A palavra desenvolvimento, via de regra, está associada a processos evolutivos. O dicionário Caldas Aulete nos informa que desenvolvimento é a “ação ou resultado de desenvolver(se)”. Isso confere ao substantivo qualidade genérica que nos permite utilizá-lo referido a qualquer contexto em que uma evolução se apresente. Isto é, permite utilizar o vocábulo em inúmeras situações, mas todas elas referidas a processos e não a algo estanque. Por isso, o termo desenvolvimento carrega consigo a propriedade de adequar-se a qualquer processo da vida social, pois esta pressupõe um imanente evolver, ininterrupto.
Com a sacralização do capitalismo, o termo desenvolvimento foi sendo identificado e associado cada vez mais com o contexto econômico da sociedade, de modo a levar o dicionário a incorporar um segundo significado à palavra: “crescimento global de um país ou região, acompanhado de melhoria das condições de vida da população”. É um sentido um pouco mais preciso, diante do componente genérico, embora intransponível, que é o desenvolvimento para o sistema de acumulação capitalista e dele não se dissocia; em suma, o desenvolvimento torna-se um conceito econômico e não apenas um componente do nosso léxico.
Como conceito econômico, notamos que o dicionário não está se referindo ao crescimento global de um país ou região, acompanhado de melhoria das condições de vida da população de países ou regiões quaisquer. Refere-se, pois, a países que apresentam, no conjunto de suas forças produtivas, condições adequadas para superar um modo social de vida vigente considerado ultrapassado, e, pressionado pela evolução dessas forças e a luta de classes a ela inerente, tende a substituí-lo por novos padrões produtivos e novas relações sociais, configurando não apenas a evolução civilizatória que representa, mas também suas crises estrutural e cíclica.
Deste modo, o termo desenvolvimento, associado à evolução social capitalista, apresenta a tendência dominante da hipertrofia de seus aspectos civilizatórios, escondendo a expropriação em que se baseia. Em níveis globais, justifica a barbárie no modo capitalista, mas,
166 em síntese, se refere sempre a fissuras consideráveis nos modos vigentes de organização da vida social. Para Ianni (1989, p. 97), trata-se de um processo de ruptura com o presente:
Em alguns casos a ruptura é total, como ocorre nas nações que optam pelo desenvolvimento segundo o modo socialista de organização da produção. O socialismo consubstancia a teoria, o movimento de ideias, a concepção da história desta alternativa. Em essência, implica a negação plena do presente, isto é, do modo capitalista de produção, em sua forma colonial, semicolonial ou realizada. Em outros casos dá-se apenas uma interrupção ocasional, uma quebra transitória daquelas relações da nação consigo mesma e com o exterior266.
Assim, podemos facilmente identificar a origem do desenvolvimento em ação como conceito generalizado e condição inerente à evolução humano-social, o que inevitavelmente nos leva ao desenvolvimentismo, nos marcos da revolução técnica e científica que marcou a transição do século XVIII para o XIX, conhecida como Revolução Industrial. A partir daí, a industrialização coloca-se como condição essencial para o desenvolvimento, sustentando as teses de autojustificativa e autorreprodução do capitalismo, amparadas por medidas estatais denominadas de desenvolvimentistas.
A instituição do capitalismo como modo de produção dominante, ratificada pela industrialização e pelos ideais emergentes na insurreição burguesa, vem acompanhada de um corolário político e ideológico que coloca o desenvolvimentismo como elemento constituinte dos processos reprodutivos do capital e análogo ao desenvolvimento humano, portanto civilizatório, e que, como tal, deve ser almejado por todos.
No limite, estamos falando do processo de acumulação de capital e as formas de sociabilidade que lhe dão legitimidade, fulcro do desenvolvimento (IANNI, 1989) nas suas formas históricas singulares — comercial, industrial, monopolista ou financista —, como demonstraremos nos itens 3.1 e 3.2. Por isso, não é de se estranhar que os dicionários não se furtem a circunscrever o sentido do desenvolvimento em geral – conjunto de melhorias que levam ao progresso e ao bem-estar social geral – ao desenvolvimento econômico.
Desse modo, os problemas afetos ao desenvolvimento motivaram, desde sempre, economistas e cientistas sociais em especial, não apenas a constituírem-no como tema de interesse científico, como também a disputarem, na esfera política, as diferentes e divergentes teses e empreendimentos sobre o tema, como herança e consequência das análises que se fizeram desde os clássicos aos contemporâneos levantados aqui em todo o Capítulo I. No Brasil, adquiriram notoriedade ao tratar das questões afetas ao desenvolvimento (o subdesenvolvimento e o desenvolvimentismo) intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni,
167 Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini, etc., mas, sobretudo, Celso Furtado, em perspectivas bastante diferenciadas, o que torna o debate sobre a temática ricamente heterogêneo. Este último, chega a desenvolver, como núcleo duro de seu programa teórico, a tese de que o subdesenvolvimento é um fenômeno histórico singular, sustentado num mito que propaga a difusão generalizada do desenvolvimento como possibilidade e meta de uma racionalidade coletiva moderna.
Para Furtado o desenvolvimento é um mito, pois, de um lado, os padrões capitalistas de produção e consumo em que se sustenta esgota as disponibilidades de recursos necessários à sobrevivência e, por outro, a maioria dos países da periferia capitalista é excluída dos benefícios do crescimento quando ele ocorre no centro (...) não se elevando de forma significativa com a industrialização (FURTADO, 1974)267.
Contudo, isso não significa que Furtado tenha se omitido de pensar possibilidades para um desenvolvimento de tipo brasileiro, ou mesmo latino-americano. Passando em exame os momentos em que o Brasil apresenta ciclos desenvolvimentistas, veremos como esse intelectual se destaca por suas contribuições, que não se limitam ao campo das elaborações teóricas, alcançando mesmo a gestão pública e suas formas de materialização, na medida em que, mesmo crítico, propõe estratégias para o desenvolvimento daquelas que a Cepal considerou como nações de capitalismo periférico.
Do subdesenvolvimento ao desenvolvimentismo – o desenvolvimento em ação – o que está em jogo é o conjunto de políticas que impulsionam o crescimento econômico com medidas de predominância estatal em conjunturas políticas adversas. Por isso mesmo, o epicentro do desenvolvimento capitalista reside na junção do desenvolvimento técnico-científico com a alteração que provoca, na esfera das relações socioculturais em dado momento histórico. Ciclicamente se repetindo em outros momentos, quando se apresentam essas mesmas condições, equivalendo a novos tipos de transformações socioculturais e econômicas.
Além da industrialização, o desenvolvimentismo capitalista clássico admite, via de regra, um intervencionismo estatal orientado para o crescimento – quase sempre com investimentos em infraestrutura e medidas de ampliação do consumo -, e o nacionalismo. Portanto, a identidade do desenvolvimentismo está ontogeneticamente vinculada ao capitalismo, mas é na sua feição monopólica que mais se evidencia, pois se verifica em suas medidas uma espécie de concertação entre o Estado e o mercado, em seus processos particulares de reestruturação decorrente de suas crises cíclicas, que encontra, nesse mesmo capitalismo dos monopólios, condições adequadas tanto de propagação de seu corolário ideopolítico quanto das
267 FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. Uma tese diferente sobre a insustentabilidade do padrão capitalista de desenvolvimento também pode ser encontrada em: MÉSZÁROS, István. Produção destrutiva e estado capitalista. São Paulo: Ensaio, 1989. O autor discorre sobre o que chama de “desperdício catastrófico”.
168 formas de produção e reprodução social, capazes de parametrizar os mercados e os Estados268. Portanto, o desenvolvimento e as crises fazem parte de um mesmo insidioso esquema269.
Em outros termos, se entendermos as crises estruturais como aquelas que causam rupturas no modo sistêmico de evolução do capitalismo, por vezes até alterando posições no jogo dos mercados mundiais, ou, como sintetizou Mészáros (2002):
Crise estrutural (ou sistêmica) refere-se a uma condição que “afeta a totalidade de um complexo social em todas as relações com suas partes constituintes ou subcomplexos, como também a outros complexos aos quais é articulada” (...) Põe em questão a própria existência do complexo global envolvido, postulando sua transcendência e sua substituição por algum complexo alternativo (...). Uma crise estrutural não está relacionada aos limites imediatos, mas aos limites últimos de uma estrutura global.
E entendermos ainda que essas fissuras na ordem podem partir de funcionalidades (ou áreas) específicas do sistema e que, em efeito cascata, podem provocar a erosão de todo o complexo social em que se assenta, passaremos a compreender o desenvolvimentismo (materializado no arcabouço das medidas desenvolvimentistas), como um elemento intrínseco tanto das crises quanto das alternativas que se colocam à sua superação, pois, como enfatiza Ianni (1989, p. 97)270, o desenvolvimento nos moldes capitalistas é “apenas uma interrupção ocasional, uma quebra transitória daquelas relações da nação consigo mesma e com o exterior”, de natureza fundamentalmente econômicas.
Contudo, não basta haver medidas de incremento à economia para provocar o desenvolvimentismo. Como aparato dos Estados de democracia liberal, é necessário que haja sua legitimação social. Portanto, por ser, o desenvolvimentismo, um processo que sustenta a ruptura com o passado nos dizeres de Ianni (1989), ele também é a “ideologia dessa ruptura parcial, frustrada, das nações que optam pelo desenvolvimento capitalista” e se associa a componentes ideopolíticos, de acordo com o que se lhe permite a conjuntura e a estrutura históricas. Nesse sentido, Ianni (1989, p. 98) refere:
268 O keynesianismo é o melhor exemplo, mas podemos citar também o advento do fordismo e a acumulação flexível como formas singulares de expressão do modo de produção capitalista, em suas fases monopolista e financista, que causaram mudanças, quando emergiram, nos padrões socioeconômicos vigentes, alterando o comportamento dos estados e dos mercados.
269 As crises cíclicas caracterizam-se também por apresentarem condições históricas de “reparo”. Isto é, diferem das crises estruturais, pois estas estão afetas ao impulso sociometabólico autodestrutivo do capital. Mandel tratou das crises cíclicas e Mészaros das crises estruturais. Desse modo, a leitura dos dois marxistas é recomendável.
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Implica uma concepção abstrata da história em que as contradições essenciais do sistema submergem nas soluções verbais da ideologia burguesa. A industrialização de tipo capitalista, como ocorre no Brasil, produziu-se com o desenvolvimentismo, que é seu ingrediente ideológico fundamental. Nacionalista ou associado ao capital externo, esse desenvolvimentismo faz parte da corrente de ideias característica dessa etapa de transição do sistema econômico-social nacional. No processo de conversão do capital agrícola, comercial e bancário em capital industrial, essa doutrina constitui-se como uma visão prospectiva da civilização industrial.
Tradicionalmente, a doutrina Cepalina271 tem orientado o processo de desenvolvimento dos países que lhe são membros, ditando, sobretudo, as medidas necessárias para o empreendimento. Por isso, o desenvolvimentismo é praticamente um monopólio de seu léxico.
No “dicionário” da Cepal, o desenvolvimentismo é associado e, por muitas vezes, confundido com algumas de suas medidas estruturais, que podem ou não estar associadas, ou implementadas em conjunto ou em separado, com a própria industrialização, o intervencionismo e protecionismo, o fomento estatal pela via da criação ou fortalecimento de empresas e bancos públicos, políticas expansionistas orientadas para o crescimento e incentivo ao consumo, aumento dos investimentos em infraestrutura, dentre outras medidas, galvanizadas ideopoliticamente pelo nacionalismo em suas muitas variações.
Não é por acaso que essas medidas se confundem com o próprio desenvolvimentismo. Numa visão, ainda que panorâmica, pelas experiências desenvolvimentistas mundo afora, perceberemos que são medidas recorrentes, portanto, podem ser consideradas como célula mater do desenvolvimentismo.
Como vimos, Octavio Ianni (1989) nos lembra que esse processo reveste-se de componentes ideológicos que sustentam sua autolegitimação – condição essencial para sua existência -, mas o autor também nos recorda que o papel do Estado é fundamental para que um governo possa ser considerado desenvolvimentista, pois não há desenvolvimentismo sem uma racionalidade configurada em forma de “política” que contemple as metas desejadas e espraie para toda a sociedade que o cumprimento dessas metas é algo análogo à conquista do bem-estar geral.
271Refere-se à Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas e
responsável por “monitorar as políticas direcionadas à promoção do desenvolvimento econômico da região latino-americana, assessorar as ações encaminhadas para sua promoção e contribuir para reforçar as relações econômicas dos países da área, tanto entre si como com as demais nações do mundo (...) Promover o desenvolvimento social e sustentável”. Funciona também como “centro de excelência, encarregado de colaborar com seus Estados-membros na análise integral dos processos de desenvolvimento. Esta missão inclui a formulação, seguimento e avaliação de políticas públicas e a prestação de serviços operativos nos campos da informação especializada, assessoramento, capacitação e apoio à cooperação e coordenação regional e internacional”. Disponível em: <http://www.eclac.org/brasil/>. Acesso em: 15 ago. 2012.
170 Desse modo, estes empreendimentos não preenchem apenas a agenda governamental, mas se tornam a razão de ser do próprio governo e de modo abstrato do próprio Estado. O autor lembra, por exemplo, que o Programa de Metas (1956-1960), da era Kubitschek, não apenas explicitava as medidas deliberadas do governo como florescia como “fenômeno ideológico”:
Na ocasião em que foi posto em prática esse programa, desencadeou-se uma ampla campanha de formação e orientação da opinião pública, de modo a criarem-se as “expectativas e disposições” coletivas para a realização do esforço nacional destinado a implantar a indústria de base. Associa-se o progresso material com o bem estar coletivo, poupança, investimentos produtivos e elevação geral do nível de vida (Id., ibid., p. 99).
Mas, no Brasil o refinamento político que une as estratégias do núcleo duro do desenvolvimentismo, com as ideologias burguesas que o sustentam, antecedem a conjuntura de Juscelino.