• Sonuç bulunamadı

De acordo com Angela de Castro Gomes, projetar um novo Estado é buscar sua legitimidade, isto é, incursionar por sua origem, por seus inícios revolucionários. Um novo princípio não se faz sem história, pois o traçado da origem é também uma volta ao passado. Por isso, segundo a autora, construir um novo modelo de Estado é também reescrever a história do país, é debruçar-se sobre o passado naquele sentido mais profundo em que ele significa tradição e suspensão, permanência do tempo.

A história do Território Federal de Ponta Porã não é isenta de passado. Anteriormente às discussões referentes às preocupações com a unidade territorial do país e ao projeto de integração nacional do Estado Novo, vimos que existiam estudos envolvendo o próprio traçado do mapa brasileiro. A principal preocupação era em relação à extensa área do país, que gerava debates sobre a sua possível redivisão político-administrativa. Da mesma forma, recorreu-se ao passado para justificar e legitimar a campanha política da “Marcha para Oeste” do regime. Ora eram feitas reflexões acerca do passado colonial do Brasil, como sendo elemento determinante para a elaboração das políticas que mediaram a redivisão territorial, ora se ressignificava o movimento das bandeiras, ao buscar no passado elementos, que possibilitassem uma continuidade com a ação da “Marcha para Oeste” no século XX, incentivando a colonização rumo ao oeste brasileiro.

Todas as reflexões desenvolvidas ao longo deste estudo devem ser entendidas a partir da lógica do projeto de nacionalização de fronteiras e da “Marcha para Oeste” do regime estadonovista, assim como a criação do Território Federal de Ponta Porã. Deslocada de seu contexto, esta política de criação de unidades federativas de administração in loco faz pouco, ou nenhum sentido.

Na prática, a criação do Território Federal de Ponta Porã não alcançou a totalidade de seus objetivos precípuos de “povoar, educar e sanear” a região em que se situava; em verdade, o breve período de sua existência foi insuficiente para o desenvolvimento de muitas atividades almejadas pela sua administração. Entretanto, é possível afirmar que a criação desse Território é parte importante do processo de colonização e nacionalização de fronteiras do sul de Mato Grosso.

definitiva da faixa fronteiriça, com o intuito de romper o isolamento e afastar definitivamente o perigo estrangeiro, para alcançar a soberania nacional. Embora não se tratasse de um perigo de invasão, propriamente dito, por parte dos países vizinhos, entendia-se que o perigo se dava, sobretudo, em decorrência do abandono em que se encontrava aquela região de fronteira do Brasil com o Paraguai. A imagem que se tinha em relação à região mato-grossense durante o governo Vargas foi relevante para a forma como se projetou e encaminhou a criação do Território Federal de Ponta Porã ali.

Mostramos que só é possível entender o processo de derrocada do “império” constituído pela Cia. Mate Laranjeira ao longo dos cerca de cinquenta anos de sua atuação na região, a partir do contexto da política de nacionalização de fronteiras do Estado Novo. A “Lei dos dois terços”, “Lei de fronteiras” e as taxações sobre a erva cancheada inaugurariam uma série de medidas que, a cada vez mais, foram minimizando o poderio exercido pela empresa ervateira na região.

Essas medidas desembocaram na anulação do contrato de arrendamento das terras devolutas da Cia. Mate por parte do Estado Novo. Entretanto, vimos que tal iniciativa, por si, não foi suficiente para acabar com as atividades desenvolvidas pela empresa no período. Apesar de liberar, oficialmente, as terras devolutas até então arrendadas, para serem concedidas aos posseiros e colonos que ali estivessem instalados ou viessem a se instalar, na prática, a empresa continuou exercendo as suas atividades na região até o término do regime ditatorial varguista.

O fim do contrato da Cia. Mate só foi o início de um processo que deu subsídios legais ao cerceamento da atuação da empresa. Nesse contexto, notamos, também, que o governo do Estado Novo teve uma atitude versátil em relação às negociações feitas ao longo desse processo, exercendo papel de mediador de conflitos, porém sem deixar de tornar predominante a sua vontade.

Notamos, ainda, que diante da possibilidade de ter o seu contrato anulado, a Companhia Mate Laranjeira se viu na necessidade de articular o seu discurso com os ideários do regime estadonovista, sobretudo em relação ao imaginário construído em torno da campanha da “Marcha para Oeste”. O discurso da empresa teve de dar conta da política de nacionalização e colonização do Estado Novo, preservando, ao mesmo tempo, a organização da própria Companhia.

Concluiu-se que foi através da submissão da Cia. Mate à fiscalização direta do Governo Federal, por meio da criação do Território Federal de Ponta Porã, instituído nas principais áreas de arrendamento da Companhia, que o governo consolidou o seu poderio. Reconhece-se, contudo, que se fazem necessárias investigações mais profundas acerca de como ficou a

situação da Cia. Mate Laranjeira durante o período de existência do Território de Ponta Porã, não investigada na sua completude neste trabalho.

Percebemos que, apesar de o Território Federal de Ponta Porã ter sido criado em 13 de setembro de 1943, o seu processo de instalação só se deu em fins de 1944, e suas atividades executadas, principalmente, durante o ano de 1946. Antes disso, o período foi caracterizado por estudos e elaboração de planos e metas, além do processo de instalação das seções e unidades administrativas do Território. Notou-se também que, por ter tido um período breve de existência, muita coisa “ficou por fazer”. Sobre isso, inclusive, reconhece-se que é necessária uma investigação mais profunda sobre como se encaminharam e permaneceram as atividades depois da extinção do Território na região.

Por limitações de tempo e espaço, infelizmente não foi possível analisarmos o período de existência do Território de Ponta Porã a partir de outras fontes, que não fossem os documentos oficiais da sua administração. Por exemplo, os periódicos do período, que com certeza trariam algumas informações de como foi recebida, pela população do Território, a criação do mesmo. Reconhecemos que essa investigação é mais do que necessária e traria contribuições significativas para as reflexões iniciadas neste estudo.

Sobre a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, destaca-se o fato de o governo federal, num primeiro momento, ter solicitado ao governo mato-grossense a liberação de uma área para a criação da CAND, o que foi negado por ele. Diante do indeferimento, o governo federal, fazendo uso das prerrogativas que o Estado Novo lhe proporcionava, criou o Território de Ponta Porã, e nas áreas que o abrangiam a Colônia Agrícola Nacional de Dourados. Dessa forma, a CAND também significou a concretização da vontade de colonizar a região, por via do estímulo à formação de pequenas propriedades, estabelecendo ali os poderes diretos da União. Na prática, entretanto, vimos que à criação da CAND somavam-se atrasos na distribuição de terras, falta de planejamento por parte de sua administração, demarcação de terras pelos próprios migrantes e comercialização, hipoteca e arrendamento ilegal das terras, disseminando tensões e conflitos entre os colonos.

Os colonos foram elementos fundamentais para a ocupação e nacionalização das fronteiras entre o Brasil e Paraguai. A ação decisiva dessas novas povoações, ainda que tardia em relação ao período aqui estudado, foi importante para que o projeto da “Marcha para Oeste” se concretizasse, pois foram eles que enfrentaram o desconhecido, a distância e a falta de infraestrutura para reorganizar a vida na área da CAND, e de certa forma, iniciar as atividades econômicas que impulsionaram o desenvolvimento sul-mato-grossense. Atualmente, a região se caracteriza como grande produtora de grãos, com predomínio de pequenas e médias

propriedades, embora também existam ali grandes empresas agropecuárias, que produzem com alta tecnologia.

Em relação à extinção do Território Federal de Ponta Porã, como dito, a análise apresentada é uma parte do que esse processo se constituiu como um todo.

De qualquer forma, algumas reflexões feitas ao longo do processo, e não necessariamente desenvolvidas no trabalho, valem ser mencionadas. 1) As relações de bastidores que cultivavam os representantes de Mato Grosso na Assembleia Constituinte, e também suas relações com as elites mato-grossense. 2) Por que a bancada mato-grossense no governo era a favor da extinção? E mais algumas questões: Quais os interesses que existiam por trás do apoio à supressão do Território? Até que ponto o imperativo da ordem e da defesa nacional foi relevante como argumento pró-permanência do Território Federal de Ponta Porã? E até que ponto a “ausência do imperativo” era justificável para determinar a extinção? 3) Ponderar o quanto a União poderia contar com o apoio do governo estadual para a execução de suas prerrogativas na região em que se situava o TFPP, tendo em vista que os representantes pró-extinção questionavam sobre a real necessidade da criação de um Território Federal na zona em questão.

Reconhecemos que diversas outras questões e problemáticas poderiam ser contempladas neste estudo. Mas este foi o resultado que nos foi possível alcançar. Essa advertência não visa a produzir explicações sobre o que poderia ter sido feito; em momento algum nossa pretensão foi de esgotar todos os argumentos. No processo, vislumbramos caminhos e arriscamos respostas. Talvez tenhamos finalizado o estudo com mais perguntas do que propriamente soluções para os problemas que levantamos. Porém, com a certeza de que se fez o possível dentro do espaço de tempo e as limitações físicas existentes no percurso.

Acreditamos que este estudo tenha preenchido uma lacuna historiográfica, especialmente no que se refere à historiografia de Mato Grosso do Sul. Almejamos que ele dê subsídios para melhor interpretar e compreender as origens do Território Federal de Ponta Porã. Finaliza-se este trabalho com a esperança de ter conseguido demonstrar novas possibilidades de estudos da temática, despertado novas indagações, suposições, questionamentos, que florescerão como um jardim secreto, pronto a ser descoberto e desbravado por algum outro aventureiro, que tenha a curiosidade de explorá-lo.

Benzer Belgeler