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. TÜRKİYE’DE KAYITDIŞI İSTİHDAMIN BOYUTLARI

B. Kayıtdışı İstihdamın Olumsuz Etkileri

VI. . TÜRKİYE’DE KAYITDIŞI İSTİHDAMIN BOYUTLARI

Ocorre-me o exemplo de certo manejo da transferência no trabalho terapêutico com um jovem paciente que continuava se queixando de gagueira, mesmo na ausência do sintoma na produção da fala.

Em seis meses de terapia, havíamos trabalhado toda a organização da fala, pontos e modos articulatórios, adequação da postura global e da musculatura oral, fisiologia da respiração e seu uso durante a fonação. Tudo aparentemente muito bem compreendido e controladamente executado; no entanto, embora ausente na prosódia da fala, a gagueira persistia em seu discurso sobre si, encrustrada no medo de se expressar, na mágoa, no ressentimento e na ira acumulada.

Outros elementos manifestos no seu modo de falar e de estar comigo passaram a ser expostos a ele: o silêncio durante o processo terapêutico que me induzia à condução de temáticas a serem abordadas, para além do trabalho de reestruturação da produção motora da fala – ele só falava se eu o impelisse. Ao ser confrontado com esse fato, disse nunca encontrar lugar para sua fala. O lugar desejado no outro é o sinal direto da transferência, “aquilo que o sujeito supõe no outro”, anelando autorização para ser. Aqui “encarno” pela identificação imaginária esse elemento constitutivo da subjetividade que, por mal vivido ou mal sustentado, não inscreveu no sujeito uma segurança expressiva. O olhar em particular é percebido como a senha que abre certa chancela para a palavra.

Nessa condição, de tamanha invisibilidade para si mesmo, falar ao telefone era quase impossível; a insegurança aumentava e evitava fazê-lo, assim como seu pai, que havia contratado um funcionário em sua loja especialmente para falar ao telefone. Do

outro lado da linha poderia estar não alguém qualquer, mas a ameaça de realização de uma fantasia sofrida, na qual seria ridicularizado e excluído, por ser menos ou pouco, por não saber se comportar ou compreender de fato o que estava por trás da liberdade dos outros, que conseguiam simplesmente falar. A suposição de certa superioridade no Outro deixava Marcos à mercê de identificações imaginárias lancinantes.

A mim foi delegada a função de escutar por que ele não podia falar e, ao mesmo tempo, deveria acolher seu secreto desejo de permanecer na sombra da minha fala, num lugar escuro e indiscriminado, mas seguro. Nesse esconderijo, protegia-se de levar “um fora” das meninas por quem tivesse interesse; construiu uma imagem de inteligente, sério e compenetrado, mantendo assim certa imagem de si. Esses ideais foram depositados na transferência, falava das provas terríveis da faculdade e do quanto para ele foi simples tirar a melhor nota da sala. Na infância, suas habilidades cognitivas sempre lhe renderam destaque entre os primos e diante da irmã, que tinha especial interesse em salientar seus episódios de disfluência. O estereótipo de menino gênio fez dele o braço direito do pai, desde pequeno era levado para a fábrica, aprendeu cedo a manejar as burocracias administrativas e rapidamente passou a dar ordens aos funcionários. Aos quinze anos ia com o pai negociar com fornecedores, aos dezoito cumpria essa tarefa sozinho, além de grande parte das vendas.

A enorme admiração da mãe pelo filho era constatada no modo como o elogiava para as tias – o que ele ouvia em segredo. Também era tratado com direitos semelhantes aos do pai, pois afinal também trabalhava para garantir o sustento da família. Assim, sempre era servido antes da irmã, tinha suas roupas e objetos intocados e gabava-se de controlar tudo o que era seu mediante a meticulosa organização da mãe.

Não fosse a inveja a fustigá-lo, seu pedestal parecia-lhe muito digno. Mas como olhar as rodas de piadas dos colegas da faculdade, os bate-papos sem pretensão, as conversas jogadas fora sem o pesar de nunca se deixar ser, punindo-se com base na desconfiança?

O ódio dessa condição se transformava em exigência para que eu fosse ainda mais potente e assertiva no método de fazer desaparecer a gagueira, essa que degenerava a fala antes do ato articulatório, que depauperava a vida antes de poder experimentá-la. Sentia-se também sob grande ansiedade quando algo saía de seu controle, por exemplo, se não fosse convidado para jogar vôlei pelos colegas de classe ou se combinassem qualquer evento sem consultá-lo.

Era vultosa sua exigência, fazia sentir-me engessada ao seu método de tudo controlar e saber. Provavelmente fui fisgada pelo modo como ele se posicionava em identificação imaginária em relação à mãe, deveria ser o máximo para fechar a frustração desta por ter escolhido um marido tão pouco arrojado, restrito a manter a duras penas o negócio herdado de seu pai, avô de Marcos. À revelia de sua vontade, numa peça do desejo, sustentava esse ideal de eu, tendo na gagueira o signo da humildade paterna que tinha verdadeiro pavor de herdar.

Ocorria-me que poderia haver falhas no método ou em meu modo de aplicá-lo. Cumprindo seus mandatos, retomei a reeducação do ritmo da fala, o que logo percebi ser usado por ele como mais uma estratégia alienante de controle de seu próprio desejo nas tentativas renitentes de controlar o outro. Quase perdi a chance de ajudá-lo, pois, embora situado aí seu sofrimento, na gagueira, continuava sofrendo, mesmo quando esta praticamente lhe dava trégua, e essa prova cabal da inserção simbólica desse sintoma fez-me rever meu lugar na transferência. Coloquei-me a escutar o fantasma de

uma suposta impotência projetada em mim. Ao se dar conta desse mecanismo reativo às suas fantasias de debilidade, pelo qual precisava destituir a potência alheia, Marcos passou a tematizar sua fama de chato, associando-a aos excessos que cometia na relação com os amigos. Não perdia uma oportunidade de confrontá-los com seus defeitos e limitações, espalhando assim a virulenta impotência que o estado humano de não perfeição lhe causava.

Nesse período, foi a uma festa com os amigos. Logo na entrada deparou-se com uma dupla de meninas muito interessantes. Por certa alegria, cuja origem não soube precisar, sorriu para elas, aproximou-se e ficou com “a mais bonita”. O affair lhe deu coragem para participar do desafio lançado pelo Dj: entregar um brinde a quem se aventurasse a subir no palco e contar uma piada. Lá estava Marcos, em conjunto com os amigos, pronto para brincar com as palavras, livre para desfrutar da boca no beijo ou na fala, em condição de questionar a necessidade do esconderijo defensivo associado ao estigma de gago.

O que teria acontecido com os ideais? Simplesmente desapareceram?

Nunca um sintoma é sem sobredeterminação. Nunca a transferência é aleatória ou sem apelo de vida e de amor. Indicar-lhe análise naquele momento do processo terapêutico com a linguagem era quase eximir-me de ocupar o lugar que, mesmo me oferecendo o álibi da especificidade técnica da minha formação profissional, não me desautorizava a escutar o que o sintoma abriu como prerrogativa, ou seja, as aderências fantasmáticas que transformavam sua condição desejante em pura falta e deficiência. Minha escuta também representava nada para ele, pois não lhe entregava o tudo que desejava e supunha em mim; no entanto, a aposta no vigor da sua capacidade de destituir o outro do lugar de saber gerou novo significado ao seu modo de existir e

exigir de si mesmo. Em suma “não se pode ter tudo”, diz o dito popular, e para Marcos cairia bem concluir que, em seus devaneios onipotentes, ser tudo dependeria de manter um controle total do outro, e o gasto de energia psíquica e física nessa empreitada fadada ao fracasso mostrava-lhe o tempo todo seu reverso: a impotência para gozar a vida.