Durante todo o percurso da pesquisa, vamos sempre percebendo como é entendida a educação rural no contexto local, tendo em vista que, tanto os profissionais da educação como os de outras áreas vão nos interpelando sobre o porquê da escolha de pesquisar as escolas rurais. Na própria maneira de perguntar de algumas pessoas percebemos como a educação rural ainda é vista como uma educação diferente, com menos oportunidade. A concepção de que a escola urbana é melhor do que a rural, tem suas origens no próprio surgimento dessas escolas. A escola da zona rural às vezes era improvisada em qualquer lugar, a professora era àquela que tinha menos formação. Isso colocou em xeque a imagem negativa da escola rural, quando as escolas isoladas são denominadas de “escolinhas” do sítio “x ou y”, os autores nos colocam como essa concepção é forte ao afirmar:
Também existe a concepção de que a escola urbana é melhor do que a rural. Isto coloca mais uma vez o determinismo geográfico como fator regulador da qualidade da educação, sendo um critério equivocado da política de investimentos. É mais uma falsa idéia. O que está em questão é um projeto de escola que tem uma especificidade inerente à histórica luta de resistência camponesa, indígena, negra... Ela deveria ter valores singulares que vão em
direção contrária aos valores capitalistas e a lógica patronal. Este é um dos seus elementos fundamentais (FERNANDES,CERIOLI E CALDART,2008, p.39)
Ao conversar sobre esse assunto com as ex-professoras rurais, vamos observando que cada uma delas defende à sua maneira a educação e as escolas rurais, de forma que seja mostrado o lado bom dessas instituições, porém no final de suas falas, elas concluem que na visão dos pais e de outras pessoas, a escola urbana era sempre melhor. Daí muitos deixarem seus filhos na escola rural só até ser alfabetizado ou fazer apenas o ensino fundamental I, que corresponde atualmente até ao 5º ano.
Iniciando esses depoimentos pelas professoras rurais do sítio Arraial, da Escola Dr. Leão Sampaio, vemos o que ela (Frassinete Ribeiro) fala da escola e dos alunos:
No meu tempo de professora, a gente repassava o conteúdo para os alunos com a maior dedicação. Eu nunca me decepcionei com os meus alunos. Apesar de muita coisa que faltava nas escolas rurais, nós conseguíamos fazer o aluno aprender. (Pausa)...Acontecia que os pais achava melhor colocar os filhos na cidade, ou seja, partia para coisa melhor (risos). Não adianta a gente querer dizer que todos estavam satisfeitos, apenas se conformavam com aquela situação, mas havia interesse dos alunos e o respeito. Isso aí já era importante para o trabalho da professora.
No seu depoimento, a professora Frassinete Ribeiro, ressalta o seu compromisso com o conteúdo e a aprendizagem dos alunos, mas não desconhece que a escola rural precisava melhorar e os pais consideravam a escola urbana melhor, porque oferecia melhores condições. Em contrapartida o conformismo diante daquela situação inibia a melhoria das condições de trabalho das professoras.
Ao ouvir a opinião da professora Wilma Quinderé, assessora do prefeito da época em que foi construída essa escola, (por sinal ela esteve presente no dia da inauguração dessa escola, em 1968, ela dá a sua opinião a respeito do ensino rural colocando o ontem e o hoje:
Lógico, que hoje é melhor, porque o professor está mais qualificado. Mas, para aquela realidade, foi importante, porque eles(os professores), foram suprir uma necessidade. O professor não era qualificado, mas de qualquer maneira deu a sua contribuição a educação. Hoje há mais facilidade. O ensino está mais ampliado e os professores quase todos tem sua formação: tem 2º grau, curso superior e até especialização.
Os pais deixavam de matricular seus filhos na escola rural, não porque não acreditassem. É porque não tinha um professor capacitado (digo capacitado na questão da formação certa) para ministrar 4ª série, 5ª série. A zona rural era mais para alfabetizar, era 1ª, 2ª....
Outros depoimentos foram sendo ouvidos, e dessa forma se confirmando a percepção das pessoas acerca da escola rural:
“Muitos pais, a partir da 4ª série, já colocava os filhos nas escolas da cidade, ou seja, partir para outra melhor”. Isso quando na zona rural já tinha até a 4ª série, porque no começo era mais, 1ª, 2ª e 3ª”(Frassinete Ribeiro).
A professora Maria Pinheiro relata:
Na época que eu ensinei só tinha até a 2ª série na zona rural. A partir da 3ª o aluno já vinha para a cidade. Eu acho que tem pais que dizem que na cidade os alunos aprendem mais. Isso, porque as escolas da cidade tem mais condições. Pois, a escola rural ficava sempre para depois, acho que por isso, as pessoas tinham essa opinião. (pausa). Mas, sabemos que foi importante essas escolas e muitos alunos que continuaram com os estudos chegaram a se formar e ter uma profissão.
Quando a professora reconhece a importância da escola rural na educação, e por outro lado diz que essa escola ficava sempre para último plano, confirma que as políticas públicas tratavam com descaso, mas mesmo assim, muitas escolas conseguiram permanecer, sem ser extinta.
O depoimento da professora Ednúbia Rolim, reforça a idéia a respeito de descaso com as escolas rurais, quando ela diz:
Quando o CERU, começou a funcionar, Tia L... pediu ao prefeito da época para colocar no CERU professores qualificados (formados), porém encontrou muita resistência, pois na opinião de muitos qualquer pessoa podia ensinar nas escolas rurais, não precisava ter formação.
Ao ler atentamente todos os depoimentos das professoras entrevistadas, sobre o que pensam do ensino rural em comparação com o urbano, elas deixam claro que o ensino rural, como não fazia parte das políticas do governo e até porque o que se fazia pelo ensino rural quase ninguém notava, era inferior, em vários aspectos citados pelas professoras, tais como: infra-estrutura precária das escolas, falta de material didático, funcionários sem a preparação adequada, falta de água, energia e às vezes até banheiro. A Cantina era um quartinho pequeno, que servia mais de depósito, do que mesmo de
cantina. Muitas vezes, material, merenda e documentos da escola eram guardados na casa da professora, porque não havia funcionário para cuidar da documentação da escola. Podemos dizer que muita coisa melhorou nas escolas rurais, porque todos os professores tem a sua formação adequada, as escolas tem água e energia. A questão da higiene foi colocada em evidência, construção de banheiros, cantina, depósito para merenda, tudo isso foi revisto. E mesmo assim ainda temos algumas escolas com problemas ignorados pelos gestores.
Outro ponto muito negativo apontado pelas professoras é que a maioria das escolas rurais não tinha uma secretária com registro para assinar as transferências dos alunos quando eles concluíam o ensino fundamental. Poucos profissionais da educação municipal tinham essa formação exigida pelo Conselho de Educação do Ceará, consequentemente havia a falta de credibilidade na escola rural, pois alguns diziam, que a escola não tinha registro e os alunos estavam estudando sem que tivesse validade, ou seja, quando fosse necessário estudar em outra escola ou outra cidade, não tinha como comprovar em documentos. Quando a Secretaria de Educação começou a organizar a parte burocrática das escolas rurais, a partir dos anos de 1980, ficou mais fácil de defender a proposta do ensino dessas escolas, já que o aluno tinha a sua vida escolar registrada nos seus arquivos. Isso vai revitalizar a organização dos arquivos escolares, tendo a parte documental como o início da organização burocrática das escolas municipais rurais.
Atualmente, essa parte burocrática continua sendo organizada. As escolas, além de ter o auxiliar de secretaria com o ensino médio, têm uma secretária escolar com formação adequada e registro, capaz de organizar o arquivo da escola de forma correta e segura, sem causar transtorno aos alunos que precisem de seus documentos de transferência para estudar em outra escola ou de declaração de conclusão do ensino fundamental.
Sobre os documentos escolares, é importante chamar atenção para:
Nossos documentos escolares tem sido inúmeras vezes vistos como um amontoado desconexo do qual precisamos nos desvencilhar, e o que fazemos arbitrariamente, justificados pela falta de espaço e o acúmulo de papel no fundo, o que falta, inúmeras vezes, é a consciência do valor histórico dos documentos produzidos institucionalmente, é a permissão ao direito à
memória, que acompanha o direito à cidade e à cidadania. (NUNES, 2003,
Isso que a autora afirma é uma realidade gritante, muitos arquivos escolares são abandonados, dentro do espaço escolar, quando muitas vezes jogados no lixo, porque não enxergam a importância dos mesmos para a escrita e análise da história da educação. Em conversa com a atual equipe técnica da secretária municipal de educação, tive a informação de que ainda hoje, muitos alunos que concluíram o ensino fundamental da 1ª a 4ª série nas escolas isoladas ou grupos escolares da zona rural, tem dificuldade de encontrar suas fichas de matrículas e boletim de notas. A maioria desses arquivos foram extraviados.
O que nos anima é saber que os documentos escolares, agora fazem parte do arquivo das escolas rurais. Tem um lugar certo para ser guardado e preservado, pelo menos foi à idéia demonstrada nas escolas e no órgão oficial da Secretária Municipal de Educação. Os professores com formação adequada, variando entre o Magistério e Licenciatura em área específica ou Pedagogia. Vários projetos de melhoria para as escolas rurais e o Plano de Cargos e Carreiras sendo levado em consideração, apesar de serem por meio de muitas lutas, discussões e debates.
Apesar da maioria das professoras afirmarem que existe uma concepção negativa por parte de alguns pais, alunos, e pessoas da comunidade sobre a escola rural, os resultados de avaliação de desempenho mostra que as escolas rurais são boas, e trazem resultados melhores do que as escolas urbanas.