Em uma análise retrospectiva, verifica-se que o direito recebe influências sociais, econômicas, religiosas e também, de construções jurídicas precedentes. Tal como a antiga legislação romana que voltou a ser estudada e utilizada na Idade Média, especialmente nas primeiras universidades, o direito anglo-saxão do século XII ao XVII contribuiu para a formação e evolução de institutos e princípios jurídicos ainda empregados atualmente sejam nos países de common law ou nos Estados seguidores do direito romano-germânico.
Como uma pequena digressão, tem-se que o direito medievo da Grã-Bretanha desenvolveu normas jurídicas que hodiernamente são de grande relevância. É possível relacionar o surgimento dessas regras e princípios inicialmente na Grã-Bretanha ao seu pioneiro processo de construção do Estado. Foi necessário ao rei Henrique II valer-se das armas para buscar a unificação da Inglaterra. Mas não somente a força foi empregada na formação do Reino da Inglaterra: o direito tornou-se elemento essencial para a unificação. Com o firme propósito de construir um Estado, o monarca determinou leis comuns ao reino e nomeou juízes aos tribunais.8
Do direito anglo-saxão destacam-se as normas decorrentes do princípio do devido processo legal. Dada sua relevância, o exame de princípios de direito processual perpassam obrigatoriamente por este direito.
De plano é cabível asseverar que as normas processuais foram concebidas primeiramente tendo como alvo o direito penal. As penas de morte e de prisão em razão de sua gravidade estimularam a produção de normas que pudessem melhor regulá-las e afastar o caráter de arbitrariedade que em várias épocas da história da humanidade se constatou. Mais tarde, tais regras e princípios foram considerados de direito processual ou de teoria geral do direito processual, aplicando-se tanto ao direito processual penal quanto ao direito processual civil e, no momento presente, devem ser estendidas no que couberem ao direito processual coletivo a partir de uma perspectiva de espécie autônoma deste direito.
O Chefe de Justiça Warren, dos Estados Unidos da América (EUA), ao julgar o caso Klopfer v. North Carolina no ano de 1967, assinala que a primeira indicação de norma sobre o julgamento rápido (speed trial) teria se dado em 1166 com a Assize of Clarendon na
Inglaterra.9 Em Clarendon, o Rei Henrique II determinou que o julgamento fosse realizado por um júri, além de exigir que não se detivesse o preso por muito tempo sem o devido julgamento.10É importante salientar que este documento não continha expressamente o direito ao speed trial, embora estivesse presente o intuito de não se deixar o preso detido por tempo demasiado, o que faz situar o Assize of Clarendon como precursor do princípio ora estudado e não como primeira declaração deste direito fundamental dentro do direito anglo-saxão.
Nessa linha de pensamento, o direito a ter um julgamento sem retardo foi efetivamente concebido na Magna Carta de 1215.11 Como salientado no primeiro capítulo, esta não foi a primeira entre as cartas forais, mas por ter influência no direito contemporâneo, mormente na Constituição dos Estados Unidos da América, ganhou destaque e passou a ser um dos documentos mais conhecidos e analisados no mundo.
João sem terra, filho de Henrique II e irmão de Ricardo Coração de Leão, impôs altos impostos aos nobres. Ao mesmo tempo em que apresentava desavenças com os nobres, havia se indisposto com o papado, além de perder grande parte de seus feudos para a França.12 Como medida para não esvair seu poder e colocar em jogo o reino, procurando arrefecer os ânimos da nobreza e do clero, João foi compelido, após vários dias de negociação, a subscrever a Magna Carta.
Eis que surgia, neste contexto, a Magna Carta, a qual representava uma limitação aos poderes do rei e possuía vigência somente perante o primeiro (clero) e segundo (nobreza) estamentos sociais. Em outras palavras, significa que não eram direitos conferidos a totalidade da população.13 Por esta razão, é atribuído um “caráter contratual” a esta Carta Foral.14
A Magna Carta passou por diversas modificações e ratificações dos monarcas ao longo do tempo e, em 1297, transformou-se em lei.
9 CALHAO, Antônio Ernani Pedroso. Justiça célere e eficiente: uma questão de governança judicial. São
Paulo: LTr, 2010. p. 129.
10 Texto completo: HENRIQUE II. Assize of Clarendon. 1166. (The Avalon Project: medieval documents, 400-
1399). Disponível em: <http://avalon.law.yale.edu/medieval/assizecl.asp>. Acesso em: 10 jun. 2013.
11 Escrita em latim recebeu uma longa designação de Magna Charta Libertatum seu Concordian inter regem Johannen at barones pro concessione libertatum at ecclesiae et regni angliae.
12 CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e Brasil. 8. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010. p. 183. 13 “O valor da Magna Carta é restrito à sua obtenção mesma: o interesse baronial, contra o despotismo do rei, tal
a razão de ser do ato de 1215. Não se lhe peça concepção do ‘homem como titular de direitos’.” MIRANDA, Pontes de. História e prática do habeas-corpus: direito constitucional e processual comparado. 8. ed. corrigida e melhorada. São Paulo: Saraiva, 1979. v.1. p. 22.
14 ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. Brasília, DF: Brasília
Duas são as cláusulas que se relacionam com a duração razoável do processo, podendo ser apontadas como antecessoras deste princípio, embora em seu original o documento não tenha sido dividido em cláusulas ou artigos. A cláusula 29 é considerada como positivação do próprio acesso à justiça, a saber:
(29) Nenhum homem livre deverá no futuro ser detido, preso ou privado de sua propriedade, liberdade ou costumes, ou marginalizado, exilado ou vitimizado de nenhum outro modo, nem atacado, senão em virtude de julgamento legal por seus pares [júri popular] ou pelo direito local. A ninguém será vendido, negado ou retardado o direito à justiça.15
Da leitura da cláusula colacionada nota-se que há uma clara enunciação do direito a obter justiça, facultando o ingresso da demanda e evitando a postergação de sua prestação. Verifica-se ainda que não existe qualquer indicação de prazo para a prestação da justiça, mas tão somente há enunciação que o direito à justiça não deve ser retardado. Esta declaração possuía a finalidade de impedir que o monarca interferisse em litígio de interesse da nobreza e do clero, postergando-o,16 ou seja, a cláusula não confere um julgamento rápido às duas classes privilegiadas; ela busca, pois, unicamente evitar que o rei se imiscuísse nas contendas. Desse modo, “o soberano concordou em não fazer uso de repetidos atrasos processuais como forma de negar o direito de alguns jurisdicionados.”17
15 Tradução para o português de ANNONI, Danielle. O direito humano de acesso à justiça no Brasil. Porto
Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2008. p. 77.
16 CALHAO, Antônio Ernani Pedroso. Justiça célere e eficiente: uma questão de governança judicial. São
Paulo: LTr, 2010. p. 131.
17 ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. Brasília, DF: Brasília
A segunda cláusula que se tornou precursora do direito ao julgamento rápido ocorreu na extensa cláusula 61.18 Esta disposição impunha ao rei o prazo de 40 (quarenta) dias, contados da apresentação da queixa ao soberano ou a seus juízes para corrigir violações à Magna Carta, sob risco dos nobres penhorarem seus bens.
Enquanto a cláusula 29 exigia uma abstenção do monarca com vistas a evitar sua interferência em processos dos barões e do clero, a cláusula 61 determinava que o rei apresentasse um comportamento positivo no sentido de resolver os problemas trazidos por estas classes.19
Atualmente ainda possuem vigência na Grã-Bretanha três cláusulas da Magna Carta de 1297,20 dentre elas a Cláusula 29, ponto de partida para a concepção do direito à duração razoável do processo, embora naquela época não houvesse a prevalência da mescla entre a razoabilidade e a dimensão temporal. Como se pôs outrora, a ideia era meramente que não houvesse uma postergação indefinida do julgamento.
A apreensão sobre a morosidade na condução dos processos sobre presos esteve presente na elaboração do Habeas Corpus Act, datado de 1679. A necessidade deste documento foi descrita já em seu exórdio, o qual informava que delegados, carcereiros e
18 “Cláusula 61. Considerando, ademais, que foi para glória de Deus e melhoria do nosso reino e para apaziguar
a discórdia que surgiu entre nós e nossos barões que garantimos tudo o que acima ficou mencionado; desejando que eles possam fruir disto de modo íntegro e completo para sempre, outorgando-lhe a garantia a seguir, a saber, que os barões escolherão vinte e cinco dentre eles, os quais devem, com todo o seu poder, observar, manter e fazer com que sejam observadas a paz e as liberdades que lhes garantimos e confirmamos pela presente carta, de tal maneira que se nós, ou nossos juízes, bailios, ou qualquer de nossos servos transgredir qualquer destas cláusulas de paz e segurança, a transgressão for notificada a quadro dos supramencionados vinte e cinco barões, esses quatro barões virão à nossa presença, ou perante os nossos juízes se estivermos fora do reino e, expondo a transgressão, requererão que ela seja imediatamente corrigida. E se não a corrigirmos, ou estivermos fora do reino e nossa justiça não a corrigir dentro de quarentas dias, [...] os mencionados barões exporão a causa aos restantes daqueles vinte e cinco barões, e estes, juntamente com a comunidade da terra (communa tocius terre), poderão embargar-nos ou atacar-nos por todas as maneiras ao seu alcance, notadamente, pela penhora de castelos, terras e propriedades, por todos os meios possíveis, sem prejuízo da incolumidade de nossa pessoa e das pessoas de nossa rainha e de nossos filhos, até que, segundo seu parecer, tenha sido reparado o mal; e assim que tenha havido a reparação, eles obedecer-nos-ão como antes. E qualquer pessoa nesta terra poderá jurar obedecer às ordens dos vinte e cinco barões e juntar-se a eles para nos atacar, e damos pública e plena liberdade a quem que seja para assim agir [...].” Tradução em: COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 6. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 86-87.
19 ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. Brasília, DF: Brasília
Jurídica, 2006. p. 33.
20 UNITED KINGDOM. Magna Carta. 1215. Disponível em: <http://www.legislation.gov.uk/aep/Edw1cc1929/
outros oficiais utilizavam-se de grande atraso na devolução do writ de habeas corpus de prisioneiros.21
Seguindo uma característica que se vai revelar típica da tradição anglo-saxã, esta eficácia identifica-se logo com a célere tramitação do procedimento. É correto afirmar, portanto, que o Habeas Corpus Act surge para consolidar o writ, limitando a arbitrariedade própria das autoridades de então. Mas esta consolidação se exterioriza também, e principalmente, através da garantia de que este instrumento jurídico-processual será analisado em tempo reduzido sempre que submetido à apreciação judicial. Morosidade e eficácia jurídica do processo são expressamente antagonizadas.22
A partir do estudo dessas leis da Grã-Bretanha, infere-se que a morosidade judiciária era vigente, notadamente em processos que envolviam réus presos. Com o fim de empreender uma maior efetividade dos direitos e garantias desenvolvidos naquele tempo, buscava-se impedir que houvesse postergações nos trâmites judiciais.
Apesar de influenciar na prestação da tutela jurisdicional, não houve, neste direito, expressa menção ao direito da duração razoável do processo ou mesmo a uma celeridade processual.23