Silva (2008) nos fornece a compreensão de que, uma vez que o ciberespaço passou a ser um novo campo de inter-relações humanas, as práticas sociais envolvendo a linguagem oportunizaram que o foco de interesse das pesquisas sociais (e adimos por nossa vez, especialmente as de natureza linguística) para lá fosse naturalmente direcionado.
A nossa pesquisa se trata, portanto, de pesquisa qualitativa, em razão de não recorrermos a quantificações, enumerações de eventos ou instrumentais estatísticos.
O corpus pesquisado, ademais, não é um texto escrito em suporte de papel; é um conjunto de textos verbais, não verbais, filmes (videoclips originalmente hospedados no youtube), imagens (reais e/ou editadas), todos parodiados para gerar efeito humorístico, hospedados no ciberespaço, nos domínios digitalizados dos weblogs.
Apresenta ainda o nosso campo pesquisado um entrelaçamento discursivo que permite investigarmos as influências político-sociais, históricas e culturais nele referidas ou ausentes, quer como vestígios ou pistas deixados ali intencionalmente ou não, mas certamente constituintes da trama múltipla que estrutura a linguagem no seu recorte de prática social e histórica.
Guiou-nos, igualmente, em nossa investigação, a guisa de norte metodológico, a sincera interrogação da relevância social do tema, como consequência direta de tudo que se postula no território da Linguística Aplicada (MOITA LOPES, 2006, p.59), o que nos descortinou os vários atores sociais envolvidos no fenômeno focalizado, a dimensão crítica das realidades sociais implicadas no discurso do grotesco e seus sentidos históricos e socioculturais apreendidos.
Procuramos nos ditames de nossa investigação, portanto, os elementos geradores de efeito humorístico e carnavalesco (neste último caso, quando se fizessem presentes) que incidem sobre o discurso do grotesco, nas postagens do referido blog, tais como: a linguagem (enquanto prática situada histórica, cultural e socialmente), a forma de articular os sentidos e as diferentes vozes sociais que entrecortam e compõem a malha multiforme das postagens analisadas.
Como lente crítica do aspecto cômico, debruçamo-nos sobre as proposições de Vladimir Propp (1992) no tocante à comicidade e ao riso.
Na análise do efeito carnavalesco, refletimos sobre as proposições de Bakhtin (1999a). Quanto ao grotesco considerado na sua amplitude e em suas variadas e mutantes expressões, auxiliaram-nos as proposições de Bakhtin (1999a), de Russo (2000), de Kayser (2003) e de Sodré e Paiva (2002).
No específico aspecto da tipologia do discurso do grotesco adotada nessa pesquisa, Sodré e Paiva (2002) é quem nos forneceu uma proposta de gêneros e espécies do grotesco, aos quais recorremos na análise de todas as postagens.
Outros teóricos da comicidade, do riso, do feio e do grotesco também foram nossos interlocutores na análise de algumas postagens, dentre eles: Eco (2007), Bergson (1983) e Minois (2003).
Em seguida, demarcamos um espaço de tempo para considerarmos, sobretudo, a recorrência de certos elementos discursivos que interessaram à nossa investigação, do que resultou a coleta dos dados que foram analisados na perspectiva teórica acima detalhada.
Nossa pesquisa se baseou na coleta de postagens originais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que puderam ser reelaboradas de acordo com os objetos de nossa pesquisa. Desta forma, pudemos viabilizar nossa análise dos dados coletados, referentes às postagens dos blogs Cleycianne e Eu Sou Ryca, em períodos distintos para cada blog, em razão de em 2013, ano em que faríamos a coleta de todas as postagens, ter havido o desativamento temporário do blog Eu Sou Ryca. Esses desativamentos temporários, geralmente, ocorrem quando os blogueiros decidem realizar mudanças de natureza estética e
no formato hipertextual do site, para lançarem um novo conceito de postagens e, às vezes, por motivos de agenda profissional mesmo (ambos os blogueiros são DJs muito requisitados em todo o Brasil, como se pode ver em sua agenda de trabalho em seus perfis do Facebook), ficando o blog sem postagens durante períodos que podem variar de dias, semanas e até meses. Por essa razão, usamos as duas únicas postagens do blog Eu Sou Ryca que havíamos coletado em agosto de 2012 em nossas análises. Por ter sido Eu Sou Ryca o primeiro blog na categoria humorística a nos chamar a atenção, dada à abundância do discurso do grotesco que nele encontramos, decidimos não descartá-lo ou substituí-lo por outro blog humorístico. Quanto ao blog Cleycianne, fizemos a coleta no período de 01 de janeiro a 30 de junho (seis meses). A escolha do período de seis meses (e não um trimestre, por exemplo) aconteceu em razão de as suas postagens se verificarem em intervalos muito grandes, ocorrendo às vezes de não se verificar nenhuma postagem, ou apenas uma num determinado mês, provavelmente em razão da agenda profissional do blogueiro como DJ.
Assim, o corpus do estudo foram os blogs da Internet Cleycianne e Eu Sou Ryca, por apresentarem farto material do grotesco, sendo este o nosso objeto.
Na primeira fase, foi feita a catalogação, fixação e seleção temática do material pesquisado. Na segunda fase, foi feita a leitura crítica dos textos e imagens e a análise dos mesmos, tendo em vista a sistematização dos estudos e, consequentemente, a elaboração e conclusão do presente trabalho.
Ao escolhermos os blogs Cleycianne e Eu Sou Ryca, consideramos algumas características desse tipo de blog, dentre as quais a dificuldade em contextualizar tudo o que encontrássemos lá e a não veracidade como parte do processo de construção do discurso do grotesco através da carnavalização, pois muitas imagens e vídeos postados podem ter sofrido processos de edição amplamente disponíveis na Internet. Mesmo assim, nos foi possível identificar a razão histórica de muitas postagens, razão pela qual, em algumas análises, recorremos a revistas, jornais e sites da imprensa digital para respaldarem nossas análises.
Interessaram-nos, portanto, apreender os processos discursivos do grotesco no ciberespaço, com um olhar analítico mais voltado para a produção do efeito humorístico no espaço virtual, mais especificamente nos blogs analisados.