5. DENEYSEL ÇALI ¸SMA SONUÇLARI
5.1 AC Duygunluk ve VSM Ölçümü Sonuçları
5.1.7 SQUID sonuçları
Já se explicou no primeiro capítulo433 que visão de mundo é o quadro que determinado povo elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito de si mesmo, de natureza, da sociedade. Esse quadro contém suas idéias mais abrangentes sobre a ordem. Tal visão de mundo, ou cosmovisão, incidirá diretamente nos comportamentos dos seres humanos nos diferentes contextos sociais em meio aos quais interajam. O triunfo da Revolução Cubana trouxe à luz uma maneira de ver o mundo, o ser humano e a sociedade diferente das cosmovisões que até 1959 regulavam a vida do povo.
O Estado cubano interpreta o ser humano, o mundo e a sociedade a partir de um referencial filosófico denominado conceição científica do mundo. Nesta visão, a prática
431
As influências das ideias de Marx e Engels serão abordadas no próximo item, que versa sobre a cosmovisão da Revolução cubana.
432
Para maior informação sobre a vida e o pensamento de Fidel Castro, cf. CASTRO, Fidel. El
pensamiento de Fidel Castro. Vol. 1. 2 ed. La Habana: Editora Política – Habana, 1983.
RAMONET, Ignácio. Fidel Castro: biografia a duas vozes. Boitempo Editorial, 2006. 433
é o critério da verdade. Porém, cada juízo que nesse sentido se emita tem de ser verificado pela prática histórica concreta dos seres humanos e pelos dados e experimentos científico-técnicos. A constituição da República de Cuba afirma que a política educacional e cultural do país se fundamenta nos avanços da ciência e da técnica e na estreita relação entre estudo, vida, trabalho e produção434. Esta lógica coincide com a expressada por Engels no Anti-düring:
os princípios já não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados finais; não se aplicam à natureza e à história humana, mas deles são extraídos; não é a natureza e o mundo dos homens que se regem pelos princípios, mas só estes é que têm razão de ser quando coincidem com a natureza e com a história. Nisto consiste a verdadeira concepção materialista das coisas435.
Assim sendo, o surgimento do ser humano e do mundo explica-se à luz de teorias cientificamente “corretas”. Como por exemplo, a teoria da evolução das espécies de Darwin. Em Cuba, esse tipo de ensino é uma tarefa que compete ao Estado e ao Partido Comunista. Para tanto, o marxismo-leninismo constitui uma ferramenta importante. Isto aparece de forma clara no Informe Central ao II Congresso do Partido comunista cubano:
O estudo do marxismo-leninismo pelos trabalhadores da imprensa, da arte, da educação e da ciência é ainda insuficiente. É necessária uma maior atenção a esta importante tarefa pelas instituições estatais e sociais e pelos sindicatos correspondentes436.
[…]. Os resultados das investigações no campo da teoria marxista-leninista no presente quinquênio foram insuficientes. É necessário melhorar esta atividade, aumentar o número de investigações, assegurar-se de que os problemas selecionados estejam estreitamente vinculados às necessidades da construção socialista em nosso país, fortalecer as instituições científicas dedicadas a esta atividade e divulgar e aplicar os resultados obtidos437.
Na visão do Estado cubano, somente por meio do socialismo e do comunismo se obtém a plena dignidade humana e foi, precisamente, a Revolução que conseguiu tal objetivo438. Neste sentido, o ser humano não deve estar submetido à exploração de outro ser humano439. Não pode ser discriminado por motivo de raça, cor da pele, sexo ou
434
Constituição da República de Cuba, capítulo V, artigo 39. 435
ENGELS, Friedrich. Anti-düring. 3ª. ed. Editora Paz e Terra, 1990, p. 19. 436
CASTRO, Fidel. Retrato de Cuba: II Congresso do Partido Comunista cubano: Informe Central, p. 104.
437
Idem. Ibid., p. 105. 438
Preâmbulo à Constituição da República de Cuba. 439
origem nacional440. Tanto homens quanto mulheres têm os mesmos direitos econômicos, políticos, culturais, sociais e familiares441. A família, a maternidade e o matrimônio devem estar protegidos pelo Estado442. Cada pessoa é livre para professar o tipo de religião que desejar e qualquer tipo de crença religiosa merece idêntico respeito443.
Embora exista essa liberdade constitucional para que as pessoas professem a fé que desejarem, o Estado se esforça para oferecer uma visão de mundo que supere aquelas consideradas como não científicas. Isto se deduz do expressado no informe antes mencionado:
Como resultado das resoluções do I Congresso do Partido, o ensino do marxismo-leninismo desenvolveu-se de maneira favorável no Sistema Nacional de Educação. […]. Para erradicar as deficiências que ainda existem e aperfeiçoar cada vez mais esta atividade, é necessário prestar maior atenção à formação de professores, para garantir que no próximo quinquênio o ensino do marxismo- leninismo se generalize a 100% de nossos estudantes444.
[…]. Ao mesmo tempo em que continuamos a preparação teórica dos quadros, militantes e do povo inteiro e que mantemos a defesa intransigente do marxismo-leninismo e a luta contra seus tergiversadores, devemos ocupar-nos de maneira especial da educação econômica dos trabalhadores, dentro dos princípios e das leis do socialismo; da formação moral das crianças e dos jovens e do fortalecimento da consciência comunista e internacionalista de todos nossos compatriotas445.
Continuaremos avançando no esforço para a educação de todo o povo, na conceição científica da natureza e da sociedade, para melhor desenraizar velhos preconceitos e fomentar, paralelamente, os novos costumes e hábitos que tendem a fortalecer as relações fraternais e solidárias de nossa sociedade socialista446. O anteriormente referido está em consonância com a teoria de Marx, que alude à necessidade de uma nova sociedade, na qual todos os seres humanos tivessem a possibilidade de desenvolver seu potencial de forma plena, fazendo dele um ser integral. A condição de sociedade ideal e de ser humano integral se alcançaria inteiramente só com a instauração do comunismo, mas, para tanto, primeiro haveria que criar uma sociedade socialista que servisse de transição para o comunismo.
440 Constituição da República de Cuba, capítulo VI, artigo 42. 441
Idem. Ibid., capítulo VI, artigo 44. 442
Idem. Ibid., capítulo IV, artigo 35. 443
Idem. Ibid., capítulo I, artigo 8. 444
CASTRO, Fidel. Retrato de Cuba: II Congresso do Partido Comunista cubano: Informe Central, p. 105.
445
Idem. Ibid., pp. 111-112. 446
Na perspectiva marxista, “toda a história da sociedade humana, até hoje, é uma história de luta de classes”447. Num dos extremos dessa pugna está a burguesia, que explora o obreiro; noutro está o proletariado, que é a única classe verdadeiramente revolucionária capaz de enfrentar a burguesia448. Este regime precisa ser derrocado por meio de uma revolução comunista. O primeiro passo para essa ação obreira é a exaltação do proletariado ao poder, ou seja, a conquista da democracia. Isto possibilitará tirar da burguesia o capital e os instrumentos de produção, colocando-os nas mãos do Estado (do proletariado organizado), para incrementar a produção e obter uma maior satisfação das crescentes necessidades da sociedade.
O estabelecimento do comunismo requer vários passos:
• Derrocamento da burguesia como dona do poder político e econômico; • Desaparição da propriedade privada dos meios de produção;
• Supressão do sistema fictício das “liberdades burguesas”;
• Anulação do papel educativo da família, como ente que se sobrepõe aos interesses da comunidade;
• Abolição do papel do Estado, como máxima superestrutura de todas as ideologias conformadas pelos interesses burgueses;
• Supressão da religião como ideologia da classe dominante e como promessa de um paraíso de ficção;
• Anulação da moral da burguesia, na que se encontram cristalizados os interesses desta classe.
Algumas medidas devem ser tomadas nesse processo. Elas não se aplicam da mesma maneira em cada país, mas, entre as mais comuns estão as seguintes: expropriação da propriedade fundiária e emprego da renda da terra nas despesas do Estado; imposto fortemente progressivo; abolição do direito de herança; confisco da propriedade de todos os emigrados e rebeldes; centralização do crédito nas mãos no Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado e monopólio; centralização dos meios de transporte nas mãos do Estado; multiplicação das fábricas nacionais e dos instrumentos, cultivo e melhoramento das terras segundo um plano comum; trabalho obrigatório e igual para todos e criação de exércitos industriais,
447
MARX, Karl & ENGEL, Friederich. Manifesto Comunista. TRAD. Pietro Nassetti. São Paulo: Editora Boitempo, 2002, p. 40.
448
principalmente para a agricultura; unificação dos serviços agrícolas e industrial, medidas tendentes a eliminar gradualmente as diferenças entre cidade e campo; educação pública e gratuita para todas as crianças. Proibição do trabalho infantil nas fábricas. Combinação da educação com a produção material449.
À luz do pensamento de Fidel Castro, tomando como referência a obra A
História me absolverá, seis pontos eram indispensáveis para a conquista das liberdades
públicas e para o bom desenvolvimento da sociedade cubana: “O problema da terra, o problema da industrialização, o problema habitacional, o problema do desemprego, o problema da educação e o problema da saúde do povo”450.
A sociedade cubana passou por alguns desses passos: organização de uma revolução obreira, derrocamento da burguesia, exaltação do proletariado ao poder, desaparição da propriedade privada dos meios de produção e criação de leis e medidas que ajudassem na instauração do socialismo, ante-sala do comunismo. A lei econômica fundamental do socialismo é a satisfação das crescentes necessidades materiais e culturais do povo, por meio do desenvolvimento e aperfeiçoamento da produção social. A partir desta lei articulam-se outras quatro: a lei do desenvolvimento planejado e proporcional da economia; a lei do incremento constante da produtividade e do trabalho; a lei de acumulação socialista; a lei de distribuição segundo o trabalho.
Na perspectiva socialista, um desenvolvimento planejado e proporcional da
economia permitirá ao socialismo evitar a crise, o desemprego, o déficit de
aproveitamento das forças produtivas, o que fará com que o trabalho social seja “constantemente” economizado. Já, a lei do incremento constante da produtividade e do
trabalho, que teoricamente no socialismo deve alcançar um ritmo superior ao do
capitalismo, constitui um dos objetivos fundamentais do sistema socialista. Pois por meio do crescimento da produtividade do trabalho se criará uma base material e técnica que possibilitará a instauração do comunismo. No que se refere à lei de acumulação
socialista, é importante destacar que ela expressa a necessidade objetiva de acumular
sistematicamente certa parte do produto social, para usá-la na ampliação continuada da produção e no incremento das riquezas sociais. Tudo isto, para contribuir ao bem-estar do povo.
449
MARX, Karl & ENGEL, Friederich. Manifesto Comunista, pp. 58-59. 450
Na fase inferior do comunismo impera o principio de distribuição segundo o
trabalho. Essa quarta lei aparece claramente explicitada na Constituição da República de
Cuba. O documento refere que no país rege “o principio de distribuição socialista ‘de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo seu trabalho’”451: para igual quantidade de trabalho, igual quantidade de produtos. Acrescenta-se ainda que “a lei estabelece as regras que garantem o cumprimento efetivo deste princípio”452.
A observância desse preceito não produz de forma instantânea a justiça e a igualdade, pois na fase inferior do comunismo, no socialismo, se prevê a existência de pessoas desiguais e a distribuição de igual quantidade de produtos por uma quantidade desigual de trabalho. Isto cria conflitos. Daí a importância da existência de um Estado que proteja a propriedade dos meios de produção, garanta o trabalho ao povo e mantenha o equilíbrio na repartição dos produtos453. Este papel estatal também se especifica na Constituição: “O Estado organiza, dirige e controla a atividade econômica nacional segundo um plano que garanta o desenvolvimento programado do país, para fortalecer o sistema socialista”454.
Essa função do Estado mudará na fase superior, no comunismo, pois estarão superados todos os vestígios do capitalismo e ficarão resolvidos todos os problemas inerentes à fase socialista: A propriedade privada dos meios de produção, o sistema fictício das “liberdades burguesas”, o papel educativo da família, a religião como ideologia da classe dominante e a moral da burguesia. O desenvolvimento das forças produtivas, da economia e da consciência do povo será tal, que desaparecerá a oposição entre trabalho espiritual e manual.
Nessa lógica, o trabalho deixará de ser um meio para viver e se tornará uma necessidade vital para os indivíduos: os seres humanos se habituarão a observar as regras de convivência e seu trabalho será tão altamente produtivo que, em consequência, trabalharão voluntariamente, conforme suas capacidades. Deste critério se deduz que no comunismo regerá o princípio de “cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades": cada pessoa tomará livremente da sociedade aquilo de que
451
Constituição da República de Cuba, capítulo I, artigo 14. 452
Idem. 453
Cf. LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução. Expressão Popular, 2007. 454
necessitar. Assim sendo, deixará de existir o direito e desaparecerá o Estado como órgão que garante a observância das regras.
O modelo de ser humano e de sociedade almejado pelo socialismo é, de certa forma, muito parecido com o do cristianismo. Este procura uma transformação total do indivíduo para que num futuro ele saiba viver em harmonia num tipo de comunidade chamada céu. Aquele advoga por uma sociedade na qual todas as pessoas tenham a possibilidade de desenvolver seu potencial de forma plena e consigam viver em paz, numa formação econômico-social chamada comunismo. A diferença seria que, para a conceição cristã mais tradicional, o céu pertence a uma dimensão do além, ao passo que, para a ideologia comunista, a construção da sociedade ideal, o comunismo, acontecerá no aquém. Seja no além ou no aquém, seja céu ou comunismo, há uma característica comum a ambas as propostas: a realização dessa condição ideal de ser humano e sociedade é tão demorada que parece irreal.
Embora exista uma característica comum a tais ideologias, os desafios são diferentes. No cristianismo a pessoa luta por um melhor futuro para si mesma. No socialismo a esperança que impulsiona a vida tem um matiz mais coletivo, menos individual: luta-se coletivamente para construir um melhor futuro para as gerações vindouras. Mas, ambas as lutas deparam-se com um presente tortuoso, carregado de proibições e insatisfações. O cristianismo tenta amenizar essa situação com reinterpretações teológicas, e o socialismo por meio da superação de contradições que emanam de suas próprias leis.
Entre outras dificuldades, o socialismo se depara com as seguintes:
• O fato de que se defenda a propriedade social sobre os meios de produção cria a ilusão de que todas as pessoas são donas de tudo, então cada um pode usá-las como quiser, o que produz indisciplina social. Acontece que às vezes o que é de todos acaba sendo de ninguém, porém corre-se o risco de que ninguém se importe com o cuidado dos bens sociais.
• A reiterada ênfase no coletivo pode conduzir ao esquecimento do individual, a que o individuo se perca no grupo. A anulação das individualidades gera insatisfações e mal-estar.
• A economia centralizada e meticulosamente planejada e regida por uma só instância, o Estado, sem espaços para outras formas de produção social, pode
acabar dificultando a oferta de produtos e a variedade de bens indispensáveis. Também este tipo de administração limita iniciativas privadas que poderiam contribuir ao incremento da produção, dos serviços e das oportunidades de emprego.
• Ao Estado não ter uma contraparte que internamente lhe ofereça concorrência no que diz respeito à economia, a qualidade da produção e dos serviços não se vê desafiada pela competição. Isto contradiz a lei fundamental do sistema que é a satisfação das crescentes necessidades da sociedade por meio do incremento da produção e do trabalho.
• O paternalismo do Estado, que é o encarregado de providenciar “todos” os serviços, pode conduzir à preguiça e à falta de laboriosidade de muitas pessoas. • A Educação em mãos de uma só instituição, o Estado, pode ser positiva se essa
instância tem os recursos para fazê-la extensiva a todas as pessoas. Mesmo assim, essa lógica tem uma limitação: concede poucos espaços para outras formas de ensino que também poderiam ser úteis à sociedade.
• Ao prestar esmerada atenção à criação de uma base material, ao se esforçar para que tudo tenha um embasamento teórico-científico, e ao pretender superar ideologias consideradas não científicas, o socialismo pode incorrer no erro de dar pouca atenção ao que comumente se lhe denomina a dimensão espiritual dos seres humanos e àquilo que nem sempre tem uma explicação plausível, mas que faz parte da realidade das pessoas e de seu cotidiano.
• O socialismo consegue resolver o problema da falta de empregos, providenciando vagas para todas as pessoas, mas se depara com a dificuldade de não poder garantir uma remuneração salarial à altura das necessidades. Este sistema consegue a distribuição equitativa dos bens, mas ainda tem que resolver a questão da produção: é muito bom na distribuição, mas o desenvolvimento de mecanismos eficientes que garantam a produção almejada é um objetivo que não se tem alcançado.
• O socialismo, assim como o cristianismo, acredita que sua ideologia é superior a todas as outras, isto dificulta o diálogo com outras formas de interpretar o ser humano, o mundo e a sociedade.
A seguir se trarão à luz algumas considerações sobre as diferentes cosmovisões abordadas nos capítulos II e III e que são constitutivas da nação cubana.