2.2. TÜRK MAHKEMELERİNİN UYUŞMAZLIĞIN ESASI BAKIMINDAN
2.2.4. Türk Mahkemelerinin Geçici Hukuki Koruma Kararı Verme Yetkis
Inicialmente, achamos oportuno esclarecer que o papel assumido pelo poder público, procurando viabilizar a implantação de um megaprojeto turístico, deve ser analisado à luz da concepção esboçada no subcapítulo anterior, sobre a produção da cidade capitalista. Ou seja, de que a ação do Estado está imbricada nas relações sociais de um dado contexto histórico e, por conta disto, exprime os interesses das frações de classe dominantes do período determinado.
Ademais, procurando não perder de vista a natureza desta pesquisa, que trabalha com a escala intra-urbana, achamos por bem fazer uma abordagem, ainda que breve, do contexto das políticas públicas em que se enquadra o Pólo Turístico Cabo Branco, enquanto projeto que tenderá a alterar de forma substantiva a produção socioespacial do Litoral Sul de João Pessoa.
Ressaltado este procedimento adotado, abordaremos como a ação do Estado, por meio da produção socioespacial referente a esse empreendimento, coloca a área de estudo como localização estratégica para a reprodução do capital. É preciso frisar que, apesar de o pólo turístico não estar efetivamente implantado, muito já foi investido em termos de dotação de infra-estrutura e do parcelamento do solo para o encaminhamento de tal projeto.
Nesses termos, o crescimento da atividade turística no Nordeste brasileiro é responsável por intensas mudanças na produção e consumo do espaço regional, em especial nas áreas litorâneas. Assim, ao apropriar-se do litoral, por meio da construção de novos objetos espaciais, a exemplo de pousadas, hotéis, bares, restaurantes, centros de lazer e até residências de alto padrão construtivo, o turismo tem se tornado um dos principais vetores da produção do espaço litorâneo regional. É justamente com esta perspectiva que o poder público procura criar as condições institucionais e de infra- estrutura para a instalação do pólo turístico.
É importante ressaltar que, nos últimos anos, o apoio financeiro institucional para a implementação das políticas de turismo no Nordeste brasileiro advém do Programa de Ação para o Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (PRODETUR – NE). O Banco do Nordeste constitui o órgão mutuário e agente financeiro do programa, o qual viabiliza o aporte de recursos financeiros junto ao Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID) para a implantação de infra-estrutura de saneamento básico e serviços públicos das áreas de expansão turística29.
Os megaprojetos de turismo constituem uma estratégia de modernização planejada pelo Estado, buscando disponibilizar à iniciativa privada terrenos de alto valor para a exploração desta atividade econômica e, com isso, obter sobrelucros de localização. Nesse caso, o poder público, estadual e federal, entra como um importante empreendedor. Além disso, esses megaprojetos criam estruturas territorialmente concentradas, com o objetivo de reduzir os custos de implantação da infra-estrutura básica e favorecer a atuação da iniciativa privada.
Nesta situação, as políticas públicas estão fundamentalmente voltadas para os interesses hegemônicos do capital, procurando viabilizar as condições para a sua reprodução. Mais do que nunca, no que tange à área do pólo turístico, o solo urbano se insere como mercadoria de grande valor.
O Pólo Turístico Cabo Branco foi concebido em 1988, ainda com o nome de Complexo Turístico Costa do Sol30. No loteamento do pólo está prevista a instalação de hotéis, além dos setores comercial, de serviços, institucional, esportivo, de eventos e de animação turística. Há também a destinação de três setores para instalação de residências de veraneio e de outros três considerados áreas especiais de preservação permanente, localizados na desembocadura dos rios Aratu, Jacarapé e Cuiá31 (Fig. 3.9). Trata-se de um megaprojeto que poderá alterar de forma substantiva a produção do espaço de todo o Litoral Sul pessoense e dos municípios vizinhos.
29 O PRODETUR - NE subdivide-se em cinco subprogramas: político-institucional; gestão; infra-
estrutura, equipamentos e serviços, promoção e divulgação; pólos e corredores turísticos.
30 A partir de 1992 passa a se chamar Pólo Turístico Cabo Branco.
31 O Governo do Estado já criou legalmente o Parque Estadual do Jacarapé e o Parque Estadual do Aratu,
por meio dos decretos de números 23.836 e 23.838, respectivamente, ambos em 27 de dezembro de 2002. Até o momento presente, porém, ainda não ocorreu a implantação efetiva desses parques. Há, inclusive, problemas relativos a ocupações irregulares em grande parte da área reservada ao pólo turístico, que ainda não foram resolvidos. Na abordagem da comunidade de Jacarapé esclarecemos tal problema.
Figura 3.9 - Zoneamento do uso do solo na área de implantação do Pólo Turístico Cabo Branco (modificado de PARAÍBA, Governo do Estado, 1996).
Pedrosa (1999) afirma que, no que se refere às obras já executadas no pólo, noventa por cento da malha viária foram concluídos. Apesar da infra-estrutura implantada e da comercialização dos lotes, até o momento presente tal empreendimento não deslanchou.
Como forma de tentar fazer deslanchar o projeto em discussão, o Governo do Estado tem sinalizado com a construção de um centro de convenções, com recursos financeiros advindos da segunda etapa do PRODETUR – NE, anunciada em 2004. Desta feita, a imprensa local tem noticiado a disposição oficial em retomar o referido empreendimento32.
Como vemos, o poder público trata o Litoral Sul como uma localização estratégica do ponto de vista da gestão do território. Nesse caso, esta porção do espaço urbano de João Pessoa torna-se uma importante mercadoria não somente pela beleza cênica da paisagem, mas também diante do controle dessa área por agentes econômicos, 32 “Entre os projetos prioritários para a capital, destacam-se a construção do Centro de Convenções para
incrementar o turismo de eventos, que vai funcionar no Pólo Turístico Cabo Branco; a conclusão do Jardim Botânico, a estruturação do Vale do Rio Jaguaribe e do Porto do Capim” (In: JORNAL DA PARAÍBA. Cássio finaliza entendimento com investidores para Pólo Cabo Branco. Caderno Política. João Pessoa, 21 de março de 2004).
pertencentes à iniciativa privada, que, em parceria com o Estado, desejam imprimir profundas transformações a partir da instalação do pólo turístico e do aproveitamento do potencial para a expansão dessa atividade.
Porém, é preciso que na nova etapa do projeto, não perca de vista que “a viabilidade econômica do Pólo Turístico Cabo Branco passa, no entanto, obrigatoriamente, por uma satisfatória gestão ambiental” (PEDROSA, 1999, p. 16). Esta preocupação é fundamental porque durante a fase inicial de construção das vias de acesso, no final da década de 1980 e início da década de 1990, foram realizadas obras de impacto ambiental bastante degradante, tais como: desmate de resquícios da Mata Atlântica, localizados no tabuleiro costeiro, desmonte de falésias, aterro de mangues, dentre outros desmandos, os quais resultaram no embargo da obra até 1996. Este fato contribuiu decisivamente para a interrupção da implantação do pólo.
A questão socioambiental relativa a esses empreendimentos torna-se crucial, uma vez que, conforme aponta Cruz (1997, p. 125),
Deficiências no planejamento turístico associadas à ausência ou falhas no planejamento ambiental da atividade e visão imediatista de empreendedores (incluindo o setor público) têm tornado tais projetos extremamente impactantes, não somente no que se refere ao meio físico mas, também, ao ambiente sociocultural. Utilizando-se do argumento econômico como justificativa, os Megaprojetos, com o auxílio da mídia, ganham rapidamente o respaldo das populações locais, atraídas pelo desenvolvimento material proporcionado pelo turismo.
Diante dessa ordem de problema, referente ao Pólo Turístico Cabo Branco, achamos muito oportuno trazer à baila a discussão que realizamos no capítulo dois, referente ao desenvolvimento socioespacial urbano. Ou seja, enquanto prevalecer a idéia de que o crescimento econômico, por si só, parece suficiente, o real desenvolvimento socioespacial urbano não passará de um meta distante de ser alcançada. Como bem ressaltamos anteriormente, tal modelo de desenvolvimento só será possível se perseguirmos a qualidade de vida e a justiça social como condições indispensáveis para sua viabilização.
De acordo com Pedrosa (1999), no referido ano acima (dezembro de 96), foi apresentado um Plano de Recuperação Ambiental, com vistas à recuperação das áreas degradadas, viabilizando-se, dessa maneira, a retomada do projeto.
Do que aqui expomos e dada a natureza desse empreendimento, depreendemos que a efetiva implantação do Pólo Turístico Cabo Branco implicará não só na produção,
mas também no consumo do espaço urbano do Litoral Sul de João Pessoa, ou melhor, dos aspectos que compõem a beleza cênica da paisagem, com uma tendência de fomentar uma nova demanda representada pelos estratos sociais mais abastados que freqüentarão ou até se fixarão no local, sendo que, muitos deles deverão ser exógenos ao lugar.
Na área de estudo, a inserção do Estado como agente produtor do espaço urbano vai além da dotação de benfeitorias ou do ordenamento jurídico do solo urbano. É preciso enxergar que as ações do poder público no intuito de implantar o Pólo Turístico Cabo Branco, não só ultrapassam a escala intra-urbana como exprimem interesses exógenos ao lugar.
Na verdade, como bem afirma Santos (1997b, p. 65), nos dias atuais, mais do que nunca, é necessário ter clareza de que “ muitas das ações que se exercem num lugar são o produto de necessidades alheias, de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é localizada naquele ponto preciso da superfície da Terra”.
Ademais, torna-se necessário esclarecer o fato de que, em função das transformações em curso e de outras que estão por vir, a composição social e econômica do recorte espacial formado pela área de estudo deverá ser profundamente alterada.
Assim, no momento em que o Pólo Turístico Cabo Branco for efetivamente implantado e o processo de valorização do solo urbano se acentuar ainda mais (pois já está acontecendo em vista da instalação de condomínios fechados horizontais), o espaço urbano do Litoral Sul de João Pessoa apresentará uma maior estratificação social. Eis, portanto, o cerne da contradição na ação do Estado enquanto agente produtor do espaço urbano.