MATERYAL ve YÖNTEM
4.3 Kefir Tüketim Öncesi ve Sonrası Standardize Mini Mental Testten Elde Edilen Bulgular
Todas as colaboradoras destacaram que atualmente as oportunidades para estudar são muito maiores do que na época de suas mocidades. Eram recorrentes os comentários: “depois que esse prefeito entrou, tem escola pra todo mundo. Antes, não tinha! Ave-Maria! Tinha bairro que nem as crianças tinham onde estudar. Agora, em qualquer lugar tem MOVA: só não estuda quem não quer!”
Contudo, suspeitávamos que a escassez de oportunidades para dar início ou continuidade aos estudos em uma ação educativa voltada para a Educação de Jovens e Adultos, historicamente reconhecida em nosso País, não poderia ser a única causa de o ingresso numa sala de aula ter sido tão postergado.
Em várias abordagens da questão, uma idéia sempre se mostrou muito marcante nas narrativas: a presença do marido como inibidor da escolarização. A dominação manifestou-se de formas parecidas que podem ser resumidas no seguinte enredo: os filhos pequenos precisam de cuidados que os maridos se recusam a oferecer; quando aqueles crescem um elemento secundário de outrora entra em cena, qual seja: a não conveniência de uma mulher de família sair de casa à noite para ir à escola. Mesmo no caso de Maria Sousa, cujo marido nunca a impediu de sair de casa, a família como pano de fundo para a impossibilidade de estudar após o casamento despontou como algo bastante significativo na compreensão da busca por alfabetização após os 60 anos de idade. Ela nos esclareceu de forma contundente que, mesmo se o marido “permitisse”, não havia condições concretas de conciliar a vida escolar com as demandas do cuidado do lar.
O peso da dominação masculina há de ser considerado para compreendermos a trajetória de vida dessas mulheres. Destacamos o caso extremo narrado por Maria Oliveira, no qual uma turma de alfabetização foi instalada na varanda de sua própria casa. Apesar de seu grande desejo de estudar junto com os demais adultos, o máximo de contato que ela teve com a turma consistiu no momento em que ela surgia na porta da varanda com uma bandeja de lanches: “meu marido aprendeu a ler dentro da nossa própria casa. A aula era na varanda. Meu sogro botou um professor dentro de casa para todo mundo e eu não tinha o direito de aprender. Era da porta da sala para trás. Para a cozinha.” Avaliando sua trajetória de vida, a “nova mulher”, que surgiu após acompanhamento psicológico durante a época de entrada na menopausa, declarou a total impossibilidade de um fato como este se repetir nos dias atuais.
Impedidas de estudar e, provavelmente, mudar suas condições subjetivas e objetivas de sobrevivência durante longos anos de casamento, essas mulheres experimentaram a viuvez como uma chance de buscar a realização de planos em estado de espera. A freqüência a uma sala de aula era apenas um deles. Daura não teve nenhum constrangimento ao afirmar:
Isolei-me no tempo que criava meus filhos, passando muitas coisas por causa do marido e meu Deus me libertou: quando Deus tira o marido da gente é porque ele quer a gente liberta. Então, se Ele me libertou, eu vou viver a minha vida.
Vivendo a “nova vida”, cada sujeito teve seu próprio tempo para reconstruir-se e colocar em prática os planos adormecidos. Alertamos que não seremos ingênuas ao ponto de vincular, de forma direta, a viuvez com o ingresso numa sala de aula. Afinal, não podemos nos esquecer de que nem todas as colaboradoras são viúvas. As duas senhoras casadas tiveram de empreender um grande esforço pessoal para garantir o direito à educação.
No caso de Maria Oliveira, não ficou explícito o momento de decisão e afrontamento do esposo referente a essa questão. O que ela deu-nos a conhecer diz respeito ao momento- charneira51 que data de sua entrada na menopausa: no âmbito de um programa de saúde pública, ela recebeu orientação de uma psicóloga, por meio de palestras, sobre diversos aspectos da existência humana: “Eu chorava muito, cada vez que ia lá. Ela passava aqueles slides da vida da gente, dizendo como tem que ser. Ela ajudou a me despertar, foi como se eu estivesse dormindo aquele tempo todo e acordasse para a vida.”
O impacto da percepção de si própria “como mulher e como pessoa” trouxe consigo questionamentos sobre seus modos de existência e, a partir de então, um novo patamar de relacionamento foi estabelecido entre o casal, tal como no caso de Almeida. As diversas e
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esparsas experiências educacionais (formais e não-formais) que Maria Oliveira teve, de 1999 até ao dias de hoje, inserem-se no bojo da mencionada redescoberta de si.
Já no caso de Almeida, a estratégia de afrontamento familiar com vista a freqüentar aulas foi bem explicitada. Como vimos anteriormente, ela ousou ocultar da família a ida ao núcleo de alfabetização e logrou sucesso, durante seis meses, com a estratégia de dissimulação de sua condição de estudante, até ser visitada por colegas ao adoecer. Certamente, a família teve uma grande surpresa ao descobrir sua nova realidade: ao invés de freqüentar – como todos pensavam – um núcleo de oração na igreja católica de seu bairro, a mãe e esposa (costumeiramente calada, dedicada e obediente), de fato, ia sozinha à igreja, algumas noites por semana, para tomar aulas de alfabetização. Após a descoberta de sua ousada inserção no núcleo de alfabetização, Almeida enfrentou o controle ao qual sempre se submetera e continuou estudando no período matutino assim que sua saúde foi restabelecida.
Vemos, então, que no caso dessas duas senhoras casadas a decisão de estudar demandou estratégias de enfrentamento familiar, especialmente em relação ao marido, que assegurassem a possibilidade de realização de um desejo adiado há muito tempo. A ousadia do ato de enfrentar uma situação opressora e seguir em busca de uma oportunidade de aprendizagem ou simplesmente de convivência social, gerou conflitos ainda não superados. Não raras foram as queixas de falta de apoio familiar, com a figura do esposo sempre se prestando como o protagonista do descaso pelos seus sonhos e expectativas inerentes à rotina no MOVA. Contudo, a isenção do incentivo familiar tem sido ignorada pelas estudantes que preferem dar ouvidos ao apoio das colegas de classe em detrimento aos perniciosos conselhos de seus esposos – e, às vezes, também dos filhos e dos netos – que tentam dissuadi-las para dar um fim à participação no núcleo de alfabetização.
Por meio das narrativas envolvendo a questão dos conflitos familiares, e também direcionados para outros temas, percebemos o quanto o favorecimento da comunicação oral exerce um fascínio sobre adultos em processo de alfabetização, muitas vezes mais valorizado que o domínio do código escrito:
Hoje eu posso dizer que, além das letras, a alfabetização trouxe uma liberdade para a minha vida. Agora já tenho mais liberdade de sair, de conversar com as pessoas, que eu não conversava. Eu era uma pessoa bem escondida mesmo e não tinha assunto para nada. Hoje já converso com as pessoas. (...) Quando eu era moça, eu tinha medo de gente. Tinha medo, vergonha, não sei o que era que não deixava chegar perto das pessoas. Hoje eu só tenho medo de bandido, pessoa que faz mal. Eu converso com todo mundo, mesmo sabendo que muitos não entendem a nossa língua. É que a gente que veio da roça, fala de um jeito diferente. Saber falar, a gente sabe, mas fala tudo errado, com aquele sotaque caipira. É só abrir a boca que já sabem que a gente é caipira. Mas, mesmo assim, eu falo.
O excerto acima nos apresenta uma questão recorrente, em diferentes intensidades, em todos os relatos: a experiência em sala de aula como elemento transformador do comportamento, sobretudo na interação com os demais falantes de nossa língua.