Esta pesquisa, do modo como foi conduzida, possui caráter qualitativo, o qual se deve principalmente ao fato de haver uma grande preocupação com o processo e o contexto em que os sujeitos estão inseridos e não apenas com o resultado final a ser obtido (BOGDAN E BIKLEN; 1994).
De acordo com Alves (1991), tem-se como uma característica importante da pesquisa qualitativa o fato da realidade ser construída socialmente com a participação do investigador qualitativo, o que quer dizer que os fenômenos presenciados não permitem generalizações estatísticas e não acontecem por meio de relações lineares de causa e efeito. Dessa maneira, os acontecimentos são compreendidos apenas no interior de uma perspectiva que considere as interações e influências de cada situação vivenciada. Outra característica interessante da pesquisa qualitativa colocada por Alves (1991, p.55) é o fato de que, “[...] para os ‘qualitativos’ conhecedor e conhecido estão sempre em interação e a influência dos valores é inerente ao processo de investigação”, o que nos permite inferir que existe uma grande diversidade entre as várias investigações de natureza qualitativa.
Diante disso, nossa preocupação principal foi buscar uma interação com os sujeitos de pesquisa, envolver-se com o contexto cultural deste Grupo; a fim de que fosse possível uma compreensão o mais ampla e detalhada possível. Para que esta interação se tornasse possível, privilegiou-se o diálogo durante todo o desenvolvimento da pesquisa.
Assim, ao nos situarmos neste contexto cultural específico, não buscamos tornar-nos nativos ou copiá-los, mais sim conversar com eles, utilizando a palavra conversar em seu sentido amplo e não apenas como sinônimo de falar (GEERTZ, 2008).
Apesar desta diversidade existente entre as pesquisas caracterizadas como qualitativas, Bogdan e Biklen (1994) apresentam alguns pontos de convergência entre elas. Em linhas gerais, tem-se como características descritas por Bogdan e Biklen (1994):
- Na investigação qualitativa o ambiente natural apresenta-se como fonte direta de coleta dos dados e o pesquisador é o instrumento principal. Neste tipo de pesquisa, o investigador se preocupa com o contexto em que os fatos ocorrem, por isso frequenta o local de estudo, considera que a separação do ato, palavra ou gesto do contexto em
que se inserem consiste na perda de significados e utiliza-se do entendimento do material coletado como instrumento-chave de análise.
- A pesquisa qualitativa constitui-se como descritiva. Os dados são obtidos em forma de palavras ou imagens, não de números e compreendem transcrições de entrevistas, notas de campo, fotografias, vídeos, documentos pessoais, memorandos e outros registros oficiais, que são analisados minuciosamente, apreciando sua riqueza, levando em consideração que nada é trivial e tudo se constitui em pistas importantes ao desenvolvimento da pesquisa.
- Na investigação qualitativa o significado assume fundamental importância, uma vez que os pesquisadores interessam-se pelo modo como as pessoas dão sentido às suas vidas. Neste tipo de investigação, o investigador está sempre atento às perspectivas dos participantes e questiona-os continuamente, com a finalidade de compreender o que os sujeitos de pesquisa experimentam, como interpretam experiências e estruturam o mundo à sua volta. Com base nisso, pode-se enfatizar que há interação e diálogo contínuos entre investigadores e sujeitos, o que não permite que a pesquisa aconteça de forma neutra e a torna invisível aos olhos de um observador exterior.
Estas características foram levadas em consideração no processo de realização desta pesquisa. Ademais, nos pautamos também em alguns pressupostos da pesquisa- ação.
De acordo com Bogdan e Biklen (1994, p.292), a pesquisa-ação “consiste na recolha de informações sistemáticas com o objetivo de promover mudanças sociais”. Esse tipo de pesquisa visa uma tomada de consciência, por parte dos envolvidos no processo, dos problemas a serem solucionados e dos fatos que os determinam, para que seja possível o estabelecimento dos objetivos e das condições de pesquisa, a fim de superá-los (CHIZZOTTI, 2006). De acordo com esse autor, para caracterizar o problema é necessário
[...] analisar as condições existentes, organizar processos, propor ações que tornem viáveis uma ação conseqüente e eficaz e, finalmente, avaliar de modo realista os resultados dos esforços feitos no sentido de solucionar as situações problemáticas e garantir a mudança possível. (CHIZZOTTI, 2006, p.77-78)
Essa mudança, segundo Severino (2007), sugere ao conjunto dos sujeitos envolvidos no processo, um aprimoramento das práticas analisadas durante o estudo.
Em nossa investigação nós nos preocupamos em levar os sujeitos a tomar consciência de todo o processo, traçando ações pedagógicas a fim de superar as dificuldades do próprio EES, em especial nas situações que envolvem conhecimentos matemáticos. Tais decisões são tomadas pelo grupo maior, composto por nós, pesquisadores, junto aos sujeitos; grupo este que tem como objetivo a discussão para posterior ação, o qual visa também uma transformação social, que é uma forte característica da pesquisa ação.
Para Melo Neto (2003, p.1), a metodologia da pesquisa ação “estimula a participação das pessoas envolvidas na pesquisa e abre o seu universo de respostas, passando pelas condições de trabalho e vida da comunidade”, além disso, busca também “as explicações dos próprios participantes que se situam, assim, em situação de investigador”.
Chizzotti (2006), pautado em diversos autores que investigam sobre a pesquisa ação na educação, definiu algumas fases de pesquisa, são elas:
1. Fase de definição do problema: estabelecimento da instituição a ser estudada ou do problema a ser resolvido, pode ocorrer a necessidade da busca de informações prévias disponíveis para auxiliar determinação clara deste problema.
2. Formulação do problema: ao definir e formular claramente o problema a ser resolvido, passa-se à fase de coleta e análise das informações, sejam elas documentais ou orais, necessárias à definição e posterior eleição da ação mais adequada à solução deste problema.
3. A implementação da ação: pressupõe um plano de execução, especificando objetivos, pessoas, lugares, tempos e meios. Tal plano tem por finalidade ajudar nas negociações prévias com as pessoas envolvidas para que seja possível evidenciar o que se deseja e para avaliar os resultados atingidos posteriormente.
4. A Execução da ação: esta fase é acompanhada pelos envolvidos desde sua apresentação até os resultados obtidos e em todos os seus
aspectos, de maneira que tudo possa ser relatado e os indivíduos consigam “avaliar a adequação e as insuficiências da ação realizada e, depois, essas insuficiências possam ser discutidas, analisadas e, finalmente, os aspectos que apresentarem resultados inadequados serem corrigidos” (p.87).
5. Avaliação da ação: esta fase provoca, caso haja necessidade, a redefinição do problema e revisão do plano, os quais devevão ser novamente analisados e avaliados.
6. Continuidade da ação: os planos executados e resultados obtidos devem ser considerados na discussão das dificuldades encontradas e soluções dadas, a fim de que os interessados compreendam melhor a situação problemática e condições envolvidas, “mantenham consenso sobre os encaminhamentos da pesquisa de modo que se sintam solidários com as ações escolhidas, implementadas e com os resultados e as conseqüências delas” (p.87).
Assim, de acordo com Melo Neto (2003), a pesquisa ação é um estilo de pesquisa com forte definição ideológica, direcionada à organização de setores sociais excluídos da sociedade; apresenta-se como um procedimento metodológico que busca um estilo de vida alternativo, para além da sociedade do capital, uma abordagem investigativa que auxilia o ser humano na busca por autonomia e solidariedade. Diante disso, notamos uma aproximação da pesquisa ação com o propósito deste estudo.