No caso da entrevista, um dos motivos que a torna extremamente útil a este estudo é o fato de que, com o seu uso, se pode “[...] atingir informantes que não poderiam ser atingidos por outros meios de investigação, como é o caso de pessoas com pouca instrução formal” (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p. 34), o que se aplica às sócias do Grupo de fabricação de sabão caseiro.
A entrevista pode ser entendida como
Técnica de coleta de informações sobre um determinado assunto, diretamente solicitadas aos sujeitos pesquisados. Trata-se, portanto, de uma interação entre
pesquisador e pesquisado. [...] O pesquisador visa apreender o que os sujeitos pensam, sabem, representam, fazem e argumentam (SEVERINO, 2007, p. 124). De acordo com Gil (2006), a entrevista é uma técnica de coleta de dados que proporciona grande flexibilidade, o que ocorre a partir de um maior ou menor grau de estruturação da mesma e por esse motivo, segundo este autor, as entrevistas podem ser subdivididas em:
x Entrevista informal: é a menos estruturada possível e tem como objetivo obter uma visão geral do problema, bem como a identificação de aspectos da personalidade do entrevistado;
x Entrevista focalizada: é uma entrevista aberta como a descrita anteriormente, mas focaliza um tema específico, isto é, o entrevistado tem a liberdade de falar livremente sobre o assunto, mas caso ele se desvie deste assunto, o pesquisador tenta fazer com que o tema seja retomado. Esta é utilizada, por exemplo, frente a um acontecimento específico presenciado pelos entrevistados;
x Entrevista por pautas/semiestruturada: apresenta certo grau de estruturação e se guia por pontos de interesse do pesquisador, denominados pautas, que devem estar relacionados e ordenados. Entrevistas deste tipo são realizadas quando os respondentes não se sentem confortáveis para responder a questões formais, e seu caráter mais flexível pode estar relacionado com a cultura dos respondentes, temas de investigação, entre outros.
x Entrevista formalizada/estruturada: desenvolve-se por meio de um roteiro contendo perguntas fixas e invariáveis (formulário), que são feitas aos entrevistados, quase sempre em grande número. Este tipo de entrevista permite uma análise estatística dos dados e, portanto, não possibilitam uma análise mais pormenorizada e aprofundada das respostas.
Neste trabalho optou-se pela entrevista semiestruturada, corroborando com o proposto por Lüdke e André (1986), pelo fato desta apresentar certo grau de estruturação ao se guiar por um esquema básico que traz à tona pontos de interesse do
investigador e também pelo fato de preservar a espontaneidade do processo, ao permitir que o entrevistador realize adaptações como e quando julgar necessário.
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com cada uma das 3 integrantes do grupo, separadamente, nas dependências do EES. Tais entrevistas foram gravadas em áudio, com o auxílio de um gravador Panasonic RR-US450. Foram realizadas duas entrevistas com cada uma das sócias e o tempo de duração de cada uma variou bastante de sócia para sócia.
A primeira entrevista ocorreu durante a segunda visita realizada ao Grupo de fabricação de sabão caseiro, o que ocorreu no dia 22 de outubro de 2010, no período da tarde, de acordo com o horário de funcionamento deste empreendimento e a disponibilidade de cada uma das sócias.
O roteiro elaborado contemplou 2 tipos de informações. A primeira parte consistiu de questões visando obter informações básicas sobre cada integrante do Grupo de fabricação de sabão caseiro e alguns assuntos relacionados à formação deste EES e à participação das sócias no referido EES, apresentando questões do tipo: “Qual o seu nome completo?”, “Qual a sua idade?”, “Qual é o seu grau de escolaridade?”, “Há quanto tempo você faz parte do Grupo de fabricação de Sabão Caseiro?”, “Como se deu o início do Grupo de fabricação de Sabão Caseiro?”, “Como se deu sua inserção no Grupo de fabricação de Sabão Caseiro?”, “Como o sabão caseiro é feito?”, “Há dificuldades nesse processo de fabricação de Sabão Caseiro? E na venda? Se sim, quais?”.
A segunda parte visava compreender, segundo a percepção das participantes, de que forma o conhecimento matemático se relaciona com o trabalho que as sócias realizam diariamente no interior do grupo. Essa parte era constituída por questões do tipo: “Você acha que usa matemática na fabricação de sabão caseiro? Se sim, em que momento?”, “Em quais atividades do seu dia a dia no Grupo de fabricação de Sabão Caseiro você consegue perceber a matemática?”, “Quais são as suas principais dificuldades quando precisa utilizar a matemática?” e “Você acha que a Matemática utilizada no Grupo de fabricação de Sabão Caseiro é utilizada da mesma forma que aprendeu na escola?”
Ao realizar as primeiras entrevistas, objetivou-se iniciar um levantamento sobre o histórico do grupo, a fim de que estes dados direcionassem as observações participantes; bem como identificar qual a percepção das sócias sobre a Matemática que utilizam e os obstáculos encontrados por elas no que se refere ao desempenho de suas funções diárias no interior deste EES.
Tais objetivos, num primeiro contato com o grupo, favoreceram nossa compreensão sobre o significado do Grupo de fabricação de sabão caseiro para cada uma das sócias e assim, auxiliaram-nos na tentativa de perceber mais profundamente a relação do grupo com o saber fazer e o conhecimento matemáticos. Após algumas visitas, em meio à observação participante e conversas com as sócias, foram percebidas algumas situações nas quais esta relação ficava ainda mais evidente e, parecia que a cada visita, a cada contato com as sócias, isso ia se evidenciando cada vez mais; porém alguns processos ainda não estavam claros. Por esse motivo e também a partir de valiosas sugestões da banca durante o Exame Geral de Qualificação, realizamos uma entrevista complementar, desta vez com questões variadas, que foram elaboradas com base nas entrevistas anteriores, observações e sugestões (da banca). As entrevistas semiestruturadas complementares foram realizadas nos dias 07 de outubro de 2011 com a sócia [E], 11 de novembro de 2011 com a sócia [G] e 23 de novembro de 2011 com a sócia [M].
No que se refere ao roteiro elaborado para a realização das entrevistas complementares, as questões contemplaram pontos que não haviam ficado claros durante as análises das entrevistas realizadas anteriormente e nos auxiliariam na busca de uma melhor compreensão deste EES. Ao elaborar este roteiro, tentamos compreender os dois momentos vivenciados pelas sócias no decorrer do tempo, a saber, a época em que cada uma fabricava o produto em sua própria residência e após a constituição deste Grupo enquanto um EES. Sobre o primeiro momento abordaram-se as seguintes questões: “Como o sabão era fabricado?”, “Como/Onde vocês conseguiam a matéria prima para a fabricação do sabão?”, “Por que a senhora achava que compensava fazer o sabão?”, “Vocês recebiam algum dinheiro inicialmente ou somente a cesta básica?”, “Quanto a Igreja pagava pelo sabão?”, “Como era organizado tudo nesta época em que cada sócia fabricava o sabão em sua própria
residência?” e “Por quanto tempo a senhora fabricou sabão desta maneira, cada uma em sua própria residência?”.
A respeito do segundo momento, isto é, do momento atual vivido pelas sócias, questionou-se: “Como o sabão é fabricado?”, “Como vocês conseguem a matéria prima?”, “Como é organizado tudo?”, “Quantos dias o sabão fica na caixa de leite até que seja cortado? E secando, depois de cortado?”, “O que era feito com os retalhos de sabão em barra antes de fabricarem o sabão em pó?”, “Como e quem decidiu fabricar o sabão em pó?”, “Como são medidos os ingredientes para a confecção do sabão?”, “Vocês fazem quantas receitas de uma única vez? De quanto em quanto tempo?”, “De quanto em quanto tempo a soda é comprada? Como é calculada a quantidade de pacotes? Quem realiza as encomendas?”, “Quando vocês começaram a pesar o sabão em pó? Como mediam antes de começar a utilizar a balança?”, “Quem decidiu que o sabão em pó seria empacotado em embalagens de 500 gramas e 700 gramas?”, “Quem decidiu e por que vocês utilizam um saquinho mais grosso para embalar o sabão em pó?” e “Quem idealizou o cortador de sabão em pó? E quem o confeccionou?”.
Além destes dois momentos, tentou-se compreender também como se deu a transição de um momento ao outro, através das seguintes indagações: “Vocês achavam que estava dando certo?”, “Por que a senhora acha que compensa fazer o sabão?”, “Como e por que quiseram o auxilio da ITCP/GFSC?” e “Ficou melhor a partir da criação do grupo com sede própria? Ou ficou pior? Por quê? (Este fato coincide com o início do acompanhamento oferecido pela ITCP/GFSC).
Desde o momento em que foi estabelecido o primeiro contato com as sócias, a fim de conhecer o grupo, nosso objetivo foi inserir-nos no mesmo e ganhar a confiança de [G], [M] e [E], a fim de criar uma atmosfera agradável durante as entrevistas para o propósito da pesquisa. Pois, de acordo com Gil (2006), o sucesso das entrevistas depende principalmente da relação pessoal que ocorre entre o entrevistador e o entrevistado.