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Assim sendo, descreve-se incialmente o discurso sobre a charge sob a ordem epistemológica, atentando-se para suas especificidades e estratégias discursivas, que nos revelam minuciosamente a charge como um artefato visual particular.

3.1 O discurso sobre a charge sob a ordem do discurso epistemológico

À charge, ao ser abordado no âmbito epistemológico, apresentam-se teorizações advindas de variados domínios do conhecimento que surgem no intuito de explicitar as particularidades desse gênero em seu processo de elaboração e funcionamento. Os domínios do conhecimento que se destacam em meio às escavações arqueológicas são: Arte, Filosofia, Linguística, Semiótica e História. Através dos signos característica e elemento constitutivo, a referida ordem do discurso apresenta conexões enunciativas de onde emerge uma série de coisas escritas sobre a charge.

Sob o signo da característica chárgica, identifica-se a charge como uma representação gráfica e humorística de caráter discursivo e histórico. As escavações

DISCURSO SOBRE A CHARGE

Discurso

epistemológico

Discurso

humorístico

Características Elementos constitutivos Função social Riso Popular Humor

Discurso ideo-

político

Política

mostram, como um dos componentes das regras utilizadas no discurso, o princípio da diferenciação com as outras representações gráficas de humor: o cartum e a caricatura.

Sob o signo dos elementos constitutivos, o discurso sobre a charge apresenta os componentes de sua elaboração que contribuem para a difusão de sua mensagem de modo particular. Sendo assim, a partir dos signos como cenário, luz, sombra, humor, sátira, paródia e tantos outros, a charge vai se revelando em sua constituição minuciosamente.

Embora, outras ordens do discurso se desdobrem para contemplar a charge em sua totalidade, no cenário epistemológico, os variados domínios do conhecimento contribuem para elucidar a charge de modo específico a partir das articulações entre os signos no conjunto de coisas escritas, o que faz emergir vários elementos que subsidiam a compreensão acerca dessa forma de representação, apontando uma série de aspectos que caracterizam a charge em sua singularidade, bem como os elementos que a constituem e propiciam o seu funcionamento.

3.1.1 Sob o signo da característica chárgica

A charge é descrita como uma representação gráfica que aborda um determinado acontecimento da atualidade permeabilizada pelo entrecruzamento de discursos em uma perspectiva crítica e humorística. Para tanto, a partir do desenho e do texto escrito constrói um determinado cenário e seus personagens para evidenciar um fato ou acontecimento que obteve repercussão.

Mouco e Gregório (2007, p.5), sob o signo da característica chárgica, explicita considerações sobre a charge como uma:

[...] crítica humorística de um fato ou acontecimento específico. É a reprodução gráfica de uma notícia já conhecida do público, segundo a percepção do desenhista. Apresenta-se tanto através de imagens quanto combinando imagem e texto. A charge absorve a caricatura em seu ambiente ilustrativo.

Tamanha é a abrangência da charge (Figura 7) que “deixou de ser veiculado apenas na mídia escrita para fazer parte dos telejornais e da internet, provas de vestibulares, apostilas e livros” (ROCHA, 2011, p. 9). O discurso especifica os lugares onde se encontra a charge, a sua abrangência e o quanto esse gênero se

encontra mais presente nos veículos de informação, suportes pedagógicos e instrumentos de avaliação. Silva (2012, p. 304) assinala também que a charge é “recorrente na mídia televisiva, impressa e virtual, atingindo um grande número de leitores de diferentes faixas etárias e classes sociais”. Descreve-se que, tradicionalmente, esse gênero aparece em jornal e revista, mas, usualmente, vem ganhando espaço em sites, onde sua visualização apresenta um maior alcance de pessoas em curto prazo. Valendo salientar que está posto em Silva (2008), que com os recursos da informática, o chargista pode desenhar diretamente no computador.

Figura 7 – Charge de Régis Soares

Disponível em: < www.chargesnarua.com>

Evidencia-se também no discurso sobre a charge a distinção entre a caricatura, o cartum e a charge, como um dos componentes das regras empreendidas para explicitar a charge de modo singular. Assim, tal estratégia corrobora para explicitar a charge como uma representação particular que estabelece uma relação com a realidade retratada diferentemente de outras formas humorísticas.

Nesse cenário, a caricatura (Figura 8) é associada de modo regular através do signo “exagero”. Dessa forma, Silva (2008, p. 79), ao apresentar a charge como humor gráfico, aponta “o uso do exagero como um recurso cômico” e ainda suscita

que o referido humor gráfico apresenta “transgressões estéticas” que induzem ao riso. Assim sendo, retrata, comicamente, o indivíduo, realçando suas características físicas marcantes. Além disso, acentua-se que a caricatura também é um dos elementos que constitui a charge. Por sua vez, o cartum (Figura 9) é regular associá-lo ao signo “atemporal” e “universal”. Assim, indica que essa representação gráfica não se situa em um determinado contexto histórico e social. Silva (2008, p. 80) aponta que o cartoon não faz “referência a nenhuma personalidade ou fato do noticiário”, diferenciando-se da charge.

Figura 8 - Caricatura: Dilma Figura 9 - Cartum de Quino

Deste mesmo modo, os enunciados que circulam nos regulamento dos salões de humor apresentam regularidades quanto às particularidades da charge e do cartum, recorrendo à estratégia de diferenciação como regra. Conforme Silva (2008, p. 90) apresenta:

 Salão Internacional de Humor de Piracicaba:

- cartum: humor gráfico com temas universais e atemporais;

- charge: representação gráfica de um tema jornalístico da atualidade;

 FIHQ – Festival Internacional de Humor e Quadrinhos (Pernambuco):

- cartum/desenho de humor: nessa categoria consideram-se todas as obras que versem temas sem relação direta com a atualidade;

- charge: nessa categoria consideram-se todos os trabalhos que versem questões e acontecimentos da atualidade; (Grifos do texto fonte).

Há uma regularidade em relacionar o signo “charge” com o signo “atualidade”. Evidencia-se, assim, que o humor gráfico em tela busca abordar os acontecimentos atuais de forma direta.

Agostinho (1993, p. 227), a partir do domínio de conhecimento da Arte, compreende a charge como arte gráfica e apresenta que, diferentemente do quadrinho e do cinema, a narrativa da charge “acontece, invariavelmente, em um só quadro e raramente o artista recorre à divisão do espaço em duas ou mais partes” para realizar o processo de representação. Por meio da diferenciação, como componente da regra discursiva, a afirmação aponta o modo particular da charge de buscar resumir-se em um só quadro, o que a distancia de ser confundida com os quadrinhos ou tirinhas.

Em Toledo (2011, p. 2) está posto que a charge, ao mesmo tempo em que, desenha “a realidade com as falas e chavões marcantes sobre determinado aspecto social, político, histórico ou cultural de nossa realidade”, satiriza “assunto relevante ao contexto dos grupos sociais existentes, retrata nossa realidade de forma singular e apresenta vários discursos entrelaçados”. Especifica que a charge traz um modo de representar a realidade por meio do desenho e a partir da sátira revela, criticamente, os assuntos relativos a um determinado contexto social, de modo singular e discursivo. Os signos “falas” e “chavões” apontam que a charge utiliza uma linguagem própria de um contexto ou de um grupo para abordar a realidade e suscitar os atores sociais nela contida.

Ao enfatizar os aspectos discursivos da charge, Toledo (2011, p. 4), no domínio da Linguística correlacionado a Maingueneau (2007) com a Gênese dos

discursos, considera a charge como “veículo linguístico de representação social e

política, portador de inúmeros discursos que se convergem para retratar parodicamente uma determinada realidade”.

A regularidade dos aspectos discursivos da charge também está presente no conjunto de coisas escritas de Silva (2012) que, a partir da análise de discurso de vertente francesa com base em Bakhtin (2000), Foucault (1999) e Pêcheux (1995), apresenta a representação chárgica como uma “estratégia discursiva”, uma vez que

é tecida por meio de outros textos e/ou discursos, principalmente as notícias veiculadas na mídia impressa e televisiva e, assim, difunde e atualiza discursos que circulam na sociedade contemporânea. O discurso contido no conteúdo temático da

charge traz marcas de “heterogeneidade discursiva”, e sendo assim, está

relacionado com “diferentes formações discursivas” (SILVA, 2012, p. 319).

Silva (2012) aborda a charge como um gênero discursivo, correlacionando-se com Bakhtin (2000) e traz uma distinção entre os gêneros do discurso, classificando- os em primários e secundários. Os gêneros primários são as formas discursivas que se constituem em circunstâncias de uma comunicação espontânea - réplica de diálogo, narrativa de costumes, documentos etc. -, por sua vez, os gêneros secundários são aqueles que “aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente mais evoluída: artística, científica, sociopolítica” (SILVA, 2012, p. 281).

Macêdo e Sousa (2007), no domínio da História, explicita a charge como uma “espécie de crônica humorística”, por apresentar um caráter narrativo acerca dos fatos no decorrer da história, provocando o riso. A charge é compreendida e explicitada como uma forma particular de abordar a história a partir, principalmente, da crítica e do humor em paralelo.

Descreve-se a charge como um gênero que “pertence à atualidade e ao consumo imediato” (SANTOS, 2010, p. 2.761), uma vez que ao identificar uma determinada “polêmica” ou alguma notícia de interesse público no cenário atual, imediatamente o chargista constrói a representação chárgica sobre determinado acontecimento. Assim sendo, com o passar do tempo o acontecimento registrado já não apresenta a mesma repercussão mediante o foco das atenções dos sujeitos. Dessa forma, como afirma Lessa (2013, p. 10), a compreensão da charge depende da existência de uma “memória social” que é acionada no processo de compreensão do contexto que a configura.

A charge é compreendida e explicitada como uma “espécie de âncora” (ALBUQUERQUE; OLIVEIRA, 2008, p. 4), pois utiliza os conceitos de um povo e destaca determinados acontecimentos. Assinala-se também que a representação chárgica “tem caráter temporal, pois trata do fato do dia” (SILVA apud LESSA, 2013, p. 9). A charge, por fazer alusão aos fatos no momento em que estão acontecendo, torna-se “efêmera”. Sendo assim, com o passar do tempo, é necessário que se recorra à memória ou aos registros históricos para compreendê-la. Assim, identifica-

se no discurso sobre a charge sua existência marcada por seus aspectos históricos. Identifica-se ainda que o chargista não gere o acontecimento abordado, uma vez que é a própria história que o determina.

No âmbito da História, evidencia-se o potencial da charge como fonte histórica, capaz de contribuir para a reflexão sobre uma determinada época. Sendo assim, é “uma fonte histórica das mais ricas, [...] é uma fonte como qualquer outra e, assim como as demais, tem que ser explorada” (MACÊDO; SOUZA, 2007, p. 4). Nela explicitam-se os valores e ideias vigentes e as informações que configuram o contexto de determinados grupos sociais no decorrer do tempo. Portanto, para decodificar a mensagem contida na charge, “deve-se levar em conta o contexto sociopolítico em que ela foi produzida” (MOUCO; GREGÓRIO, 2007, p. 5), uma vez que se baseia em fatos situados em uma determinada conjuntura.

Diante das afirmações, analisa-se que por meio dos signos história e memória, as articulações apontam para o caráter temporal da charge. Além disso, percebe-se que a história e a memória são imprescindíveis no processo de compreensão da charge, as quais devem ser acionadas pelo sujeito para que se possa identificar o acontecimento representado.

3.1.2 Sob o signo dos elementos constitutivos

De modo geral, os elementos constitutivos da charge que aparecem no discurso se referem aos elementos materiais – “que constituem a estrutura-objeto” como está posto em Agostinho (1993) no domínio de conhecimento da Arte. Tais elementos contribuem para que se possa reconhecer a charge como uma representação particular. E, ainda, compreender o modo de articulação desses elementos para legitimar o funcionamento do gênero chárgico. Os elementos constitutivos encontram-se imersos no universo de coisas escritas sobre a charge. Por meio da AAD, reunimos algumas desses enunciados para evidenciar tais existências por meio da descrição.

Entre os elementos constitutivos da charge há a presença de linguagem visual e verbal. No decorrer das escavações do discurso sobre a charge, é regular afirmar que na charge interagem “a linguagem escrita e a linguagem visual” (LESSA, 2013, p. 6) ou que há a “presença de texto verbal e texto não verbal ou imagético” (SANTOS, 2010, p. 2.762) ou, ainda, que existe “uma hibridez da linguagem verbal-

visual” (SILVA, 2008, p. 1). Tal regularidade explicita a presença de duas linguagens diferentes, sendo uma a escrita e a outra a imagem. Silva (2008) ao apontar tal hibridez correlaciona-se com os escritos no domínio da Semiótica postos em Santaella (2005, p. 384):

São ainda visuais-verbais a charge e os quadrinhos. Em ambos os casos, os cruzamentos entre esses dois sistemas de linguagem são tão evidentes, isto é, operam-se no nível superficial de suas sintaxes semióticas, que dispensam comentários mais detalhados.

Conforme apresentado no capítulo anterior, os artefatos da cultura visual podem apresentar mais de uma forma de linguagem. No caso da charge, ambas as linguagens, verbal e visual, podem aparecer no mesmo cenário. Mas vale salientar que a charge “pode utilizar ou não o texto verbal” (SANTOS, 2010, p. 2.762). Sobre isso, Silva (2008, p. 96) acrescenta que “a relação texto-imagem se dá de forma assimétrica com participações geralmente diferenciadas por parte de um ou outro código. Às vezes a imagem, isoladamente, dá conta de todo o texto e qualquer informação verbal torna-se supérflua e redundante”. Portanto, o discurso evidencia a presença do texto verbal e visual, conferindo à imagem, ocasionalmente, uma independência em relação ao texto escrito. Apresenta-se o potencial da imagem no processo de transmitir uma mensagem, principalmente quando afirma: “dá conta de todo o texto”. Sendo assim, confere-se a presença dessas duas formas de linguagem, mas explicitando-as de maneira diferenciada.

O código verbal pode ser encontrado de diversas formas na charge, como está posto em Silva (2008, p. 78): “O discurso direto, a voz do narrador, o título da

charge, placas e rótulos, intertextos noticiosos e onomatopeias”. Agostinho (1993)

enfatiza, ainda, nesse conjunto, os balões de diálogo – “a voz dos personagens”. Por sua vez, a linguagem visual contida na charge se apresenta através do cenário (fundo), espaço, luz, sombra, imagens icônicas e simbólicas. No discurso sobre a

charge explicitam-se os elementos constitutivos oriundos dessa variedade da

linguagem. Analogicamente, como um processo de dissecação, identificamos tais elementos na charge e com base no conjunto de coisas escritas, as explicitaremos.

A partir do domínio da Arte, estão postos alguns elementos visuais em Agostinho (1993). A linha é o elemento mais constante entre todas as artes, tendo a função de definir as formas e distinguir os objetos conforme seu modo de

representação. As linhas se classificam por meio das seguintes categorias: 1) espessura – fina, média e grossa; 2) direção no espaço – vertical, horizontal, inclinada; 3) tipo – reta, curva, quebrada, vibrante e mista. Assim sendo, é regular utilizar a linha média no processo de composição da charge, uma vez que “qualquer que seja a temática ela valoriza a composição” (AGOSTINHO, 1993, p. 235). A linha grossa é mais utilizada quando se faz o uso de onomatopeias, no intuito de ressaltar força, agressividade, solidez, peso, vigor e é usada em representações que trazem explosão, por exemplo. Vale destacar a linha quebrada, ela lembra “choque, agressão, explosão, impacto, confusão, irritação. É grande suporte nos ‘quadrinhos e na charge” (AGOSTINHO, 1993, p. 237). Destaca-se também a linha vibrante, pois denota medo, frio, choque elétrico; bem como contorna os textos das falas dos personagens através de telefone, rádio, TV entre outros meios de comunicação.

O espaço que constitui a charge caracteriza-se por ser um espaço “descontínuo” e “fragmentado”, visto que é um recorte de um acontecimento ou fato, em que o chargista busca evidenciar as principais particularidades visíveis de algo essencial para enfatizar a representação. O espaço pode aparecer de duas formas distintas como aponta Agostinho (1993, p. 240):

O espaço pode ser vazado ou cercado. Quando vazado tem seus limites determinados por uma área neutra que separa os seus elementos nucleares (bonecos, textos e onomatopeias) das matérias inseridas ao seu redor. No entanto, o espaço mais comum na charge é o fechado, emoldurado por uma linha que o delimita na página, permitindo identificar com clareza a sua área de ação e estabelecer uma relação de valores de seus elementos estruturais mais rapidamente.

O cenário ou fundo contido na charge varia do mais requintado e detalhado ao mais simples e neutro. O fundo neutro ou chapado possibilita uma representação com maior objetividade, como também os personagens e objetos contidos na cena adquirem maior destaque. O fundo alegórico apresenta “apenas alguns detalhes do cenário que complementa o quadro” (AGOSTINHO, 1993, p. 252). Assim, a partir de elementos como mesa, plantas, janelas, carros, entre outros, identifica-se o ambiente ao qual se refere a charge. O fundo trabalhado é o mais requintado, uma vez que apresenta os elementos detalhadamente. Dessa forma, “a composição se apresenta mais dinâmica e a ação dos bonecos ganha mais expressividade” (AGOSTINHO, 1993, p. 253).

A iluminação usada na charge permite realçar os contrastes, os volumes e a dramatização da composição gráfica. O “valor simbólico” da luz e da sombra permite expandir a linguagem expressiva da charge, variando deste a intensa alegria à mais densa tristeza. Simbolicamente, a luz sugere “alegria, vida, fé, sucesso, euforia, bondade” (AGOSTINHO, 1993, p. 254). Diferentemente, a sombra simboliza “apatia, indiferença, dúvida, solidão, tristeza, dor, descrença, fracasso, depressão, maldade, noite, eternidade, morte” (AGOSTINHO, 1993, p. 254).

Os traços mais fortes, os tons mais carregados e as cores mais vivas aparecem no plano mais próximo do observador. Por outro lado, nos planos que se distanciam, “os traços, as luzes, as sombras e as cores se atenuam” (AGOSTINHO, 1993, p. 254). Dessa forma, a variação da distância implica na variação da ênfase de tais elementos no cenário da charge.

Finalmente, o movimento é um elemento constitutivo da charge que se expressa de modo particular, uma vez que tal elemento não aparece nesse gênero tal como no cinema, por exemplo. O movimento aparece de modo simultâneo no tempo e no espaço retratado na charge. Tal elemento é descrito sob diferentes “valores icônicos e simbólicos”. Conforme se descreve nos escritos de Agostinho (1993, p. 257),

a) a partir de pequenos traços próximos às partes de um corpo, de uma cabeça ou um objeto que se deslocam em movimentos de rotação ou translação;

b) por traços que saem de um corpo ou objeto e, à medida que se afastam, atenuam-se até desaparecerem no espaço, fixam nele a trajetória do referido corpo ou objeto;

c) insinuado pelo gradiente de tamanho onde os corpos parecem caminhar para uma direção, determinada pelas figuras que diminuem de tamanho no espaço pictórico;

d) a iluminação denota uma direção através dos focos de luz ou das sombras que se projetam sobre os elementos de uma composição; e) pelas alterações dos valores das massas de um corpo parado em relação à

sua linha de força que determina a sua posição no espaço;

f) na sobreposição de figuras, onde a visão caminha nas formas interligadas e que sugerem uma sucessão de planos, que se distanciam na profundidade do espaço.

Em meio às regularidades discursivas, identifica-se um elemento que corrobora para emersão das informações e dos temas (políticos, econômicos e/ou sociais) presentes nas articulações de seu conteúdo. Tal elemento explicita-se como intertextualidade, sendo regular sua presença no conjunto de coisas escritas,

conforme aparece em Rocha (2011) e Santos (2010), que correlacionados com a definição assinalada por Kristeva (1974, p. 60), no domínio da linguística, apresenta a intertextualidade como “a transposição de um ou vários sistema(s) de signos em outro, pois qualquer texto se constrói como um mosaico de citações e é a absorção e transformação dum outro texto”.

Villwock e Vailões (2012) aponta que a charge aborda um “tema ou algo ligado ao noticiário de um jornal”, e assim, de modo particular, ela recria o fato e estabelece uma “relação intertextual” com a notícia apresentada. (VILLWOCK; VAILÕES, 2012, p. 13). Está posto em Santos (2010) que tal relação é indispensável para recuperar o sentido de sua mensagem, quando afirma que a charge “não sobreviveria sem a intertextualidade, principalmente porque é necessário fazermos as relações para recuperarmos o sentido e interpretarmos esse gênero” (SANTOS, 2010, p. 2.764). Portanto, a intertextualidade se apresenta como elemento imprescindível nessa constituição.

Nos escritos de Mouco e Gregório (2007) há uma correlação com os estudos do filósofo Bakhtin (1981, p. 175) que traz a seguinte afirmação:

Um membro de um grupo falante nunca encontra previamente a palavra