Durante o período colonial, não há que se falar em partidos políticos no Brasil, pelo menos não da forma como os tratamos hoje. Dado estreito vínculo de controle político estabelecido pela metrópole portuguesa sobre as instituições políticas então existentes – mesmo aquelas compostas por agentes designados mediante sufrágio de uma pequena parcela da população, tais como os Conselhos Municipais -, os partidos políticos não encontraram um ambiente muito propício para se organizar e desenvolver no período. Certamente havia grupos políticos e sociais que buscavam influenciar as decisões dos representantes da metrópole ou dos próprios agentes das incipientes instituições políticas coloniais. Havia, pois, já nos séculos XVIII e nos primeiros anos do XIX – especialmente -, grupos interessados na declaração da independência, na proclamação da república, na manutenção dos vínculos com a Coroa etc. Entretanto, “no sentido técnico constitucional, não podemos chamar partidos a tais grupos, mas, apenas, facções” 37, até mesmo por faltar-lhes o caráter da permanência.
Daí iniciarmos o estudo dos partidos brasileiros a partir da independência ou, mais especificamente, a partir da outorga da Constituição Imperial de 1824 e do efetivo funcionamento das instituições que ela instituiu e/ou regulou.
37
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. História e teoria dos partidos políticos no Brasil. 3ª edição. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980, pp. 25/26. No mesmo sentido: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Introdução à história dos partidos políticos brasileiros. 2ª edição. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 23.
39 Na verdade, a gênese próxima dos partidos políticos imperiais pode ser encontrada na dinâmica do funcionamento das facções que atuaram no período imediatamente anterior, durante e até a dissolução da Assembléia Geral Constituinte e Legislativa convocada por força do Decreto de 3 de junho de 1822 e na forma da Decisão do Reino nº 57, de 19 de junho daquele mesmo ano – as primeiras normas eleitorais brasileiras 38.
Naquela oportunidade, já era possível identificar-se dois grandes grupos que se opunham nos debates relativos à definição dos limites dos poderes da Coroa. De um lado, ficava a maioria conservadora, cujos simpatizantes foram denominados monarquistas, que defendiam a instauração de uma monarquia constitucional sob o comando do Imperador D. Pedro, que gozasse de fortes poderes para suplantar quaisquer movimentos rebeldes que porventura eclodissem no interior do território nacional. De outro lado ficavam os defensores do fortalecimento dos poderes locais e provinciais. Estes se dividiam em duas correntes. A primeira, composta pelos
exaltados ou democratas, não demonstrava um apego muito claro à tradição monárquica,
embora não chegasse a defender abertamente, naquela oportunidade, a formação de um Estado republicano. A segunda, composta pelos moderados ou independentes, apresentava uma postura um pouco mais conciliadora, procurando preservar os interesses locais e provinciais, outorgando-lhes mais atribuições, sem, ao mesmo tempo, hostilizar a figura do monarca 39.
Entretanto, só com a outorga da Constituição de 1824 e com a efetiva instalação da Assembléia Geral, em 1926, é que se pode começar a investigar oficialmente os movimentos de agregação em partidos ou facções dos parlamentares e políticos brasileiros. Não obstante, sob o ponto de vista estritamente constitucional, é necessário notar que a Carta de 1824, outorgada pelo Imperador D. Pedro I, “em nome da Santíssima Trindade”, não trouxe sequer uma menção expressa aos partidos políticos brasileiros, como, aliás, era praxe à época.
38
NICOLAU, Jairo. História do voto no Brasil. 2ª edição. Rio de Janeiro: Jorge ZAhar Editor, 2002, p. 7.
39
40 Vamireh Chacon, fazendo uma retrospectiva dos periódicos da época, faz referência à existência, naquele período, de facções chamadas de Partido da
Independência, de constitucionais, de republicanos, de “corcundas” (também
denominados restauradores), separatistas, unionistas, “chumbistas”, neutros ou “do
ventre”, liberais, conservadores, além de diversos outros 40 .
Ainda antes da abdicação de D. Pedro, João Armitage, apesar de chamá-los de partidos, identifica pelo menos quatro grupos parlamentares com atuação durante o Primeiro Reinado: os liberais ou patriotas, os moderados, os exaltados e os revolucionários.
De qualquer forma, tais grupos não tinham qualquer estabilidade ou pretensão de permanência. A ausência de um vínculo institucional mais robusto entre seus integrantes conferia-lhes grande fluidez fazia com que se formassem e se dissolvessem durante os debates parlamentares sobre temas específicos. Ademais, tais agrupamentos não se apoiavam em quaisquer bases eleitorais e tinham vida e atuação limitada à Corte, sem ramificações relevantes no interior do território imperial.
Apenas a após a abdicação de D. Pedro I é que os partidos políticos brasileiros começaram a se estruturar de forma mais sólida.
Conquanto a existência no cenário nacional de grupos políticos com tendências semelhantes fosse mais antiga, Américo Brasiliense afirma que a revolução de 7 de abril de 1831 precipitou a formação dos partidos restaurador,
republicano e liberal. O primeiro deles defendia o retorno de D. Pedro I ao comando do
Império brasileiro. O segundo, como a própria designação já indica, pugnava pela substituição da monarquia pela república. Finalmente, o terceiro defendia a realização de reformas na Constituição outorgada em 1824, mantido, todavia, o regime monárquico então vigente. Os integrantes deste último partido dividiram-se logo em moderados e
exaltados, defendendo estes uma maior abertura democrática e, especialmente, a
transformação do Estado unitário de então em uma monarquia federativa. O partido
40História dos partidos brasileiros – discurso e praxis dos seus programas. Brasília: Editora Universidade
41 restaurador, por óbvio, surgiu apenas com a abdicação. Entretanto, cerca de três anos depois, sucumbiu diante da morte de D. Pedro I em Portugal, em 24 de setembro de 1834. O acima citado autor marca o mesmo ano de 1831 para o surgimento do Partido Liberal e o de 1837 para a formação do Partido Conservador, ano da renúncia do Regente Feijó. Manoel Rodrigues Ferreira também adota estas datas para assinalar o surgimento destas legendas no cenário nacional 41. O contexto histórico que marcou o afastamento mais nítido das duas tendências reinantes envolveu os debates acerca da interpretação da famosa Lei nº 16, de 12 de agosto de 1834 (Ato Adicional à Constituição do Império), que conferiu prerrogativas inéditas às províncias – dentre as quais se destaca a criação das Assembléias Provinciais 42. Tais debates culminaram na superveniência da Lei nº 105, de 12 de maio de 1840 (Lei de Interpretação ao Ato Adicional), que restituiu ao poder central parte das prerrogativas descentralizadas em 1834.
Estas datas não são aceitas de forma absolutamente pacífica por todos os juristas, cientistas políticos e historiadores. Isto porque, na esteira dos ensinamentos de Afonso Arinos,
“naturalmente não se pode marcar data certa para um fato histórico desta natureza, que é menos um fato do que um processo histórico. Um partido não se constituía naquele tempo, como hoje se faz, com datas precisas, com documentos públicos sujeitos a verificação e registro” 43.
Quando quer que possam ser considerados fundados, todavia, o fato é que tais agremiações – agora oficialmente - praticamente monopolizaram o cenário político do período compreendido entre o final da Regência – e mesmo antes, a partir da abdicação de D. Pedro I - e a proclamação da República, em 1889. É o que podemos
41Evolução do sistema eleitoral brasileiro. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 205.
42Os programas dos partidos e os Segundo Império. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação
Casa de Rui Barbosa, 1979, pp. 17 e 21.
42 extrair da tabela abaixo, organizada de acordo com os dados reunidos por Vamireh Chacon:
Tabela – Gabinetes e partidos – 1840 a 1889 44
Período Partido no Gabinete Período Partido no Gabinete
24.06.1840 a 23.03.1841 Liberais 15.08.1864 a 12.05.1865 Liberais 23.03.1841 a 02.02.1844 Conservadores 12.05.1865 a 03.12.1866 Conservadores 02.02.1844 a 22.09.1848 Liberais 03.12.1866 a 16.07.1868 Liberais 22.09.1848 a 06.09.1853 Conservadores 16.07.1868 a 05.01.1878 Conservadores 06.09.1853 a 04.05.1857 Conciliação 05.01.1878 a 20.08.1885 Liberais 04.05.1857 a 24.05.1862 Conservadores 20.08.1885 a 07.06.1889 Conservadores 24 a 30.05.1862 Liberais 07.06.1889 a 15.11.1889 Liberais 30.05.1862 a 15.08.1864 Conservadores
Mas, ao contrário do que possa aparentar, o fosso que apartava os integrantes dos Partidos Liberal e Conservador não era tão profundo assim.
Foi imortalizada a observação mordaz do político pernambucano Holanda Cavalcanti (adversário, em 1835 e 1838, respectivamente, do Padre Diogo Feijó e de Araújo Lima nas eleições para o exercício da Regência Una, também instituída pelo Ato Adicional de 1834) que afirmava que nada se assemelhava mais a um ‘saquarema’ do que um ‘luzia’ no poder 45. Como ‘saquaremas’ eram conhecidos os integrantes do Partido Conservador no início do segundo Império, que tinham propriedades no município fluminense de mesmo nome, onde praticavam inúmeros desmandos eleitorais.
44História dos partidos brasileiros – discurso e praxis dos seus programas... op. cit., p. 29. A coincidência
de datas que marcam o final de cada período de domínio de um partido e o início da próxima fase de comando da outra agremiação consta da obra do autor e, por esta razão, foi mantida.
45
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 6ª edição. Editora da Universidade de São Paulo : Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1998, p. 180.
43 Por ‘luzias’, a seu turno, eram tratados os membros do Partido Liberal, em função da Vila de Santa Luzia, em Minas Gerais, onde experimentaram sua última e maior derrota durante a Revolução Liberal de 1842.
É verdade que, em linhas gerais, os primeiros, profissionais liberais e comerciantes em sua maioria, representavam preferencialmente os interesses da então emergente sociedade urbana comercial. Os segundos, por seu turno, provinham das então dominantes oligarquias rurais e notabilizaram-se na defesa dos interesses e pontos de vista desta mesma economia agrária.
Américo Brasiliense indica como plataforma defendida pelos liberais daquele tempo a defesa dos seguintes princípios: a instituição de uma monarquia federativa, a extinção do Poder Moderador, a eleição bienal da Câmara dos Deputados, a eletividade dos senadores e a temporariedade de seus mandatos, a supressão do Conselho de Estado, instituição de Assembléias Legislativas Provinciais com duas Câmaras e a designação de intendentes para os municípios, que exerceriam funções equivalentes aos dos presidentes das províncias. O mesmo autor indica que integravam o programa dos conservadores as seguintes teses: interpretação do Ato Adicional de 1834 (restringindo as atribuições das Assembléias Provinciais), a rigorosa observância dos preceitos da Constituição de 1824, a resistência a inovações políticas que não fossem maduramente
estudadas, o restabelecimento do Conselho de Estado, a centralização política como
instrumento de preservação da paz e da unidade nacional contra quaisquer rebeliões, exeqüibilidade dos atos do Poder Moderador sem a referenda ou a responsabilidade, quer legal, quer moral dos ministros de Estado e o reconhecimento de que o Imperador impera, governa e administra 46.
Entretanto, é necessário reconhecer, em contrapartida, que tanto a estrutura social e econômica quanto as restritivas regras eleitorais e normas de equilíbrio entre os poderes então vigentes não permitiam a ascensão de grupos muito heterogêneos ao poder.
Por exemplo, foi apenas com o advento da Lei Saraiva (Decreto nº 3.029, de 9 de janeiro de 1881) que os senadores, deputados gerais e provinciais
44 passaram a ser eleitos diretamente. Até então, conforme determinava o art. 90 da Carta de 1824, tais agentes eram escolhidos por “eleitores de província” designados pela “massa dos cidadãos ativos” que deveriam reunir-se em Assembléias Paroquiais.
Mesmo assim, estas eleições diretas não podem ser comparadas sob qualquer aspecto com o modelo eleições gerais e diretas que conhecemos hoje. Escravidão, restrições censitárias (era necessário comprovar renda líquida anual de 100 e 200 mil réis para ser habilitado para, respectivamente, votar e ser votado para a Câmara dos Deputados, valores estes aumentados para 200 e 400 mil réis, respectivamente, pela Lei nº 387, de 19 de agosto de 1846) e de gênero (as mulheres eram proibidas de votar e de serem votadas), as limitações práticas que impediram o voto de analfabetos de 1824 a 1842 (os eleitores deveriam assinar a cédula de votação), sem mencionar as inúmeras espécies de fraudes e burlas praticadas desde sempre durante os processos de alistamento, votação e apuração dos votos, que tiveram seu ápice na eleição de 1840, popularmente batizada de “eleição do cacete” 47, que levou ao poder uma Câmara de Deputados majoritariamente liberal.
Assim, esta relativa homogeneidade de cerne apresentada pelos partidos imperiais é em parte explicada por esta certa homogeneidade social dos seus eleitores, artificialmente provocada por todas estas restrições à apresentação de candidaturas e ao exercício do direito de voto. Como anota Jairo Nicolau, “até 1880, entre 5% e 10% da população estava inscrita para votar”. Não obstante, os números de comparecimento efetivo nas últimas eleições realizadas antes da proclamação da República dão o tom da quase nula disputa política então vigente: 1% da população nas eleições de 1881 e 1885 e 0,9% na de 1886 48.
A estes fatores, some-se a influência avassaladora exercida pelo Poder Moderador, constitucionalmente encarnado na figura do Imperador. Cumprindo um papel que, nos regimes democráticos, é reservado à opinião pública, sempre que assim determinavam os interesses da Coroa, D. Pedro II promovia a substituição do gabinete liberal por um conservador ou vice-versa. Estes, buscando conservar o poder a
47
PORTO, Walter Costa. O voto no Brasil – da Colônia à 6ª República. 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 2002, p. 65
45 todo custo, manipulavam o sistema eleitoral de modo a garantir a sua permanência à frente da Assembléia Geral e, por conseqüência, do gabinete – pelo menos até segunda ordem do Imperador. Desta forma,
“não era a vitória eleitoral que levava ao poder mas o contrário, o poder levava a vitórias eleitorais. No decorrer de todo o período nunca o grupo ocupante do poder ministerial perdeu uma eleição” 49.
Este sistema contrariava frontalmente a própria lógica do regime parlamentarista então vigente, pois “as eleições não geravam governo, mas serviam para dar sustentação parlamentar ao Gabinete escolhido pelo Imperador”. Ademais, a competição eleitoral entre as agremiações era muito limitada. Tanto assim que, “no Segundo Reinado, das 16 legislaturas eleitas, cinco foram câmaras unânimes e uma teve apenas um deputado de oposição” 50.
Assim, em tal ambiente tão pouco propício, seria de se estranhar que um sistema partidário sadio pudesse desenvolver-se sem as máculas apontadas.
Cumpre anotar, antes de encerrar os comentários sobre o período que antecedeu a República que, além dos Partidos Conservador e Liberal, a doutrina identifica a formação de outras agremiações ainda durante o Segundo Reinado 51.
Um deles era o Partido Progressista, formado durante a legislatura eleita em 1861 a partir da “Liga Progressista”, composta da união entre liberais e conservadores moderados. Tal agremiação se opunha à reforma da Constituição; à eleição direta; à descentralização política; ao exclusivismo nos cargos públicos; à jurisdição administrativa em matéria penal e nas questões cíveis concernentes à propriedade. Ao mesmo tempo defendia, como principais bandeiras, a regeneração do sistema representativo e parlamentar pela sincera execução e amplo desenvolvimento do dogma
49
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Introdução à história dos partidos políticos brasileiros... op. cit., pp. 32 e 34.
50
NICOLAU, Jairo. História do voto no Brasil… op. cit., pp. 25 e 26.
51
BRASILIENSE, Américo. Os programas dos partidos e os Segundo Império... op. cit., pp. 25/29, 31/39 e 41/61.
46 constitucional da divisão de poderes políticos; a responsabilidade dos ministros de Estado pelos atos do Poder Moderador; a verdade do orçamento; a realização prática das liberdades individuais; em todas as suas relações; a defesa dos direitos e interesses locais da província e do município; a efetiva execução do Ato Adicional; a descentralização administrativa necessária à comodidade dos povos; a economia dos recursos públicos; a responsabilidade efetiva dos funcionários públicos; a severa punição dos crimes; a reforma e sincera execução da lei eleitoral de modo que as qualificações sejam verdadeiras, a eleição seja a expressão real da vontade nacional e que seja assegurada a representação das minorias e o respeito às incompatibilidades; a reforma judiciária; a separação de polícia e justiça; a competência para julgar todos os crimes, salvo algumas exceções; a edição de um Código Civil; a revisão do Código Comercial; a reforma municipal, separando-se a deliberação da execução, ficando aquela reservada à Câmara e esta ao seu presidente; e a reforma da Guarda Nacional.
Outros dois partidos citados pela doutrina são o Partido Liberal- Radical e o novo Partido Liberal. Todavia, ambos e especialmente aquele, se assemelhavam muito mais a facções mais progressistas do Partido Liberal então existente do que a qualquer outra coisa.
O primeiro, formado a partir de 1868, defendia idéias liberais “mais adiantadas”, tais como a descentralização política; o ensino livre; a polícia eletiva; a abolição da Guarda Nacional; a eletividade dos senadores e a temporariedade de seus mandatos; a extinção do Poder Moderador; a separação da judicatura da polícia; a instituição do sufrágio direto e generalizado; a substituição do trabalho servil pelo trabalho livre; a eletividade dos presidentes das províncias; a independência da magistratura; e a proibição dos representantes da nação aceitarem nomeação para empregos públicos, títulos e condecorações. Estas idéias eram difundidas especialmente por meio de dois periódicos que então circulavam pela Corte: o Opinião Liberal e o Correio Nacional. Muito embora não tenha alcançado muito destaque durante o período imperial, foi de suas fileiras que saíram alguns dos republicanos que publicaram o famoso manifesto de 1870.
47 O segundo, por sua vez, foi formado em 1869 a partir da reunião de liberais históricos e progressistas insatisfeitos com a dissolução, pelo Imperador, em julho de 1868, do ministério progressista organizado em agosto de 1866 (dentre os insatisfeitos incluía-se o próprio Américo Brasiliense, então deputado geral). Auto- intitulados de Centro Liberal, os integrantes do novo Partido Liberal fundaram o Clube da Reforma e o jornal Reforma, na Capital do Império, dedicados à difusão de suas idéias. Eis as principais: a responsabilidade dos ministros pelos atos do Poder Moderador; a defesa da máxima: o rei reina e não governa; a organização do Conselho de Ministros como meio prático das idéias anteriores; a descentralização política, no verdadeiro sentido do self-government ambicionado pelo Ato Adicional de 1834; a maior liberdade em matéria de comércio e indústria e a conseqüente revogação de privilégios e monopólios; garantias efetivas da liberdade de consciência; o ensino livre aos particulares; a independência do Poder Judiciário e do magistrado; a unidade da jurisdição do Poder Judiciário e o fim de toda justiça administrativa; a supressão da vitaliciedade dos senadores; e a redução do efetivo das forças armadas em tempos de paz. Além destes princípios, posteriormente, o novo Partido Liberal passou a defender também a realização de uma ampla reforma eleitoral baseada na realização de eleições diretas na Corte, nas capitais de províncias e cidades que tivessem mais de 10 mil almas; a qualificação permanente de eleitores realizada pelo juiz municipal; a incompatibilidade de deputados e senadores para exercer diversos cargos. Passou a militar, ainda, a favor da realização de amplas reformas nas estruturas policiais e judiciárias; da abolição da Guarda Nacional; e, especialmente, da emancipação dos escravos.
Por derradeiro, é importante mencionar o Partido Republicano, formado em 1870, a partir da publicação de seu famoso manifesto inspirado nos ideais positivistas, republicanos e federalistas. Seus integrantes eram, em sua maioria, aqueles liberais ainda insatisfeitos com a queda do gabinete promovida pelo Imperador em 1868. Entre eles, se fortalecia a crença segundo a qual a monarquia, mesmo reformada, não poderia corresponder ao nível de demanda de um sistema representativo e de governo eficiente. Assim, as convicções dos membros do Partido Liberal-Radical anteriormente organizado, rapidamente evoluíram para abrigar também a defesa da proclamação da
48 República e a instituição do federalismo. Quando, posteriormente, a estes políticos republicanos aliaram-se setores importantes do Exército, o fim do Império foi selado.
Principalmente por evoluir a partir de grupos e facções e por, durante um bom tempo de sua aurora, ter limitado sua atuação aos parlamentos, o processo geral de estruturação histórica dos partidos no Brasil, em essência, guardou algumas semelhanças com os modelos americano e britânico. De lá para cá, contudo, o sistema partidário brasileiro seguiu rumos absolutamente distintos daqueles trilhados pelos modelos citados, conforme veremos.