3. BÖLÜM
6.2. Öneriler
Conforme já explanado, Portugal e Espanha eram nações periféricas na época das grandes descobertas; nações atrasadas e com características semifeudais (uma vez que não conheceram o feudalismo propriamente dito) no final da Idade Média (1500-1700), desempenhando papéis subalternos nas estruturas européias, que se apresentavam em uma fase de rompimento com os modelos já fracassados econômica e politicamente. Não foi espanto algum que, ao final do século XIX, nossos colonizadores estavam totalmente “colonizados” pela Inglaterra. Não passavam de uma pequena metrópole européia com uma vasta colônia, porém incapaz de fornecê-la grande parte dos produtos manufaturados necessários (têxteis e metalúrgicos) assim como incapaz de pagar as suas importações dos mesmos produtos sem a matéria-prima de suas colônias.
Entre as nações da Europa ocidental emergentes a partir da etapa final da era medieval, a Inglaterra atravessava a transformação mais radical em termos de estruturas econômicas e políticas. Atentar-nos-emos para algumas dessas reformas, para trazermos essa realidade inglesa da época para nossa reflexão histórica de nossas transformações econômicas, sociais e políticas.
Durante o século XVII, na Inglaterra, obstáculos ao desenvolvimento econômico como privilégios reais, aristocráticos, corporativos, monopólios, proibições, tributos, controles de preços e outros foram reduzidos ou removidos. Fortaleceram-se aqueles fatores capazes de estimular o desenvolvimento, como as sociedades anônimas, o Banco da Inglaterra, o aumento da tolerância religiosa e o avanço científico. Todo esse conjunto profundo de medidas permitiria à Inglaterra esquadrinhar as áreas que constituíam, real e potencialmente, as fontes de oferta de matérias-primas, os mercados consumidores e, acima de tudo, os próprios fornecimentos de ouro e prata: os impérios coloniais americanos da Espanha e de
Portugal (STEIN e STEIN, 1977). Se compararmos esses movimentos capitais para o
progresso e desenvolvimento inglês no século XVII (e também, por que não dizer, americano posteriormente) com as estruturas latino-americanas atuais, deparar-nos- emos com um atraso colossal em relação às nações desenvolvidas. Os Estados latino-americanos ainda apresentam-se em processo de implantação de algumas dessas reformas, e nossos colonizadores, por uma necessidade de adaptação à nova ordem mundial de blocos econômicos, foram “agraciados” com essa mudança quase que impositiva pelas demais nações européias apenas no decorrer do século XX.
Algumas dessas condições são impeditivas no acesso à União Européia. Na contramão das reformas, os países ibéricos no século XVII acompanhavam um intenso declínio da atividade industrial e agrícola. No decurso dos séculos XVII e XVII, as fileiras aristocráticas, burocracia e Igreja católica ampliaram-se na medida em que as famílias resguardavam suas fortunas e asseguravam seus futuros através de uma grande diversidade de vínculos, benefícios eclesiásticos, compra de cargos públicos transmitidos por herança e coisas do gênero:
A aversão às atividades manuais, arraigadas desde a Reconquista, fortaleceu-se ainda mais, os ideais de obtenção de um estilo de vida aristocrático passaram a dominar a vida e a
literatura espanholas. Em escala muito mais ampla do que em qualquer outro lugar, ao longo desses dois séculos, os comerciantes espanhóis buscaram posição social e segurança para si mesmos e seus descendentes através da posse da terra, de títulos, de quaisquer formas de propriedades geradoras de renda e da obtenção de cargos públicos lucrativos. (Id., ibid., pág. 23.)
Como decorrência desta nova “ordem social”, a família adquiriu um novo significado, aquele no qual as relações têm um cunho de sobrevivência econômica. “Aliança e parentesco” são palavras-chave para a compreensão da sociedade ibérica desse período; dessas relações dependia, em grande medida, o acesso à subsistência, à riqueza e à posição social.
Portugal e Espanha, ao iniciarem sua experiência imperial, encontravam- se imperfeitamente organizados e orientados para a exportação e carentes de uma burguesia nacional ou grupo capitalista mercantil capaz de estimular o crescimento interno. A história mostra que a Espanha, à época da Reforma, não se achava preparada para romper sua herança medieval; até 1500, essa herança afigurava-se como fator de unidade e crescimento ante as lutas contra os árabes e a expansão territorial na Península Ibérica. A exploração das colônias americanas tornara desnecessária a reestruturação de uma Espanha caracterizada pela prevalência de estruturas econômicas semifeudais, aristocráticas e baseadas na posse da terra.
Se a Espanha era o doente europeu em 1700, Portugal era o esquecido. Em 1500, os portugueses consideravam o “descobrimento” do Brasil como uma questão de importância secundária. Foi o temor de invasão inglesa e francesa na primeira metade do século XVI que gerou a ocupação sistemática da Colônia a partir da segunda metade do século, através do estabelecimento de uma economia embasada na grande propriedade agrícola.
Essa característica da grande propriedade de terra tomou contornos políticos bastante fortes nas colônias. O latifúndio ainda representa uma das principais característica dos países latino-americanos com exceção de Cuba, México e Peru. A
classe política, econômica e cultural é amplamente representada por latifundiários de famílias que historicamente vêm explorando e garantindo a posse da terra, muitas vezes improdutiva, como forma de garantia de subsistência econômica de futuras gerações. Nós latino-americanos continuamos agindo com uma posição protecionista que freia o desenvolvimento das estruturas produtivas dos países. A educação, como ainda percebemos, constitui um outro privilégio restrito, não um direito comum; ela é um indicador de restrição social, uma barreira altamente seletiva no caminho da aquisição da renda e do status quo, um meio muito eficaz de assegurar a rígida estratificação social através da reduzida oferta de educação primária e dotações orçamentárias reduzidas a um mínimo condizente para a preservação da elite política, social e econômica. Como dito, “alfabetização não é
pré-requisito para o homem que trabalha com a enxada” (FAORO, 2001, pág. 224).