A regressão ajustada para a equação (14), com estimadores para os coeficientes angulares das variáveis explicativas e interceptos diferentes entre as economias estaduais, complementa as análises anteriores e ratifica algumas proposições apresentadas neste estudo (TABELA 4.33). As estimativas dos coeficientes angulares medem as elasticidades do PIBCC em relação a cada uma das variáveis explanatórias (constantes entre as unidades estaduais). As estimativas dos diferentes interceptos (coeficientes das dummies de cada estado) medem a participação de cada unidade estadual na amostra, indicando a heterogeneidade interestadual no período analisado.
Os resultados apurados para as economias estaduais pesquisadas não fornecem evidências empíricas de que o produto da construção seja estatisticamente sensível ao dinamismo da atividade econômica local, à taxa de juros básica da economia39 e ao crescimento populacional. Entretanto, os dados amostrados permitem inferir que o produto setorial é estatística e positivamente dependente do consumo de cimento, da oferta de crédito para financiamento imobiliário, do financiamento público para investimentos e da lucratividade das empresas de construção. Por outro lado, sugerem uma relação estatística inversa entre o estado de confiança da economia e o produto setorial.
Os resultados da Tabela 4.33 indicam que as variáveis com maior efeito de resposta sobre o produto setorial nas economias estaduais foram: o consumo de cimento (com coeficiente de elasticidade de 0,43); o estado de confiança (-0,19); a lucratividade das empresas de construção (0,19); o orçamento público de investimentos (0,09); e a disponibilidade de crédito imobiliário direcionado às operações imobiliárias (0,14).
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No caso da SELICit (taxa de juros), ressalta-se que esta variável se apresentou constante para as unidades de
corte transversal, só variando ao longo do tempo, e que o modelo de efeitos fixos desconsidera qualquer variável que seja constante nas unidades de seção cruzada.
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Pelos dados pesquisados, pode-se inferir que uma variação incremental de 1% no consumo de cimento causa um aumento proporcional no PIB setorial de 0,43%, mantidos os demais fatores explicativos constantes. O elevado peso explicativo do consumo de cimento sobre a variável de resposta está relacionado a questões metodológicas, uma vez que o valor adicionado pelas atividades de construção nos estados é estimado pelo IBGE com base neste indicador, dentre outros. Os demais fatores explicativos estão previstos na perspectiva analítica keynesiana, com ressalva para a variável estado de confiança.
A elasticidade do produto da construção nos estados em relação aos gastos governamentais de investimento foi de 0,09, sugerindo que 1% de aumento no orçamento público nesta rubrica corresponde a um incremento adicional de 0,09% no PIB setorial. O exemplo de São Paulo (que tem o maior PIB setorial e a maior parcela relativa do orçamento público do país) auxilia a entender melhor esta relação causal. Em 2004, a preços de 2006, o orçamento público de investimentos no estado foi de R$2,836 bilhões e o PIB da construção somou R$ 34,805 bilhões, indicando que se o orçamento de investimentos aumentasse em R$2,8 milhões no ano, o setor da construção produziria R$3,132 bilhões a mais. A justificativa teórica é que, se a indústria de construção apresenta a peculiaridade de produzir bens de investimentos por excelência, incluindo a produção de bens públicos, é bastante plausível que a variável orçamento público de investimento tenha influência estatística na determinação do produto setorial nas economias estaduais. E deste fato deduz-se a importância dos gastos do Estado (em seus três níveis – federal, estadual e municipal) na estabilidade do produto da construção.
Também era esperado que o volume de crédito para financiamento imobiliário (para construção e aquisição de unidades residenciais e comerciais) tivesse efeito estatístico positivo sobre o produto setorial nas economias estaduais, apresentando coeficiente de elasticidade de 0,03. As atividades de construção imobiliária têm ciclo produtivo em torno de 3 a 5 anos, exigindo grande disponibilidade de recursos a priori para viabilizar as diferentes etapas da obra. E seus produtos finais, regra geral, são comercializados por meio de financiamentos com vencimentos no médio e longo prazos. Assim, a oferta de recursos para financiamento das operações imobiliárias é condição essencial para o desempenho do produto da construção nas economias locais. Conforme a perspectiva keynesiana, os empresários tomam suas decisões de investimento com base nas expectativas de rentabilidade futura (long-
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maior para a maturação do investimento, os agentes empreendedores são diretamente afetados pelo hiato temporal entre o financiamento e o retorno do investimento, estando mais sujeitos a incapacidades de pagamentos contratualmente rígidos, necessidades de liquidez e endividamentos. Por tudo isto, é factível estabelecer a importância fundamental do sistema de crédito como agente viabilizador do financiamento dos investimentos.
Dos dados amostrados, pode-se igualmente inferir que a lucratividade das empresas de construção tem relação estatística positiva com o produto setorial (apresentando coeficiente de elasticidade de 0,19), o que vai ao encontro das suposições a priori. A abordagem keynesiana relaciona a taxa de investimento com a taxa de lucro do capital, por meio da maior disponibilidade de fluxos de caixa para o empresário - resultante da receita de vendas em relação ao custo médio de produção. Assim, a existência de receitas e recursos em caixa consolida financeiramente os planos de investimento das empresas de construção, promovendo estímulos favoráveis que determinam o compasso dos investimentos em construção nas economias estaduais.
Entretanto, ao contrário das suposições a priori, o estado de confiança dos agentes econômicos (medido pela perspectiva de crescimento da economia estadual) mostrou relação estatística negativa com o desempenho do produto setorial, indicando que, quando a economia local cresce em 1%, o PIB setorial decresce proporcionalmente a uma taxa de 0,19%. O estado de confiança dos agentes econômicos é uma variável importante no sistema analítico de Keynes, e a pesquisa amostral não correspondeu às expectativas iniciais. No entanto, cabe ressaltar que os resultados insatisfatórios para esta variável podem estar relacionados com a má qualidade da variável proxy usada para medir as expectativas empresariais. O estado de confiança dos agentes econômicos é uma variável de natureza subjetiva e de difícil medição empírica, de modo que os dados disponíveis podem não ter sido adequados para captar suas peculiaridades. Todavia, sua não-inclusão no modelo formal proposto poderia incorrer em erros de especificação, o que justifica o uso da proxy para garantir sua presença na regressão. Ademais, o construto apresentado não é totalmente incoerente no contexto de modelos teóricos que negam o axioma neoclássico da racionalidade absoluta dos agentes econômicos. Uma justificativa para o resultado é o método de pesquisa puramente quantitativa em uma ciência que envolve o comportamento humano, por definição um ser social, que sofre interferência de múltiplos fatores em suas ações, a exemplo da cultura, crença, estado psíquico, dentre outros.
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A análise de regressão com dados em painel com efeitos fixos também mostrou que há diferenças individuais significativas entre os estados pesquisados, observadas pelos valores estimados dos interceptos. Do ordenamento decrescente destas estimativas, pode-se inferir que os estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul apresentaram as maiores participações na amostra, com interceptos acima da média amostral (5,4055). Estes são justamente os estados que mais concentram a distribuição dos créditos imobiliários e detêm as maiores participações no orçamento público de investimentos. Em seguida, posicionam-se Pernambuco, Bahia e Ceará, com interceptos estimados abaixo da média, mas ainda com valores mais significativos. Os demais estados apresentam valores dos interceptos que variam de 5 a 9% abaixo do valor médio na amostra. Estes resultados ratificam um cenário de concentração da indústria de construção nas unidades estaduais das regiões Sudeste e Sul, seguida da região Nordeste, conforme apontado no capítulo 3.