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2.3. Stres ve Stresle BaĢa Çıkma Ġle Ġlgili Kuramsal Açıklamalar

2.3.3. Stresle BaĢa Çıkma

“Vem muitos amigos aqui no clube porque ainda tem esse pequeno comércio

aqui, este trailer. „Ah vão lá no Gilmar que de repente ainda encontra um

jogador que jogou em 1970, 1960‟. Vem aqui um véin tomar um refrigerante e

ele jogou bola, vem contar uma história. Domingo agora tava com um aqui, esqueço o nome dele. E ai vem contar história, a gente ouve um pouco e tal” (Gilmar, Vice Presidente do Social Olímpico Ferroviário)

O trailer é um dos principais espaços disponibilizados aos freqüentadores do Ferroviário, sendo aquele que atrai um grande contingente de pessoas para as dependências do clube. Este trailer atende não só aqueles que vão até o clube para praticar o futebol, mas também – e, sobretudo – aqueles que se dirigem ao Ferroviário para beber uma cerveja e rever os amigos do bairro. Para tal, são colocadas algumas mesas típicas de bares e botecos – mesas de plástico amarelo – para que os clientes se acomodem com maior conforto. Este tipo de equipamento (trailer, bar ou boteco) não é exclusividade do Ferroviário. A maior parte dos campo de clubes de futebol amador conta com este tipo de equipamento. Isso ocorre não só em Belo Horizonte, como também em outras metrópoles como São Paulo. É o que se percebe a partir da pesquisa de Bevari (2009), quando ele diz:

“A presença de um bar é muito comum dentro da maioria dos campos de futebol de várzea, o que significa dizer que representa um importante

espaço de sociabilidade nos contornos do campo. (...) os participantes dos times comemoram suas vitórias ou reclamam suas derrotas, além de ser um espaço de debate sobre o próprio cotidiano das pessoas que participam de algum modo sobre a várzea (...)” (Bevari: 2009. p. 26)

É importante dizer que o trailer está estrategicamente instalado na entrada do clube, ou seja, não é possível que alguém adentre às dependências do Ferroviário sem antes passar por ali. Esta localização estratégica permite aos mandatários do clube, que também são aqueles que cuidam deste trailer, uma vigília permanente e uma fiscalização quase sempre eficaz, de quem entra ou não no clube. Estabeleceu-se, desta forma, um ritual de entrada no Ferroviário, de modo que quem pretende adentrar nas dependências deste clube deve, obrigatoriamente, passar no trailer e pedir a “benção” daquele que ali estiver, seja Gilmar ou Mauro.

Este trailer é bem acanhado em suas dimensões, tendo uma área estimada de 7m² (3,5m x 2,0m). Por outro lado, esta dimensão diminuta não impede que os clientes sejam bem atendidos, já que o trailer está totalmente preparado e adaptado para atender às demandas das pessoas que ali freqüentam. Sua fachada é simples, contando com três balcões nos quais se pode apoiar o corpo, os copos e as garrafas de cerveja. Há em seu interior, estampados para quem quiser ver, inúmeras garrafas com vários tipos de cachaças e pingas; nota-se um letreiro no qual estão os preços da cerveja e bem abaixo deste letreiro há uma pia aonde são lavados os copos e as vasilhas utilizadas para servir os clientes. Além disso, há dois freezers nos quais ficam as bebidas geladas (água, refrigerante, sucos e cervejas) e uma pequena chapa na qual são preparados os tira gostos e os lanches a serem servidos. A não ser pela cerveja e outras bebidas, os preços não são definidos com grande rigor; não há um cardápio pronto, a não ser no que se refere aos lanches, os quais são, em sua maioria, constituídos por sanduíches. Embora não se verifique esta definição mais rigorosa do cardápio, nota-se que dentre os tira gostos mais vendidos está a linguiça acebolada frita na chapa, sendo comercializada a R$2,50 a unidade. Eram comuns, ainda, situações em que os próprios clientes traziam de casa já prontos os tira gostos que eles gostariam de degustar enquanto tomavam as cervejas, ou mesmo os mais diversos tipos de carnes que eram preparadas pelo Gilmar e

servidas imediatamente. Desta forma, foi possível perceber que as relações entre os mandatários e os clientes são extremamente pessoais, pelo fato de que a maior parte dos clientes são amigos ou pessoas conhecidas do bairro que sempre estavam por ali, principalmente nos dias de domingo. Nesse sentido, não há uma sacralização do espaço do trailer, isto é, este espaço não se constitui enquanto um lugar proibido aos clientes, na medida em que não foram poucas as vezes em que os clientes adentraram aquele pequeno espaço para pegar um copo ou uma cerveja, encher uma garrafa de água, sintonizar melhor o rádio e etc.

Este tipo de informação de caracterização do trailer, acerca do que se vende e forma como se estabelecem as relações entre os clientes e mandatários do clube, é importante devido ao fato de que pode dizer muito sobre quem freqüenta, como freqüenta, o que procura e etc. Durante estas observações no trailer ficava me questionando se o clube estivesse localizado em um bairro da zona sul e atendesse as pessoas economicamente abastadas que ali vivem o que seria servido, como seria servido, qual cerveja seria comercializada, quais conversas ocorreriam, quem estaria ali, que tipo de relação estabelecer-se-ia com o lugar, como se daria a relação os mandatários e os clientes, dentre outras coisas. Não há dúvidas de que, se fosse este o caso, as pessoas seriam outras, as conversas seriam outras, as comidas e bebidas seriam outras, os preços seriam outros, enfim seria outro contexto, outra situação. Aquelas pessoas não procuravam o refinamento ou a refinamento e a sofisticação dos pratos,

procuravam apenas a companhia de amigos e conhecidos da região, para “jogar conversa fora”.

Em diversas oportunidades em que pude conversar com estes freqüentadores do clube, eles disseram que como não tinham “nada para fazer” em casa, se dirigiam para o Ferroviário; alguns diziam também que iam para o clube, pois não aturavam ficar em casa nos finais de semana devido à “encheção de saco das esposas”. Pode-se perceber que a casa raramente é encarada como um espaço de lazer para os homens, os quais procuram, nos momentos de folga como tradicionalmente são os dias de sábado e domingo – dias em que levei a cabo minhas observações no Ferroviário – sair para a

rua, seja para um boteco, bar ou clube de futebol amador. Este tipo de “desabafo” dos

trailer e ao clube de um modo geral. Embora tenha sido possível perceber alguma presença feminina no clube, geralmente estas mulheres não iam ali sozinhas, iam como acompanhantes dos maridos ou filhos. O clube de futebol amador é um espaço social no qual há uma predominância inequívoca de homens. Este tipo de espaço é, pois, sobremaneira masculinizado. As relações que ali se estabelecem podem ser definidas enquanto relações de homo sociabilidade masculina.

Ora, se o clube em questão é um espaço marcadamente masculinizado, torna-se necessário traduzir a maneira pela qual se dava esta sociabilidade masculina no trailer. As relações que se estabelecem entre os freqüentadores do clube que se dirigiam ao trailer eram bem diversificadas. De acordo com o que fora observado, estas relações podem ser divididas em quatro tipos básicos, a saber, relações jocosas, discussões acerca de futebol, conversas em torno de dramas familiares, atualizações acerca das questões e das pessoas do bairro.

O primeiro tipo, as relações jocosas, são aquelas por meio das quais se

identificam os “emanadores de gozações”, os quais, geralmente, são lideranças ou referências destes grupos. Os “emanadores de gozações” são aqueles que têm grande

respeito dos seus iguais, sendo que eles direcionam e determinam a forma pela qual se dá estas gozações: definem os temas, quando começar e quando parar, escolhem aquele (s) para o (s) qual (is) dirigir-se-ão as zuações, decidem sobre o ritmo e a intensidade das gozações e etc. O clima amistoso é, desta maneira, garantido pela sensibilidade destes emanadores que devem saber a hora exata de interromper e mudar de assunto quando os ânimos começam a se exaltar um pouco. É difícil ocorrer este tipo de situação, já que a brincadeira acaba por ser recíproca, ou seja, aquele que é zuado terá a sua vez de ser zuador. Estas brincadeiras esbarram sempre nos mesmos temas, temas esses atribuídos ao caráter masculinizado e machista do ambiente. São brincadeiras que colocam em cheque a opção sexual da pessoa: a todo o momento era possível escutar

“viadinho”, “bichona”, “boiola”, dentre outros termos utilizados para designar

pejorativamente a escolha sexual – até então fictícia - do zuado.

O segundo tipo de relação que se estabelece entre os freqüentadores remete a acaloradas discussões em torno do futebol. Leia acaloradas não como exaltadas – apesar de que em algumas oportunidades o tom da discussão extrapola a simples brincadeira -

já que há uma proximidade muito maior com a jocosidade. O futebol aqui deve ser concebido sob a perspectiva de Arlei Damo, isto é, futebol não apenas profissional, mas também o futebol comunitário e bricolado. São comuns as discussões com uma dose extra de rivalidade e brincadeira em relação à preferência clubística e a respeito do desempenho dos clubes profissionais de Belo Horizonte, sobretudo, o Clube Atlético Mineiro e o Cruzeiro Esporte Clube e, na mesma medida, foi possível observar que, dentre aqueles que praticavam o futebol bricolado ou comunitário no campo, estas discussões eram formas de relembrar os lances de um jogo ou de uma pelada.

O terceiro tipo de relação se estabelece é dotado de maior seriedade a partir de conversas em torno dos dramas familiares vivenciados pelos freqüentadores. Há um tom de desabafo se dá quando um componente do grupo relata aos seus iguais situações vivenciadas no ambiente familiar: um filho que não quer estudar, uma filha cujo

namorado não agrada ao pai, uma esposa que quer “mandar no marido”, um cunhado

que vive às custas da família. Estes e outros dramas familiares são cuidadosamente tratados pelo grupo como um todo, o qual discute as situações, procuram saídas, sugere alternativas de comportamento, aconselha determinada postura a partir de uma situação semelhante.

Há ainda um quarto tipo de relação que se estabelece a partir de conversas em torno das questões do bairro. Geralmente nos dias de domingo na parte da manhã, alguns dos moradores dos bairros próximos ao clube se dirigem até o trailer para se atualizar a respeito das novidades verificadas naquele pedaço. Esta atualização das informações do bairro cumpre importante função no que tange o fortalecimento de vínculos entre os moradores daquela região da cidade. Quem morreu, quem se casou, quem teve filho, quem ganhou um neto, quem se mudou do bairro, são questões levantadas e debatidas pelo grupo. Embora, não invalide a função social deste tipo de relação, cabe ressaltar que muitas das vezes as informações que são levantadas e debatidas não são verídicas, são fruto de rumores e “fofocas”. Por isso, o conceito de rumour elaborado por Raymond Firth e utilizado por Gilberto Velho em sua pesquisa no Edifício Estrela para analisar a forma como se os vizinhos se comunicavam naquele local, é de grande valia, pois as principais características do rumour são: “falar ou informar de coisas que ouviu-se dizer, não expressão original; divulgar ou espalhar tal

informação através do grupo social, afirmativas de base duvidosa ou não verificadas(Firth, Raymond: 1967 nota in A Utopia Urbana: Um estudo de Antropologia Social, 1978. p. 44-45).

É necessário neste momento caracterizar estas pessoas que se dirigem ao clube, ao trailer e ali estabelece esta série de diferentes relações. Cabe, pois, definir com maior rigor quem são estas pessoas que compõem este grupo social naquele espaço. Podemos inferir a partir do que fora observado em campo que o grupo que ali se formou é composto por indivíduos de uma geração mais velha; a presença de jovens no trailer – e no clube de um modo geral, a não ser aqueles indivíduos que participam como jogadores das categorias de base do clube – é praticamente insignificante. Os jovens procuram outros espaços para a realização de atividades de lazer, espaços esses que escapam em larga medida de um trailer em frente a um clube de futebol amador. em certa oportunidade um individuo jovem que passara pelas categorias de base do clube e

que estava ali para rever sua antiga comissão técnica disse que o Ferroviário é “lugar de velho”. De fato o que percebi é uma presença maciça de homens com idades que variam

dos 40 aos 70 anos. São, em sua maioria, moradores de bairros próximos, tais como, Pompéia, Esplanada, Vera Cruz, Horto, Boa Vista, São Geraldo, Sagrada Família. A constituição étnica destes homens é deveras diversificada, com grande presença de pardos e brancos, sendo a presença de negros mais limitada. Podemos então inferir que este grupo social é formado majoritariamente por homens, com faixa etária entre 40 e 70 anos, que vivem nos arredores do clube, nos bairros próximos – bairros esses que são considerados de classe média, composto por trabalhadores, por assalariados – com maior presença de brancos e pardos.

O trailer se constitui enquanto uma espécie de corporação mais ou menos rígida. Há uma série de regras e normas de conduta e comportamento a serem seguidas pelos freqüentadores, as quais garantem a manutenção e perpetuação daquele grupo que ali se formou. Estas regras e normas se manifestam quando do momento da própria interação, da própria relação – sobretudo no que se refere àqueles quatro tipos apresentados acima - entre os indivíduos que ali participam. Em outros termos, mesmo não estando escritas, estampadas ou desveladas, estas regras orientam e permeiam as relações que ali se estabelecem entre aqueles indivíduos, ou seja, a institucionalização destas regras e

normas se dá, propriamente, na construção e estabelecimento das relações entre o grupo. Apenas através da observação levada a cabo neste local foi possível decodificar e evidenciar a manifestação do grupo e de suas regras sobre determinados indivíduos. Os olhares, os gestos, as falas funcionam como ferramentas que garantem o cumprimento destas regras e normas. Em diversas situações quando chegava um individuo que não fazia parte do grupo ou que o grupo não gostaria que passasse a fazer parte havia u, um constrangimento: todos se silenciavam e os olhares coercitivos não descansavam até que o individuo percebesse que naquele grupo ele dificilmente conseguiria adentrar. Nesta mesma medida quando chegou uma mulher jovem, bonita, escapando, desta forma, completamente do perfil daquele grupo, daquela corporação, logo houve um estranhamento, o qual não sabia como se portar diante daquela nova situação.