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No contexto de um país como o Brasil, caracterizado por uma grande e heterogênea dimensão territorial, elevados níveis de desigualdades econômicas e sociais entre regiões e unidades da federação, bem como por uma configuração espacial dos serviços financeiros fortemente concentrados, análises da relação entre sistema financeiro e crescimento econômico vem despertando significativo interesse, especialmente nas últimas décadas.

Matos (2002:46), utilizando dados para os estados brasileiros, dentro de um corte temporal abrangendo os períodos 1947-2000; 1963-2000 e 1970-2000 e fundamentado no

teste de causalidade de Granger, demonstra existir uma “relação causal positiva unidirecional

e significativa entre desenvolvimento financeiro e crescimento econômico”. Entretanto, conforme destacado neste estudo, o processo é unidirecional, denotando uma relação que emana do sistema financeiro nacional em direção ao setor real da economia, afetando suas taxas de crescimento. Adotando metodologia similar, e tomando como variável relevante o valor adicionado da agricultura, Neves e Bittencourt (2006) confirmam para a economia brasileira, no período 1975-2001, uma relação de causalidade no sentido do desenvolvimento financeiro - medido pela relação M2/PIB - para o crescimento do setor agropecuário e, por extensão, para o crescimento econômico. Nesse mesmo sentido, baseado num modelo de Vetor Auto Regressivo, Reichstul & Lima (2006) investigam a causalidade entre distintas modalidades de crédito bancário e o nível de atividade econômica da região metropolitana de São Paulo entre 1992 e 2003, encontrando evidências de causalidade bidirecional. Como centro econômico dinâmico, a região metropolitana de São Paulo exerce influências sobre a relação entre a atividade econômica e as modalidades de crédito, da mesma forma que o volume dos serviços relativos ao crédito, também, exerce efeitos sobre o crescimento econômico.

Marques Jr. & Porto Jr. (2004) encontram evidências parcialmente conclusivas sobre o papel desempenhado pelo sistema financeiro no crescimento econômico brasileiro, no período 1950 a 2000, utilizando testes de causalidade diversos21. Os resultados obtidos apontaram para a existência de uma relação de causalidade no sentido intensidade do sistema financeiro/crescimento econômico quando foram utilizados indicadores de desenvolvimento do sistema bancário (passivo exigível em relação ao PIB e operações de crédito ao sistema

21 O estudo utiliza o teste de causalidade de Granjer para as séries estacionarias e o teste de cointegração de Johansen, bem como um teste de causalidade baseado no modelo de Demetriades e Hussein (1996), para as séries não estacionárias.

privado/PIB). Para a variável Proxy do desenvolvimento do mercado de capitais (valor das transações da bolsa em relação ao PIB), os resultados foram inconsistentes, já que nem todas as estimações apresentaram níveis de significância aceitáveis.

Paula e al. (2006) procuram explicar as divergências nas taxas de crescimento regional brasileiras, através do comportamento do mercado financeiro, utilizando para tanto um modelo de crescimento kaldoriano, inspirado no processo de causação circular, originariamente proposto por Myrdal (1957). Os resultados obtidos indicam que o grau de preferência pela liquidez é um importante determinante das diferentes taxas de crescimento regional, podendo conduzir a um padrão de desenvolvimento do tipo centro-periferia22, o que é evidenciado pela persistência nas diferenças das taxas de crescimento entre as regiões consideradas como centro (Sul/Sudeste) daquelas que representam a periferia (Norte/Nordeste).

Ainda nessa linha, Barra & Crocco (2002) avaliam a relação entre moeda e espaço econômico no Brasil, num contexto de diferentes níveis de incerteza macroeconômica, no período compreendido entre 1998 e 2000 e numa perspectiva de regionalização do país alternativa23. De um modo geral, as conclusões dos autores sugerem que, nos períodos de menor incerteza, as regiões centrais tornam-se mais dinâmicas, determinando preferências pela liquidez mais baixas e melhor capacidade de redepósitos, conforme prenunciado pela teoria. Cavalcante et al. (2005) confirmam estas previsões numa análise da relação entre preferência pela liquidez e disponibilidade de crédito regional. A evidência empírica reportada pelos autores retrata que regiões com menores volumes de crédito demonstraram maior preferência pela liquidez, quando comparadas com aquelas mais desenvolvidas.

Essas evidências são, em certa medida, corroboradas por Romero & Jayme Jr. (2009) quando analisam a atuação e capacidade dos Bancos públicos e privados para motivar o crédito e afetar o desenvolvimento regional. Na perspectiva desses autores, em vista dos resultados obtidos com os testes econométricos realizados, a preferência pela liquidez dos Bancos públicos federais tem um efeito sobre o crédito dos demais Bancos, o que denota sua importância na condução do processo de desenvolvimento regional do país.

22 O padrão centro-periferia foi incorporado à análise com a divisão da economia nacional em dois blocos, um que engloba as regiões sul e sudeste e outro, as regiões Norte e Nordeste (Pires, 2005, p:11).

Aliando a teoria do racionamento de crédito, conforme concebida por Stiglitz & Weiss (1981) com a teoria do crescimento econômico, Pires (2005) avalia a contribuição do mercado financeiro, especialmente do crédito24, para o crescimento dos municípios e regiões brasileiras, no período 1991-2000. Em geral, os resultados denotam que o crédito é uma variável importante na explicação das taxas de crescimento econômico brasileiras. Entretanto, numa perspectiva regional, a avaliação empírica revela que com exceção da região sudeste - cujas variáveis financeiras foram expressivas em termos de contribuição para o processo de crescimento econômico – as demais regiões não apresentaram resultados significativos.

Missio et al. (2010), utilizando dados dos estados brasileiros, no período 1995- 2004, testam o argumento pós-keynesiano de que uma maior preferência pela liquidez (do público e dos Bancos) reduz a oferta do crédito, afetando, em sequência, negativamente o crescimento da economia. Os resultados dos procedimentos econométricos realizados são consistentes com a perspectiva teórica e demonstram, em síntese, que o desenvolvimento financeiro exerceu um impacto positivo sobre o crescimento econômico no Brasil, no período sob consideração.