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Ramazan Tiyek | Kırklareli Üniversitesi

Retomando a passagem de Mateus que relata a crucificação, lancemos a ela um olhar psicológico, por meio da leitura de alguns destaques:

Sentaram-se e montaram guarda. Quando a necessidade de sacrifício cruza

o nosso destino, nos sentimos encurralados, como se guardas impedissem qualquer barganha para algum tipo de escapatória. O sacrifício nos vem como uma sentença. Na maior parte das vezes, procuramos subornar as sentinelas da nossa interioridade. Na vida existencial, esses guardas que impedem a passagem podem impedir a retomada de um relacionamento afetivo do qual nosso narcisismo seja profundamente dependente. Temos dificuldades de romper relações, ainda que elas nos façam mal, como uma relação simbiótica, por exemplo, ou nos sentimos sem

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De acordo com a teologia da cruz (theologia crucis), que se desenvolveu na Igreja antiga, Deus rebaixa-se, oculta-se e revela-se na crucificação para o conhecimento do homem. “Deus se aproxima do homem para assumir o combate deste e dar-lhe a vitória.” (PIKAZA, 1998, p. 208).

saída diante de um diagnóstico de saúde de difícil elaboração, que nos aproxime da ideia da morte. Mas algo monta guarda e não nos deixa sair da situação de sacrifício. A entrega é inevitável.

Por cima de sua cabeça penduraram um escrito trazendo o motivo de sua crucificação: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. O ego, na crucificação, é

humilhado, ridicularizado nas suas pretensões de realeza. Sentimo-nos como caricaturas de nós mesmos. Narcisicamente, a vergonha nos toma mediante a fraqueza de suportar a derrota de um ideal, seja ele de que natureza for. A “Sua majestade, o bebê”, que nos mantém reféns em boa parte de nossas vidas, é apontada pelo próprio Self que pede seu lugar no trono da existência. Algumas pessoas simplesmente não conseguem suportar o flagelo moral do ego e psicotizam, adoecem e, por vezes, morrem. É o que acontece, por exemplo, naquelas histórias de pessoas que, quando suas empresas entraram em falência, suicidaram-se. A própria fé ou a esperança em um futuro melhor desaparece.

Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua

direita e outro à sua esquerda. Os dois crucificados simbolizam os opostos e, de

alguma maneira, a bipolaridade do self detalhada por Kohut. Podem simbolizar, ainda, as polaridades, a coincidentia oppositorum: “o amor mais elevado e o bem supremo e a tenebrosa crueldade inumana” (FRANZ, 1997, p. 137), já que são conhecidos como “bom” e “mau” ladrões112. Esses ladrões simbolizam, também,

toda a angústia de Jesus diante do fracasso de sua jornada messiânica, a julgar pelo ponto de vista do seu ego.

Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: “Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, que desça agora da cruz e nós creremos nele! Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama; porque ele disse: ‘Eu sou o

Filho de Deus!’” E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam. Os

comentários que ridicularizavam Jesus também o tentavam: “salva-te a ti mesmo!”,

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Os ladrões, em suas faces de luz e sombra, ficam mais bem caracterizados no Evangelho de Lucas: “Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: ‘Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!’ Mas o outro o repreendeu: ‘Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum’. E acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!’ Jesus respondeu-lhe: ‘Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso’.” (Lucas 23, 39-43).

isto é, “salva teu ego!”. “Onde está o teu ego grandioso?”, é o que se indaga, com escárnio. A lógica de Deus não é entendida, nem de longe, pela turba. Ela também não entende o significado do sacrifício de Jesus. A frase “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo!” recorda que Jesus livrou muitas pessoas, mas não salvou a si. Para seus discípulos, era claro que Jesus não era egoísta. Ele era o “pão vivo”113, isto é, o alimento espiritual necessário à ampliação da Consciência.

A voz do coletivo está sempre presente no ser humano. Jung, ao analisar os

Atos de João114, um livro apócrifo, fala da multidão amorfa, em oposição à cruz, que tem forma definida e simboliza a ordem. Ele recorda uma visão que João teve do Senhor, o que reforça a ideia de que Deus se expressa na psique por imagens e símbolos, orientando o ego para um maior desenvolvimento da Consciência:

Ele diz a João: “João, para o povo de Jerusalém, lá embaixo, eu estou sendo crucificado e ferido com lanças e varas, enquanto me dão de beber vinagre e fel. Mas eu te digo, e ouve o que te digo: Eu te mando subir neste monte para escutar o que o discípulo deve aprender do Mestre, e o homem, de Deus”. E me dizendo isto, mostrou-me uma cruz feita de luz e, em torno da cruz, uma multidão sem nenhuma forma definida. [...] “Não sou aquele que muitos pensavam que eu fosse; e o que dizem a meu respeito é rasteiro e indigno de mim”. [...] A multidão que não tem uma forma única e se encontra reunida em torno da cruz é a natureza inferior. (JUNG, 1979, p. 81).

Esse texto citado por Jung é de extremo valor simbólico e tem a lógica que encontramos nos sonhos em que fica evidenciado um conteúdo espiritual significativo. O entendimento da crucificação de Jesus para o seu apóstolo amado, João, foi revelado pelo próprio Deus interno, por intermédio da imaginação. O analista aprende, no decorrer de sua prática, que a opinião coletiva e o superego nunca sucumbem totalmente no processo de desenvolvimento da Consciência. A transformação narcísica, que também pode ser entendida como a transformação espiritual, implica diferenciar-se cada vez mais da voz da multidão amorfa, que é mais uma das vozes que habitam a psique. A placa “Este é Jesus, o rei dos judeus”, bem como elementos que aparecem anteriormente na paixão de Cristo, como o

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“Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo”. (João 6,51).

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Os Atos de João foram escritos, provavelmente, no século II d.C., supostamente pelo discípulo de João (o apóstolo), Leucius Charinus. Seu texto é considerado gnóstico.

manto vermelho e a coroa de espinhos, que remetem a uma realeza ordinária, e a própria tortura a que Ele foi submetido, expressam chagas narcísicas do ego mortalmente ferido, padecendo uma complexidade de dores que abrangem o sentimento de derrota, o sofrimento físico e moral, a indiferença, o escárnio e o sentimento de impotência por estar na mão de bárbaros (a multidão amorfa das energias psíquicas identificadas com o eu coletivo). Tudo isso forja uma argamassa indiferenciada para a qual a morte parece ser a única saída. As feridas abertas já não podem ser suturadas, tamanha a sua profundidade.

Nesse quadro de profundo sofrimento e complexidade, o homem se transforma. Deus se transforma. O narcisismo se transforma. O relato da paixão nos serve tanto para abrir uma porta para o mistério de Jesus quanto para retratar a profunda dor narcísica que o ego sente quando é suplantado pelo Self.

O analista, em seu consultório, confronta-se com dramas similares. A ruptura do ego com o ideal narcísico de se manter no centro do Self e no controle da vida pode levar o sujeito ao desvario. A cruz, cedo ou tarde, chega para todos nós, mas é evitada ao máximo, no sentido de imprimir à realidade, por mais tempo possível, a sensação de poder e controle.

Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: “Eli, Eli, lammá sabactáni?” – o que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me

abandonaste?”O sentimento de ser abandonado por Deus não veio apenas nesse

momento. Aconteceu também no Getsêmani, quando Jesus orava e os discípulos dormiam, e em várias outras situações arquetípicas em que Ele foi tentado pelo ego e pelo medo. Nem sempre sentimos a presença de Deus, principalmente, quando estamos morrendo narcisicamente para algo que nos é muito caro. Perdemos o nosso centro, em particular se ele estiver projetado em outra pessoa, o que é muito frequente. A solidão de Jesus, na cruz, era infinita. Talvez do tamanho de Deus. A jornada de Jesus foi, em última instância, a retomada da aliança entre Deus e o homem. Ambos só podem se encontrar pelo amor, pelos símbolos e por um só Espírito.

A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: “Ele chama por Elias”. Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse. Os outros diziam: “Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo”. Jesus de novo lançou um grande

acontecendo com Jesus, nem com Deus, nem com o mundo. As pessoas que assistem à crucificação simbolizam o inconsciente fazendo oposição à Consciência que quer se aproximar do Arquétipo Central. Essa jornada é extremamente difícil, porque o inconsciente ludibria, até o último instante, o ego que quer se dissolver em um nível de Consciência mais elevado. Nesse nível, o feminino acolhe o ego rendido e entregue aos seus cuidados. Jesus foi até o fim. Até o fim de si mesmo. Suplantou o seu ego e recobrou a sua fé ao entregar sua alma a Deus, como fica evidente nas palavras do evangelista Lucas, que assim descreve o momento derradeiro: “Jesus deu, então, um grande brado e disse: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. E, dizendo isso, expirou”. (Lucas 23, 46).

Sanford, ao comentar o uso da palavra “espírito” no lugar de “alma”, explica que o primeiro – pneuma – tem uma acepção mais genérica, “um princípio de vida que circula entre e dentro de muitas pessoas” (SANFORD, 1993, p. 318), enquanto a alma é individual. Ele resume:

Assim, somos almas, e não espíritos, apesar de podermos ser almas avivadas pelo espírito. O fato de Cristo, na sua morte, ter liberado seu espírito sugere que, agora, o espírito de Cristo tornou-se universal. Com sua morte, ele circula pelo mundo e pode avivar a alma de qualquer um de nós. (SANFORD, 1993, p. 318, tradução livre).

O Espírito de Jesus, ao se libertar de seu corpo na cruz e se casar com a nossa alma individual, fecunda-a, e o filho desse casamento místico é a nova Consciência. Como o filho tende a possuir características do pai, adquirimos aspectos da Consciência de Jesus, que envolve o outro e a presença de Deus no outro. Nesse sentido, a religião possui símbolos que impulsionam a alma à transcendência do narcisismo fixado. Dessa maneira, a religião acolhe o indivíduo alquebrado narcisicamente, orientando-o para uma nova atitude que, desta vez, é desenhada pelo Self e não mais pelo ego iludido ao se identificar com as forças do

Self.

A parábola do Bom Samaritano exprime com profundidade a maneira pela qual o ego, diferenciado do Self, não mais submetido pelos conceitos e preconceitos do consciente coletivo, deve se comportar em relação ao outro que, como diz Schopenhauer, é nosso companheiro de sofrimento. Uma Consciência mais

diferenciada observa o outro como um aspecto da Divindade e o trata como tal. A Consciência que transcendeu a cruz acolhe o mundo com paixão. A seguir, transcreverei a parábola do Bom Samaritano, para comentá-la posteriormente.