atualmente vigentes no Brasil
3.4.6.1.O tema “águas” e as competências na atual Constituição
O processo de redemocratização, experimentado no país ao término do regime militar, permitiu, finalmente, a adoção de medidas efetivas para instituição de políticas públicas de recursos hídricos (GRANZIERA, 2003).
O primeiro movimento em direção ao atual estágio de evolução da gestão de recursos hídricos, foi a promulgação da Constituição Federal de 1988. Vários dos seus dispositivos indicam a emergente preocupação à época quanto aos recursos hídricos. O texto constitucional afirmou a dominialidade pública da água (art. 20, III e art. 26, I), determinou à União o estabelecimento de um sistema nacional de gerenciamento dos recursos hídricos e a definição de critérios de outorga de direito de uso da água (art. 21, XIX), e atribuiu a todos entes federados a competência para registro, acompanhamento e fiscalização das concessões de direitos de pesquisa e exploração dos recursos hídricos (art. 23, XI).
O inciso IV do art.22 (CF/88) estatuiu que compete à União legislar privativamente sobre águas. Os Estados poderiam ser autorizados por Lei complementar a legislar sobre a matéria (art. 22, parágrafo único).
GRANZIERA (2003) destaca que a competência da União para legislar sobre águas é “aparentemente” privativa. Segundo a autora, é entendimento prevalecente no Brasil que os Estados são também competentes para legislar sobre águas, o que se corroborou com a promulgação das leis estaduais de recursos hídricos. Os Estados poderiam legislar sobre “matéria administrativa atinente aos recursos hídricos sob seu domínio”, o que em nada feriria a competência privativa da União.
POMPEU (2002) tem opinião concordante, entendendo que “não pode ser negada aos
Estados a competência para editarem normas administrativas sobre a gestão das águas de seu domínio, mesmo como lei formal. O que a estes é vedado é criar o direito sobre águas, pois trata-se de matéria privativa da União.”
Diferentemente, MACHADO (2002) entende que a competência privativa da União e a competência concorrente dos Estados estabelecidas pela Constituição (art. 22, IV e art. 24, respectivamente) encontram-se “entrelaçadas”, cabendo aos últimos apenas competência suplementar (art. 24, § 20). No mesmo sentido advogam CALASANS et al. (2003), entendendo que a competência constitucional concorrente dos Estados para legislar na área ambiental limita-se, exclusivamente à proteção ambiental, não sendo aplicável diretamente à gestão de recursos hídricos.
3.4.6.2.A legislação vigente sobre as águas: plano infraconstitucional
Apesar de não ter sido editada Lei complementar autorizando os Estados a legislar sobre águas (art. 22, parágrafo único), diversos deles se anteciparam à União e tomaram a iniciativa de organizar seus sistemas de gestão hídrica, editando as leis estaduais de recursos hídricos.
Independentemente da polêmica jurídica já mencionada no item anterior, fato é que as políticas estaduais, em sua grande maioria, asseguraram a efetivação de propostas inovadoras, amplamente aceitas à época nos fóruns de discussão, e criaram, por conseguinte, condições favoráveis ao posterior estabelecimento de uma política nacional para gestão das águas.
Em São Paulo, a edição da Lei estadual no 7.663/91 representou o início de nova uma era no campo normativo dos recursos hídricos (ROCHA et al., 2001; GRANZIERA, 2003). Posteriormente, a partir da aprovação do Plano Estadual de Recursos Hídricos (Lei 9.034/94), os comitês de bacia passaram a contar com o apoio de unidades descentralizadas das entidades estaduais, com a mobilização e interesse político das municipalidades, organizadas em consórcios intermunicipais, e dispor de recursos financeiros do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FEHIDRO) para seu desenvolvimento institucional (SETTI et al., 2001).
Outro marco inicial do atual estágio legal, político e institucional para a gestão das águas no país foi a publicação da lei de recursos hídricos do Estado do Ceará (Lei estadual no 11.996/92), quase um ano depois da iniciativa pioneira de São Paulo. Nesse estado, destaca-se a atuação da Companhia de Gestão de Recursos hídricos (COGERH), empresa responsável, desde 1993, pela implantação do sistema estadual de gerenciamento (Lei estadual no 12.217/93).
Em diversos outros estados seguiu-se processo semelhante, com a promulgação de leis estaduais e a organização dos sistemas estaduais de recursos hídricos na ausência da lei federal: Distrito Federal (Lei distrital no 512/93), Pará (Lei estadual no 5.793/94), Santa Catarina (Lei estadual no 9.748/94), Rio Grande do Sul (Lei estadual no 10.350/94), Minas Gerais (Lei estadual no 11.504/94), Bahia (Lei estadual no 6.855/95), Rio Grande do Norte (Lei estadual no 6.908/96), Paraíba (Lei estadual no 6.308/96).
Importantes experiências de gerenciamento de recursos hídricos também se consolidaram no âmbito regional por meio dos “consórcios e associações intermunicipais de bacias hidrográficas”, o que certamente contribuiu para o fortalecimento da idéia de descentralização da gestão das águas.
No Estado de São Paulo, destacam-se as experiências do Consórcio Intermunicipal da bacia de Jacaré Pepira (primeira experiência do tipo no país, realizada em 1984), do Consórcio do Alto Tamanduateí-Billings (ou Consórcio do ABC paulista) e do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Consórcio do PCJ). São também exemplos a criação do Consórcio de Proteção Ambiental do Rio Tibagi (COPATI) no Estado de Paraná; e do Consórcio Santa Maria Jucu, no Espírito Santo (JOHNSSON, 2001).
Por fim, após algumas dessas experiências e esforços isolados de gerenciamento estadual e intermunicipal de recursos hídricos, com distintos graus de sucesso quanto aos seus resultados, a Lei federal 9.433/97, conhecida como a “Lei das Águas”, em conformidade com as disposições constitucionais, instituiu, em âmbito nacional, uma política de gestão descentralizada e integrada, prevendo a ampla participação dos setores usuários e da sociedade civil organizada: a Política Nacional de Recursos Hídricos.
A promulgação da Lei 9.433/97, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PONAREH) e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), veio regulamentar dispositivo constitucional (CF/88, art. 21, XIX).
SETTI et al. (2001) entendem que o fato da Lei Federal 9.433/97 ter sido promulgada após o estabelecimento das legislações de recursos hídricos em diversos estados brasileiros, contribuiu para que a mesma se tornasse mais flexível e capaz de atender às diferentes condições regionais. Por sua vez, algumas legislações estaduais foram revistas, adequando-se à nova PONAREH, caso do Estado de Minas Gerais que editou, em 1999, sua nova lei de recursos hídricos (Lei estadual no 13.199/99).
Devido à especial importância da Política Nacional de Recursos Hídricos para esse trabalho, preferiu-se tratar à parte, nos itens seguintes, o conteúdo da PONAREH, seus instrumentos, a atual conformação dada ao SINGREH, bem como os atuais desafios à sua implementação.