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O mundo de Admirável não conhece mais a arte ou a cultura como um traço da humanidade que contempla, pelo ponto de vista de Huxley, a transcendência, a reflexão, a crítica, a expressão da singularidade, a criatividade ou a introspecção. Nada disso tem lugar, nada disso é útil a um mundo que se projetou para oferecer recompensas imediatas ao modo de viver. As formas de consumo da informação, a aquisição de linguagem e conhecimento e o entretenimento são pensados e produzidos com objetivos muito dirigidos. Para isso há os “engenheiros emocionais” que conhecem as técnicas mais eficazes para tornar, por exemplo, um filme exibido numa sala de cinema numa distração repleta de sensações prazerosas, excitantes e, sobretudo, imediatas. Nada nos roteiros

deve alimentar questionamentos ou debates e as tramas são normalmente exaltações do modo de vida já corrente na própria sociedade. Booker (1994b), nesse sentido, considera que:

A submissão na sociedade distópica de Huxley é amplamente compelida através da proliferação de uma mediocrização passiva que torna os cidadãos incapazes de pensarem ou sentirem a necessidade de questionar as normas impostas para eles através do governo do Administrador Mundial. Não surpreendemente, a cultura popular é um importante elemento nesse sistema, assim, uma massiva Indústria Cultural Adorninana bombardeia a multidão com uma constante corrente de estímulos entorpecentes não somente para os sentidos como a visão e a audição, mas também para afetar o olfato. (pp. 57-58)

Esse bombardeio de estímulos intencionalmente entorpecentes não surge de forma espontânea de um gênio solitário, por exemplo. Não há produtoras, emissoras, veículos ou profissionais independentes que oferecem ou vendem conteúdos num mercado liberal ditado pela livre concorrência. A administração e a produção de todo o tipo de propaganda e informação disseminado no mundo de

Admirável faz parte de um conjunto unificado de profissionais especializados – os

engenheiros emocionais - em formatar as mensagens de acordo com as funções adequadas para a manutenção da estabilidade do Estado Mundial. Há, em Londres90, uma espécie de aglomerado de escritórios centralizados na qual esses especialistas (profissionais e professores), meios e produtoras estão reunidos com a finalidade de abastecer, em suas mais diversas aplicações, os meios de comunicação:

Os diversos Escritórios de Propaganda e o Colégio de Engenharia Emocional estavam instalados em um mesmo edifício de sessenta andares em Fleet Street. No subsolo e nos primeiros andares achavam- se as oficinas e os escritórios dos três grandes jornais de Londres (...) Depois vinham, sucessivamente, os Escritórios de Propaganda pela

90 Não há menções no texto de Huxley a respeito de outras cidades do Estado Mundial que

tenham essa estrutura dedicada à produção e à difusão de conteúdo para os meios. Esse conjunto projetado por Huxley pode ser imaginado como uma espécie de mistura entre três matrizes correntes no período. Lembra, materialmente, a BBC, os sistemas de estúdios de Hollywood e os veículos oficiais dos países totalitários. Quanto às finalidades, também não há uma matriz “pura”, já que o estímulo ao consumo é bem adaptado a uma caracterização capitalista, mas os movimentos moralizantes se parecem mais com aquilo que a propaganda nazista fará poucos anos depois de Admirável.

Televisão, pelo Cinema Sensível e pela Voz e Músicas Sintéticas – que ocupavam vinte e dois andares. A seguir, vinham os laboratórios de pesquisa e os estúdios onde os autores de Trilhas Sonoras e os Compositores Sintéticos realizavam seu delicado trabalho. Os dezoito últimos andares eram ocupados pelo Colégio de Engenharia Emocional. (p. 83)

Um aspecto fundamental para o Estado Mundial funcionar de forma idealmente harmoniosa passa por esses escritórios. A hipnopedia é uma das ferramentas que garante a estabilidade da sociedade através da manipulação do indivíduo num nível comportamental. De acordo com uma das explanações do Diretor, relativas aos processos de condicionamento, a hipnopedia é uma forma eficaz de garantir a educação moral. Para ilustrar o processo hipnopédico, o D.I.C. mostra a um grupo de estudantes Alfas como esse sistema funciona numa sala repleta de crianças dormindo. Embaixo dos travesseiros há um dispositivo (microfone) que emite textos morais sobre, por exemplo, Sexo Elementar ou Consciência de Classe. Esses textos são repetidos dezenas de vezes a cada sessão de sono e de tempos em tempos passam para estágios mais “avançados”.

A hipnopedia é capaz de “inculcar as formas de comportamento mais complexas” (p. 39), ou, como atesta o Diretor: “A maior força moralizadora e socializadora de todos os tempos” (p. 40). Trata-se de uma técnica imaginada a partir dos estudos de pesquisadores identificados com o comportamentalismo ou o behaviorismo de John B. Watson. Há, porém, um aspecto que deve ser levado em consideração na imaginação distópica de Huxley. De acordo com a exposição do Diretor, os estudos sobre hipnopedia tiveram sua origem a partir de uma casualidade envolvendo um menino polonês, Reuben Rabinovitch, que num certo dia91 acordou falando inglês. Os pais ficaram assustados e recorreram a um médico que compreendeu o que o menino estava falando: um discurso em inglês de George Bernard Shaw. O médico e os pais acabam descobrindo que, por descuido, o rádio ficara ligado durante a noite e captara as ondas de uma rádio de Londres durante a madrugada. O menino ficou exposto, durante o sono, ao discurso e acordou misteriosa e inconscientemente com o texto memorizado (pp. 34-36).

91 Ele localiza temporalmente o fato descrito em 23 anos depois do lançamento do Ford Modelo T

Tecnicamente, o princípio moralizador do Estado Mundial tem, portanto, suas raízes na Era do Rádio. Huxley, como destaca e avalia Kumar (1987), observava com atenção as manifestações e efeitos dos meios de comunicação do seu tempo e visualizou isso como uma ferramenta poderosa no condicionamento das massas:

Huxley tinha fascínio, há longo tempo, pela publicidade de massa, que, embora sendo um produto do fim do século 19, havia chegado com toda a sua sedutora extravagância somente nos anos 1920. Isso era, para ele, uma inevitável parte da consumista sociedade „planejada da obsolescência‟. Mas seus efeitos não eram limitados somente a bens. Essa era uma forma completamente moderna de hipnose de massa, trabalhando em cima da sugestibilidade humana com todas as técnicas da psicologia moderna para condicionar pessoas a agir e pensar inconscientemente como os publicitários queriam. Políticos durante a Primeira Guerra tinham rapidamente se dado conta dessas possibilidades. (...) Juntamente com outros meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o rádio e o cinema, isso era capaz de uma expansão indefinida como ferramenta de condicionamento e estabilidade social (...)” (p. 257)

Os versos hipnopédicos, assim como qualquer conteúdo dos meios de comunicação, são gerados a partir de métodos rigorosos e sempre carregados de propósitos que colaborem na manutenção da ordem e no assentimento de uma natureza própria do Estado Mundial. Isso fica evidente através das palavras de Helmholtz Watson92, que descreve que suas funções profissionais são baseadas

em escrever para a Rádio Horário, compor cenários para filmes sensíveis, criar slogans e versinhos hipnopédicos. A sua definição para as tarefas diárias é descrita da seguinte forma: “As palavras podem ser como os raios X, se as usarmos adequadamente: penetram em tudo. A gente lê e é trespassado. Essa é uma das coisas que eu procuro ensinar aos meus alunos: como escrever de modo penetrante” (p. 87).

Os poetas estatais de Nós são aprendizes vacilantes diante dos técnicos das palavras de Admirável. O princípio, no entanto, é o mesmo. As técnicas

92 Um amigo de Marx, que trabalha como professor no Colégio de Engenharia Emocional (Seção

de Redação) e, no intervalo de suas atividades educativas, trabalha como Engenheiro em Emoção.

empregadas e disponíveis são mais elaboradas e diversas, mas a intenção de domesticar e docilizar as almas permanece sendo o ponto a ser alcançado. Há um avanço na compreensão da massa e os jornais, por exemplo, não são mais dirigidos a uma massa indistinta. A massa começa a ser dividida em públicos: “o Rádio Horário, jornal para as castas superiores, A Gazeta dos Gamas, verde- pálido, e, em papel-cáqui e exclusivamente em palavras monossilábicas, O Espelho dos Deltas” (p. 83). A operação iniciada na concepção artificial dos Deltas durante o Processo Bokanovsky encontra a sua leitura perfeita, nem mais nem menos, nos textos monossilábicos do Espelho Diário.

Nada é desafiador, nada é oferecido que não esteja dentro das expectativas calculadas para cada casta. Tudo é fabricado de tal forma que não escape ao previsto. Huxley explora de forma mais detalhada as possibilidades do cinema, do rádio e da música. A televisão é citada em alguns pontos, mas sempre de forma breve93.