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Inicialmente, foi feita uma pesquisa de exploração com levantamento bibliográfico do material disponibilizado pelo Ministério da Integração Nacional, relatórios técnicos, incluindo o Relatório de Impacto Ambiental, elaborado em julho de 2004. Em contato com o Ministério, através de um sistema de ouvidoria, foi encaminhado em 2013, um pedido de informações gerais atualizadas do projeto. A resposta foi de que as informações já estavam todas disponibilizadas.

A partir desta resposta, foi preenchido e encaminhado, um formulário formal de solicitação de visita técnica, solicitando também, uma entrevista com gestores locais, e visita às obras em Cabrobó (PE). Foi marcada, com alguns meses de antecedência, a visita ao primeiro lote de canais em Cabrobó (PE). O Ministério da Integração Nacional demonstrou receptividade em receber a visita às obras. Em 27 de setembro de 2013, a visita foi realizada. Um engenheiro, que representa um Consórcio de Empresas CEQ – Consórcio Engevisa – que faz a supervisão das obras no Eixo Norte – Trecho I, foi responsável pela recepção na visita e não autorizou a gravação de entrevistas. O engenheiro salientou que todas as informações atualizadas sobre o projeto estão disponíveis no site do Ministério da Integração.

Em 2013, o Ministério da Integração Nacional, afirmava inclusive neste site oficial, que a primeira parte das obras, chamadas de canais de aproximação, estariam prontas e foram feitos sob a responsabilidade do Exército Brasileiro. Em contato com o Exército Brasileiro, a

ou 201 imóveis diretamente atingidos. Em seus documentos, a Comissão Pastoral da Terra (2010), fazendo análises de colocações da Articulação Popular São Francisco Vivo, apontou comunidades diversas, todos agricultores familiares em Cabrobó, que estariam passando por transformações em seus lugares de vivência causadas pelas obras e sofrendo com estas transformações.

Em campo, se buscou localizar os diretamente atingidos indicados pelo Ministério e pela Comissão Pastoral da Terra. Neste sentido, foram identificados e entrevistados, através da metodologia história oral, seguindo o desenho do canal da transposição em Cabrobó, os seguintes grupos:

I - agricultores familiares que tiveram suas terras cortadas pelo canal e pelas obras da transposição, que estão dentro da faixa considerada pelo Ministério da Integração Nacional como diretamente atingida;

II - comunidades quilombolas “Cruz do Riacho” e “Jatobá”, também agricultores familiares. A primeira comunidade situada nas margens do rio São Francisco e a segunda localizada principalmente nas terras ocupadas pela construção de um reservatório que receberá as águas a serem transpostas, já quase na divisa com o município de Salgueiro;

III – reassentados da Vila Junco, também agricultores familiares, que tiveram seus

lugares de vivência originais ocupados pelas obras da transposição do rio São Francisco em Cabrobó. A Vila Junco se situa quase na divisa com o município de Terra Nova.

O lugar pesquisado é um espaço de vivência de agricultores familiares, que mesmo vivendo em comunidades diferentes, com suas histórias e particularidades específicas, possuem laços de vivência em comum. Vivência que reconhece lugares santos únicos e compartilhados, como a Pedra da Santa; formas em comum de se produzir e sobreviver ligadas ao uso da terra e da água, meeiros, muitas vezes usando regimes de parceria no uso da terra. Fazendo com que exista o lugar de vivência de agricultores rurais diretamente atingidos em Cabrobó, pela transposição do rio São Francisco.

Neste sentido, foram entrevistados representantes dos agricultores familiares, que vivem na zona rural de Cabrobó, ao longo dos canais e que são considerados, inclusive pelo Ministério da Integração Nacional, como diretamente atingidos. A ilha da Assunção está sob o rio São Francisco e pertence aos índios Truká. Os índios moradores da ilha também sentiram a chegada das obras da transposição, mas não foram inseridos no grupo de entrevistados. No mapa 01, é apresentada a localização do município de Cabrobó, a ilha da Assunção dos índios Trukás, os grupos de agricultores familiares entrevistados (propriedades cortadas pelo canal, quilombolas Cruz do Riacho e Jatobá, reassentados da Vila Junco).

As falas dos entrevistados foram colocadas em contrapondo o discurso oficial do Ministério da Integração. Os entrevistados foram identificados apenas por letras. Esta tese possui aprovação ética pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UFMG, pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), onde foram observadas as atribuições definidas na Resolução do Comitê Nacional de Saúde (CNS) no 466/2012 e na Norma Operacional no 001/2013, do CNS. Entendeu-se que para dar maior conforto e segurança aos entrevistados seus nomes e suas informações pessoais não seriam revelados. Isto foi uma forma de deixar o entrevistado mais a vontade para expor suas opiniões diante dos diversos interesses e das questões políticas em que a transposição do rio São Francisco está inserida. Foram entrevistados da forma mais aprofundada doze moradores. Estes moradores foram entrevistados com o procedimento e método história oral (uma entrevista aprofundada, que em alguns casos chegou a alcançar a metodologia de história de vida; acompanhando pelas falas do entrevistado, fatos que narram sua história de vida, ligadas ao objeto de pesquisa). Estes moradores são pessoas indicadas pelas comunidades como líderes ou importantes representantes da comunidade. O número de entrevistados se mostrou válido, pois em determinado momento as entrevistas começaram a repetir os dados principais, demonstrando assim já ter sido alcançada a verdade dos fatos. Foram feitas ainda, entrevistas semi- estruradas, que colaboraram e afirmaram as verdades alcançadas.

Em 2014, quando eram trabalhados os dados alcançados nas entrevistas, depois de uma indicação dos entrevistados, foi procurada para responder um questionário uma assistente social do Ministério da Integração Nacional, que atuava no município de Cabrobó. Procurada para responder a um questionário ou a uma entrevista, a resposta foi de que se procurasse novamente contato com o Ministério da Integração. O Ministério foi novamente procurado e em março de 2015, um questionário foi devolvido preenchido. As perguntas foram elaboradas, tentando ir de encontro aos questionamentos dos diretamente atingidos em Cabrobó. Os questionamentos e as respostas foram inseridos no corpo da tese, dialogando com as vozes dos diretamente atingidos. O questionário se encontra nos anexos da tese.

Desta forma, não houve facilidade de se colher informações por meio de uma entrevista aberta com gestores ou idealizadores do projeto de transposição. No entanto, as respostas ao questionário ajudaram, e algumas informações adicionais foram alcançadas com gestores de projetos secundários de construção de canais, ligados à obra da transposição do rio São Francisco; e também puderam ser alcançadas pela percepção do autor, junto aos trabalhos de campo, realizados em Cabrobó.

Relacionando-se com obras secundárias ligadas à transposição do São Francisco, em trabalho de campo realizado no VI Simpósio Internacional de Geografia Agrária, VII Simpósio Nacional de Geografia Agrária em João Pessoa, e na I Jornada de Geografia das Águas, em setembro de 2013, em João Pessoa, na Paraíba, obteve-se uma entrevista direta com engenheiros responsáveis por uma das obras de canais que estão sendo construídos para receber as águas do rio São Francisco. Como indicado na foto 03, da placa indicativa da obra, o Canal de Integração Acauã-Araçagi está sob responsabilidade do Governo da Paraíba e do Ministério da Integração Nacional.

Fonte: Assis (set. 2013).

Foto 03. Placa indicativa da construção dos canais que receberão as águas da transposição do rio São Francisco no Estado da Paraíba.

A situação no estado da Paraíba é de quase total despreparo para receber as águas da transposição: “A análise espacial demonstra que os interesses do agronegócio na zona litorânea, em específico no segmento sucroalcooleiro, estão acima das questões sociais e da carência de recursos hídricos no Cariri paraibano” (VIANNA, 2013). Com a visita às obras pode-se perceber um descompasso entre o discurso do Ministério da Integração Nacional e a realidade na realização das obras. Foram visitados lugares próximos ao rio Paraíba, sobre a

chuva e cisternas. Isto estaria inviabilizando a produção pela agricultura familiar. Com todas estas informações em mãos, conseguiu-se um maior entendimento das obras da transposição na região nordeste do país.