• Sonuç bulunamadı

7 Houaiss A, Villar M de S, Franco FM de. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva; 2001. p. 109.

8Reprodução do texto integral, com as variações linguísticas, conforme se encontra no endereço: http://eusouryca.com/. Acessado em:15 de dezembro de 2012.

O mundo são seus embates e vozes diversas, suas lutas e recuos, enfim, seus diálogos incessantes. Tudo o que se enuncia se destina a um outro, presente ou ausente no tempo e no espaço. A intencionalidade de quem enuncia, portanto, não apenas constitui o que se vai dizer, mas como isso vai ser dito, determinando o gênero:

O querer-dizer do locutor se realiza acima de tudo na escolha de um gênero do discurso. Essa escolha é determinada em função da especificidade de uma dada esfera da comunicação verbal, das necessidades de uma temática (do objeto do sentido), do conjunto constituído dos parceiros etc. Depois disso, o intuito discursivo do locutor, sem que este renuncie à sua individualidade e à sua subjetividade, adapta-se e ajusta-se ao gênero escolhido, compõe-se e desenvolve-se na forma do gênero determinado (BAKHTIN, 1992, p. 301).

Entretanto, esse querer-dizer ou intencionalidade não são necessariamente visíveis e palpáveis. Embora a intenção engendre o gênero, ela não determina a produção dos sentidos, a qual se dá no outro, de acordo com suas possibilidades socioculturais e históricas. No tocante aos sujeitos do humor, é como são percebidos ou não determinados valores sociais, nos quais todos sobrenadamos no dia a dia, que resultará em atitudes responsivas de adesão ou resistência, influenciando a tonalidade dessa atitude de rejeição ou concordância, mas não de neutralidade, ainda mais quando o efeito do riso é o que se busca:

A expressividade de um enunciado é sempre, em maior ou menor grau, uma resposta, em outras palavras; manifesta não só a sua própria relação com o objeto do enunciado, mas também a relação do locutor com os enunciados do outro. As formas de reações-respostas [...] se diferenciam nitidamente segundo as particularidades das esferas da atividade e da vida cotidiana do homem nas quais se efetua a comunicação verbal... As tonalidades dialógicas preenchem um enunciado e devemos leva-las em conta se quisermos compreender até o fim o estilo do enunciado (ibidem, p. 317).

Marcados por posicionamentos que quando respondemos aos outros denunciam nossas visões de mundo, opiniões e valores, não temos como nos esconder na neutralidade, haja vista que, consciente ou inconscientemente, em nossa interação social avaliamos e somos avaliados, julgamos e somos julgados, valoramos e somos valorados, e a linguagem materializa e constela esses embates, permitindo que os múltiplos índices de valor que a entreteçam possam ser apreendidos, uma vez considerados os fatores sócio-históricos aí em movimento. Concordamos com Bakhtin (ibidem, p. 178), portanto, que assevera que nosso próprio pensamento nasce e forma-se em interação e em luta com o pensamento alheio, o que não pode deixar de refletir nas formas de expressão verbal do nosso pensamento.

A axiologia toca de muito perto, consequentemente, a ampla malha das crenças pessoais e preconceitos coletivos, o solo movediço e sempre mutante das supostas verdades e ilusões; é o território por excelência da singularidade de como cada sujeito constitui-se como tal e de como se erigem suas diversas teorias e hipóteses de como a vida é e de como deveria ser. Da historicidade humana e de sua busca por significação, as axiologias ecoam as inúmeras semânticas, os inúmeros discursos, as inúmeras línguas e vozes sociais (FARACO, 2003, p. 51).

A expressão politicamente correto é comumente usada quando se instaura o choque de valores sociais no cenário humorístico. Assim, temos as piadas politicamente incorretas, cujos estereótipos (a loira burra, o negro pobre ou ladrão, o português burro, o baiano preguiçoso, o gay feminino e passivo, a lésbica máscula, o político corrupto etc.) pretendem o efeito do riso. Os inúmeros movimentos que se insurgem a favor do politicamente correto reivindicam a substituição de termos considerados socialmente ofensivos por outros que seriam considerados neutros, como se as palavras fossem em si mesmas carregadas de sentido(s) e não estes produzidos na relação entre locutores. Mais uma vez, essas preocupações revelam os prismas morais através dos quais o mundo é apreendido e, consequentemente, sentido.

No tocante ao (humor) grotesco que encontraremos nos blogs Eu Sou Ryca e Cleycianne, Sodré e Paiva informam que:

Pela ironia e pela caricatura, o texto leva o julgamento de valor (o axiológico) a encontrar-se com o conhecimento (o gnosiológico) e, assim, produzir um efeito de desvelamento grotesco da realidade (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 87).

Entretanto, é esse embate de forças centrípetas e centrífugas, de discursos de autoridade e de discursos de resistência, de que o humor se torna uma força desveladora, apontando não onde se encontram o certo e o errado, e bem e o mal, mas o conflito entre o que axiologicamente a sociedade entende como um e como outro.

Ser responsável para Bakhtin (2010) aponta para a nossa singularidade, para o fato de que precisamos assumir diante do(s) outro(s) aquilo que pensamos, falamos e fazemos, e nessa perspectiva, o sujeito “assina” aquilo que pensa, faz e diz, muito embora todo ato possua uma instância social, sob certo ângulo, tornando-se repetível. Mas por outra angulação, todo ato também é individual, não se repetindo nunca, posto que não ocorrerá da mesma forma que outros atos, não se repetindo nunca os fatores causais desse segundo ato,

únicos no tempo, no espaço e no sujeito. Dois sujeitos diferentes (ou o mesmo sujeito) realizam o mesmo ato cada um à sua maneira, e isso não alterará o contato com o outro sujeito, nem impedirá que seus atos únicos e singulares apresentem-se tão diferentes que não possuam elementos em comum com outros atos. O ato para Bakhtin (2010) relaciona-se com o pensar e o criar, e nele o sujeito desvela a si próprio e se põe abertamente, nominado e identificado, para os embates dialógicos do mundo:

O ato responsável é, precisamente, o ato baseado no reconhecimento dessa obrigatória singularidade. É essa afirmação do meu não-álibi no existir que constitui a base da existência sendo tanto dada como sendo também real e forçosamente projetada como algo ainda por ser alcançado. É apenas o não álibi no existir que transforma a possibilidade vazia em ato responsável real (através da referência emotivo-volitiva a mim como aquele que é ativo). É o fato vivo de um ato primordial ao ato responsável, e a criá-lo, juntamente com seu peso real e sua obrigatoriedade; ele é o fundamento da vida como ato, porque ser realmente na vida significa agir, é ser não indiferente ao todo na sua singularidade (BAKHTIN, 2010, p. 99, grifos do autor).

Os nossos posicionamentos carregam nossos atos e pensamentos de possibilidades que excluem o fortuito e o randômico. O sujeito não está sujeito a qualquer pensamento e a qualquer ato, mas o lugar concreto histórica e socialmente determinados de onde se pensa e se fala, determina e também descarta possibilidades nesse ato. O acaso não encontra guarida nesse território do ato. O ato, enquanto gesto ético, único, individual, assinado, não deve ser confundido com ação, que é um comportamento qualquer, mecânico ou impensado. O sujeito é sempre convocado a agir conforme suas crenças e convicções, a pensar de acordo com sua visão de si mesmo e do mundo, e essa singularidade interior o coloca em contato e diálogo, aos quais sempre responde, com outras singularidades e sujeitos.

Esse sujeito do mundo e no mundo altera o altera e é por ele alterado. Há consequentemente noções de proporção sob a forma de fronteiras e limites determinando o que pode e o que não pode ser dito. O seu lugar social, o seu papel num dado grupo, as instâncias familiar e profissional etc., moldam diferentes “posições-sujeito”, criando ou anulando possibilidades sócio-históricas de ação, embora essas possibilidades estejam mudando permanentemente no nosso mundo movente e em contínua transformação.

Todos somos instados numa direção político-filosófica, pois nossos posicionamentos e valores transbordam dos nossos atos. Na dimensão do humor, isso não é diferente. BAKHTIN (2010, p. 70) quanto a isso se expressa assim: eu sou real, não substituível, e é por isso que eu devo realizar minha singularidade. [...] Eu, enquanto único, não posso em

nenhum momento não participar de minha vida real, inevitavelmente e necessariamente singular, eu devo ter um dever. Embora isso aponte para a ideia de um ato consciente, não se nega o fato de que não somos conscientes de tudo. Naquilo que a visão bakhtiniana designa por ato consciente, jaz a dimensão responsável do ato.

O ato enquanto ação material, situada histórica e socialmente, enseja-nos ponderar que toda decisão ética do sujeito é permeada por tudo aquilo que constitui a dimensão concreta de sua existência, sendo essa concretude a formatadora das ocorrências no plano objetivo que a direcionam. Assim, o ato na sua integridade é mais que racional – é responsável (BAKHTIN, 2010, p. 81). Quando assino um texto de humor, quando crio uma piada que versará sobre os elementos controversos da sociedade em que me situo, engajo-me no ético do existir, do pensar, do criar e o meu ato se torna responsável:

Não é o conteúdo da obrigação escrita que me obriga, mas a minha assinatura colocada no final, o fato de eu ter, uma vez, reconhecido e subscrito tal obrigação. E, no momento da assinatura, não é o conteúdo deste ato que me obrigou a assinar, já que tal conteúdo sozinho não poderia me forçar ao ato – a assinatura-reconhecimento, mas podia somente em correlação com ao minha decisão de assumir a obrigação – executando o ato da assinatura-reconhecimento; e mesmo neste ato o aspecto conteudístico não era mais que um momento, e o que foi decisivo foi o reconhecimento que efetivamente ocorreu, a afirmação – o ato responsável, etc (BAKHTIN, 2010, p. 94).

Não há como fugirmos ao axiológico. A valoração/avaliação ética que enquanto sujeitos nos submetemos e submetemos outros sujeitos, encadeia e fornece sentido e orientação aos nossos atos. Ao deixarmos nossas marcas no mundo, sujeito, deixamos uma assinatura, que nos convoca a nos responsabilizarmos por nossos atos, diante de nós mesmos e de outros sujeitos.

A concepção do ato ético de Bakhtin (2010) implica que agir é comprometer-se, é eticamente sofrer a interpelação do outro, especialmente quando o outro seja portador de um outro ponto de vista, o que requer uma resposta pautada em responsabilidade frente aos nossos atos.

4 ANÁLISES

Benzer Belgeler