• Sonuç bulunamadı

Teilhard de Chardin nasceu em 1881 e faleceu em 1955. Foi jesuíta, paleontólogo e, para muitos autores, também místico. Teve uma existência errante,134

dedicando-se ao trabalho científico com grande paixão e extraordinária atividade: viagens, pesquisas, produção intelectual. “Realizou, aprofundando em si, numa perspectiva, em última análise, mística, a idéia da Evolução, que norteou sua busca espiritual e científica”135. Sua vida

pessoal, nutrida por uma profunda espiritualidade e assinalada pela fidelidade e unidade, imprimiu um caráter de crescente amadurecimento e desenvolvimento em seu percurso intelectual.

Durante a Primeira Guerra Mundial teve a primeira intuição sobre os mistérios do universo, a partir da qual construiu seu pensamento e sua obra.136 Assimilou da Ciência o

respeito pelos fatos, o rigor, o gosto do fotografável. Adquiriu o sentido da grandeza e da complexidade do universo que existe como um todo. A especialidade geológica e biológica deu-lhe o sentido mais amplo do tempo e da história, agregando a realidade humana e o poder da energia espiritual. “Ver” foi uma atitude constante própria dele: uma exigência do seu método científico fenomenológico. “Ver, segundo Teilhard, é uma das funções essenciais da vida, porque é a função essencial da consciência”137.

134

Teilhard de Chardin foi um incansável viajante pela causa da Evolução. Inúmeras vezes cruzou os oceanos Pacífico e Atlântico de navio e as fronteiras por terra – França, China, Inglaterra, Estados Unidos, Mongólia Oriental, Somália e Abissínia, Filadélfia, África do Sul - para conferências ou expedições como a Missão Citroën, o Cruzeiro Amarelo, o deserto de Gobi.

135

SESÈ, Bernard. Pierre Teilhard de Chardin. p. 39 136

CHARDIN, P. T. Hino do Universo, p. 54; cf. também: SESÈ, Bernard. Pierre Teilhard de Chardin. p. 39, 67 137

Permaneceu na China por muitos anos, criando em 1940, na cidade de Pequim, o Instituto de Geobiologia. Seu objetivo era estudar a gênese e a interdependência genética dos continentes, bem como de sua fauna ou flora, dedicando-se especificamente à Ásia. A partir de 1951, transferiu-se para Nova York, lá permanecendo até sua morte. Foi o período mais doloroso e fecundo de sua vida. Uma fase de maturidade, onde pôde trabalhar ainda mais intensamente para a “renovação profunda da visão cristã, por uma entrega total à missão que a Providência lhe confiara, de tentar a grande conciliação entre a ciência e o cristianismo, entre a Igreja e o mundo moderno”138

. Suas obras, publicadas somente após a sua morte, não são estritamente científicas, exclusivamente teológicas ou unicamente filosóficas, com exceção dos artigos de geologia e paleontologia. Peregrino da Evolução139

apresentou em seus escritos uma visão do mundo evolucionista e mística.

Teilhard de Chardin era uma daquelas pessoas que acreditava que um mestre é verdadeiramente bom na medida em que é ultrapassado. Hoje ele não apresenta mais a mesma novidade dos anos 50-80 do século passado. Contudo, continua tendo o que dizer, porque soube “como” responder às novas urgências do seu tempo, porque foi sensível aos novos sinais que vinham do mundo da ciência, da técnica, da razão, que se levantavam como gigantes. Teilhard foi sensível à tensão à unidade que movia o mundo e promovia novos intercâmbios entre culturas, entre diferentes denominações cristãs e religiosas suscitando novos encontros.140

Seu itinerário intelectual e espiritual, resumido na tentativa de reconciliar a Igreja com o mundo, teve a ele próprio como o primeiro ‘campo de provas’ desse experimento.

Revisitar sinteticamente o seu pensamento, na perspectiva do devir – o universo crítico – e sob o impulso da sua Lei de Complexidade e de Consciência -, é uma maneira de perscrutar como o tríplice eixo de seu pensamento: o cosmo, o humano, o crístico, se enriqueceram reciprocamente, chegaram a se integrar e compuseram, harmoniosamente, uma síntese entre a visão cristã do mundo (uma mundividência estática) e aquela emergente das ciências da natureza (uma mundividência dinâmica). Em O Fenômeno Humano o autor

138

Ibidem, p. 37 139

SESÈ, B. Op. cit., p. 93. 140

Cf. RIBEIRO, S.F. Ecumenismo: simples tolerância ou um estilo de vida?, p. 42. A autora apresenta acenos à história do movimento ecumênico e afirma que esse, mesmo tendo várias manifestações já no século XIX, explodiu em 1910, em Edimburgo (Escócia) com a Conferência Missionária de várias Igrejas cristãs.

apresenta suas idéias de modo sistemático, em alguns momentos quase dialogal, numa exposição lógica dos conceitos e suficientemente clara.141

Ainda, hoje se dá grande ênfase à complexidade e à interdisciplinaridade das fontes dos conhecimentos. Chardin apresenta uma visão ampla que contém essa exigência, suas raízes se afundam na convicção de que o ser humano é “uno” e tem a necessidade e a possibilidade de encontrar, antes de tudo em si mesmo, a síntese de todos os seus conhecimentos, em todos os níveis do saber. Nisso, Chardin se serve do mecanismo ínsito à Lei de Complexidade e de Consciência.

Teilhard possui e oferece uma imagem da ciência aberta e, por isso, distante do mecanicismo frio e impessoal do século anterior ao seu. Conseqüentemente, não exclui a relação com o transcendente, com a metafísica, com a contribuição da fé. “Essa imagem de uma ciência aberta é uma resposta à cultura de nossos dias, quando se questiona o problema do fim e do sentido da natureza e do universo”142

.

A perspectiva teilhardiana propõe, também, uma dupla revisão à Teologia: essa, para Teilhard, deveria conseguir expor os dogmas cristãos dentro da moldura dinâmica do mundo e refletir sobre o valor religioso do esforço humano. Ele crê em um caminho que se abre para novas sínteses e pesquisas e favorece a reconciliação com o mundo moderno. Por sua competência específica de cientista – mas de um cientista que crê em Deus e no mundo – ele entende que esta se realiza mediante um único impulso rumo a Cristo, sob a ação da sua Lei de Complexidade e de Consciência.

Além disso, toda reflexão fenomenológica de Teilhard de Chardin assenta sobre sua visão final do cosmo, dimensão explicitada na obra apenas citada. De fato, a sua estrutura reflete essa impostação e Chardin conduz o leitor da pré-vida à vida, ao pensamento e à supervida. Quatro etapas através das quais a cosmogênese desemboca em uma teogênese: o universo se encaminha a essa plenitude. Como? Conduzido pela mesma lei primeira da Evolução: a Lei de Complexidade e de Consciência.

Essa confere unidade ao pensamento teilhardiano. Deve-se, igualmente, à sua ação, o ritmo da Evolução. As passagens ou saltos para algo de novo, como quando surgiu a

141

RONDINARA, S. in PASOLINI, P. A unidade do cosmo, p. 6. 142

RONDINARA, S. Figlio della Terra figlio del cielo. Fede e scienza nella prospettiva escatologica del pensiero di Teilhard di Chardin in Nuova Umanità, Roma, anno XXVII, v. 3-4, n. 159-160, p. 516.

vida ou o ser humano, acontecem porque o ambiente ou o organismo favorecem novas organizações energéticas. Sob o impulso da Lei, Teilhard estrutura o mundo de modo convergente e deixa, como legado, um instrumental para a sua compreensão.Em fim, Teilhard de Chardin verdadeiramente “tentou”, “tateou”, adiantou-se. Foi um ‘sinal profético’, suscitando preocupações e entusiasmos, ‘não deixando as coisas como estavam’.