2.2. Sosyal Medya ve Toplum
2.2.3. Ağ Toplumu
Duas representações que perpassam o discurso presente no Jornal Pequeno se ligam às idéias de que a punição do criminoso é algo vital ao ciclo do crime e à de que a criminalização (oficial) de condutas sociais produz imediatas conseqüências no mundo fenomênico.
Os esquemas simplificados de “explicação” do crime o insere dentro de um “ciclo”. Na interpretação cíclica da violência, as causas e conseqüências dos delitos poderiam ser de antemão identificadas (MELLO, 1998, p. 90). Dentre os elementos que possibilitariam o “fechamento” desse ciclo está a punição do criminoso.
A impunidade, ou seja, a ausência de punição ao criminoso, deixa o ciclo “em aberto”, o que gera, por sua vez, a propagação (“contágio”) da violência através de outros delitos. A pena aparece, portanto, como algo sagrado, que tem a capacidade de pôr fim ao espraiamento da violência, pondo termo a uma série de acontecimentos (criminosos).47
Assim, a criminalização de condutas, ou seja, seu reconhecimento enquanto delito pelo Direito Penal, possibilitaria a punição de indivíduos que executam ações criminosas. A tipificação penal aparece como algo provedor, pois é fator essencial ao aparecimento (necessário) da pena.
Na mesma interpretação, qualquer elemento que ocasione a descriminalização e, por conseguinte, o enfraquecimento do poder punitivo do Estado, deve ser prontamente combatido. A confecção de projetos de lei com vistas a extinguir a tipificação de determinada conduta, por exemplo, apareceria sempre como ação desarrazoada, despida de qualquer lógica.
A gente fica até calado, porque já querem tirar o seqüestro seguido de morte do rol de crimes hediondos [...]. Agora veja bem a cabeça desses parlamentares: como é que pode reduzir a pena [ênfase]?! Transformar um crime que foi criado por eles mesmos em um crime mais ameno? (ENTREVISTADO 01, grifei).
Não só a descriminalização, mas qualquer atuação estatal que afaste a pena como conseqüência necessária do ato criminoso, deve, segundo esse discurso, ser criticada. Nesse aspecto, a opinião do editor-chefe do Jornal Pequeno sobre os recursos judiciais (“facilidades”) disponibilizados a acusados de delitos:
Às vezes a gente vê reclamações erradas:“Ah, Fulano matou o outro e o outro todo tempo passa na porta dele”, se eles são vizinhos. Vai ver que ele não foi preso em flagrante. Ele só pode ser preso por uma determinação judicial. Aí vai o advogado e diz “não, ele trabalha no Estado, trabalha não sei aonde... mora lá, não vai se mudar, não vai prejudicar, pois não tem poder para prejudicar as investigações, nem
47 A idéia de que os justiçamentos não-estatais produzem “ciclos de violência”, bem como de que a autoridade estatal possibilitaria o término deste ciclo, está presente em trabalhos como o de Teresa Caldeira (2000, p. 205), para quem as “formas privadas de lidar com o crime [...] inauguram um ciclo de vingança privada na qual se responde à violência com mais violência e no qual não há mais uma autoridade legítima que possa conter essa reprodução da violência”, bem como no de Jacqueline Sinhoretto (2002, p. 189), ao conceber que “a assunção por parte do Estado da execução da vingança impossibilita a retaliação por parte do grupo do agressor [...] e trás um freio à sucessão interminável de execuções privadas motivadas por vingança. Quando o Estado executa a punição de alguém, põe um ponto final no conflito”.
para corromper as testemunhas”. Então pronto, o juiz não decreta [a prisão]. Entendeu? E o vizinho “não, a culpa é da polícia que não prendeu [...]”. E por aí vai... essas histórias são inúmeras (ENTREVISTADO 01).
Ações alternativas ou complementares à atuação estatal, que de alguma forma acarretem a punição de criminosos, deveriam ser creditadas. Os “linchamentos”, em particular, são interpretados positivamente. Não são identificados como atos de injustiça, pois não seriam nada além do que “julgamentos sumários”, imediatos, de condutas sociais reprováveis. Não se confundindo com a ausência de julgamento.
A idéia dos atos de justiça coletiva como “julgamentos”, como condenação e execução de uma “pena popular”, ganha forma no texto das reportagens pesquisadas através de expressões que aproximam essas ações (“linchamentos”) de um acordo coletivo de vontades, pronto a decidir qual a “justa” conseqüência de um ato tido como reprovável.
O relato dado pelo jornal ao homicídio do eletricista Waldemar Batista Mendes pelo policial militar João Francisco Lima, na Vila Passos, exemplifica a idéia: “o crime revoltou os moradores do bairro, que condenaram a forma estúpida e brutal pela qual foi morto o eletricista, [...] após uma rápida e ríspida discussão. O linchamento foi inevitável” (ASSASSINATO, 2002, p. 10, grifei).
Assim, a “autoridade” conferida aos “linchamentos”, no discurso aqui analisado, passa pela noção de que tais práticas asseguram a punição de “criminosos” e, por conseguinte, “fecham o ciclo do crime”, tão necessário ao restabelecimento da harmonia social.
Diante do exposto, e como já destacado na parte introdutória do trabalho, as formas discursivas que perpassam, na página policial do Jornal Pequeno, a idéia de “linchamento”, relacionam-se diretamente com representações acerca de outros fenômenos.
Crime, justiça, pena, violência, vingança, nesse sentido, são noções que vão possibilitar a valoração dos justiçamentos coletivos, uma vez que tais fenômenos (justiçamentos) não se encontram desencaixados de outras “imagens” cuja dinâmica possibilita a construção de “opiniões sobre algo”.
Para narrarem/interpretarem os “linchamentos”, os profissionais responsáveis pelas notícias do Jornal Pequeno devem, antes de qualquer coisa, relacionar tais práticas com a própria forma como concebem a “ordenação social” em que vivem, notadamente no que tange à violência.
As implicações de tal discurso, a meu ver, são inúmeras. O que priorizarei no próximo capítulo é a relação existente entre as diversas representações sobre o crime e a violência e o processo de naturalização dos justiçamentos coletivos na fala dos profissionais do Jornal Pequeno. Antes, aprofundarei ainda a interpretação que tais agentes sociais conferem às ações dos diferentes sujeitos envolvidos nos “linchamentos”.
6 A (RE)PRODUÇÃO DA ALTERIDADE E A NATURALIZAÇÃO DOS ATOS DE