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3.2. Kuvvetli Yer Hareketi

3.2.2. Kuvvetli yer hareketi parametreleri

3.2.1.2. Spektrum parametreleri

Ao longo do século XVI, foram tomadas várias medidas no sentido de tornar mais efetivo o controle régio sobre a população do reino. Além das tentativas de homogeneização religiosa – sistematizada na perseguição a mouros e judeus –, diversas iniciativas procuraram coibir a entrada de árabes e persas, por exemplo. Esse controle era perceptível na esfera legal, por meio de decretos que regulamentavam ainda a presença e o comportamento de ciganos, vadios e pobres, e repetiu em sua essência, a diretiva da maior aproximação entre coroa e população.110

Compostas entre 1514 e 1521, as Ordenações Manuelinas inauguraram na época moderna uma série de tentativas para regulamentar a esmola indiscriminada em Portugal: proibiram que os pedintes das confrarias vagassem sem licença régia, limitando a um esmoler por invocação em cada bispado.111 Já as Ordenações Filipinas, publicadas em 1603, além de reiterarem a necessidade de aprovação para os peditórios, completavam: “com licença dos prelados poderão pedir nas igrejas e adros delas somente”.112 A esmola como valor essencialmente positivo parecia progressivamente

mover-se, mesmo espacialmente, para o entorno dos lugares de culto. Trata-se de exercícios de separação cada vez mais delineados entre o universo religioso e a administração civil.

110 ABREU, Laurinda. Beggars, vagrants and romanies… 111 Ordenações Manuelinas, Livro 5, Título 104. 112 Ordenações Filipinas, Livro 5, Título 103.

43 Diante das normativas demasiadamente gerais das Ordenações, a primeira lei explícita sobre o controle dos pobres foi a de 1538113 que interditava a esmola como

meio de sobrevivência a qualquer pessoa saudável e financeiramente remediada, além de punir quaisquer tentativas de falseamento da condição de miséria:

(...) que nenhuma pessoa sã e sem aleijão, tendo disposição para poder trabalhar ou que tivesse bens e fazenda para razoavelmente se poder manter, pedisse esmola publicamente. E o quem o contrário o fizesse, sendo escravo e pedindo por consentimento do seu senhor, ficasse cativo da pessoa que o achasse pedindo e o acusasse. E pedindo sem o saber seu senhor, fosse açoitado publicamente com baraço e pregão pela cidade ou vila onde andasse pedindo. E se fosse livre e sendo são se fizesse doente, servisse por cinco anos à pessoa que o achasse pedindo e o acusasse, sem por isso dar coisa alguma, somente de comer e de vestir. E que tal pessoa pudesse dar e traspassar o serviço dos ditos cinco anos a qualquer pessoa que quisesse. E sendo doente e tendo fazenda, pagasse cinco mil réis para quem o achasse pedindo e o acusasse.114

Seis anos depois, ou seja, em 1544, um alvará mais rigoroso reiterava a interdição à prática da esmola indiscriminada, ao mesmo tempo em que procurava detalhar situações passíveis de punição que variavam do açoite público ao degredo no Brasil. Segundo Timothy Coates,115 Portugal antecipou-se a monarquias como França e Inglaterra, e foi um dos primeiros países a utilizar o degredo como política colonizadora. Contudo, convém ressaltar que nas documentações compulsadas por Coates e Pieroni,116 a pobreza raramente é apontada como causa única do degredo.

A lei de 1544117 previa o exame dos pedintes pelo provedor da confraria da corte e procuravam punir a esmola de forma que a população local se beneficiasse por meio da delação: quando apanhado, o esmoler perdia todo o dinheiro e quem o denunciasse ficaria com metade do valor apreendido, a outra metade para a confraria da corte. A licença para pedir seria concedida a partir de uma avaliação feita pelo provedor, membros da mesa, juntamente com o físico e cirurgião. Deveria ser negada autorização a todos aqueles que fossem considerados habilitados para o trabalho, ou de “alguma maneira” pudessem ganhar o sustento sem que tivessem de mendigar.

Estritamente regulamentada a permissão de esmolar entre os sadios, a lei procurou agir com igual cautela em relação aos que possuíam deficiências permanentes

113 Interessante notar que também em 1538 foi expedida uma lei proibindo a entrada de ciganos. Ver

LIÃO, Duarte Nunes. Leis extravagantes e repertório das Ordenações... p. 155.

114 LIÃO, Duarte Nunes. Leis extravagantes e repertório das Ordenações... p. 154-155. 115 COATES, Timothy. Degredados e órfãs...

116 PIERONI, Geraldo. Os excluídos do reino...

44 ou impossibilidades ocasionais. A licença era negada a todos os “que tinham fazenda para se manter ou ofício de que segundo sua disposição pudesse usar”. Esse princípio deveria ser aplicado não somente aos doentes, mas ainda aos cegos e aleijados, mesmo que muito pobres. Assim, a legislação procurava arrefecer uma tradição secular de valorização da mendicância, retirando da esmola o caráter de estratégia natural em momentos de dificuldade. Como forma de garantir a sobrevivência, o trabalho era a indicação dada, por exemplo, aos “aleijados dos pés”, porque poderiam trabalhar com as mãos, aprendendo ofícios como os de alfaiate, sapateiro e afins.

Aos “aleijados das mãos”, a lei ordenava que procurasse algum “mosteiro, colégio, ou pessoas” sem a necessidade de pagamento, além do comer e vestir, recomendando ao provedor que ajudasse quem encontrar quisesse se valer do trabalho dos que tivessem deficiências manuais. Do mesmo modo, seria negada licença para esmolar aos cegos que “tivessem disposição para trabalhar”, sendo obrigados a procurar ferreiros ou serralheiros que pudessem dar-lhes o que comer e vestir em troca de serviços. Ficava negada a permissão aos estrangeiros e aos doentes com chances de cura, devendo ser tratados nos hospitais.

Todos os que tinham a permissão – máxima de um ano –, deveriam trazer uma certidão de confissão do pároco contendo nome, idade, naturalidade e razões da dita concessão. Todos eram obrigados a saber as orações do Pai Nosso, da Ave Maria, do Credo e da Salve Rainha; caso não soubessem deveriam aprendê-las no período máximo de um ano, durante o qual, o pároco da confraria se dispunha a ensiná-los. Ao fim do dito ano, os pedintes autorizados deveriam se submeter novamente aos processos de verificação a fim de obterem uma nova licença de prazo determinado. Caso ainda não soubessem as referidas orações, não poderiam ter a licença renovada. A certidão vencida e não renovada implicava as mesmas penalidades, como se nunca tivesse sido permitida.

A lei possuía um grande detalhamento das precondições para a mendicância e foi feita tendo por base Lisboa, para onde, certamente, era atraído o maior índice de pobres do reino. Contudo, embora não haja pesquisas que possam detalhar melhor a efetividade de tais prescrições, é interessante observar uma espécie de institucionalização de determinados procedimentos que, a princípio ficariam a cargo da confraria da corte fiscalizar. Tal foi o caso do controle da utilização de crianças, ou ainda, da criação de uma casa na qual os pobres poderiam dormir.

45 A confraria da corte deveria tomar para si o sustento de todas as crianças de até sete anos, que participassem de peditórios sem autorização. A lei portuguesa de 1544 proibia taxativamente qualquer utilização de menores, sob pena de apreendê-los e os colocar sob tutela da confraria até os sete anos, ficando depois dessa idade a cargo do juizado de órfãos. Apenas aos cegos que tinham permissão era garantida a autorização de andar com uma criança acompanhante.

Outro interessante ponto foi a presença de uma casa onde os pobres pudessem se abrigar e passar a noite. A lei previa essa forma de proteção, como uma estratégia deliberada de controle. Não impunha a obrigatoriedade do trabalho, mas tinha a tática de reunir todos os mendigos de forma a possibilitar a ação prevista que, dentro do abrigo, “qualquer pessoa pudesse acusar os pedintes que pedissem sem licença”. Essas tentativas de controle indicam uma tendência observada em todo o continente de reprimir o livre acesso dos pobres à esmola indiscriminada e, sobretudo, a marginalização da ociosidade.

Em 1558, uma nova carta lei reafirmava a posição régia de repúdio à desocupação. As primeiras linhas da carta incentivam o trabalho feito a terceiros em troca de roupa e comida, privilegiando arranjos informais como forma de conter um crescente problema social. Essas soluções são pouco conhecidas da historiografia, mas revelam o incentivo de redes de auxílio em detrimento de qualquer exclusivismo da coroa ou das Misericórdias:

Ordenou El Rei Dom Sebastião Nosso Senhor que toda pessoa assim homem como mulher que tiver disposição para poder servir a outrem, ou por seu trabalho ganhar de comer, não peça, nem ande pedindo por parte alguma de seus reinos de lugar em lugar, só nem em companhia doutros, nem [este] fora de lugar e termo onde morar, sem tomar amo, ou trabalhar em ofício certo por espaço de vinte dias, conforme ordenação dos vadios [referência à lei de 1544], posto que peçam por amor de Deus, ou para advocação de algum Santo e posto que sejam doentes ou cegos ou aleijados, de tal doença ou aleijão que não possa trabalhar, nem tenham por onde se manter e lhe seja necessário pedir e manterem-se de esmolas, o não poderão fazer fora dos lugares e termos donde forem naturais ou moradores.118

A lei de 1558 confirmava uma ideia recorrente noutras partes da Europa: virtualmente, cada municipalidade era encarregada de seus pobres. Eram as instituições locais as grandes responsáveis pelas soluções de alívio à pobreza, representadas, sobretudo, pelas irmandades e pelas câmaras. Foi nesse sentido também que se

46 publicaram leis expulsando estrangeiros, ou simplesmente, incumbindo as instituições de assistência a restringirem-se aos naturais da terra. Ressalva feita apenas aos peregrinos, alvo particular de caridade.

Esse movimento de municipalização da assistência tendeu a estigmatizar estrangeiros e não nascidos nas localidades de forma a controlar melhor o número de pessoas que virtualmente poderiam ser atendidas pela assistência local.119 Além da corriqueira movimentação que caracterizava a vida dos pobres, as guerras e crises agudas (secas, inundações, problemas de abastecimento) poderiam expulsar um grande número de pessoas das suas origens. Em Portugal, a permanência de pessoas sem “amos”, vulgarmente conhecidos como vadios, era interditada desde as Ordenações Manuelinas.120 O Código Filipino reiterou a proibição já prevista na Ordenação que lhe precedeu, facultando a expulsão de qualquer pessoa que permanecesse por mais de 20 dias numa determinada localidade sem ter meios para se sustentar.121

Essa prerrogativa se estendia a diferentes locais do continente europeu. Em 1603, por exemplo, quando a chamada Guerra dos Nove Anos (1594-1603) entre os gaélicos e Elizabeth I chegou ao fim, assistiu-se, de súbito a uma onda de desemprego provocado pelo fim de toda uma estrutura voltada para atender as necessidades do conflito. O resultado da guerra havia sido devastador para os irlandeses, deixando poucas opções além da migração. Segundo Mary Ann Lyons,122 a rápida desmobilização das tropas causou ainda um esvaziamento de várias regiões da Irlanda e cerca de mil soldados irlandeses por ano, juntamente com seus dependentes, migraram para Inglaterra ou para a Europa continental.

O grande número de migrantes irlandeses para Inglaterra, Flandres, Espanha e França, incitou reações no sentido de conter e expulsar a vaga de andarilhos que saíam em busca de melhores condições de vida. Nas cidades francesas, por exemplo, os irlandeses tinham pouca familiaridade com o idioma, permanecendo à custa da caridade particular e institucional, onerando o orçamento municipal. Desde o início, sua

119 Ver, por exemplo, as Ordenações Manuelinas, Livro 5, Título 69. Que não entre no Reino, ciganos, armênios, arábios, persas, nem mouriscos de Granada.

120 Ordenações Manuelinas. Livro 5. Título 72.

121 “Dos vadios: Mandamos que qualquer homem que não viver com senhor, ou com amo, nem tiver

ofício, nem outro mester em que trabalhe, ou ganhe sua vida, ou não andar negociando algum negócio seu, ou alheio, passados vinte dias do dia que chegar a qualquer cidade, vila ou lugar, não tomando dentro nos ditos vinte dias amo, ou senhor, com quem viva, ou mester, em que trabalhe e ganhe sua vida ou se o tomar e depois o deixar e não continuuar, seja preso e açoitado publicamente” Ordenações Filipinas, Livro 5, Título 68.

47 migração foi vista de forma negativa pelos franceses: rei e municipalidades passaram a aludir aos forasteiros como uma espécie de coletividade homogênea e malvista. Termos como “irlandeses errantes”, “mendigos”, “vagabundos”123 refletiam a percepção

homogênea e estereotipada das autoridades sobre os recém-chegados. As autoridades da cidade francesa de Nantes, em 1605, publicaram expulsando os “vagabundos irlandeses”, sob a alegação de que seria uma prevenção a possíveis contágios de pestes, que vinham intermitentemente grassando a cidade.

Obviamente, o livre acesso aos territórios nacionais era mais complexo do que a pura e simples interdição. Em 1603, Nantes recebeu cerca de 500 cristãos-novos, incluindo mulheres e crianças, egressos de Portugal, expulsos em decorrência das perseguições feitas aos judeus. Rapidamente, as autoridades locais procuraram justificar sua retirada, argumentando práticas judaizantes e o interesse dos portugueses em monopolizar todo o comércio local com Espanha e Portugal. No entanto, o rei concedeu proteção a todos, tal como havia feito em Languedoc, Gasconha e Guiena. A antipatia local estava diretamente relacionada a novos competidores, em sua maioria, comerciantes. Assim, tal como argumenta Lyons, era improvável os portugueses recorressem aos fundos de ajuda aos pobres e também por isso, eram relutantemente tolerados.124

Retornado à legislação portuguesa, a carta de 1558 revelava ainda significativas alterações em relação ao alvará anterior, regulamentando melhor as penalidades e as situações que permaneciam imprevistas em 1544. O documento trazia um tom muito mais punitivo, perceptível na própria descrição feita por Duarte Nunes Lião na sua compilação de 1569. O alvará de 1544, ou segundo Lião, Dos pobres que pedem na corte, e a carta de 1558, Dos pedintes e vagabundos que andam pelo reino procuraram regulamentar a ação dos pobres, mas revelavam diferenciações indicativas do complexo ato de mendigar. Uma especificação interessante são as condenações segundo o nascimento dos pedintes:

E aquelas pessoas que em outra maneira e sem a dita certidão andarem pedindo por quaisquer lugares e partes de seus reinos, manda o dito Senhor que sejam presos e

123 “Whilst endeavouring to devise strategies to stem the tide of Irish immigration, both the French and the English authorities alluded to the Irish migrants collectively, using a stock of indiscriminate, pejorative terms such „beggars‟, „base people‟, „wandering Irish‟, „vagabonds‟, „mendiants‟ and „gueux‟ which reflected their overriding perception of the Irish as liabilities who subsisted by begging, regardless of their profession” LYONS, Mary Ann. „Vagabonds‟, „mendiants‟, „gueux‟…p. 364-365.

124 “As such they were unlikely to draw on the corporation's poor relief funds, and hence they were reluctantly tolerated” LYONS, Mary Ann. „Vagabonds‟, „mendiants‟, „gueux‟… p. 369.

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pela primeira vez serão publicamente açoitados e degredados por um ano para fora do lugar e termo onde assim forem achados pedindo. E pela segunda vez serão, outrossim, açoitados publicamente e degredados por um ano para os lugares d‟além. E pela terceira vez serão degredados para o Brasil por cinco anos. E sendo as tais pessoas de qualidade que não caiba pena de açoites, pela primeira vez são degredados do dito lugar e vinte léguas ao redor pelo tempo de um ano; e pela segunda vez serão degredados por dois anos para os lugares d‟além e pela terceira vez, por sete anos para o Brasil.125

O detalhamento da lei mais recente poderia revelar de imediato duas situações prementes: ou um aspecto conjuntural indicado pelo empobrecimento de setores mais remediados que se viram obrigados a pedir, provocando uma regulamentação régia observável somente em 1558; ou ainda, a tentativa de conter uma prática de longa duração mesmo entre as pessoas remediadas, prevendo penas para todos aqueles que esmolassem.

A julgar pelos movimentos de reforma da assistência que ocorriam em toda a Europa, independente das diferentes confissões que cindiram a Cristandade, a lei de 1558 fazia parte de um movimento de estigmatização da mendicidade, associando, muitas vezes livremente, pobreza e marginalidade.126 Na Inglaterra, por exemplo, os pobres locais utilizavam um distintivo (badge) como forma de diferenciá-los dos forasteiros e dos pobres não merecedores.127 Também em Portugal, o pobre marginal era excluído das possibilidades de assistência128 e era virtualmente constrangido por uma série de punições como o açoite público a fim de inibir a itinerância, dificultando-lhes a livre circulação.

As leis que proibiam o livre trânsito de pessoas pelas localidades revelavam a insistência no princípio que marcará toda a administração da caridade ao longo da época moderna: cada comunidade deve ser financeiramente responsável por seus pobres. No caso português, o rei reservava-se à função de orquestrar ações locais, concedendo esmolas eventuais e privilégios às irmandades, sobretudo às Misericórdias. Os princípios que norteavam a ação caritativa, embora fossem indelevelmente marcados

125 LIÃO, Duarte Nunes. Leis extravagantes e repertório das Ordenações... p. 157-158v.

126 Ainda no século XVI foram publicados dois alvarás sobre a vadiagem, a saber: o alvará de 02 de junho

de 1570 e o de 16 de junho de 1579. Ver FIGUEIREDO, José Anastácio de, Synopsis Chronologica de

Subsidios ainda os mais raros para a Historia e Estudo Critico da Legislação Portugueza... t. 1, p. 157 e

t. 2, p. 191.

127 Para uma reavaliação sobre o papel aviltante desses sinais de diferenciação na Inglaterra, ver:

HINDLE, Steve. Dependence, shame and belonging…p. 6-35. Ver ainda CHARLESWORTH, Lorie. Why is it a crime to be poor?... p. 149-167.

49 pela inspiração cristã, também se alimentaram de visões políticas mais práticas e divulgadas por meio de leis que discriminavam situações passíveis de mendicância.

A menor institucionalização das soluções dadas para os miseráveis e delinquentes não indica uma maior abertura à pobreza, mas sim à caridade. Embora as leis portuguesas não permanecessem incólumes à criminalização dos pobres, as soluções podem ser compreendidas como um quadro compósito, repleto de contingências. A significativa e precoce utilização do degredo como política colonizadora, além da importância católica na cristalização dos valores positivos em relação à pobreza, foram condicionantes de um universo de soluções contraditórias.

Os alvarás que degredavam vadios prosseguiram recorrentes ao longo dos séculos XVI e XVII. O Regimento dos Quadrilheiros, por exemplo, instituído pelas Ordenações Manuelinas e mantido pelas Filipinas, previa que todas as vilas e cidades do reino deveriam ter quadrilheiros para que “melhor se prendam os malfeitores e evitem os malefícios”.129 Os quadrilheiros eram recrutados entre os habitantes de cada

localidade que, ao longo de três anos, formariam quadrilhas de 20 moradores arroladas nas câmaras. Todos os quadrilheiros deveriam possuir lanças e seriam passíveis de multa quando fossem encontrados desarmados. Convém ressaltar que, embora os quadrilheiros pudessem servir para identificar eventuais vadios, seu foco eram os delinquentes. Malfeitores e vadios eram termos distintos, muito embora fosse frequente a associação entre delinquência e ociosidade.

Em 13 de agosto de 1639, uma carta régia determinava que os ministros de vara (do crime, civil, órfãos ou propriedades) de Lisboa, bem como os juízes dos resíduos e capelas, fizessem diligência em todos os bairros da cidade e prendessem os vadios para que servissem nas galés.130 Em 16 de março de 1641, outro alvará mais específico, mandava devassar as “casas de jogo e outras partes aonde costumam acudir homens vadios, que não têm ocupação conveniente, nem estão assentados por soldados” para os enviar para a Índia.131

129 Ordenações Manuelinas, Livro 1, Título 54. Ver ainda: Ordenações Filipinas, Livro 1. Título 73; Lei

de 12 de março de 1603 In: SILVA, José Justino de Andrade e. Collecção Chronologica da Legislação

Portugueza... p. 7-8; Lei de 30 de dezembro de 1605 In: RIBEIRO, João Pedro. Indice Chronologico Remissivo da Legislação Portugueza Posterior à Publicação do Codigo Filippino... Parte1. p. 10; Lei de

25 de dezembro de 1608. In: RIBEIRO, João Pedro. Indice Chronologico Remissivo da Legislação

Portugueza Posterior à Publicação do Codigo Filippino... Parte1. p. 20 130 Collecção chronológica de leis extravagantes... p. 78-79

50 Mesmo depois de Trento, quando se observou uma verdadeira virada nas cláusulas testamentárias em favor dos pobres e das Misericórdias,132 foi possível

observar a reiterada insistência em controlar a livre mendicância. O alvará de 9 de janeiro de 1604 reforçava todas as determinações régias anteriores, conferindo aos ouvidores e corregedores de cada localidade, o poder de conceder e recusar certidões para esmoleres, porque “as ditas Ordenações se não cumprem como convém e o número de vadios e pedintes vai em muito crescimento em grande dano e prejuízo dos

Benzer Belgeler