Não cabe aqui discutir com profundidade todas as causas que impulsionaram os revolucionários de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba a romperem, em 1930, com o paulista Washington Luís, então Presidente da República, e com todo o Partido Republicano de São Paulo. No que se refere ao objeto deste trabalho, basta dizer, muito singelamente, que o estopim da crise foi a indicação, por parte dos paulistas, de Julio Prestes para concorrer à chefia do Executivo federal. Em represália, os dissidentes lançaram a candidatura do gaúcho Getulio Vargas e do paraibano João Pessoa sob as flâmulas da Aliança Liberal formada em 1929. O anúncio da vitória do candidato paulista aliado ao posterior assassinato do opositor paraibano, derrotado na disputa pela vice-presidência, precipitaram o levante das forças comandadas por Getúlio que, após chegarem ao Rio de Janeiro, forçaram a renúncia do governo então no poder e colocaram um ponto final no sistema de revezamento político entre paulistas e mineiros que tão profundamente marcou a Primeira República.
Inicialmente, o regime de “disputa” política exercida com suporte nos Partidos Republicanos estaduais não foi substituído por nada além do simples arbítrio do governo provisório instituído pelo Decreto nº 19.398, de 11 de novembro de 1930, conforme deixava claro seu art. 1º:
“Art. 1º - O Governo Provisório exercerá discricionariamente, em toda sua plenitude, as funções e atribuições, não só do Poder Executivo, como também do Poder Legislativo, até que, eleita a Assembléia Constituinte, estabeleça esta a reorganização constitucional do país.”
O art. 2º do mesmo diploma legal determinou a dissolução do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas dos Estados (quaisquer que fossem as suas denominações), Câmaras ou Assembléias Municipais e quaisquer outros órgãos legislativos ou deliberativos existentes nos Estados, nos municípios, no Distrito Federal ou Território do Acre. O art. 11, por sua vez, atribuiu ao governo provisório a competência para nomear interventores com poderes excepcionais equivalentes aos seus
58 próprios, inclusive no que se referia à possibilidade de nomeação dos prefeitos municipais que, nos mesmos moldes, acumularia as funções executiva e legislativa nos limites de seus respectivos territórios e atribuições.
Inexistente, assim, qualquer disputa legal pelos cargos públicos, não havia qualquer espaço para a formação de partidos políticos que canalizassem as opiniões populares competissem eleitoralmente pelo poder.
O prolongamento desta situação excepcional gerou diversas agitações políticas que teriam seu auge na deflagração, em 9 de julho de 1932, do conflito interno que jogou São Paulo na luta armada contra as tropas “legalistas” do resto do país em defesa da promulgação de uma nova Constituição, conforme compromisso firmado no próprio decreto que instituiu o governo provisório de 1930. Nem mesmo a edição – anterior ao início oficial das hostilidades - do Decreto nº 21.402, de 14 de maio de 1932, que fixou o dia 3 de maio do ano seguinte para a realização das eleições para a Assembléia Nacional Constituinte foi capaz de impedir a explosão da revolução.
Foi o Código Eleitoral de 1932 (Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932), que deflagrou o início – de forma um tanto enviesada, é verdade – a trajetória legislativa dos partidos políticos brasileiros 68. Diz-se enviesada em função da confusão teórica criada pela norma que jogou na mesma vala todas as agremiações. Assim dispunha seu art. 99:
“Art. 99 - Consideram-se partidos políticos para os efeitos deste decreto:
1) os que adquirirem personalidade jurídica, mediante inscrição no registro a que se refere o art. 18 do Código Civil;
2) os que, não a tendo adquirido, se apresentarem para as mesmos fins, em caráter provisório, com um mínimo de 500 eleitores;
68
Não obstante, foi apenas com o advento da “Lei Agamenon” (Decreto-Lei nº 7.586, de 28 de maio de 1945) que aspectos relativos à organização e ao funcionamento dos partidos políticos brasileiros passaram a ser mais efetivamente tutelados pelo direito, conforme se verá logo adiante, no próximo subitem.
59 3) as associações de classe legalmente constituídas.
Parágrafo único - Uns e outros deverão comunicar por escrito ao Tribunal Superior e aos Tribunais Regionais das regiões em que atuarem a sua constituição, denominação, orientação política, seus órgãos representativos, o endereço de sua sede principal, e o de um representante legal pelo menos”.
Entretanto, mesmo assim, o Código outorgou-lhes uma série de relevantes prerrogativas relativas à fiscalização do processo eleitoral como um todo, de certa forma muito semelhantes às que a legislação atual lhes confere:
“Art. 100 - Para todos os atos referentes ao alistamento, é facultado aos partidos políticos, por meio de delegados seus ou representantes, que nomeiem junto aos juízes ou Tribunais eleitorais:
1) examinar, no arquivo eleitoral, em companhia dos funcionários designados, e com a aquiescência previa do Tribunal Superior, quaisquer autos ou documentos;
2) apresentar alegações e protestos, por escrito, recorrer, produzir todo gênero de provas e denunciar perante a autoridade competente os funcionários eleitorais;
3) acompanhar o processo de qualificação e inscrição dos eleitores;
4) requerer que, com sua assistência, de interrogue em forma sumária, o alistando quanto à identidade e se verifique seu conhecimento de leitura e escrita.
Art. 101 - Para os atos referentes à votação e apuração, podem, quando registrados, nomear fiscais:
60 a) os candidatos, individualmente ou em conjunto;
b) os partidos e as alianças de partido. § 1º - (...)
§ 2º - Os partidos, bem como os candidatos registrados, podem ter junto a cada Mesa Receptora um delegado, e, até três, junto ao Tribunal Regional.”
Dado este ambiente desfavorável, a efetiva organização das agremiações partidárias nesta primeira fase do período varguista, mesmo nestes termos distorcidos fixados do Código Eleitoral de 1932, só começou a se tornar mais visível com a aproximação das eleições para a Assembléia Constituinte de 1933/1934.
Em obediência ao que dispunha o art. 3º do Decreto nº 22.621, de 5 de abril de 1933, foram eleitos 214 deputados nos termos da fórmula eleitoral prevista no Código Eleitoral de 1932, então vigente, além de outros 40 oriundos de sindicatos e associações de profissionais liberais de funcionários públicos. Apenas a título de curiosidade, em função da novidade consistente na extensão às mulheres do direito ao sufrágio, conforme singelamente prescrito no art. 2º do Código Eleitoral de 1932, as eleições de 1933 marcaram a ascensão ao parlamento federal da primeira mulher, a médica Carlota Pereira de Queiroz, eleita pela Chapa Única, que concorreu no Estado de São Paulo, após ativa participação na Revolução de 1932.
Todavia, ressalvadas as novas competências da justiça eleitoral, o sufrágio eleitoral e as maiores garantias ao segredo do voto, terminavam por aí as divergências mais substanciais com o período imediatamente anterior à Revolução de 1930. Entre as eleições de 1933 e o início do Estado Novo, em 1937, o sistema partidário brasileiro permaneceu fincado em bases essencialmente regionais. Afonso Arinos, ao mesmo tempo em que lhes concede méritos pela constitucionalização do país, joga na conta das “susceptibilidades e mágoas da derrota” dos revolucionários de 1932 a responsabilidade pelo aguçamento do sentimento de autonomia dos Estados: “Pode-se,
61 mesmo, considerar a atitude dos vencidos constitucionalistas uma das maiores contribuições no sentido da manutenção do estadualismo partidário” 69.
Com efeito, como descreve Vamireh Chacon, enquanto o Partido Socialista Brasileiro - PSB ainda se reorganizava em São Paulo, o Partido Comunista Brasileiro - PCB – fundado oficialmente em 1922 - ainda na clandestinidade, buscava articular-se legalmente sob a bandeira da Aliança Nacional Libertadora – ANL e, enquanto a Ação Integralista Brasileira – AIB ainda se organizava sob o comando de Plínio Salgado, os partidos regionais continuavam dominando a cena política nacional. Surgiram “novos partidos, no nome, porém com os habituais vícios e oportunismos” 70.
A diferença é que as novas agremiações – submetidas ao comando das oligarquias patrimonialistas de sempre – mostravam-se agora ao público com rótulos de “Liberal”, “Popular”, “Progressista”, “Nacionalista”, “Nacional”, “Socialista”, “Nacional Socialista” e “Social”. A moda do discurso liberal de outrora abria espaço para o discurso social esquerdista que, não obstante, ocultava as mesmas práticas políticas de outros tempos e representava os mesmos interesses conservadores.
Sob esta nova roupagem, inúmeros partidos foram constituídos pelo país. A despeito da identidade de nomes, a única coisa que os unia era, em grande medida, o regionalismo patrimonial e oligárquico. Conforme o lúcido magistério de Afonso Arinos, “não é que faltassem partidos ao Brasil, no regime da Constituição de 1934. Tínhamos, mesmo, em demasia, o que, no caso, era uma forma de não os possuirmos realmente” 71.
Neste cenário, pois, formaram-se: o Partido Progressista na Paraíba e em Minas Gerais, o Partido Social Nacionalista em Minas Gerais, o Partido Nacional em Alagoas, o Partido Nacionalista e o Partido Popular no Rio Grande do Norte, o Partido Socialista Brasileiro e o Partido Democrático em São Paulo, o Partido Nacional Socialista no Piauí, o Partido Popular Radical no Rio de Janeiro, o Partido Liberal no Paraná, Santa Catarina, Pará e Mato Grosso, o Partido Republicano Social em
69História e teoria dos partidos políticos brasileiros... op. cit., p. 63.
70História dos partidos brasileiros – discurso e praxis dos seus programas... op. cit., p. 117. 71História e teoria dos partidos políticos brasileiros... op. cit., p. 64.
62 Pernambuco, além dos Partidos Sociais Democráticos no Ceará, em Pernambuco, na Bahia, no Espírito Santo e no Paraná.
As entidades profissionais – que passaram a contar com assentos reservados na Câmara dos Deputados, como visto acima -, organizaram-se sob as bandeiras do Partido da Lavoura em São Paulo e no Espírito Santo, e do Partido Economista no Distrito Federal.
Isto tudo sem mencionar as listas avulsas que concorriam às eleições, conforme permitia o Código Eleitoral de 1932: a “Lista Hugo Napoleão” no Piauí, a “Liberdade e Civismo” em Sergipe, “A Bahia é a Bahia”, “Por Santa Catarina”, a “Chapa Única” em São Paulo (que elegeu 17 deputados federais) e em Goiás, a “Frente Única” no Rio Grande do Sul e a chapa “Trabalhador, ocupa teu posto” em Pernambuco e, ainda, a mais pitoresca delas, o movimento da restauração monárquica denominado “Ação Imperial Patrianovista Brasileira”.
A despeito desta multiplicidade de agremiações, o comando do jogo político durante o período que se seguiu às eleições de 1933 até o golpe de novembro 1937 ficou a cargo do Partido Autonomista do Distrito Federal, que congregava a elite do movimento revolucionário de 1930, e do Partido Constitucionalista de São Paulo, que reunia, sob uma nova roupagem, os “velhos oligarcas” do setor cafeeiro paulista 72.
Logo em seguida, a Constituição de 1934 rompeu com o silêncio tradicional e inaugurou – ainda que de forma muito tímida e indireta - a fase de constitucionalização dos partidos políticos brasileiros. Em duas passagens o texto constitucional faz referência a tais agremiações. A primeira delas, no art. 66, quando afirma ser vedada a atividade político-partidária aos magistrados. A segunda, trazida pelo art. 170, estabelecia a pena de perda do cargo público ao funcionário que se valesse de sua autoridade em favor de partido político ou que exercesse “pressão partidária sobre seus subordinados”.
72
CHACON, Vamireh. História dos partidos brasileiros – discurso e praxis dos seus programas... op. cit., pp. 117/127.
63 Outra relevante inovação do texto de 1934 foi a elevação ao patamar constitucional da justiça eleitoral - já prevista no Código Eleitoral editado em 1932 -, como órgão do Poder Judiciário (arts. 82 e 83, além de diversas outras referências espalhadas pelo texto da Constituição).
No andar infraconstitucional, a Lei nº 48, de 4 de maio de 1935, aprofundou as inovações trazidas pelo Código Eleitoral de 1932 no que se referia aos partidos. De acordo com seu texto:
“Art. 166. Considerar-se-ão partidos políticos os que tiverem adquirido personalidade jurídica nos termos da lei. Parágrafo único - Grupos mínimos de duzentos eleitores, que, em cada eleição, registrarem candidatos, serão considerados partidos provisórios, para a fase da eleição respectiva.
“Art. 167 - Poderão os partidos políticos registrar-se nos tribunais regionais, ou no Tribunal Superior.
§ 1º - No requerimento de registro, o partido declarara o âmbito de sua ação partidária, sua constituição, denominação, orientação política, seus órgãos representativos, o endereço da sua sede principal, e os seus representantes perante o Tribunal Eleitoral.
§ 2º - O registro será no Tribunal Regional, se o âmbito de ação se limitar A região respectiva, ou no Tribunal Superior, se o partido exercer ação política por mais de uma região.
§ 3º - A comunicação será acompanhada:
a) de cópia dos estatutos e de certidão do registro a que se refere o art. 18 do Código Civil, quando se tratar de partido já com personalidade jurídica;
64 b) de declaração escrita de adesão, assinada, no mínimo, por duzentos eleitores, quando se tratar de partido com caráter provisório.
§ 4º Para as alianças de partidos já registrados, será bastante indicar onde foi feito o registro de cada um dos aliados, sendo a comunicação assinada pelos seus órgãos representativos.”
Apesar de não ter sido capaz de corrigir completamente as falhas conceituais de seu antecessor (trazia, por exemplo, como visto, a figura do “partido provisório”), manteve as prerrogativas já então reconhecidas às legendas para exercer um papel fiscalizador do processo eleitoral (art. 169).
Todavia, o sistema de partidos criado sob o recém estabelecido regime não teve chance de se consolidar. Os dias da Constituição de 1934 estavam contados.
O golpe de 10 de novembro de 1937, arquitetado sob o pretexto do “Plano Cohen” e da suposta “ameaça comunista” que ele representava, começou a mostrar as presas do governo provisório de Getúlio ratificado pelo Congresso Constituinte de 1933, nos termos do disposto no art. 1º das Disposições Transitórias da Constituição de 1934, “com muitos votos e poucas palmas”, conforme relato de Osvaldo Orico reproduzido por Walter Costa Porto 73.
Por força do Decreto-Lei nº 37, de 2 de dezembro de 1937, foram dissolvidos todos os partidos políticos registrados nos já então extintos Tribunal Superior e nos Regionais da Justiça Eleitoral sob a seguinte justificativa, constante de seus considerandos:
“Considerando que, ao promulgar-se a Constituição em vigor, se teve em vista, além de outros objetivos, instituir um regime de paz social e de ação política construtiva;
65 Considerando que o sistema eleitoral então vigente, inadequado às condições da vida nacional, baseado em artificiosas combinações de caráter jurídico e formal, fomentava a proliferação de partidos, com o fito único e exclusivo de dar às candidaturas e cargos eletivos aparência de legitimidade;
Considerando que a multiplicidade de arregimentações partidárias, com objetivos meramente eleitorais, ao invés de atuar como fator de esclarecimento e disciplina da opinião, serviu para criar uma atmosfera de excitação e desassossego permanentes, nocivos à tranqüilidade pública e sem correspondência nos reais sentimentos do povo brasileiro; Considerando, além disso, que os partidos políticos até então existentes não possuíam conteúdo programático nacional ou esposavam ideologias e doutrinas contrárias aos postulados do novo regime, pretendendo a transformação radical da ordem social, alterando a estrutura e ameaçando as tradições do povo brasileiro, em desacordo com as circunstâncias reais da sociedade política e civil;
Considerando que o novo regime, fundado em nome da Nação para atender às suas aspirações e necessidades, deve, estar em contato direto com o povo, sobreposto às lutas partidárias de qualquer ordem, independendo da consulta de agrupamentos, partidos ou organizações, ostensiva ou disfarçadamente destinados à conquista do poder público;”
Esta orientação anti-partidarista não era novidade no regime inaugurado em 1937. A primeira frase do preâmbulo da Carta outorgada por Vargas em 10 de novembro daquele ano já aludia à suposta perturbação da paz política e social
66 “por conhecidos fatores de desordem, resultantes da crescente agravação dos dissídios partidários que uma notória propaganda demagógica procura desnaturar em luta de classes, e da extremação de conflitos ideológicos tendentes, pelo seu desenvolvimento natural, a resolver-se em termos de violência, colocando a Nação sob a funesta iminência da guerra civil;”
Da mesma forma, Francisco Campos, Ministro da Justiça de Vargas, tido como o principal redator da Carta de 1937, reportando-se a elas e confirmando as justificativas apresentadas na mensagem presidencial de 10 de novembro daquele ano, dirige ferozes críticas ao papel desempenhado pelo sistema de partidos nos regimes democráticos, especialmente o brasileiro de 1934:
“Tanto os velhos partidos, como os novos em que os velhos se transformaram sob novos rótulos, nada exprimiam ideologicamente, mantendo-se à sombra de ambições pessoais e de predomínios localistas, a serviço de grupos empenhados na partilha de despojos e nas combinações oportunistas em torno de objetivos subalternos.
Entre esses quadros partidários e o sentimento e a opinião do País não existia a menor correspondência. Eles haviam se transformado, com efeito, ou em meros instrumentos de falsificação das decisões populares, ou em simples cobertura para a ação pessoal de chefes locais ambiciosos de influência no governo da Nação, mormente quando posta em foco a questão da sucessão.
(...)
É, aliás, o resultado infalível das democracias de partidos, que nada mais são virtualmente do que a guerra organizada
67 e codificada. Não pode existir disciplina e trabalho construtivo num sistema que, na escala dos valores políticos, subordina os superiores aos inferiores e os interesses do Estado às competições de grupos” 74.
Não é por acaso, portanto, que aquela simples referência negativa aos partidos políticos acima transcrita, contida em seu preâmbulo, é a única menção a tais agremiações trazida pela Carta de 1937.
A ALN já havia sido fechada por força do Decreto nº 229, de 11 de julho de 1935, editado logo após a publicação, no dia 5 de do mesmo mês, em comemoração a mais um aniversário do movimento tenentista dos “18 do Forte de Copacabana”, de um manifesto de Luís Carlos Prestes em apoio à aludida agremiação, no qual incentivava a deflagração de uma revolução contra o governo.
A única agremiação que permaneceu informalmente em funcionamento após novembro de 1937, sob um regime de silenciosa tolerância do governo, foi a Ação Integralista Brasileira, dada a simpatia de muitas altas figuras do Estado Novo com os princípios integralistas, sabidamente elaborados sob forte influência fascista. Entretanto, insatisfeitos com a indefinição de Vargas acerca de suas reais inclinações fascistas e com a sua relutância em franquear-lhes mais espaço no novo governo, os integralistas resolveram tentar tomar o poder à força e, em 11 de maio de 1938, atacaram o Palácio Guanabara 75 (então adotado como residência oficial do Presidente). A despeito da intensa troca de tiros, a tentativa de putsch foi frustrada pelos membros da guarda presidencial. Após este incidente, também os integralistas caíram na ilegalidade e logo seriam relegados ao ostracismo, mormente após o “exílio dourado” 76 de Plínio Salgado em Portugal de Salazar, bem como com a chegada ao país das notícias das atrocidades perpetradas pelos nazistas durante a 2ª Guerra.
74
BONAVIDES, Paulo. ANDRADE, Paes de. História constitucional do Brasil. 3ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, pp. 336/337.
75
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Introdução à história dos partidos políticos brasileiros... op. cit., pp. 63/64.
76
CHACON, Vamireh. História dos partidos brasileiros – discurso e praxis dos seus programas... op. cit., p. 138.
68 O regime autoritário de Vargas não se apoiou em um sistema de partido político único, ao contrário dos seus mais próximos equivalentes ideológicos europeus, os regimes fascista italiano e nazista alemão, suportados, respectivamente, pelo Partido Nacional Fascista e pelo Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores - NSDAP. Após o advento do mencionado decreto que dissolveu todas as agremiações partidárias então existentes, nenhuma estrutura partidária semelhante foi utilizada como instrumento de poder pelo Estado Novo.
Esta particularidade pode ser atribuída a diversas causas. A primeira delas deve-se ao fato de que, ao contrário dos paradigmas acima alinhados, a Revolução de 1930, responsável pela ascensão de Getúlio ao poder, não foi organizada por um partido político organizado em fortes raízes sociais e políticas. A Aliança Nacional não apresentava estas características.
Conquanto não possa ser reduzido a isso, o movimento foi repentinamente deflagrado em função insatisfação de oligarquias de Estados importantes como o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba diante da pretensão paulista liderada por Washington Luis de romper com o regime de revezamento presidencial então em