2.1. Sosyal medya kavramı
2.1.1. Sosyal Medyanın tanımı
A conotação que repórteres e redatores do Jornal Pequeno dão à palavra “linchamento” adquire variedade. Além de ser utilizada para abarcar uma pluralidade de fenômenos, conforme destacado no capítulo 2, as valorações atribuídas à terminologia estão embebidas de preconceitos.
Uma tendência percebida no discurso dos repórteres, já comentada no referido capítulo, é a de dar uma espécie de teleologia às ações de justiçamento coletivo. A execução do “linchado” aparece como única finalidade das agressões. A própria utilização da palavra “linchamento” só seria cabível quando do assassinato de sua vítima. Os demais casos seriam, para esses profissionais, apenas “tentados”.
O esquema de simplificações que procura tornar inteligível o fenômeno dos justiçamentos coletivos (fala do crime) atrela-se a aspectos sociais. Nesse sentido, as causas dos “linchamentos” estariam ligadas principalmente a problemas gerados pela deficiente atuação estatal. O precário oferecimento de serviços como saúde, segurança, moradia e educação, geraria, para os profissionais entrevistados, uma insatisfação e, por conseguinte, a eclosão dos justiçamentos.
Esse esquema de explicação é recorrente na fala do editor-chefe:
Acho que os linchamentos são mais uma insatisfação popular. É uma manifestação daquilo que a pessoa, o grupo, a comunidade, tava querendo acabar. Então ela não teve respaldo [...], não teve a viatura da polícia lá no canto, não teve como coibir o abuso, o roubo ou coisa assim. E aí o quê que se faz: juntam-se três, quatro, cinco, seis [...]. A partir do momento que se dá uma voz de comando, em uma área dessas, “pega, pega...” corre todo mundo [...]. A insatisfação da sociedade é que tá levando a esse tipo de atitude, querer fazer justiça com as próprias mãos, pois ela se sente desprotegida pelo poder público, que tinha obrigação de dar essa segurança, essa proteção. É a CEMAR [Companhia Energética do Maranhão] que não bota luz, é a falta de infra-estrutura, rua mal iluminada, sem calçamento, áreas desertas, locais ermos, tudo isso facilita a ação dos marginais.
[...]
O linchamento decorre da falta do Poder Público, não é mais do que isso. A comunidade se sente desprotegida porque não tem a polícia lá perto para lhe dar proteção [...]. A comunidade quer tomar as leis nas mãos porque sente a ausência do Poder Público, da polícia, do Estado, da CAEMA [Companhia de Águas e Esgotos do Estado do Maranhão], de infra-estrutura (ENTREVISTADO 01, grifei).
Reproduz-se, na fala dos agentes sociais envolvidos na produção de notícias do Jornal Pequeno, a idéia da violência como uma “questão de autoridade” (CALDEIRA, 2000, p. 90). Esses profissionais acham que o crescimento de fenômenos como os “linchamentos” é um sinal de uma “autoridade fraca”. Seja ela da escola, da família, da Igreja, do Governo, da polícia ou do Poder Judiciário.
A violência é tida como algo dotado do poder de se espalhar facilmente, espraiando-se e impregnando-se onde as autoridades responsáveis pela “contensão do mal” sejam fracas. Nessa acepção, há o estabelecimento da analogia entre violência e uma doença contagiosa. Ela (a violência) seria “viral”, pois “opera por contágio, por reação em cadeia, e destrói pouco a pouco todas as nossas imunidades e a nossa capacidade de resistência” (BAUDRILLARD, 2003, p. 56-57).
A legitimidade dos justiçamentos, no discurso dos profissionais do periódico, passaria então pela problemática do “contagio do mal”.
Uma conseqüência importante dessa teoria do contágio e do fracasso das autoridades em controlar o mal é que as pessoas intensificam suas próprias medidas de encerramento e controle, de separação e construção de barreiras, tanto simbólicas [...] como materiais [...]. Além disso, eles tendem a apoiar medidas privativas de proteção que são violentas, ilegais, tais como a ação de justiceiros e os abusos da polícia (CALDEIRA, 2000, p. 90).
Nessa lógica, pessoas em uma “posição enfraquecida” (leia-se “pobres”), que não podem lutar adequadamente contra as conseqüências ocasionadas pela atuação deficiente do Estado, correm o risco de serem “contaminadas pelo mal”, e de principiarem atuações violentas como reação à própria violência.
A tentativa de se atrelar o “sentido” dos “linchamentos” ao enfraquecimento da autoridade estatal, definindo-os mesmo como reação à deficiente atuação (ou mesmo omissão) do Estado, fundou, em meu entendimento, a tradição de se interpretar tais ações como uma forma de punição que não só difere, mas que se opõe à ação repressiva estatal. Os
justiçamentos coletivos não seriam nada além de um sintoma da crítica à ordem oficial. Nessa perspectiva, os trabalhos de Jacqueline Sinhoretto e José de Sousa Martins:
Ele [“linchamento”] denuncia a existência de um grupo social que está descontente com o funcionamento do sistema de justiça e com a condução das políticas públicas de segurança, instauradoras de desigualdade. A pouca legitimidade do Judiciário e dos canais oficiais de contestação pode ser lida como um dissenso em relação aos valores cristalizados nas instituições (SINHORETTO, 2002, p. 67).
A violência dos linchamentos só pode ser compreendida nessa perspectiva, na medida em que se trata de uma segunda violência e não de uma primeira, isto é, trata-se de uma violência-resposta à violência urbana. Nesse sentido, os linchamentos encerram uma crítica prática às instituições e à lei, que se expressa na associação entre o comunitarismo dos grupos de linchadores com o ataque às delegacias para seqüestrar presos e executá-los (MARTINS, 1996, p. 22-23). Dessa forma, a principal causa da eclosão dos “linchamentos”, nos discursos analisados no Jornal Pequeno, esteve relacionada à “ausência do Estado”, ou a sua presença enfraquecida.
Como derivação lógica dessa idéia, a única solução da problemática (“linchamentos”) estaria no fortalecimento do aparelho repressivo estatal e na melhora de sua atuação cotidiana no combate à criminalidade.