• Sonuç bulunamadı

O narcisista busca provocar, no outro, toda a admiração que puder, como já salientei. Ele está mais preocupado em aparentar e atuar sua imagem de grandeza do que propriamente observar e sentir o próximo. Geralmente, ele mais fala do que escuta. Seu discurso conta seus feitos, suas vitórias, suas viagens. Ele busca, em uma roda social, deixar claro seu poderio, da mesma maneira com que aponta os defeitos dos outros, sem a menor cerimônia.

Além disso, o narcisista possui uma tensão psíquica acentuada. A economia de sua libido é exaurida em nome de manter uma imagem de poder e perfeição, que, ao mesmo tempo, blinda qualquer capacidade de sentir. Lowen estudou o tema em profundidade e afirmou que a ação narcisista busca louvar sua imagem:

Os narcisistas mostram, de fato, uma falta de interesse pelos outros, mas também são igualmente insensíveis às suas próprias e verdadeiras necessidades. Com frequência, seu comportamento é autodestrutivo. [...] Os narcisistas amam sua imagem, não o seu verdadeiro self. [...] Suas atividades estão dirigidas no sentido do encarecimento de sua imagem, muitas vezes à custa do self. (LOWEN, 1993, p. 33).

Para Lowen, o narcisista defende-se do outro, de quem tanto necessita, bloqueando seus sentimentos, especialmente a tristeza e o medo. Ao bloquear o sentimento (e negar seu self), o caráter narcisista molda sua máscara de coragem e força:

De todos os sentimentos, duas emoções em especial estão sujeitas a severa inibição: a tristeza e o medo. Expressar tristeza leva à percepção consciente de uma perda e suscita o anseio e a nostalgia. O anseio por alguém ou a necessidade de alguém deixa a pessoa vulnerável à possível rejeição e humilhação. Não querer ou não sentir desejo é uma defesa contra possível dano ou mágoa. [...] Se a pessoa não sente medo, então não se sente vulnerável. A negação da tristeza e do medo habilita a pessoa a projetar uma imagem de independência, coragem e força. Essa imagem esconde a vulnerabilidade da pessoa de si mesma e dos outros. (LOWEN, 1993, p. 76).

O autor também salienta que a negação do sentimento pode ter origens em situações de horror104 ou lutas de poder com os pais105. Sentindo que não pode expressar seus sentimentos (que não deve chorar, por exemplo, ao sentir medo ou fome), a criança os bloqueia e torna-se um adulto incapaz de demonstrar sentimentos genuínos106. Também pode ser dito que a criança, nas primeiras fases

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O horror, segundo Lowen, vem das brigas entre os pais, que causam, na criança, o medo da morte de um deles. Entretanto, a criança deseja, no período edipiano, que um dos pais morra de fato. Então, sobrevém-lhe a culpa. Por causa dela, a criança busca, então, negar seus sentimentos. Para Lowen, “negar as próprias emoções passa a ser um hábito embutido na personalidade. A ação é empreendida lentamente, na base da razão e da lógica”. (LOWEN, 1993, p. 128).

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Lowen afirma que “a luta pelo poder entre os pais e a criança costuma fazer parte de uma luta maior pelo poder que se trava entre marido e mulher” (LOWEN, 1993, p. 82). Segundo ele, a criança adquire poder sobre os pais fazendo algo que os perturbe, para que eles cedam ao desejo da criança; no entanto, se eles cedem, a criança fará a sua parte, cedendo também na rebeldia. Mas isso significa perda de poder, e o ciclo recomeça, com a ameaça de rebeldia sempre presente. “Uma vez desencadeada a luta pelo poder entre os pais e a criança, ninguém pode ceder e ninguém pode ganhar.” (Id. Ibidem, p. 81). O autor também diz que lesões narcisistas são frequentemente oriundas do controle que os pais narcisistas, que precisam se assegurar que ninguém tenha poder sobre eles, querem exercer sobre seus filhos. A criança, para se proteger da humilhação da submissão, desenvolve a defesa do bloqueio do sentimento. (Id. Ibidem, p. 77).

106 Até mesmo a fúria, para Lowen, pode ser um embuste, pois, dependendo do grau da negação das emoções,

a cólera também será negada. O ataque de fúria narcísica estará presente, mas como uma manobra para assustar o outro e exercer controle sobre ele. (LOWEN, 1993, p. 66).

de sua vida, percebe que os seus sentimentos não mobilizam a ressonância empática de seus pais. Percebe que não adianta chorar ou se lamentar, porque seus pais não são empáticos o suficiente para corresponder às suas demandas. Nesse sentido, pode-se dizer que o falso-self pode começar no berço, quando nem o choro, nem as manifestações de desejo são empatizados. Passa a existir, então, uma transformação da libido que se organizará de outro modo, em uma economia de energia psíquica que permitirá a sobrevivência do indivíduo à custa de uma deformação do self primário.

Estarmos em contato com o nosso próprio self significa perceber e estar em contato com os nossos sentimentos. Para conhecermos os nossos sentimentos, temos que vivenciá-los em toda a sua intensidade e isto só pode ser feito expressando-os. Se a expressão de um sentimento é bloqueada ou inibida, o sentimento é suprimido ou diminuído. (LOWEN, 1993, p. 69).

Na análise, podem emergir sentimentos que foram inibidos no início da vida. Uma senhora, depois de superar outros obstáculos de sua trajetória, confrontou-se com o seu alcoolismo, que ela, defensivamente, desprezava. Quando ela se deparou com sua necessidade de transformar esse alcoolismo em nome de um ego mais sólido, começou a sentir saudades de sua mãe, que já havia falecido. Nessa época, ela começou a faltar às sessões de análise. Eu sentia que ela podia contar comigo, mas também sentia que ela não o fazia, pois nunca aprendera a chamar a sua mãe em um momento de carência. Sua atitude perante o analista era fria, como se houvesse uma camada de gelo que impunha respeito e distância. Dentro dela, uma criança sem mãe e com baixa autoestima conhecia bem a solidão e o desamparo. Certa vez, perguntei a ela o que sentia naquele momento, quando ela tentava parar de beber. Ela me disse: “O que eu estou sentindo? Que pergunta difícil... Não sei lhe responder”. Eu me sentia próximo e, no meu íntimo, sabia que ela estava próxima também, mas havia o gelo que eu era obrigado a respeitar. Suas defesas narcísicas de alienação estavam derretendo. Ela estava mais perto da realidade, da sua vida afetiva e de sua família, o gelo teria de se dissolver por si próprio. Seus sintomas de falso-self eram um olhar de indiferença e a onipotência, que era justamente o oposto do que ela sentia, que era o desejo de ser vista e

reconhecida. Sua imagem de autossuficiência escondia insegurança, falta de mãe e profunda vulnerabilidade narcísica. Ela era uma fóbica social que projetava essa mãe pouco empática em qualquer ambiente que estivesse. Ela sempre temia ser rejeitada e, portanto, saía de casa apenas as atividades inevitáveis. Ao se sentir refletida, começou a desenvolver a polaridade da coragem, que estava reprimida pela polaridade do medo, e foi, aos poucos, resgatando, com maior confiança, uma espontaneidade que, há muito, havia abandonado.