1.2. Aile Kavramı
1.2.8. Türk Toplum Yapısında Aile
A Gramática Gerativa foi desenvolvida inicialmente por Noam Chomsky (1928-atualmente), um linguista estadunidense, no primeiro quartel do século XX. Nessa teoria, a linguagem é compreendida como faculdade mental inata aos seres humanos, por isso ela pode ser caracterizada como mentalista (cf. RAPOSO, 1992).
Conquanto seja uma linha de pesquisa contemporânea, alguns estudiosos consideram que as noções linguísticas propostas por Chomsky dialogam, em parte, com a tese universalista dos gramáticos de Port-Royal (cf. LOPES, 1976; ROULET, 1978) e, em parte, com a linha racionalista de Descartes (GRENDAY, 2010; LYONS, 2011). Nesse sentido, para alguns teóricos como Mattos e Silva (1994), Travaglia (2009) e Lyons (2011) essa teoria estaria inserida na concepção de linguagem enquanto expressão do pensamento. Contudo, faz- nos preciso apresentá-la, aqui, por conta de sua contemporaneidade, mais imediata, com a abordagem estruturalista estadunidense.
A teoria linguística gerativo-transformacional ou apenas gerativa, como é conhecida, pretende construir noções metalinguísticas rigorosas e explícitas, baseadas na matemática e na lógica, capazes de descrever regras gramaticais precisas que existiriam na mente humana e permitiriam a faculdade linguística (cf. ROULET, 1978; RAPOSO, 1992; LYONS, 2011). Tais regras existiriam em número finito, mas permitiriam construções infinitas de expressões linguísticas, dentro dos limites linguísticos dominados pelo falante. É dessa noção que se origina o nome atribuído a tal teoria (cf. LYONS, 2011). Por outro lado, seguindo os pressupostos racionalistas cartesianos, essa teoria compreende que a mente não é uma pedra lisa ou tábula rasa, sobre a qual a experiência deixa suas impressões, mas semelhante a “[...] um bloco de mármore, que pode ser talhado em várias formas diferentes [...]” e “[...] cuja estrutura impõe restrições sobre a criatividade do artista” (LYONS, 2011:182). Destarte, a aprendizagem ocorreria por meio de princípios inatos, ou seja, possibilitados e, concomitantemente, restringidos pela própria mente, não por estímulos externos, como propunham os empiristas e estruturalistas bloomfieldianos, contemporâneos dessa teoria linguística.
Na esteira dos gramáticos de Port-Royal, ela postula que existam categorias gramaticais universais a todas as línguas, que estariam radicadas na mente humana. Nesse
92 ponto, é preciso considerar que, para a teoria gerativa, não seria a língua algo universal, mas a gramática que a torna possível. Por isso, segundo Lyons (2011), a atenção desses estudos se volta justamente para a compreensão daquilo que as línguas teriam em comum, ou seja, a Gramática Universal, que estaria radicada na mente humana. Logo, essa abordagem não estaria preocupada em deduzir categorias linguísticas da lógica ou da realidade válidas universalmente, mas em “[...] propriedades universais da linguagem que não podem ser explicadas [...]” (LYONS, 2011:172). Trata-se, então, de teoria de inferência, que procura compreender a Gramática Universal, isto é, “[...] a soma dos princípios linguísticos geneticamente determinados, específicos à espécie humana e uniformes através da espécie. Podemos conceber a Gramática Universal como um órgão biológico, que evolui no indivíduo como qualquer outro órgão” (RAPOSO, 1992:46-47).
É preciso ainda compreender que para a teoria gerativa a mente, concomitantemente, não é uma entidade não concreta, distinta do cérebro ou de qualquer outra parte do corpo, nem produto de processos físicos simples (cf. LYONS, 2011). Tratar-se- ia, portanto, de uma entidade virtual, produto de processos físicos complexos ou, como explica-nos Raposo (1992:34),
A mente, nessa perspectiva, é o conjunto de propriedades abstractas dos sistemas físicos do cérebro, e a compreensão destas propriedades passa necessariamente pelo uso de conceitos (em particular o conceito de representação) independente dos mecanismos materiais postulados ao nível do cérebro.
Devido a tal compreensão do que seja mente, segundo Lyons (2011), para Chomsky, a linguística teria mais condições de ajudar a explicar a mente, do que a mente de explicar a linguagem.
Em síntese, opondo-se às premissas estruturalistas estadunidenses, principalmente à compreensão da língua como comportamento, o gerativismo compreendeu-a como um sistema de regras e princípios radicados na mente humana (cf. RAPOSO, 1992). Dessa forma, essa teoria entendeu a língua como inata, isto é, uma espécie de componente biológico do órgão cerebral humano. Por conseguinte, se os humanos possuem a faculdade linguística e sendo ela um componente biológico, a gramática é a mesma para todos os humanos.
Gramática, aqui, é entendida não apenas como sistema, mas como sistema
computacional (cf. RAPOSO, 1992), ou seja, como um conjunto de relações sistêmicas pré- programadas. Segundo Raposo (1992:28-29),
93 [...] a gramática interiorizada consiste por um lado num ‘dicionário mental’ das formas da língua e por outro num sistema de princípios e regras actuando de forma computacional sobre essas formas, isto é, construindo representações mentais constituídas por combinações categorizadas das formas linguísticas.
Em outras palavras, a língua não é apenas uma estrutura que combina as formas a fim de permitir sua realização verbal, mas uma estrutura com combinações predeterminadas. Essa predeterminação já estaria radicada na mente humana e seria transmitida geneticamente pelos humanos, geração a geração. Por isso, para os gerativistas, a linguagem seria uma faculdade humana inata e específica da espécie humana (cf. LYONS, 2011).
Para explicar o funcionamento linguístico, Chomsky propõe dois princípios,
competência e desempenho, que costumam ser aproximados às noções de Saussure de língua e fala. O primeiro seria o conhecimento do indivíduo sobre a gramática de uma língua particular, isto é, sua gramática interiorizada; o segundo relacionar-se-ia ao uso concreto da língua em situações de fala real (cf. RAPOSO, 1992). Como pontua Raposo (1992:31), por meio desses princípios ocorreria uma complexa combinação de fatores linguísticos que “[...] põem em jogo variáveis de natureza social e psicológica independentes do conhecimento gramatical da língua [...]”. Esse jogo mobilizaria a estrutura, a organização e o conteúdo de qualquer expressão linguística. Nesse sentido, conforme destaca Lyons (2011:173), “a gramática que o linguista constrói para o sistema linguístico em questão pode ser encarada como um modelo da competência do falante nativo”.
Na teoria gerativa, entre as tarefas do linguista estaria a necessidade de precisar quais seriam os aspectos da expressão linguística que deveriam ser representados no nível da gramática formal, isto é, o que diz respeito aos princípios e representação que são próprios da língua e não de outros sistemas.
Podemos considerar, como destaca Weedwood (2002), que Chomsky não estaria apenas preocupado com uma descrição das formas que compõem a gramática linguística, mas também como essas formas se combinam e produzem sentidos. Opondo-se, mais uma vez, aos estudos estruturalistas de base bloomfieldiana, a teoria gerativista compreendeu que era preciso levar em conta ainda dois princípios analíticos para determinar a diferença entre estruturas linguísticas idênticas, mas produtoras de significados distintos. Explica-nos Weedwood (2002:132-133) que
Chomsky mostrou que as análises sintáticas produzidas até então eram inadequadas em diversos aspectos, sobretudo porque deixavam de levar em conta a diferença entre os níveis “superficial” e “profundo” da estrutura gramatical. No nível da superfície, enunciados como John is eager to please (“João está ávido por agradar”)
94 e John is easy to please (“João é fácil de agradar”) podem ser analisados de maneira idêntica, mas do ponto de vista de seu significado subjacente, os dois enunciados divergem: no primeiro, John quer agradar alguém; no segundo, alguém está envolvido em agradar John. Um dos objetivos principais da gramática gerativa era oferecer um meio de análise dos enunciados que levasse em conta este nível subjacente da estrutura.
Precisamos ter em mente que, embora se dedicasse à análise do significado, a teoria gerativa estava preocupada em precisar como as combinações predeterminadas das formas disponíveis da Gramática Universal radicada na mente humana possibilitariam produções infinitas de expressões linguísticas, segundo as intuições e intenções do indivíduo. Nesse sentido, o nível linguístico central de análise para tal gramática é a sintaxe, não a semântica. O eixo sintático seria responsável por organizar e estruturar o sistema linguístico e amalgamar os demais níveis fonológico, morfológico e semântico, de forma sistêmica e coerente (cf. RAPOSO, 1992; LYONS, 2011).
Sumarizando, destaca Raposo (1992:27) que a Gramática Gerativa (ou o gerativismo) desenvolveu-se basilarmente por meio de quatro questões: (a) “Qual o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de determinada língua particular [...]?” Ou seja, quais mecanismos mentais alguém possui para falar e compreender expressões de sua língua e “ter intuições de natureza fonológica, sintática e semântica” sobre essa língua?; (b) “Como é que este sistema de conhecimentos se desenvolve na mente do falante? Que tipo de conhecimento a criança traz a priori para o processo de aquisição de uma língua particular para explicar o desenvolvimento dessa língua na sua mente?”; (c) “Como é que o sistema de conhecimentos adquirido é utilizado pelo falante em situações discursivas concretas?”; e (d) “Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que servem de base ao sistema de conhecimentos linguísticos?”
Percebe-se que essas questões visam a compreender como a mente operacionaliza e permite a faculdade da linguagem a todos os humanos, apesar de existirem diferentes línguas. Conforme exposto anteriormente, o gerativismo defendeu que as categorias do sistema linguístico são comuns e iguais para todas as línguas naturais, embora elas possam se concretizar de maneiras distintas. Por isso, a segunda questão (b) seria central do ponto de vista epistemológico, uma vez que, como destaca Raposo (1992), os conhecimentos iniciais demonstrados por uma criança durante o processo de aquisição e desenvolvimento de sua língua materna revelariam o mecanismo cognitivo de funcionamento da Gramática Universal, isto é, o conjunto de operações sistêmicas comuns a todas as línguas humanas. Destarte, a descrição do funcionamento linguístico dessa fase inicial de aquisição garantiria a
95 fidedignidade e a validade do processo estruturante do componente mental responsável pela linguagem.
Como exposto, a linguística gerativa é considerada científica, por buscar compreender a língua a partir do próprio funcionamento linguístico e, daí, tentar caracterizá-la e defini-la, por meio de programa e teoria científicos próprios. Essa corrente de estudos pautou-se sobre pressupostos tradicionalistas, principalmente aqueles originados pelos gramáticos de Port-Royal. Por isso, Lyons (2011:194) pondera que “quanto à questão da linguagem e do pensamento, Chomsky, como vimos, adota o ponto de vista tradicional, característico do século dezessete, de que a linguagem serve para a expressão do pensamento preexistente e completamente articulado”. Precisamos advertir que, apesar de ser classificado como pertencente à concepção linguística como expressão do pensamento, o gerativismo, como demonstramos anteriormente, possui certa proximidade com tais noções tradicionalistas, mas avança em relação a essas ao procurar explicar a linguagem não mais apenas por via da lógica ou da filosofia, mas cientificamente. Entre tais avanços, precisamos pontuar que a visão gerativa não possui uma visão apreciativa acerca das variantes linguísticas, nem toma a modalidade escrita como equivalente à oral. Na verdade, para essa teoria, a modalidade de análise é sempre essa última. Além disso, a noção de universalismo linguístico também nessa teoria é revista e reformulada, consoante os padrões científicos próprios do século XX.
Dessa forma, precisamos demarcar que o gerativismo é uma corrente de estudos moderna (cf. LYONS, 2011), que “[...] teve uma influência enorme, não apenas em linguística, mas também filosofia, psicologia e outras disciplinas preocupadas com a linguagem” (LYONS, 2011:169).
Por se tratar de uma teoria que, ao longo dos anos, assumiu diferentes formatos, orientações e modificações teóricas sem perder seu mote de compreender a
estrutura (cognitiva) da linguagem humana, pontua Borges Neto (2004) que ela seja um programa científico empreendedor, uma vez que empreender está relacionado às capacidades de idealização, coordenação, realização, implementação e modificação de projetos, assumindo concomitantemente inovações e riscos.