3 Sosyal Kooperatif Modeli
3.1 Sosyal Kooperatif Tanımlarına Yönelik Bir Değerlendirme
3.1.3 Sosyal Ekonomi Aktörü Olarak Sosyal Kooperatifler
No capítulo anterior, discutimos a questão da participação como uma das condições fundamentais para o desenvolvimento da autonomia, problematizando os diversos níveis desse tipo de envolvimento que as experiências de radioescolas analisadas nessa dissertação têm possibilitado, assim como indicando os seus limites. Neste capítulo, faremos uma conexão dos problemas anteriormente indicados com as questões do poder, começando por considerar esse aspecto no contexto mais amplo das escolas.
Com esse propósito, são trazidos aqui episódios e situações ainda não exploradas em outros capítulos. As questões narradas e discutidas, contudo, não seguem uma ordem cronológica, mas são expostas de modo, algumas vezes até de modo cíclico, com o propósito de retomar e fazer avançar algumas questões anteriormente indicadas.
5.1.1 “Escreveu num leu, é peia”
Os estudantes da escola sem caixinha estão na quadra aguardando o momento certo de irem para as salas. Todos estão sentados, mas cinco crianças estão em pé, formando uma fila, diante dos colegas e pais. A diretora discursa. O tema é a proibição do uso da bola na hora do intervalo. Os estudantes estão parados, enfileirados, de cabeça baixa diante dos colegas. A diretora pergunta ao microfone: sabem que é proibido brincar de bola? E todos respondem ao microfone: “sim”. Este é o momento da acolhida e os estudantes estão sendo punidos por terem violado a regra de não jogar de bola durante o recreio, ou antes dele.
Na ausência da liberação da bola e da proibição de trazer o brinquedo de casa, os estudantes improvisaram uma bolinha com um pedaço de garrafa descartável. A diretora levanta o objeto do delito e pergunta: “isso é uma bola? Os estudantes respondem que não. A diretora insiste: mas pode se transformar em uma, não é? Foi isso o que vocês fizeram, mas sabem que é proibido.”103. Todos os estudantes que participaram da ação permanecem em fila diante dos colegas que assistiam ao momento sentados na arquibancada da quadra da escola sem caixinha. Após a fala da diretora todos permanecem em silêncio. Na sequência, a diretora pede para que repitam um a um: prometo que não vou mais fazer. E se fizer? Todos dizem em coro, inclusive os que estão na arquibancada: “é suspensão!”. Como abordaremos ainda neste
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capítulo, essa é uma manifestação clara de uma política escolar pautada no paradigma disciplinar. Em um contexto como esse, nos indagamos, qual o tipo de participação pode florescer em um contexto como esse. A radioescola, que na literatura acadêmica aparece frequentemente destacada por seu potencial participativo, teria alguma possibilidade de se estabelecer como contraponto a esse modelo disciplinar?
Diante dessa questão, o que podemos dizer, como resultado de nossas observações em campo é que o assunto da proibição da bola, do jogo, da interação entre os amigos durante o intervalo em nenhum momento foi pontuado, discutido, problematizado durante as oficinas de radioescola. Os estudantes, em nenhum momento, levantaram, durante as oficinas e produção dos programas, a discussão acerca da promessa de não mais jogar de bola feita pelos estudantes diante dos demais. As atividades limitaram-se a ler bem, gravar, editar, seguir pautas e orientações determinadas. Sugestão de pauta? Às vezes surge, diz o professor, mas raramente eles, os estudantes, atentam para isso. Essa possibilidade foi, em alguma ocasião, instigada? Na verdade, em nenhum momento da realização desta pesquisa foi possível identificar algum estímulo dos professores para que isso acontecesse, ou seja, para que o paradigma disciplinar fosse questionado.
Afinal, como postula Demo (1986): “Participação, por conseguinte, não é ausência, eliminação, superação do fenômeno do poder, mas outra forma de poder” (DEMO, 1986, p. 20). Ou seja, participação implica no exercício de outras formas de poder. Um poder que, para Lazaratto (2007), se institui com base em um jogo de forças, ou seja, nos seus próprios termos: “el poder es um conjunto de juegos estratégicos”. Para além da estratégia, o autor aborda a questão do performativo, ou seja, aspectos que envolvem a situação, a fala e o cargo que as pessoas ocupam.
Para o autor, no que se refere à linguagem utilizada “cada una de nuestras palavras (y no solo los performativos) sirve para cumplir un acto social (que inplica una obligación ligada al acontecimiento del discurso)” (LAZARATTO, 2007, p. 21). São atos, situações e momentos que indicam “un acto ilocutorio, semejante a los actos institucionales de los que era parte ‘te condeno’, ‘declaro abierta la sesión’, actos que implican siempre uma instituición establecida” (LAZARATTO, 2007, p. 21). Nas radioescolas investigadas esta situação pode ser observada no que se refere a todas as etapas de produção do material a ser veiculado, pois os estudantes aguardam a aprovação ou a orientação do professor para seguir adiante com o programa.
Em outro momento, também durante a acolhida, a diretora da escola sem caixinha chamou os pais que estavam presentes para uma conversa. Na oportunidade, ela enfatizou a
necessidade e a obrigação que cada uma das famílias tem diante no combate ao mosquito da dengue. De acordo com a diretora, chegou à escola um comunicado da Secretaria Municipal de Educação solicitando a parceria com as escolas para mobilizar a comunidade em torno do combate ao mosquito. A diretora aproveitou a situação para reforçar que a radioescola já foi pautada para tratar do assunto e que em breve seria veiculado um Programa com esse tema. O fato, contudo de que alguns temas devam ser tratados, por um lado, não deveriam inibir que outras temáticas pudessem ser também tratadas, nem tampouco que a abordagem do assunto em pauta deva ser determinada de forma verticalizada pela gestão, como foi o caso nessa situação.
Neste mesmo dia, durante a oficina de rádio, a diretora interrompeu a atividade para lembrar ao professor da necessidade de ser feito um programa com a temática do mosquito da dengue104. O professor argumentou que este material já estava pronto, mas a diretora pediu que, diante da solicitação do secretário de Educação, fosse feito outro material o quanto antes, pois ele supostamente precisaria ser veiculado em sala de aula e para a comunidade em momento oportuno, no pátio da escola.
Neste mesmo dia, a professora convocou todos os participantes da rádio para um encontro na biblioteca. Durante a sua fala, a diretora reforçou a importância das atividades da rádio e do bom comportamento dos meninos e meninas que estão envolvidos no projeto. Na oportunidade, a diretora abordou a questão das presenças dos estudantes que, a partir daquele momento, seriam controladas rigorosamente. Para a gestora dois pontos seriam considerados fundamentais para que o estudante pudesse permanecer na rádio: obediência e presença. Caso os estudantes não conseguissem cumprir estas duas exigências, a situação ficaria complicada, pois os estudantes não poderiam continuar participando das atividades.
As palavras da diretora foram: “escreveu num leu, é peia”. Na tentativa de justificar a sua fala, a diretora buscou reforçar a importância da rádio para a escola, citando alguns bons resultados conquistados pela experiência. Premiações e matérias veiculadas abordando a experiência da rádio foram citadas. Em relação a esta questão das matérias e premiações, considero importante fazer uma relação entre o que foi veiculado na mídia e a realidade que tive oportunidade de acompanhar no cotidiano da escola. Nas vezes em que pude acompanhar a produção de tais matérias, observei que quando o repórter vai à escola, encontra um ambiente organizado, arrumado e repleto de dados que contribuem para a escrita do seu texto. Crianças e adolescentes leem corretamente e se apresentam de forma organizada,
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Esta discussão foi feita no capítulo 4 quando falamos sobre os graus de participação e citamos como exemplo a elaboração do programa de rádio a partir de um comanda da gestão da escola sem caixinha.
em filas aguardando a vez de ficar diante do microfone. Na sequência, escutam o programa pronto e postado no blog105. Em seguida, os repórteres registram os computadores funcionando e as crianças acessando as produções na internet. As condições de produção e a condução do processo como um todo não são acompanhadas. O repórter não presencia, por exemplo, o momento em que o professor chega com o roteiro pronto, a situação em que a criança é repreendida por não conseguir atingir a interpretação desejada pelo professor, ou ainda a impossibilidade cotidiana de utilizar os computadores.
Acreditamos que este tipo de divulgação das atividades da rádio contribui para que muitos trabalhos acadêmicos enfatizem apenas o lado positivo das experiências de comunicação e educação das escolas. No entanto, é preciso enfatizar que existe um ambiente complexo que merece um olhar mais apurado e um tempo maior de vivência para ser compreendido com todas as suas nuances. Esse foi o nosso esforço nessa dissertação.
No próximo tópico, abordaremos outra experiência em que a radioescola silencia diante de questões importantes de interesse dos alunos.