SOSYAL KAYTARMA DAVRANIŞI
2.1. SOSYAL KAYTARMA KAVRAMI 1. TANIMI VE KAPSAMI
A norma tributária em sentido estrito (regra padrão de incidência ou regra- matriz de incidência) está organizada internamente como proposição condicional, em que uma hipótese está atrelada a uma consequência, associadas no modelo deôntico, “o dever- ser, que caracteriza a imputação jurídico-normativa”40, conformando uma norma de comportamento que marca o núcleo do tributo, demarcando a incidência fiscal.
Fabiana Del Padre Tomé ensina:
A norma jurídica, portanto, apresenta estrutura lógica específica composta por uma hipótese, também denominada antecedente, suposto, prótase ou descritor, e por uma consequência, que pode igualmente
39 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário – fundamentos jurídicos da incidência. 8. ed. São
Paulo: Saraiva, 2010, p. 131.
receber o nome de consequente, mandamento, estatuição, apódose ou prescritor41.
A sua formação, portanto, é dual, compondo-se da hipótese, na qual se encontra um critério material (comportamento de uma pessoa), condicionado no tempo (critério temporal) e no espaço (critério espacial), e o consequente, formado pelo critério pessoal (sujeitos ativo e passivo), e um critério quantitativo (base de cálculo e alíquota)42. Essa é a composição mínima que a norma de incidência deve ter.
O mestre Paulo de Barros Carvalho, discorrendo sobre tais critérios, ensina-nos que
[…] identificaremos, no descritor da norma, um critério material (comportamento de uma pessoa, representado por verbo pessoal e de predicação incompleta, seguido pelo complemento), condicionando no tempo (critério temporal) e no espaço (critério espacial). Já na consequência, observaremos um critério pessoal (sujeito ativo e sujeito passivo) e um critério quantitativo (base de cálculo e alíquota)43.
Destaca ainda o mestre que “a construção da regra-matriz de incidência, assim como de qualquer norma jurídica, é obra do intérprete, a partir dos estímulos sensoriais do texto legislado”44. Nesse contexto, é preciso haver o trabalho do intérprete, essencialmente, porque, via de regra, as leis não trazem as normas jurídicas agrupadas, ou seja, para haver a construção da regra-matriz terá, muitas vezes, o intérprete, que se valer de vários textos legais.
A Regra-Matriz de Incidência Tributária é criação doutrinária, instituída para dinamizar o estudo das obrigações tributárias, pela qual o intérprete analisa se determinada norma tributária tem todos os critérios necessários para ingressar no sistema jurídico tributário e, consequentemente, produzir seus efeitos concretos.
A falta de qualquer um dos critérios da regra-matriz denunciará que a norma tributária é inconstitucional. Vale dizer, a regra-matriz de incidência tributária é uma
41 TOMÉ, Fabiana Del Padre. A extrafiscalidade tributária como instrumento para concretizar políticas
públicas. In: SANTI, Eurico Marcos Diniz de (Coord.). Tributação e Desenvolvimento – Homenagem ao professor Aires Barreto. São Paulo: Quartier Latin, 2011, p. 195-196.
42 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 298-
299.
43 Id. Direito tributário, linguagem e método. 3. ed. São Paulo: Noeses, 2009, p. 605. 44 Ibid., p. 604.
norma hipotético-condicional, com potencial deôntico, capaz de delimitar se determinada espécie tributária tem ou não condições de ingressar no mundo jurídico e gerar a correspondente obrigação tributária ou, ainda, na linguagem de Paulo de Barros Carvalho, “é o mínimo irredutível de sentido deôntico45”.
Abordando o método da regra-matriz de incidência tributária, o citado autor assevera:
Dentre os recursos epistemológicos mais úteis e operativos para a compreensão do fenômeno jurídico-tributário, segundo penso, inscreve-se o esquema da regra-matriz de incidência. Além de oferecer ao analista um ponto de partida rigorosamente correto, sob o ângulo formal, favorece o trabalho subsequente de ingresso nos planos semântico e pragmático, tendo em vista a substituição de suas variáveis lógicas pelos conteúdos da linguagem do direito positivo.46
Assim, utilizando-se do modelo padrão de incidência – a regra-matriz –, uma vez preenchidos seus critérios, o intérprete terá condições de conhecer o fenômeno jurídico da incidência tributária. Portanto, a lei que cria determinada imposição tributária deve, necessariamente, trazer todos os componentes da norma padrão de incidência, sob pena de estar se criando um tributo contrário às comandos jurídicos.
A regra-matriz de incidência traz a previsão de um acontecimento e estipula se certa obrigação, se e quando vier a ocorrer, é norma geral e abstrata. Ou seja, é norma dirigida a todos indistintamente e contém uma previsão hipotética, que descreve as notas que o evento deve ter para que seja fato jurídico tributário.
Ocorrida a previsão hipotética e constituída em linguagem competente com a verificação concreta do acontecimento do evento, tem-se por instaurada a obrigação tributária, constituindo-se a norma individual e concreta, surgindo o que se denomina de fenomenologia da incidência tributária (processo de positivação).
Já vimos que a regra-matriz é uma norma jurídica que trata da configuração do tributo, tendo na hipótese a ocorrência de um fato vertido em linguagem jurídica e no consequente a prescrição de determinada conduta dirigida aos sujeitos da relação jurídica.
45 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário, linguagem e método. 3. ed. São Paulo: Noeses,
2009, p. 149.
Tanto a hipótese quanto o consequente apresentam critérios que possibilitam melhor investigação das normas tributárias instituidoras de tributos.
A hipótese é formada por três critérios identificadores do fato: critério material, critério espacial e critério temporal, sendo características selecionadas do evento e postas pelo legislador no sistema jurídico para fazer irromper a relação jurídica do tributo.
O consequente da norma, por sua vez, é formado por dois critérios: critério pessoal e critério quantitativo, que possibilitam identificar o vínculo jurídico que nascerá em decorrência da previsão contida na hipótese, prescrevendo a relação entre sujeitos em torno de uma prestação.
O critério material, componente da hipótese, permite identificar o comportamento, a ação humana ou estado de pessoa que ensejará consequências jurídicas, delimitando “o núcleo do acontecimento a ser promovido à categoria de fato jurídico”47, núcleo esse formado por verbo representativo de uma ação com um complemento que indica uma especificidade dessa ação.
O critério espacial também componente da hipótese estabelece o local no qual o evento deve acontecer para que produza efeitos, podendo ser pontual quando determina local específico, regional quando envolver áreas específicas, territorial quando genericamente a hipótese define onde todo e qualquer fato ocorra sob a vigência territorial da lei e universal, que seria qualquer lugar, ainda que fora daquele âmbito territorial de vigência da lei48.
Por fim, o critério temporal, como último componente da hipótese, indica o momento da ocorrência, o instante em que se considera ocorrido o fato descrito na hipótese, que fará irromper a obrigação tributária.
O critério pessoal é o primeiro componente do consequente da norma, pelo qual podemos conhecer os sujeitos da relação jurídica a ser instaurada quando ocorrer a previsão hipotética.
47 CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso de Teoria Geral do Direito. 2. ed. São Paulo: Noeses, 2010,
p. 382.
O sujeito ativo é “o titular do direito subjetivo de exigir a prestação pecuniária”49; pode ser a pessoa jurídica portadora de competência tributária ou outra pessoa jurídica ou privada que o ente competente, por meio da transferência da capacidade ativa, coloque na qualidade de sujeito ativo.
O sujeito passivo é aquele que figura na relação jurídica como responsável pelo cumprimento da obrigação tributária, integra o vínculo obrigacional, podendo ser pessoa “física ou jurídica, privada ou pública, de quem se exige o cumprimento da prestação: pecuniária, nos nexos obrigacionais; e insuscetível de avaliação patrimonial, nas relações que veiculam meros deveres instrumentais ou formais.”50
O critério quantitativo, segundo e último componente do consequente da norma tributária, permite a definição da dívida tributária por meio da conjugação da base de cálculo e da alíquota.
A base de cálculo é a grandeza tomada pelo legislador como hábil a dimensionar o critério material, que servirá ao intento de calcular o tributo devido, isto é, delimitado o acontecimento ensejador da tributação, o legislador precisa demarcar a grandeza a ser adotada como base a incidir a alíquota, a fim de obter o conteúdo econômico da obrigação.
São as lições de Roque Antonio Carrazza e Eduardo Domingos Bottallo:
Base de cálculo, em apertada síntese, é a expressão econômica da materialidade do tributo, estando intimamente relacionada com a respectiva hipótese de incidência. Ou, como quer Geraldo Ataliba, “é a perspectiva dimensível do aspecto material da hipótese de incidência” tributária. É, ainda, se preferirmos, o ponto de partida das operações matemáticas, a serem realizadas pelo Fisco, tendo em vista a apuração do
quantum debeatur51.
A grandeza que representa a base de cálculo deve guardar correspondência com o prescrito no critério material, ou seja, ela deve “dimensionar a intensidade do
49 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 369. 50 Ibid., p. 372.
51 CARRAZZA, Roque Antonio; BOTTALLO, Eduardo Domingos. A não-incidência do IPI nas operações
internas com mercadorias importadas por comerciantes (um falso caso de equiparação legal). Revista
comportamento inserto no núcleo do fato jurídico, para que, combinando-se à alíquota, seja determinado o valor da prestação pecuniária”.52
A parcela de recursos levada do particular para o poder público por meio da tributação é retirada da propriedade dos particulares; nesse cenário, o acontecimento previsto e ensejador dessa tributação deve apresentar-se numericamente adequado àquele acontecimento eleito, sob pena de se ter ferido o direito de propriedade e da capacidade contributiva.
A capacidade contributiva mencionada refere-se à perspectiva econômica do acontecimento previsto no critério material. Trata-se de verificar se a situação tributável está economicamente mensurada de forma adequada, não importando se a pessoa física ou jurídica tenha capacidade econômica (situação patrimonial positiva), mas se efetivamente hipótese de incidência e base de cálculo guardam correspondência.
A alíquota é um “componente aritmético para a determinação da quantia que será objeto da prestação tributária”53. O valor do débito tributário é determinado a partir da conjugação da base de cálculo com a alíquota.
Analisados os critérios formadores da regra-matriz de incidência, é preciso destacar que o preenchimento dos seus critérios depende do intérprete. Na linha apregoada por Paulo de Barros Carvalho quanto à construção de sentido dos textos, em que sugere a aplicação de método específico para tal construção pelo intérprete, os critérios da regra- matriz serão preenchidos em sua completude na terceira fase do referido método.
Afirma o autor que, na construção do sentido dos textos, há planos ou etapas pelos quais o intérprete deve necessariamente percorrer, denominando de plano (S1) o plano dos enunciados, que seria a literalidade textual, o (S2) plano das proposições, que seriam as construções isoladas dos enunciados, o (S3) plano das normas, onde as significações são construídas na forma hipotética-condicional, e, por fim, (S4) plano da sistematização, onde a norma estabelece vínculos com outras normas.
52 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 23. ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 400. 53 Ibid., p. 411.
Vimos que a norma jurídica em sentido estrito ou regra-matriz de incidência compõe-se de diversos critérios. O preenchimento desses critérios a partir dos enunciados prescritivos, com aplicação do método interpretativo proposto por Paulo de Barros Carvalho, nos permitirá conhecer a inteireza dos conteúdos normativos. A construção da regra-matriz de incidência permitirá conhecermos as espécies tributárias, bem como a conformação dessas espécies dentro do sistema jurídico-tributário.
2.4 A competência impositiva da União para tributar produtos industrializados e