Quando falamos de supranacionalidade, estamos falando da perda de parte da soberania de uma nação em prol de uma outra maior e superior à existente. Porém estamos falando também, de forma mais concreta, de um tribunal supranacional, o Tribunal de Justiça Supranacional (no caso europeu, o Tribunal de Justiça da Comunidade Européia). Esse tribunal tem como objetivo e função a solução de eventuais conflitos entre os Estados-membros e a supervisão, pelas autoridades nacionais, do respeito às normas que regulam o funcionamento do processo de integração. Essa definição e ótica é válida para as entidades e pessoas de Direito Público, uma vez que, aos olhos das entidades e pessoas de Direito Privado, o tribunal supranacional reveste-se de entidade jurisdicional independente das vontades nacionais de cada Estado, tendo capacidade inclusive de proteger os seus legítimos interesses no processo de integração e na resolução de eventuais conflitos posteriores. Assim sendo, o Tribunal de Justiça Supranacional tem a função de desempenhar duas tarefas fundamentais: internamente, controla a validade dos seus atos, e, no plano externo, tem a missão de apreciar a legitimidade e pertinência dos acordos celebrados com terceiros, Estados ou com outras organizações internacionais. Por último, sua relação com os tribunais nacionais dos Estados-membros deve ser encarada como a do Tribunal Supraconstitucional responsável pela harmonização da interpretação e aplicação das normas de Direito Comunitário. Sua finalidade maior passa ser a de evitar os contratempos ao processo de harmonização das leis para todos os Estados- membros que possam advir de uma aplicação controlada de Direito Comunitário
pelos diversos tribunais nacionais no território dos Estados a que pertencem. Essa
aplicação local colocaria indubitavelmente em risco a desejada uniformidade do sistema. A função aqui passa a ser a de um órgão a serviço da comunidade dos Estados-membros capaz de manter a coerência da estrutura legal da zona de integração e adaptar-se às novas demandas de mercado que, com certeza,
aparecerão, pois estamos falando de novos conceitos que deixarão lacunas legais para interpretação e auxílio.
Se a relevância assumida pelos tribunais é facilmente compreensível ao nível da ordem jurídica de um Estado, a sua ação no interior de um processo de integração que pretende coordenar diferentes sistemas legais e tradições não pode igualmente ser depreciada. Na maior parte das situações, na sua existência reside a chave para o equilíbrio fundamental e o harmonioso desenrolar do processo, uma vez que só o poder judicial parece possuir a aptidão necessária para servir de suporte a uma ordem jurídica internacional cujas normas sejam uniforme e
igualmente aplicáveis a todos os membros da organização (TRABUCO, 1999).
Aprofundando um pouco mais a questão jurídica, que, apesar de não ser o tema principal deste estudo, é um fator preponderante de sucesso no processo de integração, dedicar-nos-emos a analisá-la, por entender que as leis materializam as ações da sociedade que as escreve e que a elas se submete.
O processo de integração europeu pode ser enquadrado perfeitamente num exemplo de dinamismo judicial. Criado em 1957 pelo Tratado da Comunidade do Carvão e do Aço, o Tribunal de Justiça viu os seus poderes serem definidos claramente pelo tratado que estabeleceu a Comunidade Econômica Européia, sendo então encarregado da missão de garantir “o respeito do direito na
interpretação e aplicação do presente Tratado” (Artigo 164) (TCEE, 1957). Em
conjunto com o Artigo 219, essa norma viria a constituir a base para o desenvolvimento do papel do Tribunal de Justiça como motor da integração na Europa. Com efeito, os dois artigos, quando lidos em conjunto, afirmam a jurisdição exclusiva do Tribunal no respeito pelo direito em todos os Estados- membros, prevenindo assim o uso de outros mecanismos de solução de conflitos de Direito Internacional Público (caso da intergovernabilidade adotada no Mercosul). Essa base jurídica para a missão do Tribunal foi mais tarde confirmada nas Opiniões 1/91 e 1/927 referentes ao Espaço Econômico Europeu. O Tratado que constituiu a Comunidade Européia criou, de fato, um sistema judicial híbrido, baseado na coabitação dos tribunais nacionais e dos tribunais da Comunidade. Só essa modelagem de coabitação permite que a própria Comunidade, através das
suas instituições, atue de uma forma contrária ao Direito, por não serem essas um fim em si mesmas e sim um meio de atingir determinados fins. Na prática e
resumidamente falando, seria impossível que a tarefa de lembrar a Comunidade do
seu erro e de obrigá-la a corrigi-lo ficasse a cabo dos tribunais nacionais, por razões claras e evidentes de uniformidade. Não há qualquer lógica em um mesmo ato comunitário ser julgado diferentemente consoante o tribunal nacional que fizesse a sua apreciação. Talvez por isso não seja surpreendente que toda a sindicância dos atos e omissões das instituições seja efetuada pelo tribunal da própria Comunidade. Da mesma forma e pelas mesmas razões, também parece pertinente submeter os atos dos Estados-membros que desrespeitem o Direito Comunitário ao julgamento pelo Tribunal de Justiça.
Paralelamente a esses instrumentos e técnicas supracomentados, o Tribunal de Justiça encontra ainda outras possibilidades ao seu dispor, como a sua capacidade de exercer pesada influência sobre as decisões políticas das outras instituições comunitárias, sugerindo-lhes novas direções e caminhos a explorar no decurso do processo de integração, legitimando determinadas escolhas políticas ou discordando de outras, e igualmente pressionando os poderes legislativos locais a intervir sempre que considerem haver necessidade para tal intervenção.
O Direito Comunitário efetivamente não existe no Mercosul. Sua explicação deve-se ao fato de não existirem verdadeiras instituições supranacionais.