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Os verbos ser, estar, ter e haver integram a maior parte das construções analisadas nesta pesquisa. Por essa razão é tão importante apresentar a análise quantitativa e histórica realizada por Mattos e Silva (1992). A autora, nesse texto, analisa a variação dos verbos ser e estar e dos verbos ter e haver em textos dos séculos XIV e XV e, embora não trate esses verbos como leves, seus resultados ajudam a corroborar as análises realizadas na tese.

Segundo a autora, em relação às construções de posse, realizadas pelos verbos

ter e haver, a natureza do complemento desses verbos condiciona sua natureza

semântica. Dessa forma, a autora define três tipos semânticos de complementos para esses verbos:

- qualidades inerentes, não transferíveis, tais como características ou estados físicos do possuidor, sujeito da frase (abrev. QI);

- qualidades adquiríveis imateriais: morais, espirituais, intelectuais, afetivas, sociais (abrev. AI);

- objetos materiais adquiríveis, externos ao possuidor (abrev. AM). (MATTOS E SILVA, 1992, p.90).

Mattos e Silva (1992) destaca que, nos dados do século XIV, as estruturas do tipo QI ocorriam exclusivamente com o verbo haver, já nas estruturas do tipo AI e AM, esses verbos pareciam variar. Os dados do século XIV mostraram também que as estruturas do tipo AI ocorriam predominantemente com o verbo haver (80%) e as estruturas do tipo AM ocorriam preferencialmente com o verbo ter (82%). Entretanto, a análise dos itens lexicais que compunham essas estruturas mostrou que o verbo ter, nas estruturas do tipo AI, só se apresentaram com o complemento fé, ao passo que o verbo

haver vinha seguido por mais de 20 itens lexicais diferentes como complemento. Então,

a autora declara que a variação ocorria de fato com as estruturas do tipo AM.

É interessante observar que a variação dos verbos ter e haver começa a ser verificada com os três tipos de complemento nos textos escritos entre 1418-1442, mas, nas estruturas do tipo QI, há uma predominância de haver sobre ter. Nos textos escritos entre 1468-1477, a variação continua, mas a situação se inverte, a variante nova predomina em todos os tipos de estruturas. Segundo a autora, a difusão do verbo ter

“parte dos contextos do tipo AM para os de tipo AI e, por fim, atinge os de tipo QI”

(MATTOS E SILVA, 1992, p. 91).

Esses dados mostram que o verbo ter integra mais construções cujos complementos são de objetos materiais adquiríveis ou, nos termos desta tese, construções de posse material, sentido que o verbo apresenta desde o latim. Já o verbo

haver, como se pode observar, integrava, desde o século XIV, mais construções do tipo

AI ou, nos termos deste trabalho, as construções de posse abstrata, embora, no latim, o verbo haver seja o verbo básico para expressão da posse, significando ter em sua posse,

guardar e, como sentido figurado, significava ter na mão (MATTOS E SILVA, 2006,

p. 154). O sentido lexical básico etimológico desses verbos, como se verá nas seções 4.4.1 e 4.4.2, será considerado o uso pleno desses verbos.

Em relação aos verbos ser e estar, Mattos e Silva (1992) declara que a oposição existente entre eles, que denotam, respectivamente, estado permanente e estado transitório, nos dias de hoje, não existia no português arcaico. Segundo a autora, esses verbos poderiam ser usados em estruturas locativas e em estruturas descritivas. Havia variação dos verbos ser e estar nas estruturas locativas e descritivas que apresentavam o

traço [+ transitório] e o verbo ser era o predicador responsável por marcar os atributos que ilustravam o traço [+ permanente]. Observem-se os exemplos a seguir22:

(65) Seendo o honrado padre em as cela. (DSG, 2.7.2). (66) O servo de Deus estando em as cela (DSG 2.11.3).

(67) As sas duas irmããs que eram mui coitadas pola as morte, veeron ao bispo. (DSG, 1.29.7)

(68) Estando huu dia seu padre e os físicos mui coitados com eles, disse-lhis o bispo...(DSG, 5.10.56)

Nas ocorrências (65) e (66), observa-se a variação dos verbos ser e estar nas estruturas locativas e, nas ocorrências (67) e (68), nas estruturas descritivas.

De acordo com a autora, na 2ª metade do século XIV, o verbo ser predominava ligeiramente nas locativas em geral, mas o verbo estar predominava nas estruturas locativas que denotavam um estado transitório e o verbo ser predominava nas estruturas descritivas que denotavam um estado transitório e permanente, como se pode ver na tabela a seguir23:

Tabela 1- Variação dos verbos ser e estar nas estruturas locativas e descritivas da 2ª metade do século XIV.

Ser Estar

Locativas em geral 52,8% 47,2%

Locativas transitórias 29,3% 70,7%

Descritivas em geral 92,2% 7,8%

Mattos e Silva conclui que a marca de [+transitório] do verbo estar se firmou nas locativas para depois se estabilizar nas descritivas. Esses dados são importantes, pois podem ser indício de que, como se poderá ver no capítulo 4 (cf. seção 4.2.4), as construções locativas transitórias motivaram as construções descritivas transitórias.

22

Os exemplos de (65) a (68) foram retirados de Mattos e Silva (1992, p.88).

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A autora também utiliza os dados da pesquisa de Sepúlveda Neto (1989 apud MATTOS E SILVA, 1992) para mostrar a variação de ser e estar nas estruturas locativas e descritivas do século XV. Vejamos a tabela a seguir24:

Tabela 2- Variação dos verbos ser e estar nas estruturas locativas e descritivas da 1ª metade do século XV.

Ser Estar

Locativas transitórias 26,2% 73,8%

Descritivas transitórias 77,8% 22,2%

Os dados da tabela 2 corroboram os resultados apresentados por Mattos e Silva, i. e., na 1ª metade do século XV, o verbo estar predomina nas estruturas locativas transitórias e o verbo ser predomina nas estruturas descritivas transitórias. Contudo, Sepúlveda Neto destacou que, analisando um pequeno corpus de 1540, aproximadamente um século depois, o verbo ser já não ocorre nas locativas transitórias e ocorre uma única vez nas estruturas descritivas transitórias, mesmo assim essa ocorrência era a tradução de um texto latino que apresentava, no texto original, o verbo

esse.

Mattos e Silva (1992, p.89) argumenta que “a oposição semântica ser/estar em

estruturas atributivas estava concluída no século XVI e se difundiu dos contextos

locativos para os descritivos”.

A variação apresentada por esses verbos na pesquisa de Mattos e Silva é mais um indício de que, como destacou Goldberg (1995), a mudança de lugar pode ser mapeada como uma mudança de estado. No caso das construções que denotam um estado transitório do experienciador, não há uma mudança de estado, mas sim um estado transitório, contudo, acredito que, ainda assim, pode-se dizer que as construções de estado transitório foram motivadas pelas construções de lugar transitório (cf. seção 2.1).

Convém destacar também que Mattos e Silva (2006, p. 141) não distingue os usos plenos e leves dos verbos ser e estar, mas destaca que, no período arcaico, esses verbos podiam ocorrer semanticamente plenos seguidos de gerúndio. O significado lexical etimológico de ser seria estar sentado e o de estar seria estar de pé, de acordo

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com a autora. Dessa forma, partindo do significado lexical etimológico, consideramos que esses verbos apresentam as contrapartes leves e plenas.

Na próxima seção, serão apresentadas resenhas sobre os verbos psicológicos e,

por conseguinte, as construções que esses verbos integram (CSVPsico’s). Nessas

resenhas, como se poderá ver, os autores verificam também a ocorrência de construções formadas por verbo leve+objeto que remetem ao frame dos verbos dessa classe

(CSVL’s).

1.3 Estudos das construções de sentimento integradas por verbos psicológicos