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3.3. Analiz Teknikleri

3.3.1. Azalım ilişkileri metodolojisi

No século XVI, o crescimento da população portuguesa foi refreado a partir da abertura da rota do Cabo da Boa Esperança e do arranque da colonização do Brasil.135 Enquanto o território europeu enfrentava crises de abastecimento e pestes intermitentes, revia suas formas de assistência e repressão aos pobres, a América foi vista por alguns cronistas como solução aos depauperados portugueses. As soluções encontradas pelo modelo assistencial português passaram ao largo do enclausuramento dos pobres, bem

132 SÁ, Isabel dos Guimarães. Quando o rico se faz pobre... p. 58-83. 133 Collecção chronológica de leis extravagantes... p. 21-24.

134 Collecção chronológica de leis extravagantes...p. 87-100.

135 RODRIGUES, Teresa Ferreira. Portugueses dispersos pelo mundo. In: MATTOSO, José (Dir.). História de Portugal – no alvorecer da modernidade... p. 210-211.

51 como das casas de trabalho forçado, presentes em França, Inglaterra ou mesmo Espanha, em grande medida porque precisavam maximizar os usos de populações indesejadas no reino, espalhando-as pelos territórios colonizados.

De diferentes origens e também com distintas finalidades, os relatos sobre o Novo Mundo conjugaram euforia e expectativa em relação às potencialidades das terras descobertas, bem como, descrédito e incompreensão com os corolários intrínsecos à colonização, manifestos no grande número de pagãos, nas relações gananciosas e subvertidas entre colonos, na escravidão.136 O tom geral dos relatos dos religiosos sobre o universo social apareceu numa vertente bastante negativizada sobre o Novo Mundo, estupefatos diante das resistências culturais ao cristianismo e das dificuldades materiais da empreitada evangelizadora.

Em uma carta de 15 de julho de 1559, Manuel de Nóbrega escreveu a Tomé de Sousa pedindo-lhe ajuda para o socorro ao “pobre Brasil”, que padecia de tantas enfermidades.137 Certamente, Nóbrega não se referia apenas à carência material do Novo Mundo – ainda que esta fosse patente nos seus relatos –, mas a outro tipo de pobreza bem explorado nos relatos quinhentistas sobre o Brasil: a pobreza espiritual dos seus habitantes. A América edenizada138 também conviveria, pari passu, com as reais

dificuldades cotidianas de sobrevivência, criação de vilas, estabelecimento do comércio, conquista do sertão e resistências indígenas. Essas intempéries que, de certa forma, eram socializadas entre os mais diferentes estratos também contribuíram para relatos sobre uma terra em sua “infância”, carente, portanto, de bens de civilidade que poderiam ser traduzidos em ideais de comportamento, religião, administração das vilas, organização familiar, linhagem, entre outros.

No século XVIII, ao justificar a primazia franciscana na empreitada da evangelização dos indígenas da América, Jaboatão enfatizava uma ideia corrente sobre os indígenas, que persistiu ao longo dos três séculos de colonização e mesmo durante o século XIX. Segundo o religioso, os indígenas apresentavam uma natural condição de carência e, por isso, os franciscanos “por serem pobres” seriam os mais indicados a converterem os nativos.139 Gabriel Soares de Sousa, já no século XVI, espantara-se com

136 SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a Terra de Santa Cruz... p. 33-117. 137 Cartas e mais escritos do Padre Manuel de Nóbrega... p. 314-354. 138 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso...

139 “assim também determinou o Céu que para a primeira e principal conversão de uns tais pobres como

esses, fossem os primeiros outros pobres os primeiros e com uma tão alta Providência como sua: porque se a semelhança é a causa do amor e as virtudes umas com outroas tem sua simpatia com que respirando influências unem entre si os seus sujeitos; que melhor Pregador para um pobre que outro pobre, e que

52 a falta de ambição dos tupinambás, pois tudo que tinham era “comum a todos os da sua casa”, por isso “têm estes tupinambás uma condição muito boa para frades franciscanos”.140

Se a América se apresentava grande pelo que poderia ser, não há dúvidas de que, na visão dos contemporâneos, era pobre pela ausência de civilidade que cumpriria aos colonizadores sanar. Os indígenas eram o paradigma de uma pobreza que, além de material, era também – e sobretudo – espiritual. Não por acaso, a Misericórdia de Estremoz, em pleno século XVIII, encomendou uma bandeira processional, de autoria anônima, em que a Virgem do manto é representada de braços abertos e debaixo de sua proteção figuram o rei, elementos do povo – entre eles um oriental –, o clero, o papa e outros religiosos. Sob seus pés, onde tradicionalmente eram representados encarcerados, doentes, crianças ou pobres está um índio brasileiro, numa clara alusão à universalidade da proteção mariana, bem como, à pobreza indígena.141 Eram pobres, contudo, não estavam nos planos das Santas Casas de Misericórdia. A tarefa da evangelização restringiu-se, portanto, a ação das ordens religiosas, sobretudo os jesuítas. A missão dessas irmandades leigas delimitou-se a uma espécie bem determinada de pobreza, marcadamente urbana e preferencialmente branca.

Em contraste com essa vida de provações descrita pelos jesuítas, é possível perceber, no outro extremo, o surgimento de uma literatura bem positiva sobre as reais possibilidades de ascensão econômica na nova terra. De origem leiga e menos idealizados, alguns textos do século XVI faziam questão de ressaltar o caráter promissor da colônia, escamoteando as dificuldades de sobrevivência, em prol de uma ocupação integrada. As obras de Gândavo (1576), Gabriel Soares de Sousa (1587) e Ambrósio Fernandes Brandão (1618),142 carregavam um tom mais otimista, nas quais observava-

mais eficaz atrativo para arrastar a uns homens nus de todos os bens da natureza, como era o Gentio do Brasil, do que uns homens despidos e desapossados de todos os interesses do mundo, como os Filhos de Francisco?” JABOATÃO, Antônio de Santa Maria (frei). Novo orbe serafico Brasilico...v. 2., p. 11.

140 SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil... p. 240.

141 Ver GUEDES, Natália Correia (Coord.). Bandeiras das Misericórdias... p. 50.

142 Segundo Carlos Alberto Zeron, as crônicas de Gabriel Soares de Sousa, Ambrósio Fernandes Brandão

e de Pero de Magalhães Gândavo se aproximam na medida em que procuram incentivar as migrações e a institucionalização de uma política econômica colonial: “Mais le principal point de rapprochement entre

les textes de Gabriel Soares de Sousa, d‟Ambrósio Fernandes Brandão et de Pero de Magalhães Gândavo réside en ce qu‟ils ne se constituent pas finalement comme des écrits à caractère proprement historiographique. Ce sont plutôt des histoires naturelles qui intègrent à la description les éléments prospectifs d‟une histoire à faire par les migrations à venir et par l‟institutionnalisation d‟une politique économique de type colonial. L‟intention première et manifeste pour ces trois auteurs est d‟écrire un ouvrage de propagande en faveur de la colonisation du Brésil. Malgré quelques variations dans la forme, la démarche employée dans la composition des trois ouvrages est fondamentalement la même: quelques éléments historiques parsemés ici et là structurent um récit qui se distingue surtout par l‟abondance des

53 se a ideia de uma terra de possibilidades, com reais chances de ascensão para segmentos pouco prestigiados em Portugal, em virtude do nascente e favorável desenvolvimento econômico.

Essas crônicas, em muitas passagens, apresentaram um tom mais programático do que propriamente descritivo, frequentemente sugerindo várias formas de enriquecimento e associando pobreza à falta de empreendedorismo dos colonos. Assim, a América participou de projetos de integração que visavam minimizar as duras condições de vida dos que estavam na Europa. Esses relatos funcionavam como especulações possíveis para mundos diferentes, que demandavam soluções específicas, mas que integravam um vasto império. Além de uma institucionalização da caridade, mais efetiva a partir do século XVII na América portuguesa, os desejos de enriquecimento e evangelização colocaram novas questões para lidar com a noção de caridade e pobreza, invariavelmente afetadas com a descoberta do Novo Mundo e os desdobramentos que se seguiram.

A detração do autóctone não impediu o surgimento de discursos bem otimistas sobre as possibilidades do Novo Mundo como espaço de criação de riqueza, que lembravam os discursos humanistas vigentes na Europa. Todavia, ainda que menos positivo que os humanistas de um modo geral, Gândavo foi importante propagandista das possibilidades da colônia: a América revelava-se progressivamente um local privilegiado de extinção da pobreza material. Escrito entre 1568 e 1569 e publicado pela primeira vez apenas em 1826, o Tratado da Terra do Brasil salientava que uma das razões para escrever o compêndio era a necessidade de divulgar notícias sobre o Brasil em Portugal de modo a incentivar a migração de pessoas pobres:

Minha intenção não foi outra neste sumário (discreto e curioso leitor) senão denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil, para que esta fama venha à notícia de muitas pessoas que nestes Reinos vivem com pobreza, e não duvidem escolhê-la para seu remédio; porque a mesma terra é tão natural e favorável aos estranhos que a todos agasalha e convida como remédio por pobres e desamparados que sejam. 143

Gândavo propunha uma espécie de simbiose de dois mundos, de um lado os pobres poderiam encontrar riqueza e, do outro, a nova terra ganharia população fixa. informations sur les richesses naturelles potentiellement commercialisables du pays et sur ses ressources humaines (discrimination des tribus alliées, état des modalités de commerce entretenues et des formes d‟exploitation du travail indigène, etc.)”. ZERON, Carlos Alberto de Moura Ribeiro. La Compagnie de Jésus et l‟institution de l‟esclavage au Brésil... p. 437-438.

54 Capistrano de Abreu reconheceu o caráter propagandístico nos textos de Gândavo, embora tenha reduzido seu projeto “a mostrar as riquezas da terra, os recursos naturais e sociais nela existentes, para excitar as pessoas pobres a virem povoá-la; seus livros [de Gândavo] são uma propaganda de imigração”.144 De fato, Gândavo ressaltou a tarefa

fundamental de fixar a população para o sucesso do empreendimento português, porque do povoamento consistiria a felicidade e aumento da terra. Contudo, convém ressaltar que seus escritos não eram destinados apenas a uma vulgarização entre os depauperados.145 Era bem pouco provável que a proposta de Gândavo se resumisse a fazer trazer pessoas pobres, sobretudo porque seu projeto era assaz audacioso para ser confiado às mais baixas esferas sociais portuguesas.

Anos antes da sugestão de Gândavo, já em 1549, iniciava-se uma política deliberada para aumentar os degredados que vinham para a América portuguesa, no intuito de fixar localmente a população:

Ordenou o dito senhor, que de hoje em diante se não condenasse pessoa alguma na Casa da Suplicação em degredo para a ilha do Príncipe. E aqueles que por suas culpas, segundo as Ordenações, haviam de ser condenados em degredo para a dita ilha, fossem degredados para o Brasil.146

Trata-se de um pragmatismo que buscava dar utilidade a um conjunto heterogêneo de pessoas, condenados pelos mais diferentes motivos, mas que poderiam servir ao interesse colonizador.147 Progressivamente, o Brasil tornou-se o destino de um grande número de pessoas, nem sempre bem vistas pelos colonos.148

144 Citado em LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gândavo e a ética ultramarina portuguesa... p.

10.

145 Sérgio Buarque de Holanda, sem citar diretamente Capistrano de Abreu, também criticou a ideia de

que os escritos de Gândavo fossem exclusivamente destinados a uma propaganda de imigração: “A estrita obediência, neste ponto, a um esquema fixo e tradicional não impede Gândavo de mostrar-se, muitas vezes, observador imparcial e clarividente. Em escritos como os seus, que já puderam ser considerados uma espécie de „propaganda de imigração‟, não falta mesmo algum dado mais próprio para afugentar do que para atrair forasteiros, como o que trata de um „vento da terra‟, sumamente perigoso e doentio, que „se acerta ficar alguns dias, morre muita gente, assim portugueses como índios‟, e isso justamente na página onde se gaba a insigne bondade de uma região onde os velhos ganham vida longa e como que renovada”. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso... p. 368-369.

146 LIÃO, Duarte Nunes. Leis extravagantes e repertório das ordenações...

147 O império francês também utilizou o mesmo recurso como forma de povoar suas colônias, no entanto,

segundo Gutton, foi um recurso bastante reduzido em comparação ao enclausuramento dos pobres. GUTTON, Jean-Pierre. La société et les pauvres... p. 289-295.

148 Duarte Coelho, por exemplo, era claro sobre sua antipatia a respeito dos condenados. Numa carta ao

rei, pedia que: “acerca dos degredados e isto Senhor digo por mim e por minhas terras e por quão pouco serviço de Deus e de Vossa Alteza é do bem e aumento desta Nova Lusitânia mandar tais degredados como de três anos para cá me mandam, porque certifico a Vossa Alteza e lho juro pela hora da morte que nenhum fruto nem bem fazem na terra, mas muito mal e dano [...] Creia Vossa Alteza que são piores na terra que peste”. ALBUQUERQUE, Cleonir X.; MELLO, José A G. Cartas de Duarte Coelho...

55 Como adverte Geraldo Pieroni, o degredo funcionava como um mecanismo de harmonização social do Portugal continental e, ao mesmo tempo, como elemento disciplinador das populações indesejadas no reino;149 por sua vez, a divulgação feita sobre os potenciais do Novo Mundo certamente não pressupunha uma ocupação exclusiva de degredados e de pobres. Retornando ao texto de Gândavo, não é possível perceber qualquer projeto cuja iniciativa devesse recair exclusivamente sobre o rei. Tratava-se, pelo contrário, de um empreendimento pessoal que deveria prever, pelo menos, condições financeiras de realizar a viagem atlântica.

O retrato idealizado do colono pode ser percebido nas insinuações de Gândavo de que os portugueses poderiam viver bem e sem trabalho, a partir do momento em que fossem adquiridos quatro ou seis escravos, custando a pequena quantia de 10 cruzados cada um. O autor destacava ainda como a presença fulcral de cativos possibilitou novos contornos à América e favoreceu igualmente o nascimento de uma sociedade, por assim dizer, afeita aos princípios de caridade e solidariedade, porque à custa de seus cativos os colonos poderiam fazer outras muitas obras pias:

Estes moradores todos pela maior parte se tratam muito bem, e folgam de ajudar uns aos outros com seus escravos, e favorecem muito os pobres que começam a viver na terra. Isto geralmente se costuma nestas partes, e fazem outras muitas obras pias, por onde todos têm remédio de vida, e nenhum pobre anda pelas portas a mendigar como nestes Reinos.150

Enquanto a mendicância era uma das grandes mazelas das sociedades europeias do início da época moderna, do outro lado do Atlântico, certos relatos exaltaram a América por sua natureza e salubridade exuberantes. Provavelmente, o cotidiano calamitoso das populações europeias contribuiu para realçar formulações positivas sobre as possibilidades da terra. Editado em Lisboa, em 1576, quando a presença da peste permanecia viva entre os portugueses, o História da Província de Santa Cruz de Gândavo tornava público aos contemporâneos os benefícios da viagem atlântica. Ao contrário do manuscrito que permaneceu desconhecido de muitos até 1826, o História deu a Gândavo o reconhecimento régio devido: em um alvará régio de 29 de agosto de 1576, o autor foi promovido a provedor da fazenda da capitania do Salvador da Bahia de Todos os Santos.151

149 PIERONI, Geraldo. No purgatório mas o olhar no Paraíso...

150 GÂNDAVO, Pero Magalhães. História da província de Santa Cruz... p. 15v 151 CURTO, Diogo Ramada. Cultura imperial e projetos coloniais... p. 232.

56 De teor menos idealizado que o manuscrito, a publicação guardava um recuo significativo em relação à condição utópica dos portugueses no Novo Mundo:

E a primeira coisa que pretendem adquirir são escravos para nelas lhes fazerem suas fazendas e se uma pessoa chega na terra a alcançar dois pares, ou meia dúzia deles (ainda que outra coisa não tenha de seu) logo têm remédio para poder honradamente sustentar sua família: porque um lhe pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultivam e granjeiam suas roças e desta maneira não fazem os homens despesa em mantimentos com seus escravos, nem com suas pessoas.152

Menos magnânimos que sugeria o Tratado, os colonos conseguiriam viver “honradamente” à custa do trabalho escravo. É interessante perceber a função capital do trabalho indígena como forma de engrandecimento da fazenda e da honra pessoal dos colonos. Ainda que de forma mais discreta não deixam de ser notórias e igualmente atrativas as referências de se conseguir cativos na nova terra, possibilitando uma vida mais digna aos que tinham condições nada fáceis em Portugal. Some-se a isso, as referências ao suposto Eldorado de minas de ouro, situado no interior do Brasil, que cumpriria aos colonos descobrir.

Diogo Ramada Curto sugere que a mudança de tom entre os dois textos de Gândavo tenha surgido a partir de uma censura jesuíta ao Tratado, que se apresentava em defesa dos interesses dos colonos em detrimento dos inacianos. Essa afirmação pode ser atestada no tratamento diferenciado dado aos jesuítas nas duas obras: as avaliações apáticas presentes no manuscrito deram lugar a um capítulo exclusivo sobre a atuação da Companhia de Jesus.153 Essa observação ajuda também a compreender a associação menos enfática da escravidão e magnanimidade dos colonos, uma vez que àquela altura o trabalho compulsório ainda seria marcadamente indígena.

Em 1587, foi a vez do português e senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa publicar seu Tratado Descritivo do Brasil. Gabriel Soares aportara na Bahia por volta de 1569 e construíra uma pequena fortuna como senhor de engenho. Depois de permanecer no Brasil por dezessete anos, voltou a Portugal por causa de uma herança deixada por seu irmão, o sertanista João Coelho de Sousa. A redação final do Tratado Descritivo foi feita em Portugal e relatou o primeiro período de Soares de Sousa no Brasil, momento em que buscava mercês junto à coroa espanhola. Em 1591, embarcou novamente para a América, com licenças régias para adentrar o sertão numa expedição em busca de minas. A publicação do Tratado Descritivo pode ser compreendida como

152 GÂNDAVO, Pero Magalhães. História da província de Santa Cruz... p. 15v 153 CURTO, Diogo Ramada. Cultura imperial e projetos coloniais... p. 229-256.

57 uma tentativa de alcançar mercês régias, fornecendo informações sobre a nova terra. O relato, tal como o de Gândavo, procurava deixar claro a potencialidade da nova terra:

É esta província mui abastada de mantimentos de muita substância e menos trabalhosos que os de Espanha. Dão-se nela muitas carnes, assim naturais dela, como das de Portugal, e maravilhosos pescados; onde se dão melhores algodões que em outra parte sabida, e muitos açúcares tão bons como na ilha da Madeira. Tem muito pau de que se fazem as tintas. Em algumas partes dela se dá trigo, cevada e vinho muito bons, e em todas todos os frutos e sementes de Espanha, do que haverá muita qualidade, se Sua Majestade mandar prover nisso com muita instância e no descobrimento dos metais que nesta terra há, porque lhe não falta ferro, aço, cobre, ouro, esmeralda, cristal e muito salitre; e em cuja costa sai do mar todos os anos muito bom âmbar; e de todas estas e outras podiam vir todos os anos a estes reinos em tanta abastança, que se escusem os que vêm a eles dos estrangeiros, o que se pode facilitar sem Sua Majestade meter mais cabedal neste Estado que o rendimento dele nos primeiros anos.154

Repete-se a ideia de que a realidade da terra poderia ser substancialmente incrementada a partir das potencialidades que cabiam ao rei incentivar e aos colonos desenvolver. Tal como advertia Manoel Correia de Montenegro, em seu Libro quinto de los reyes naturales de Portugal, escrito no século XVI, era fundamental povoar, criar novas cidades e fortalezas, criando-se uma Nova Lusitânia ou Novo Portugal.155 As

descrições de Gabriel Soares de Sousa não fugiam do tom animador sobre as terras americanas. Sobre Olinda, revela:

É tão poderosa esta capitania [de Pernambuco] que há nela mais de 100 homens que têm de mil até cinco mil cruzados de renda, e alguns de oito, 10 mil cruzados. Desta terra saíram muitos homens ricos para estes reinos que foram a ela muito pobres, com os quais entram cada ano desta capitania quarenta e cinquenta navios carregados de açúcar e pau-brasil.156

Em Diálogos das Grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão,

Benzer Belgeler