivação é Norrick (1981), que será apresentado a seguir. Ao contrário de Lakoff, Norrick apresenta as relações semânticas entre itens lexicais, mas suas conclusões são importantes, porque, assim como Lakoff, as extensões de sentido são baseadas em princípios metafóricos e metonímicos, que são os mecanismos de extensão de sentido mais recorrentes nas relações de herança de nossa análise.