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1.2. Aile Kavramı

1.2.7. Ailenin Farklı Görünümleri

O estruturalismo estadunidense alicerçou suas bases, enquanto corrente científica, também no começo do século XX. Como demarca Borges Neto (2004), não se pode afirmar que os linguistas estadunidenses desconhecessem as propostas do estruturalismo europeu, principalmente de Ferdinand de Saussure, do qual foram contemporâneos. No entanto, as origens, os propósitos, a metodologia e o arcabouço teórico do estruturalismo estadunidense são praticamente independentes do movimento europeu.

87 Se o estruturalismo europeu se desenvolveu na esteira de uma tradição dos estudos linguísticos, principalmente com problemas relacionados a questões mais epistemológicas, o estruturalismo estadunidense, por sua vez, desenvolveu-se principalmente por conta de problemas práticos: descrever exaustivamente as línguas ágrafas indígenas, antes que as mesmas fossem extintas (cf. BORGES NETO, 2004; ILARI, 2004). Por conta disso, a teoria estadunidense, de certa forma, foi bem consolidada do ponto de vista do exame e da análise linguística, principalmente por conta de seu rigor metodológico, no entanto, do ponto de vista epistemológico, menos elaborada, quando comparada à teoria estruturalista europeia (cf. MARCUSCHI, 2008).

Partindo inicialmente dos pressupostos linguísticos de Humboldt e permeados por noções antropológicas, os estudos linguísticos estadunidenses de viés estruturalista procuravam examinar a relação entre linguagem e pensamento. Um dos iniciadores do estruturalismo estadunidense foi Edward Sapir (1884-1939) que, nascido na Europa, imigrou com seus pais ainda quando criança para os Estados Unidos da América. Fortemente influenciado por noções antropológicas, Sapir considerava a linguagem como um produto social, assim como as crenças, as religiões, os costumes e as artes (cf. KRISTEVA, 1969). Segundo Kristeva (1969), para esse linguista, a fala seria uma função não instintiva, ou seja, adquirida e de base cultural. Seus estudos teriam considerado a linguagem como representação da experiência. Contudo, diferentemente da primeira tendência de concepção linguística, para Sapir a linguagem não simbolizaria objetos, mas conceitos, que poderiam se articular a outros tantos, devido à experiência cultural dos humanos. Nesse sentido, haveria um sistema de formas, não apenas linguísticas, que seriam capazes de estabelecer relações entre os conceitos.

No que concerne à língua, a estrutura linguística, isto é, o sistema de formas se constituiria como um molde do pensamento. Essa estrutura seria universal, pois possibilitaria a todos os humanos, por meio de formas diferentes, a expressão dos conceitos que possuiriam em seu pensamento (cf. KRISTEVA, 1969). Notamos, assim, na teoria de Sapir, a relação existente entre linguagem e pensamento.

Analisando as formas linguísticas, partindo dos elementos da fala, os sons, e distinguindo-os dos elementos fônicos, o mencionado linguista ter-se-ia detido nos estudos dos processos gramaticais – composição, ordem, sequenciação... das palavras – e nos

conceitos gramaticais – objeto, sujeito, ação, número, tempo, determinação, modalidade... Com esses estudos, Sapir teria compreendido que um mesmo conceito poderia ser traduzido e estar agrupado, de acordo com cada língua, de modos diferentes (cf. KRISTEVA, 1969). Por

88 conseguinte, ele teria compreendido linguagem enquanto estrutura. Como destaca Kristeva (1969:336, grifos da autora), “Sapir recusou-se a considerar a linguagem através dos métodos mecanicistas e opôs-se ao behaviorismo que daí resultava: insiste sobretudo no caráter

simbólico da linguagem [...] e na sua função primeira que é [...] a comunicação”.

Se Sapir se recusara ao mecanicismo dos estudos comportamentalistas e, por isso, seja considerado como adepto da corrente mentalista (cf. KRISTEVA, 1969), o mesmo não se pode dizer de Leonard Bloomfield (1887-1949) – que influenciou fortemente os estudos estruturalistas nos Estados Unidos da América. Avançando em relação àquele teórico, Bloomfield desenvolveu, com base nos postulados da psicologia comportamentalista, uma proposta de estudo linguístico que desvinculasse, inicialmente, toda referência a categorias mentais ou conceituais (cf. WEEDWOOD, 2002). Tal dissociação era justificada para garantir à Linguística estadunidense status de ciência, uma vez que, por conta dos princípios empiristas vigorantes na época, somente a análise e a descrição de dados observáveis que pudessem ser generalizados permitiriam a construção de conhecimentos genuinamente científicos (cf. BORGES NETO, 2004).

O recorte proposto por Bloomfield delimitava a atenção dos estudos linguísticos para os dados singulares que pudessem ser observados. Por isso, por conta de seus pressupostos, os estudos estadunidenses propuseram um recorte metodológico e analítico em que a preocupação consistia em descrever as formas, principalmente fonológicas e morfológicas, e não se ocuparam, apesar de desejável, mas considerado à época como não possível, dos estudos sobre a semântica e funções linguísticas.

Bloomfield considerava que a língua possuiria uma estrutura sintagmática, resultante da conjugação dos níveis estruturais de base, sendo os mais importantes os fonêmicos e morfológicos. Seria preciso, portanto, que os estudos linguísticos fossem capazes de “[...] em primeiro lugar, estabelecer quais seriam os fonemas e os morfemas da língua, pela segmentação e classificação do material concreto de fala obtido pelo registro de um corpus” (cf. BORGES NETO, 2004:105).

Vislumbramos, desse modo, uma diferença entre o estruturalismo europeu e o estadunidense: enquanto aquele tenderia a compreender a estrutura como a ordenação de um todo em partes que se condicionariam mutuamente, este tenderia a compreendê-la como capacidade de associação e combinação dos elementos linguísticos. Por isso, conforme destaca Kristeva (1969), o estruturalismo estadunidense é sensivelmente diferente do europeu, por segmentar o todo, isto é, a língua, em elementos constitutivos, e definir os elementos pelo lugar, pelas variações e substituições possíveis que ocupam no todo. Para isso, o

89 estruturalismo estadunidense considerava importante a construção de um corpus, composto a partir de enunciados orais, como forma de oferecer materiais e permitir a análise empírica.

Por meio de descrição mecânica, da qual resultaria uma visão da língua como algo matematicamente manejável (cf. KRISTEVA, 1969), uma das marcas dos estudos estruturalistas estadunidenses seria, como pontua Ilari (2004), a dedução. Seguindo as orientações de Bloomfield, para se garantir a cientificidade, principalmente por conta do paradigma empirista, cada língua estudada deveria ser considerada como totalmente desconhecida pelo linguista, como forma de garantir suas análises fossem dedutivas e não hipotéticas. Após isso, as descobertas ou regularidades encontradas deveriam ser validadas por meio de sua aplicação no corpus disponível. Em outras palavras, as deduções precisavam ser aplicadas ao material linguístico coletado e acessível. Nesse sentido, “o papel do linguista se assemelha ao do decifrador que, sem informações prévias sobre os dados que analisa, deve revelar a ‘estrutura’ a eles subjacentes” (BORGES NETO, 2004:108).

Como pondera Ilari (2004), vários programas foram pensados para pôr em prática os procedimentos metodológicos propostos por Bloomfield. Dentre eles, merece destaque a proposta do linguista Zellig Harris (1909-1992). Segundo Ilari (2004:78-79),

Harris toma ao pé da letra a ideia de que a análise da língua não deve contar com qualquer informação prévia e evita, por isso, considerar o sentido; nessas condições, quando a análise começa, o linguista dispõe apenas de um corpus (possivelmente um corpus de extensão considerável, por exemplo o conjunto de todas as emissões radiofônicas que foram ao ar num país durante um mês): o linguista sabe ouvir, mas não sabe, por definição, quais são as unidades linguísticas da língua em estudo. Seu primeiro problema é, então, o de segmentar o corpus, ou seja, transformar o que ouve no gravador em sequências discretas de unidades [...]. O recurso de que Harris lança mão para segmentar, consiste em substituir aleatoriamente trechos do corpus com duração determinada (em milissegundos), por outros trechos do corpus que tenham a mesma duração, controlando mediante a avaliação de um falante nativo se a alteração “modificou” o trecho inicialmente dado.

Por meio desse modelo, conhecido como distribucionista, esperava-se conseguir descobrir a estrutura das línguas, inclusive as desconhecidas, empregando técnicas controláveis, capazes de reduzir interferências intuitivas do linguista (cf. ILARI, 2004).

De acordo com Ilari (2004:79), tal procedimento deveria evidenciar o pressuposto estruturalista estadunidense de que “[...] a propriedade que melhor define uma unidade linguística é a maneira como essa unidade se combina com as demais na cadeia falada”. Ou seja, a forma adequada de definir uma unidade linguística seria caracterizá-la por meio de sua relação com outras unidades, na organização sintática da língua. Por isso, o

90 modelo distribucionista deveria evidenciar, por meio de substituições possíveis das unidades linguísticas disponíveis, as estruturas empíricas de determinadas línguas.

A sumarização apresentada por Roulet (1978:20) consegue evidenciar satisfatória e concisamente a proposta analítica e metodológica do estruturalismo estadunidense:

[...] os estruturalistas americanos propõem-se a:

a) descrever a língua falada corrente de um indivíduo ou de uma comunidade; b) limitar o campo da descrição, deixando à parte a significação e levando em consideração o único aspecto objetivo, observável e verificável da língua: a forma; c) realizar essa descrição segundo um método rigoroso, sistemático e objetivo, permitindo inferir quase mecanicamente de um corpus de gravações a gramática de uma língua.

Esquematicamente, procedem geralmente em quatro etapas:

1) gravação, no local, de um corpus tão representativo quanto possível de uma língua estudada;

2) segmentação dos enunciados do corpus em diferentes níveis: fonema, morfema, “palavra”, grupo, proposição, oração;

3) inventário das formas assim obtidas, em cada nível, e de sua distribuição; 4) classificação das formas e dos enunciados da língua estudada.

Destarte, o estruturalismo estadunidense visava a evidenciar com base nas formas, e não no significado ou nas funções linguísticas, as possibilidades virtuais disponíveis nas línguas por conta de sua organização interna. Nesse sentido, também essa vertente estruturalista pode ser considerada imanentista (cf. ILARI, 2004). Conforme pondera Roulet (1978:20), “a gramática não mais consiste, como nas gramáticas tradicionais, em um conjunto de regras, mas sim em uma relação de estruturas”. Como vimos, essa estrutura é inerente à linguagem e responsável por associar e combinar as formas particulares de cada língua.

Em síntese, o estruturalismo estadunidense, assim como o europeu, foi uma corrente que influenciou os estudos linguísticos do século XX, principalmente por meio de metodologia e análise rigorosas, com intuito de realizar uma ciência genuinamente empírica. Diferentemente da vertente europeia, a estadunidense voltou-se para questões práticas, por conta da necessidade de compreender as línguas dos aborígenes. Isso não impediu o desenvolvimento de uma teoria linguística, mas é preciso ponderar que, comparada àquela vertente, esta se mostra mais limitada, principalmente para responder questões a respeito da natureza histórica e cultural, e do uso social da língua.

Além disso, apesar das contribuições de outros teóricos, como Sapir, a corrente estadunidense foi fortemente influenciada pelos pressupostos de Bloomfield, que orientou tais estudos linguísticos a um mecanicismo metodológico e analítico, baseado exclusivamente nas

formas disponíveis na estrutura linguística. Será principalmente em contrapartida a essa corrente de estudos que Noam Chomsky desenvolverá sua teoria linguística.

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