AMAÇ-1 Kurumsal
H.3.4 TÜRKAK'ın ülke çapındaki tanınırlığını ve farkındalığını artırmaya yönelik etkinlikler plan dönemi boyunca
A filosofia hegeliana capilariza-se de tal modo que se torna praticamente leitura obrigatória nos meios acadêmicos e políticos, a partir do início do século XIX; da Alemanha se alastrando para todo o ocidente, em ondas menores. Karl Heinrich Marx (1818-1883) sofre influência direta dessa filosofia, ora aproximando-se dela, ora afastando-se. Inicialmente estuda Direito, mas depois se dedica à História e à Filosofia, de modo que tal dedicação o leva a aprofundar os estudos sobre os constructos hegelianos, tornando-se um crítico destes.
Marx não tinha, no centro de suas preocupações teóricas, a problemática do Estado, como teve Hegel em Princípios da Filosofia do Direito. Sua preocupação partia da necessidade de construir uma crítica das críticas que já se faziam a Hegel pelos neo-hegelianos, como Bruno Bauer (1809 – 1872), Arnold Ruge (1802-1880), Max Stirner (1806-1856), mas, principalmente, Feuerbach (1804-1872), com quem, mais tarde, viria a polemizar de modo mais contundente; considerando a crítica como instrumento capaz de elevar o discurso à prática, transformando concretamente a sociedade a qual fornece os elementos para a construção desse mesmo discurso. Portanto, suas preocupações partiam da realidade concreta e objetiva do Estado alemão de sua época, calçado nas relações de exploração do trabalho pelo capital. O incômodo de Marx com Hegel passa pelo fato de que as formulações hegelianas partiam de uma perspectiva burguesa, de uma era pós-napoleônica, que, de certo modo, alimentava parte significativa das aspirações da classe dominante, sobretudo da Alemanha de sua época. Afinal, em Hegel, o Estado contém nele mesmo os ideais da Moral e racionaliza com isso todos os domínios da vida social122. Assim, são as forças opressoras originadas nas relações sociais capitalistas que interessam a Marx compreender e combater, sem admitir nenhum tipo de concertação entre opressor e oprimido. Nesse sentido, Coutinho (1997) revela:
122 Consultar: LOSURDO, Domenico. Hegel, Marx e a tradição liberal. Liberdade, igualdade, estado. Tradução de Carlos Alberto Fernando Nicola Dastoli e Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Unesp, 1998. Biblioteca Básica. Nesta obra, Losurdo demonstra como Hegel se posiciona pela “superação” dos resquícios da ordem feudal, a divisão dos principados neofeudais. Desnuda o “falso dilema” de Norberto Bobbio que insiste em classificar Hegel como defensor do Estado opressor prussiano.
79
Tal como já sugerimos ao analisar as aporias de Rousseau, também aqui as razões dos limites de Hegel – mas também de sua grandeza – podem ser apontadas no ponto de vista de classe que adota em sua obra. Se Rousseau, ao formular sua utopia democrática anticapitalista, expressava a perspectiva de classe dos artesãos e dos pequenos proprietários – e essa perspectiva é responsável tanto por seus méritos quanto por suas limitações – Hegel, ao contrário, adota em sua filosofia política o ponto de vista da classe burguesa tal como essa se havia constituído na época pós- napoleônica. Decerto, como sempre, é preciso concretizar: em função das peculiares condições da Alemanha da época, Hegel busca frequentemente conciliar esse ponto de vista burguês com os interesses das classes dominantes da velha ordem feudal. Vejamos um exemplo dessa conciliação: embora continue atribuindo grande importância aos estamentos (Stände) herdados da época feudal na estruturação do seu Estado “racional”, Hegel afirma claramente que a pertinência a um estamento já não é simplesmente algo “natural”, dado a priori, como no feudalismo, mas, resulta, sobretudo, da "liberdade dos particulares", da mobilidade social trazida pelo capitalismo. Por isso, quando fala em "estamentos" na Filosofia do Direito, ele está frequentemente designando (salvo no caso da aristocracia fundiária) um fenômeno social que se aproxima bem mais da moderna situação de classe, própria da sociedade capitalista emergente, do que da velha ordem hierárquica do Ancien Régime (A burocracia, ou o Mittelstande, por exemplo, é uma condição social aberta a todos os que revelem qualificação para tanto, independentemente do nascimento). Além disso, o fato de ser ele mesmo um "servidor público", um membro da Mittelstande, talvez explique a grande importância que atribui à burocracia no quadro da nova ordem burguesa, uma importância que, de resto, só iria se acentuar no período sucessivo da evolução do capitalismo. Por tudo isso, não me parece equivocado dizer que, enquanto Rousseau expressa uma utopia anacrônica (ainda que plena de implicações políticas positivas para o presente e para o futuro), Hegel descreve na Filosofia do Direito, ao contrário, um Estado análogo – em suas linhas fundamentais – ao Estado burguês moderno realmente existente123.
Se estas eram suas preocupações, evidentemente que não é possível estabelecer a crítica que pretende passando ao largo da problemática do Estado. Assim, publica nos Anais Franco- Alemães, em 1844, Sobre a Questão Judaica124 e Crítica da Filosofia do Direito de Hegel125 pensamentos que sintetizam inauguralmente a crítica pretendida. No primeiro, Marx distingue, a seu modo, o que Hegel também fizera: sociedade civil de sociedade política; privado e público.
De modo análogo a Hegel, entende sociedade civil como o conjunto das relações econômicas, porém, e aí se afasta de Hegel, social e historicamente determinadas, portanto relações econômicas burguesas, objetivas e concretas, base do tecido societário e a partir do
123 COUTINHO, Carlos Nelson. Hegel e a democracia. Conferência proferida para o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) em 13 de julho de 1997. Disponível em: <www.iea.usp.br/artigos>. Acesso em: 15 fev. 2013.
124 MARX, Karl. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010. 125 Id. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.
80 conjunto de mediações que a determinam é que se funda o Estado no campo superestrutural, frontalmente opondo-se à lógica hegeliana de que é o Estado que funda a sociedade civil126.
Marx demonstra interação entre as duas esferas, compreendendo que o Estado é expressão da sociedade, portanto, não podem ser entendidos fora dessa natureza relacional. No prefácio de Contribuição à Crítica da Economia Política, é que Marx (2008, p. 47) apresenta formalmente esta conclusão:
Minhas investigações me conduziram ao seguinte resultado: as relações jurídicas, bem como as formas do Estado, não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada evolução geral do espírito humano; essas relações têm, ao contrário, suas raízes nas condições materiais de existência, em suas totalidades, condições estas que Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do século 18, compreendia sob o nome de “sociedade civil”. Cheguei também à conclusão de que a anatomia da sociedade burguesa deve ser procurada na Economia Política127.
Portanto, Marx (2008, p. 47) não apenas afirma que o Estado só pode ser explicado e entendido a partir da sociedade civil (a anatomia da sociedade burguesa a que se refere é a da sociedade civil), como entende que é no Estado em que as formas de consciência são encontradas:
(...) na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade [sociedade civil], a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência [Estado]128.
E prossegue anunciando o dinamismo das relações socioeconômicas burguesas, capaz de conferir também um movimento dinâmico ao Estado, o que faz deste um ente relacional e transitório:
126 Marx define a estrutura social em dois níveis: a infraestrutura, estrutura ou base que é o lócus onde acontecem as relações econômicas que sustentam toda a dinâmica de uma sociedade. O domínio da infraestrutura é inevitavelmente o exercício de poder próprio da sociedade burguesa. O outro nível é a
superestrutura na qual residem as estruturas jurídicas, o Estado e os aparelhos do Direito e as instâncias ideológicas, políticas, morais, etc. da sociedade.
127 MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008. 128 Grifos nossos.
81
O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais de uma sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transforma mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura. (Id.,ibid., p. 48).
Esses excertos nos mostram a maneira como Marx realiza o tratamento que dispensa à problemática do Estado. Isto é, partindo o seu raciocínio das condições materiais e objetivas em que se realiza a vida social, o que prossegue é a perspectiva revolucionária da transformação. Portanto, o Estado não é um fim em si mesmo e por isso não necessita ser tratado como instância onde se finaliza a realização da humanidade129.
Essa constatação teria levado Marx a não formular uma teoria geral do Estado, mas sim tratá-lo transversalmente na quase totalidade de sua produção. Essa transversalidade, conferida ao Estado por Marx, em suas obras, salta aos olhos, quando o autor problematiza as características fundantes da sociedade capitalista, como, por exemplo, a divisão de classes sociais, a exploração do trabalho pelo capital, os princípios da ideologia e da política (classista) burguesa e a Revolução.
No Manifesto do Partido Comunista, texto que constrói em parceria com Friedrich
Engels (1820-1895), por exemplo, os autores afirmam: “A história de todas as sociedades que já existiram é a história das lutas de classes”. Desse modo, informam que o Estado burguês é classista, e arrematam: “O poder executivo do Estado moderno não passa de um comitê para gerenciar os assuntos comuns de toda a burguesia” 130.
Em que pesem as inúmeras reproduções e traduções existentes do Manifesto (até mesmo por seu caráter instrumental-partidário), que podem levar a interpretações diversas, não há como ignorar que essa passagem do opúsculo refere-se ao modo como a burguesia consegue ter no Estado a direção social de seus interesses.
129 Nesta afirmação, identificamos o ineditismo da construção marxiana sobre o Estado por ficar evidente seu distanciamento da maior parte das produções anteriores sobre o tema. Ou seja, para Marx, o Estado não é o instrumento para se alcançar a felicidade, como queria Aristóteles, e nem o Reino dos Céus, como se pensava na Idade Média; não é resultado de um contrato tácito entre os homens com delegação para harmonizar suas relações sociais nem muito menos a expressão máxima da vontade geral, instância universalizadora dos interesses particulares como pensou Hegel. O Estado é tão somente um momento de síntese da superestrutura que tende a ser transformado na medida em que se transformam as relações sociais de produção.
130 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução de Maria Lúcia Como. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
82 Como Marx já havia alertado para a permeabilidade do Estado burguês aos interesses de uma classe dominante, a afirmação da dupla Marx-Engels não pode ter seu caráter crítico reduzido a uma interpretação possibilista de Estado asséptico, ou acima das classes. Neste sentido, Trotsky (1879-1940) tece o seguinte comentário sobre a afirmação contundente contida no Manifesto:
Nesta fórmula concentrada, que para os dirigentes sociais-democratas aparecia como um paradoxo jornalístico encontra-se, na verdade, a única teoria científica sobre o Estado. A democracia criada pela burguesia não é, como pensavam Bernstein e Kautski, uma concha vazia que se pode, tranquilamente encher com o conteúdo de classe desejável. A democracia burguesa só pode servir à burguesia. O governo de “Frente Popular” dirigido por Blum ou Chautemps, Caballero ou Negrin é tão somente “uma delegação que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa”. Quando esta delegação se sai mal em seus negócios, a burguesia expulsa-a do poder a pontapés. (TROTSKY, 1937 )131.
Essa é a tônica, que, embora Trotsky classifique como “teoria científica sobre o Estado”, tem muito mais um aspecto denunciador do que propriamente teórico. Os elementos teóricos que tornam a afirmação racional, lógica e mesmo empírica surgirão, como já dissemos, no estudo detalhado da sociedade burguesa e sua dinâmica de reprodução, e, consequentemente, as formas imanentes de sua superação, este, sim, o objeto real de estudo da vida de Marx, lapidados maduramente em O Capital.
Ocorre que a influência da construção marxiana nos domínios da economia, da filosofia, da história, da ciência política e do direito, funda uma escola, uma corrente de pensamento ou, em outros termos, uma tradição que atenderá pelo nome de marxismo, ou, de tão vasta, marxismos, como se referiu Netto (1985, p.8-9) acerca das “vertentes diferenciadas e alternativas de uma já larga tradição teórico-política”, bem ao modo das problematizações próprias da teoria científica. Afinal, conclui Netto: “A hipótese de um marxismo único, puro e imaculado remete mais à mitologia política e ideológica do que à crítica racional” 132.
Assim, desde Engels, que construiu com Marx os pilares dessa tradição, até os signatários contemporâneos dessa escola, como Mészáros ou Hobsbawn, o marxismo tem se apresentado vigorosamente como teoria da sociedade burguesa e sua ultrapassagem pela revolução proletária (NETTO, 1985), instigando os que nele se fundamentam a inquerir sobre as
131 Citação retirada do texto A Atualidade do Manifesto do Partido Comunista, escrito por Leon Trotsky como prefácio à primeira edição do manifesto publicada na África do Sul, em outubro de 1937. Pode ser encontrado, no Brasil, na edição de 1998, publicada pela Boitempo Editorial, com a organização de Osvaldo Coggiola e tradução de Álvaro Pina. Todavia, nosso primeiro contato com o texto se deu a partir da edição comemorativa dos 150 anos do manifesto publicada para a Campanha Financeira da corrente O trabalho, do Partido dos Trabalhadores, seção brasileira da 4a Internacional.
83 questões da vida social, o que inclui, evidentemente, a problemática do Estado e, porque não, do desenvolvimento da sociedade capitalista.
A proximidade afetiva e política de Engels com Marx forneceu à obra de Engels uma unidade teórica inalienável ao pensamento do filósofo alemão. Reconhecendo a necessidade de associar o materialismo dialético – o método – à Teoria da História, Engels investiga as origens da família, da propriedade privada e do Estado, publicando em 1884 um livro que leva esse mesmo nome. Coincide com o advento da antropologia e da etnologia.
Engels se vale de anotações de Marx sobre a obra A Sociedade Antiga, do etnólogo norte-americano Lewis Henry Morgan e, através do estudo de tribos daquele país, investiga sua organização a partir do direito materno, a posterior apropriação de excedentes de produção como forma primitiva de origem do patriarcado e a consequente formação de um Estado que preserve a ordem mantendo a desigualdade (de gênero) e classes, a partir de um pressuposto simples:
De acordo com a concepção materialista, o fator decisivo na história é, em última instância, a produção e a reprodução da vida imediata. Mas essa produção e essa reprodução são de dois tipos: de um lado, a produção dos meios de existência, de produtos alimentícios, habitação, e instrumentos necessários para tudo isso; de outro lado, a produção do homem mesmo, a continuação da espécie. (ENGELS, 2002, p.10)133.
Justamente as formas histórica e socialmente determinadas de continuação da espécie humana que levam Engels a aprofundar-se nessa investigação. Por isso que, em seu estudo, a sociedade não é um conjunto formado pelas partes, mas, uma dessas partes, é a família134, ao contrário, a família antecede ao capitalismo, mas encontra nele condições de se transformar em algo funcional e, praticamente, estrutural ao sistema, devido ao seu imbricamento às relações de produção simples e ampliadas:
133 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Centauro, 2002.
134 Já pensada como lócus que organiza os homens em sua constituição como ser humano genérico para a produção e reprodução das condições materiais de sobrevivência, mas também para a reprodução espiritual, isto é, as formas de consciência social: jurídicas, religiosas, artísticas ou filosóficas, por meio das quais os indivíduos tomam consciência dos processos atinentes à reprodução material. Essa consideração, embora diga respeito também à família, a ultrapassa, pois a realização do ser humano genérico como tal não se limita a ela, ao contrário, a extrapola. A família é vista, pois, por Engels, como apenas uma das formas encontradas pelo capital para sustentar seus intentos reprodutivos. Nesse sentido, ver nossa dissertação de Mestrado Trabalho, Família e Ser Social: Elos que Unem a Centralidade do
Trabalho às Relações Familiares, defendida no Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social da PUC-SP, em 2005.
84
[A família] constitui-se, propriamente, uma das condições históricas encontradas pelo capitalismo no processo de sua formação. Envolvida nesse processo, a família se transforma porque, em última instância, é determinada pelas necessidades de reprodução do modo de produção. Mais ainda, as alterações que sofre implicam diferenciações que correspondem às condições específicas de formação das novas classes. Mas sua forma inicial, derivada de condições históricas específicas, fundada em um tipo característico de divisão sexual do trabalho, certamente influi na forma alterada que assume posteriormente. (DURHAM, 1985, p. 08 apud PAULA, 2008, p. 28-29)135.
Assim, para Engels, a sociedade funda-se, mesmo as sociedades primitivas, quando a divisão social simples e de gênero do trabalho tomam forma como meio de organizar a produção e reprodução das condições de vida material, tendo a família como canal intermediário para esse fim.
Nas sociedades primitivas, essa divisão do trabalho não implicava nem a subordinação da mulher ao homem, nem vice-versa, sendo matriarcais; muito menos a apropriação privada dos excedentes de produção. É o desenvolvimento das forças produtivas, com a domesticação e a criação de gado, por exemplo, que leva essa função masculina a ser entendida também como forma de credenciamento ao poder paterno, definindo não apenas a sucessão (herança) como a própria propriedade privada. A autoridade do pai sobre os demais membros da família funda um tipo de dinâmica, nesse espaço privado, que é rapidamente difundida não apenas para todos os outros grupos familiares como também para as relações societais mais amplas, com auxílio de um arcabouço de valores burgueses emergentes.
Ocorre que nem todas as famílias são iguais, muito menos as propriedades. Portanto, as dinâmicas familiares e sua formação complexificam-se e, justamente por isso, alteram as relações econômicas – de produção e reprodução social -, na consolidação das classes com inflexões no jogo ético-politico de interesses que essas classes empreendem entre si e entre suas frações. É nesse sentido que o Estado surge como forma de “colocar em ordem” a “desestruturação” da sociedade, percebida em seus grupos de convívio, ação que, segundo Engels, não era necessária nas sociedades tribais. Gruppi (180, p. 30), nesse sentido, lembra:
135 PAULA, Renato Francisco dos Santos. Revisitando o método em Marx sob a motivação da centralidade da família na política de assistência social e no trabalho dos assistentes sociais. In: ______.
As coisas e seu lugar: diálogos sobre serviço social, assistência social, direitos e outras conversas. v. 1,
85
Tudo começa quando se diferencia a posição dos homens nas relações de produção. Por um lado temos os escravos, pelo outro, o proprietário de escravos; de uma parte o proprietário da terra, de outra, os que nela trabalham, subjugados pelo proprietário. Quando se produzem essas diferenciações nas relações de produção, determinando a formação de classes sociais e, por conseguinte a luta de classes, surge a necessidade do Estado: a classe que detém a propriedade dos principais meios de produção deve institucionalizar sua dominação econômica através de organismos de dominação política, com estruturas jurídicas, com tribunais, com forças repressivas, etc.
Isso implica dizer que o Estado surge como instrumento de dominação, tendo, de modo