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A fúria narcísica pode ocorrer, eventualmente, em qualquer relacionamento amoroso, mas acontece com mais intensidade nas dinâmicas simbióticas. Nem por isso, a dinâmica que a faz eclodir é facilmente transformada. Lembro-me de um homem, de cerca de 40 anos, que havia terminado um casamento que ele considerava insatisfatório, em boa parte pela sua onipotência narcísica. Ele se comportava como um solteiro, ávido por gratificações narcísicas, as quais ele buscava, compulsivamente, em paixões nas quais se narcotizava em vínculos idealizados, em que ele montava um cenário que abrangia distância do cotidiano e a prazerosa sensação de ser idealizado por alguém. Na verdade, esse homem extraía das suas conquistas românticas um forte sentimento de poder para o seu ego, e delas se sentia narcisicamente dependente. Seu humor flutuava de acordo com quanto se sentia gratificado ou frustrado. Na linguagem da Psicologia Analítica, pode-se dizer que ele projetou o arquétipo da anima nas suas conquistas. Naquela época, sua anima estava muito longe de ser integrada e ele só sentia prazer em uma esfera de romance idealizado. No fundo, ele ainda era o filho idealizado de sua mãe, um Dom Juan. Sua mãe o idealizara e fizera dele o centro de sua existência. Seu pai, por sua vez, não havia sido talentoso o suficiente para resgatá-lo da

caverna-mãe. Ficou ele, assim, fixado ao complexo materno negativo. A intensidade de suas paixões é que mostrava a potência de seu complexo materno. Todo o resto tornava-se um fundo para a grande figura: sua paixão.

Acompanhei-o até o rompimento de sua grande ferida narcísica, após ter-se apaixonado por uma mulher bem mais jovem, de aproximadamente 25 anos. Ele fundiu-se a essa mulher, transformando-a num self-objeto, centro de sua mandala interna. Sua criança interna onipotente e sádica ficou profundamente dependente da receptividade de sua amante, que se tornou sua mãe-amante. Ele tinha acessos de fúria narcísica por pequenas frustrações típicas de quem tem um envolvimento amoroso fusional. Qualquer projeto dela que não o incluísse deixava-o ameaçado, e qualquer atraso dela era entendido por ele como uma falta grave que merecia um castigo severo e, quem sabe, o rompimento da relação. É importante sublinhar que ele não desejava se comportar de tal maneira. Esse modo de agir era autônomo. Agia independente de seu ego e de sua crítica. Ele se sentia imensamente culpado por isso e buscava compensar sua atitude com desculpas, presentes e elaborações a dois. Pouco tempo passava até que o próximo episódio eclodisse, isto é, que uma nova hemorragia em sua ferida narcísica começasse. Ele estava de tal modo fundido ao seu self-objeto materno, de tal maneira regredido, que a mulher, mesmo com menos recursos psíquicos que ele, começou a ditar as regras da relação, assim como o leão que arranca o chicote de seu domador. Ele se sentia impotente, como alguém que tentasse escapar da areia movediça e só conseguisse afundar ainda mais. A relação culminou quando ele, já com o ego bem debilitado, soube que sua amada o traíra concretamente (realizando as profecias fantasiosas dele). Ele também já a havia traído, mas isso não era levado em conta por ele, que estava embriagado pela onipotência narcísica.

Nesse caso, a ruptura da relação foi necessária para a transformação do narcisismo do meu analisando. Ao final da relação, ele sonhou que alguém caía do alto de um prédio e ele escutava o barulho do corpo se estatelando. Depois dos anos de tortura em que brigava com sua própria ferida narcísica, descontrolando-se em episódios de fúria narcísica, ele chegou à sessão dizendo que sentia que estava morrendo para uma maneira de ser e estar no mundo, para renascer de outro modo. O sonho dizia que ela havia caído de sua onipotência, mas tal era sua identificação com aquele modelo de vida, que, mesmo abatido, retornou ao seu mundo de conquistas. O princípio de realidade, contudo, havia marcado meu paciente para

sempre. Decididamente, ele não era o centro do mundo. O bebê não era o centro de sua mãe. Gradativamente, ele foi se desapegando do ideal arcaico do self grandioso para tornar-se um pai mais presente, tanto para si próprio quanto para seus filhos. Sua anima, já mais consciente, espalhou-se pelos quatro cantos de seu ser e não mais se alojou num objeto idealizado que carregaria, em si, a promessa de idealizá- lo também. Tornou-se mais humano e, nos últimos anos em que frequentava meu consultório, não relatou mais nenhum episódio de fúria narcísica ou estados de fusão com um objeto idealizado. Sua anima, livre do cárcere da projeção em outra pessoa, tornou-se sua aliada. Passou a ser a sua verdadeira esposa. Realizou, assim, meu analisando, o coniunctio102 tão falado pelos alquimistas.

Vale ressaltar que, geralmente, dinâmicas narcísicas dessa natureza necessitam que as duas partes tenham psicodinâmicas complementares. No caso do meu paciente, sua namorada possuía baixa autoestima e um espaço interno ainda não preenchido por ela mesma, o que a levava a se sujeitar ao pequeno tirano que se fez notar naquele homem de 40 anos. Ele a estava destruindo pelo seu princípio de poder mascarado de Eros; ela, para sobreviver e suplantar essa relação, isto é, para expulsar o tirano de sua centralidade, precisou se simbiotizar com outra pessoa antes de terminar a relação com meu paciente. O fato foi que essa história simbolizou, para ele, a cruz onde ele sacrificou sua onipotência e seu self grandioso. Passou a delimitar o seu desejo e trocou a sensação inebriante da paixão pela serenidade de estar conectado ao princípio de realidade e aos limites do seu ser.

Casos como esse, nada raros em nossa sociedade que fomenta o eu grandioso, evidenciam que o narcisismo é o objeto a ser analisado em seus aspectos positivos e arcaicos no contexto de uma análise profunda. Não podemos ter a ilusão de que se trata de um trabalho simples. São necessários muitos anos de análise, com um analista bem preparado, para que se recolha gradativamente o ideal grandioso de si mesmo ou a projeção do ideal grandioso no outro.

102 Casamento interno, ou coniunctio, é o casamento entre as polaridades feminina e masculina, o casamento

místico da alquimia, tão bem estudado por Jung. Ele constata: “A ideia da coniunctio do masculino e feminino, que se tomou um conceito técnico na filosofia hermética, já aparece no gnosticismo como um mysterium iniquitatis provavelmente com a influência do ‘casamento divino’ do Antigo Testamento, tal como foi realizado, por exemplo, por Oseias. Tais coisas não são apenas indicadas por certos costumes tradicionais, mas também são citações do Evangelho”. (JUNG, 2002b, p. 176).