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A votação da emenda supressiva do Território Federal de Ponta Porã e do Iguaçu na ANC, foi feita pelo Plenário, no dia 08 de setembro de 1946. No entanto, ainda nesse dia, houve acalorado debate enquanto se faziam as declarações de voto. De início, houve requerimento do deputado Barreto Pinto (PTB-DF) para que a votação fosse feita separadamente: primeiro pela supressão do Território do Iguaçu e depois do Território de Ponta Porã, o que de fato ocorreu. Ao que tudo indica, Góis Monteiro também havia solicitado à mesa a separação do artigo 8º em duas partes.55
Defendeu a supressão do Território do Iguaçu o deputado Bento Munhoz da Rocha Neto (PR); do Território Federal de Ponta Porã, o deputado João Ponce de Arruda (PSD-MT). A manutenção do Território Federal de Ponta Porã foi defendida pelo deputado estadual do PSD do Acre, Hermelindo de Gusmão Castelo Branco Filho56.
A bancada acreana era composta por dois deputados do PSD que, de acordo com os dados obtidos, sequer estavam radicados no Território do Acre. Eram eles: Castelo Branco, que, segundo as informações disponíveis, chegou a ser Juiz de Direito no Distrito Federal, e Hugo Carneiro, empresário no ramo de comércio varejista e proprietário das Perfumarias Carneiro, no Rio de Janeiro57. Hugo ocupou a tribuna algumas vezes para se pronunciar a favor da
manutenção de todos os Territórios Federais existentes na época. Entrou em violentos debates com membros da bancada do Paraná, que defendiam a extinção do Território Federal do Iguaçu e de Ponta Porã.
O primeiro a se manifestar foi o deputado paranaense Munhoz da Rocha, que defendeu a extinção do Território do Iguaçu. Em seguida, o deputado mato-grossense João Ponce de
55 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.344. Disponível em:
<http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em 02 de novembro de 2015.
56 Advogado e professor, estava exercendo a sua primeira legislatura. Na ANC, concentrou sua atuação na
abordagem de problemas referentes aos Territórios Federais, à organização do aparelho judiciário e à regulamentação da carreira do funcionalismo público. Manifestando-se a favorável da transformação do Território do Acre em Estado e da manutenção dos Territórios do Iguaçu e Ponta Porã, tendo participado de vários debates sobre o assunto travados em plenário, sempre na defesa da política territorial implementada durante o Estado Novo. (BRAGA, 1998, p.156)
57Deputado Federal pelo Partido Democrata do Ceará (1921-1923). Nomeado Governador do Acre por Washington
Luís, abandonou o cargo em virtude da “Revolução de 30” (1927-1930). Foi representante da Liga Autonomista Acreana na convenção de lançamento da candidatura de José Américo de Almeida à Presidência da República (1937). Hugo Carneiro também atuou em diversas associações de classe no RJ, durante o Estado Novo. (BRAGA, 1998, p.157)
Arruda (PSD) que, em seu discurso pró-extinção, usou como principal argumento o fato de o governo federal, segundo ele, não ter melhorado as condições da região desde a implantação do Território Federal de Ponta Porã.
Esse argumento, diante de tudo quanto se apesentou ao longo do capítulo deste trabalho, parece frágil, uma vez que as verbas em relação ao período de administração mato-grossense sofreram um acréscimo significativo, bem como o quadro de pessoal do Território, notando-se um aumento relevante, também, no número de habitantes existentes ali. Mas a inconsistência do anunciado reside, principalmente, no fato de não ter existido tempo suficiente para que se pudessem implementar todas as medidas necessárias para atingir os objetivos que foram propostos, quando da criação do Território.
Outras questões também foram levantadas pelo deputado mato-grossense, a saber, a diminuição significativa que a criação dos Territórios ocasionou na receita estadual, a enorme extensão territorial desmembrada do Estado de MT para a constituição dos Territórios Federais de Ponta Porã e Guaporé; a área ocupada pelo TFPP era a décima sexta parte da área total de Mato Grosso. João Ponce de Arruda afirmava que
Em 1943 existiam em Mato Grosso 28 municípios. Para se constituir o Território de Ponta Porã, tiraram-se 7 deles e mais parte do de Corumbá; para se organizar o de Guaporé, tirou-se todo o município de Guajará Mirim e grande parte do de Alto Madeira. Foram retiradas, portanto, regiões correspondentes à quarta parte dos municípios de Mato Grosso, para serem constituídos em territórios.58
Em relação ao TFPP, para o deputado, a região não era despovoada e não havia terras devolutas no Município de Ponta Porã.O que se fazia ali era a exploração intensiva da erva- mate, que colocava Mato Grosso como o segundo estado produtor do gênero no Brasil.
Sobre esse assunto, João Ponce de Arruda, em outra ocasião de discurso na tribuna sobre o assunto, em 17/07/1946, afirmou que as terras devolutas existentes nos municípios do TFPP eram somente as cedidas à Cia. Mate Laranjeira, sendo as demais de propriedades particulares e povoadas. Ainda sobre a Cia. Mate Arruda citou os empréstimos feitos pelo estado de MT com o Banco do Brasil, afirmando que
Como penhor de um empréstimo tomado ao Banco do Brasil pelo Estado estavam dadas as rendas dos hervais arrendados à Cia. Mate Laranjeira S.A. que bastavam para pagamento de juros e amortização. Passando os hervais para o Território de Ponta Porã, para ele passou a renda e o Estado de Mato
58Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.343. Disponível em:
Grosso vem mantendo o pagamento dos seus compromissos com o Banco do Brasil por outras fontes da receita e o Banco perdeu o seu penhor principal.59 Em relação ao aspecto da defesa nacional 60, o deputado afirmou:
A fortificação permanente dessa região, que é o Forte de Coimbra, de gloriosas tradições, não foi abrangido pelo Território; também não o foi a base naval de Ladário; a base aérea de Campo Grande está em solo mato-grossense, do mesmo modo que o Comando da 9ª Região Militar.61
Para finalizar, João Ponce de Arruda disse: “[...] se Mato Grosso merece a honra de lhe serem confiados esses elementos do sistema defensivo do país, poderá ter outros. Mas a verdade é que criado há dois anos o Território de Ponta Porã, não se sediou ali sequer mais um destacamento federal, além dos que antes existiam”.62 E anunciou que a Comissão Constituinte,
em nome da qual ele tinha a honra de falar, havia aceitado o retorno ao Estado de MT das áreas desmembradas pelo Território de Ponta Porã.
Em seguida, quem discursou foi Castelo Branco (PSD/AC)63em defesa da permanência
do Território de Ponta Porã. O pronunciamento do deputado acreano girou em torno do fator de progresso que a criação do Território representou para a região e seus habitantes, em todas as suas nuances. Ele trouxe números e dados precisos sobre algumas atividades desenvolvidas no TFPP, o que sugere que o mesmo havia feito contato com o governo territorial, uma vez que muitas dessas informações condizem com as descritas nos relatórios oficiais do Território de Ponta Porã. Fez menções que abarcavam, principalmente, as atividades do setor educacional, saúde, segurança e obras, fazendo referências também as atividades das colônias agrícolas. Foi por várias vezes interrompido pelo deputado João Ponce de Arruda, que afirmava ser o deputado Castelo Branco ignorante em relação à realidade do Estado de Mato Grosso.
No que diz respeito à economia para os cofres nacionais que representaria a extinção do TFPP, o deputado Castelo Branco afirmou que a maior despesa já havia sido feita, com a
59 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, data: 17/07/1946, p.311. Disponível em:
<http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em: 01/11/2015, às 17h.
60 Em discurso na tribuna no dia 17 de julho de 1946, o deputado afirmou que “Sob o ponto de vista de segurança
nacional, jamais precisou a União criar territórios para estabelecer-se com forças militares nesta ou naquela região e tomar medidas defensivas que lhe pareçam aconselháveis. [...] Tampouco necessária se fazia essa medida para estabelecimento de núcleos nacionais de colonização e nacionalização de fronteiras”. Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 17/07/1946, p.311. Disponível em: <http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em 01 de novembro de 2015, às 17h.
61 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.344. Disponível em:
<http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em 02 de novembro de 2015.
62 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.344. Disponível em:
<http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em 02 de novembro de 2015.
63 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.345-347. Disponível em:
instalação de todos os serviços, alguns por ele mencionados, pois, no que se referia ao pessoal, certamente a lei ampararia os servidores, não havendo, assim, grande economia. Já em relação aos prejuízos materiais e de ordem moral o deputado apontou que eram tantos e tão vultosos que a “pseudo” economia ficaria reduzida a zero. E completou: [...] já pensaram os Senhores regionalistas, na enorme responsabilidade que tem sobre os ombros em prejudicarem o progresso de tão vasta faixa lindeira, desnacionalizando-a novamente? ”.64
Em seguida, Hugo Carneiro se posiciona assim:
Os nobres representantes de Mato Grosso deveriam ter agora – perdoem-me a insinuação – a mesma atitude patriótica dos representantes do Pará, os quais, fazendo justiça ao progresso que registra o Amapá, são pela permanência do Território. Isto é zelas pelos interesses do Brasil, olhando nossos irmãos abandonados, largados de Deus e dos homens [...] É o que a Assembleia espera dos dignos representantes de Mato Grosso.65
Em relação à vontade do povo que vivia no TFPP, o deputado acreano informou que 99,50% seriam favoráveis à permanência do Território, embora não mencionasse a procedência de tal afirmação. Segadas Viana teria interrompido a fala de Castelo Branco para reafirmar o desejo da permanência do Território de Ponta Porã pelos seus trabalhadores: “[...] os trabalhadores de Ponta Porã pleiteiam a manutenção do Território porque não se esquecem do regime que lá vigorava ao tempo do domínio exclusivo da Mate Laranjeira”. João Villas Boas rebateu dizendo que o domínio continuaria através dos delegados do governo.66
Finalizado o discurso de Castelo Branco, o Presidente da mesa leu requerimento dos constituintes Góis Monteiro (PSD-AL) e Luís Carlos Prestes (PC), no qual pediam a supressão do dispositivo (artigo 8º). Não foram atendidos.
Prosseguiu-se, em seguida, a votação da emenda supressiva oferecida por Silvestre Péricles, para que fosse mantido o Território Federal de Ponta Porã, sendo rejeitada e resultando na extinção do TFPP.
A bancada do Partido Comunista do Brasil, através de Declaração de voto, manifestou- se contra o texto das “Disposições Transitórias” que extinguia o Território do Iguaçu e de Ponta Porã. Essa bancada considerava que a opinião das populações dos Territórios era “de capital importância” para decidir sobre o destino dos mesmos, o que não havia sido feito. Manifestaram-se “pela permanência dos Territórios do Iguaçu e de Ponta Porã, até que sejam
64Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.347. Disponível em:
<http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em 02 de novembro de 2015.
65 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.347. Disponível em:
<http://imagem.camara.gov.br/constituinte_principal.asp> Acesso em 02 de novembro de 2015.
66 Anais da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, 08/09/1946, p.345. Disponível em:
realizados os plebiscitos previstos na lei”. (LOPES, 2002, p. 209)
Outra declaração de voto contrária à extinção dos Territórios foi assinada pelos constituintes do PSD de São Paulo, Batista Pereira e José Armando, que assim se manifestaram,
Em face do pensamento do Ministério da Guerra e da Chefia do Estado Maior do Exército, manifestado à Assembleia pelo Deputado Silvestre Péricles de Góis Monteiro, votamos contra o art. 8º das Disposições transitórias [...] considerações sentimentais não podem prevalecer ante razões de segurança nacional. O carinho pelos interesses dos Estados de Mato Grosso e do Paraná [...] tem de ceder passos aos imperativos de nossa defesa.67
De fato, o Deputado Silvestre Péricles de Góis Monteiro (PSD-AL) teria subido na tribuna, em outras ocasiões, para derrotar o regionalismo presente nos discursos e interesses daqueles que eram a favor da extinção dos Territórios. O referido Deputado pautava o seu discurso na causa da defesa nacional, afirmando que a criação dos Territórios Federais foi uma medida de defesa militar do Brasil e que a manutenção desses territórios seria indispensável para tal fim.
4.13.4. Os procedimentos pós-extinção e a entrega dos encargos administrativos ao